16.2.08

Flores...


Flores! Mundos de perfumes rodeados de pétalas e agarrados ao chão por um só pé, crescem com a crença de que um dia irão chegar ao azul do céu onde se passeia o sol brilhante que incessantemente as alimenta, mas nunca o conseguem. São variadas, quer em cores, formas, numero de pétalas, odores, simbolismos, mas acima de tudo são bonitas, e acabam sempre por colocar um sorriso na cara de quem as recebe. Como mostra de o amor sentido pela cara metade, são oferecidos ramos de flores. Uns pequenos, uns grandes, outros ainda como uma simples rosa, no dia dos namorados deve ser a prenda mais procurada. E tal como eu, muitos outros homens acorreram às florista para comprar um raminho para o seu par. Até aqui tudo normal, mas como não é muito vulgar um homem passear-se na rua com flores na mão, é alvo dos olhares alheios, e neste dia é ver todos os homens, novos, velhos, grandes, pequenos, que andam com flores na mão com um ar envergonhado na esperança de não ser visto por nenhum conhecido! Todos a olhar o vazio que não existe em passo acelerado, que se mais devagar fosse e se lhe conseguisse-mos ler o pensamento decifraríamos “Está tudo a olhar para mim” e “Porque é que os ramos não se podem embrulhar? Assim ninguém via…”. Depois de ter eu passado por isso, e enquanto me deixava conduzir até ao emprego reparei na quantidade de pessoas que carregavam um ramo, e tinham os mesmos sintomas que eu… Sorri na altura, pois apercebi-me que isto são simplesmente bichos na nossa cabeça, pois na cabeça dos outros, na exacta altura que reparam em nós, não têm chacota na cabeça, mas sim inveja porque pensam “só a mim é que não me dão flores”!
Depois desta constatação apenas me resta dizer que oferecer flores é um gesto bonito, quem as recebe agradece e recebe também a felicidade que elas carregam. Não é preciso haver um motivo para oferecer flores, não se oferece só a quem está no hospital, nem só nos anos, nem só no dia dos namorados. Todos os dias são bons para oferecer flores, basta ter uma florista à mão e uma pessoa a quem dar flores… Se é um sorriso que queres receber, tens aqui a receita!

14.2.08

Acorda-me quando chegares XIV


Por entre o nevoeiro
Dos dias atarefados vi-te chegar.
Foste aos poucos entrando,
Na vida que guardava por inteiro.
Era cada vez mais angustiante a espera
Pelo reencontro certo que tardava,
E cada vez mais difícil o adeus
Que por poucas horas me matava!
Morte não perpetua,
Deste corpo insano,
Mas morte da alma,
Que pela dor, ia fraquejando.
Repousava forçosamente
Num sono quase eterno,
Desperto apenas pelo tom de voz
Calmo e sereno
De um anjo que me deu a beber
O seu mais fatal veneno.
Veneno poderoso em que me viciei
Parar de tomá-lo torna-se impossível!
Por um anjo alado me apaixonei,
Ainda que seja pouco credível.
E hoje, perante estes
Que desejava serem trinta mil
Secretamente te sussurro
Leve e de mansinho
O que a minha alma grita
Desesperadamente
Cá dentro
Com medo que tu não oiças
Encosto a boca tremula
Ao teu ouvido delicado
E por breves momentos esqueço tudo
Até mesmo que existo
Apenas me lembro e sinto
O que os meus lábios acabaram de dizer
Palavra pequena e de enorme significado
Que demostra toda a insanidade que me compõe
Devagar, com carinho e ternura
Solto um Amo-te
E um sorriso
Por saber que também o disseste...

12.2.08

Pertences-me? Pertenço-te?


Tu não mandas no teu corpo, não podes dizer que é teu, que fazes dele o que quiseres! Ele é que te controla, por isso não o contraries, não o tentes mudar só porque não gostas de ver o reflexo que te devolve o espelho, tu simplesmente vives dentro dele, como se de uma armadura utilizada na cruzada de todos os dias se tratasse. Enquanto lês tamanho devaneio. coloca a mão direita sobre o peito e sente, sente o bater do coração, tenta pará-lo, tenta variar o ritmo dos batimentos… Não consegues pois não? Logo não és dono dele. Não deixes os pulmões consumir o ar que te rodeia, impede as unhas de crescer e o cabelo de desviar a ponta cada vez mais da raiz, não salives, e no caso de salivares não engulas a saliva e sem pestanejar não sues com o calor, impede o corpo de se arrepiar sempre que alguém te sussurra com ternura ao ouvido “amo-te” ou quando te lembras da tua equipa marcar um golo importante em que pareces ainda ouvir todo o público festejar e gritar até as forças fraquejarem… Conseguiste? Bem me parecia, este é apenas um pequeno rol de situações em que tu não tens qualquer tipo de controlo sobre o corpo, como estas existem muitas mais, basta imaginares a digestão por exemplo e todos os seus complexos processos a que chamamos involuntários por não os controlarmos, ou então todas as paixões que não sabes como nem porque as tens, mas que sentes. A imagem que te devolve o espelho sempre que te colocas em frente a ele não te pertence, tu é que lhe pertences, por isso não desejes ser diferente, aprende a gostar de ti, a ver o que tens de bom, a ter autoconfiança e auto estima e lembra-te que só o teu corpo tem direito de te modificar a ti e não tu a ele…

4.2.08

Porque não brilhas (tanto)?


Não! Hoje não consigo escrever coisa nenhuma… Talvez não seja só hoje! Começa a ser irritante a falta de argumentos, palavras, expressões. Falta de ideias para começar e acabar frases, falta de claridade nas ideias transcritas, dificuldade em transpor para palavras aquilo que sinto… Assim não vale a pena escrever… Já não tenho o mesmo à vontade que anteriormente demonstrava, naquelas noites gélidas de Inverno em que eu me penitenciava na varanda, olhando o céu por vezes encoberto, pensando nas minhas mágoas e transcrevendo-as para o papel tal e qual elas estavam atravessadas na garganta ou cravadas a ferros no coração. Era fácil, muito fácil mesmo… Eu próprio estranhava o brilho que tinha essa estrela dentro de mim. A estrela que me ajudava a escrever, que me oferecia uma interminável lista de palavras, maneiras e variedades, para descrever fosse o que fosse. Está a diminuir o brilho, o brilho da estrela que ajudou a escrever alguns textos para o jornal, o brilho que me vem ajudando a adicionar um número de cada vez na “saga” «Acorda-me quando chegares» (e tão longa ela já vai) o mesmo brilho que me criou a ilusão de que eu era capaz de escrever um livro, ilusão essa que me fez começar uma estória que nunca passou disso, de um começo. Sete paginas escritas já sem a intensa luz que outrora brilhara. Podia continuá-la ainda assim, mas lendo o que escrevi sinto que é fraco e nem vale muito a pena fazer alguém perder tempo em ler tal amontoado de letras e frases sem a qualidade que era pretendida! Esta baixa luminescência reflecte-se nas actualizações aqui no blog, cada vez menos periódicas… Talvez esteja a ficar velha a luz, talvez tenham acabado as pilhas, talvez seja apenas um momento menos bom em que a luz esteja a fraquejar, talvez o melhor seja esperar… É isso que vou fazer, não vou deitar fora as sete páginas, não vou deixar de escrever, vou antes pelo contrário tentar escrever mais, mesmo sem a mesma qualidade, mesmo sem o mesmo sentimento e valor mas vou escrever, porque acho que o que a luz sente é tristeza, tristeza por eu nem tentar sequer, tristeza por parecer desistir, por isso vou escrever o máximo possível até que a estrela me volte a preencher, me volte a iluminar, me ajude a gravar no papel aquilo que na alma foi estampado!
Pode parecer estranha a musica que coloquei aqui em baixo, apesar de ter o seu sublime sabor a tristeza, sinto que no meio de tanta angustia, revolta e mistura dos mais variados sentimentos ela me faz sentir bem, me faz relaxar, acalmar, e me leva para bem longe de tudo, num sitio onde não existe tempo, dor, sofrimento, preocupações, não existe nada a não ser paz, paz interior e sossego da mente. Foi ao som dela que este texto se codificou. É difícil, senão mesmo impossível, explicar o porquê desta música me tocar ao de leve, pôr uma lágrima marota ao canto do olho e uma fome insaciável de um abraço bem forte….

Vangelis - Missing



29.1.08

Acorda-me quando chegares XIII - Estou aqui


Triste, assim fico
Porque assim te vejo.
Sem rumo, perdida
Na escuridão da tua vida!
Por entre caminhos esquecidos caminhas,
Tentando disfarçar a mágoa sentida,
Diferente, esta, de todas as outras que tinhas!
Mas eu, eu observo-te de uma distância.
Uma distância que vê através do teu disfarce
E me revela a tua triste e salgada face.
Tudo o que quero de ti é a tua mágoa
Quero curar-te,
Eu quero salvar-te do escuro que te fere.
Dá-me todos os teus problemas
Eu vou aguentar o teu sofrimento!
Entrega-me o que te consome,
Beberei o veneno mortal por ti.
Perguntas porque me importo que te magoem,
Importa-me mais que se me magoassem a mim.
Salvar-te,
Quero salvar-te,
Vou salvar-te.
Dá-me tudo o que te assusta.
Eu terei os teus pesadelos,
Para que durmas profundamente.
Não temas a chama da vela do meu amor
Deixa-a ser o sol no teu mundo de escuridão.
Serei tudo isto, basta desejares…
Basta me acordares quando chegares...

22.1.08

Within Temptation - Frozen

Nem sempre o céu nos mostra o seu azul onde toca cada raio de luz emitido pelo sol, nem sempre as estrelas me fazem companhia quando regresso a casa, nem sempre o sol me aquece, e nem sempre tenho forças para me aquecer. Por muito que tente, fico gelado, sem me conseguir mexer ou sentir seja o que for e acabo por magoar quem mostra carinho por mim... Mas quando bato no fundo, acabo sempre por encontrar uma musica que me traz no caminho de volta, uma musica que se identifica com aquele momento, que me faz libertar uma lagrima de raiva, contrair todos os musculos, soltar um grito do interior que só eu posso sentir e ouvir, e empurrar com toda a força o fundo para longe de mim...


I can’t feel my senses
I just feel the cold
All colors seem to fade away
I can’t reach my soul
I would stop running, if knew there was a chance
It tears me apart to sacrifice it all but I’m forced to let go

Tell me I’m frozen but what can I do?
Can’t tell the reasons I did it for you
When lies turn into truth I sacrificed for you
You say that I’m frozen but what can I do?

I can feel your sorrow
You won’t forgive me,
but I know you’ll be all right
It tears me apart that you will never know but I have to let go

Tell me I’m frozen but what can I do?
Can’t tell the reasons I did it for you
When lies turn into truth I sacrificed for you
You say that I’m frozen but what can I do?

Everything will slip way
Shattered peaces will remain
When memories fade into emptiness
Only time will tell its tale
If it all has been in vain

I can’t feel my senses
I just feel the cold
Frozen...
But what can I do?
Frozen...

Tell me I’m frozen but what can I do?
Can’t tell the reasons I did it for you
When lies turn into truth I sacrificed for you
You say that I’m frozen, frozen...

Frozen Video

5.1.08

Acorda-me quando chegares XII


Partiste novamente, com data prevista, hora marcada, e destino traçado... Não pensei que voltasse a sofrer com a distância, curta fisicamente, mas longínqua no que ao tempo diz respeito... Ano novo vida nova diz a sabedoria popular, mas este início de ano, apesar de novo, não está a ser muito justo. Separou-nos, apenas fisicamente mas separou. Levou de mim a maior parte do tempo que passava contigo. Tirou-me o inicio do dia, aquele passava junto a ti! Tirou-me o sorriso, aquele que te mostrava e aquele que a minha vista deslumbrava, quando te via sossegada, de cabeça encostada ao meu peito a dormir como se no paraíso estivesses e nada te pudesse perturbar, nem nenhum Deus tivesse força para apagar aquele quadro... Tudo isto me tirou o início de ano, e eu sozinho, deixei-me adormecer na esperança de te ter como parte do meu sonho. Não me lembro do que sonho, porque sonho, nem tenho a noção certa do que sonho, mas sei que, quando estou acordado, vêm-me imagens tuas à cabeça que me fazem desejar saber a continuação daqueles fragmentos sem qualquer tipo de ligação. Sei que são partes do sonho. Daquele que sonhei. É cada vez mais difícil ver-te quase só em sonhos. Sinto-me a ressacar e aqueles pequenos sopros do sonho não chegam para curá-la, quero mais, quero-te a ti, quero sentir-te novamente. Tenho um sentimento que me diz que será por pouco tempo e brevemente tudo regressará ao normal, mas isso não chega, e cada segundo que passa é uma eternidade que me moí. Dói ver-te todas as noites e não poder tocar-te, dói ler as tuas mensagens e não poder ouvir-te, dói desejar-te e não poder ter-te, dói lembrar o passado e sentir a diferença do presente. Sem forças capazes de fazer diminuir tamanha diferença, resta-me esperar pelo pôr do sol ainda que encoberto pelas nuvens, pela chegada das estrelas que não vejo, pelo acender dos candeeiros das ruas que embalam a minha cidade que se acalma e adormece, já deitado e de olhos fixos no tecto tenho mais um sopro com a tua cara a sorrir, um aperto no coração e uma lágrima marota mostram o quanto te amo, tento serrar as pálpebras molhadas pelo liquido que me salgou a cara, desejo sonhar contigo toda a noite, para ter visões tuas todo o dia, digo-te boa noite na esperança que oiças o meu grito mudo e adormeço... Não sei se vou sonhar, nem se me vou lembrar do que sonhei, nem sequer se vou sonhar contigo, mas adormeço na esperança de que quando acordar teres sido tu a me acordar...

1.12.07

O meu Braga - Bayern




Sim, é verdade, eu falhei o jogo da época do meu clube do coração. O meu Braga a defrontar uma das melhores equipas a nível Europeu e respeitada por esse mundo fora, no dia em que faço 21 anos, e eu não fui até à pedreira... Difícil de acreditar para quem me conhece, mas é a realidade. Não foi o preço dos bilhetes, nem o frio, nem a transmissão na televisão, nem mesmo uma possível festa de anos que me afastaram do estádio. Foi o horário de trabalho, que não me deixou ir ao estádio. Uma televisão era um sonho no meio de tantas máquinas, mas era impossível conciliar ambas as coisas, no entanto, o relato do meu rádio de bolso não me impedia de continuar a laborar normalmente. Todos aqueles que já ouviram o relato de um qualquer jogo de futebol do seu clube, sabem bem o quanto irritante, stressante e enervante é ouvir o relato de um jogo com este carácter... Tive de me sujeitar a tal pressão tentando imaginar o que era relatado, tendo por isso (talvez) sentido o jogo de maneira um pouco diferente...
Faltam ainda 15 minutos para o jogo se iniciar, mas já não consigo aguentar mais e vou buscar a minha fonte de esperança, coloco o phone no ouvido o mais rápido que posso para saber notícias vindas do estádio. “Será um jogo que tem tanto de difícil como de histórico para o Braga. O Bayern é um colosso e não irá facilitar, apesar disso tem a pressão do seu lado e o Braga poderá aproveitar isso e com o apoio do público poderá num golpe de sorte não sair derrotado no jogo de hoje...” Eram as primeiras notícias vindas de Dume, e no fundo espelhavam o que eu pensava embora eu tivesse a esperança de receber uma prenda de aniversário via rádio. Seguiram-se os onzes inicias e a entrada das equipas em campo. Os nervos não param de aumentar e ansiedade já cá anda no meio dos tornos a tentar apanhar-me. “Eu aqui quietinho e o Oliver Kahn a entrar, olhou para mim, e não imaginam a sensação, eu não sabia onde me meter, o homem mete medo. Só a presença dele em campo pode intimidar os avançados do Braga...” – enquanto o comentador da rádio transmitia esta frase um arrepia percorreu-me o corpo todo ao ouvir cerca de dez mil almas a incentivar o Braga. Vai começar o jogo e a pulsação já não baixa tão cedo! “Joga o Braga pela direita e é Jorginho que transporta a bola, sai o cruzamento...aparece Vandinho cabecear... (o coração parou repentinamente, o peito apertou-se todo, fico imobilizado) e a bola a sair ao lado, excelente oportunidade do Braga se adiantar no marcador...” Volta o coração a bater e abro o punho que se tinha cerrado. Eu nem queria acreditar que o Braga assustou o Bayern! Após alguns calafrios provocados por ataques dos bávaros chega o minuto vinte, e o resultado mantém-se como começou. Está-se a aguentar bem o Braga, pensava eu na altura, mas de repente “Linz ganha bola na área, excelente oportunidade, remata Linz... (e enquanto aperto o punho direito contra a palma da mão esquerda ouço o público Bracarense a gritar golo, todo arrepiado e completamente fora de mim, formo um grito igual no fundo da minha garganta que é interrompido pelo caminho) e o árbitro a anular o golo por possível falta de Wender sobre um contrário. Nas imagens televisivas não parece ter existido qualquer falta...” Nem queria acreditar que o Braga tinha marcado um golo limpo ao gigante Bayern que o arbitro se encarregou de anular. Começo a ter cada vez mais fé na tal prenda. Mais um punhado de ataques do Bayern, e mais uns cortes na minha mão, porque a limalha não perdoa distracções, e concentração é coisa que me foge por entre os dedos neste momento... Últimos dez minutos da primeira parte e três jogadas excelentes que poderiam ter dado golo para o Braga, primeiro Linz não toca na bola, e de seguida dois remates de Wender que apenas Kahn conseguiu travar, valeu-lhe a experiência. Vem o intervalo e a certeza de que o Braga se estava a debater de igual para igual num jogo entre David e Golias...
Depois de ter conseguido baixar o ritmo cardíaco lá começou a segunda parte. “Klose completamente solto com a baliza à sua mercê nem queria acreditar nas facilidades dadas pela defensiva arsenalista e ainda hesitou antes de atirar a contar para o fundo das redes...” Não acreditava ele nas facilidades, nem eu no que estava a ouvir. Que balde de água fria... Tinha já perdido as esperanças da prenda quando me chega ao ouvido “Wender encontra uma linha de passe para Linz, envia-lhe a bola, Linz desvia o defesa que acaba por escorregar sem falta, pode marcar o Braga, remate cruzado de Linz... (não consigo descrever a sensação com exactidão, sei que deixei de ouvir os tornos a trabalhar, senti o coração a acelerar, agarrei com firmeza a peça que tinha na mão, cerro com toda a força a outra e os dentes, e ouço o mais belo grito saído da “gruta” como pano de funda voz do relatador) ...é golo!!! O Braga empata a partida, o Braga joga bonito, o Braga merece...” Grito tão ou mais alto que as máquinas a trabalhar, sinto os músculos todos a contraírem ao mesmo tempo de maneira que me sentia capaz de levantar com a força de braços todas aquelas toneladas de ferro que compõem um torno. Sensação indiscritível a vivida... Mais uns cartões amarelos, mais umas jogadas de luxo, mais uns remates no jogo e mais uns cortes nos meus dedos, mas já nem sinto dor... “Ao que o Braga jogou aqui esta noite merecia, sem a menor dúvida, sair daqui com os três pontos. Foi uma equipa valente, jogou futebol bonito, deu espectáculo, encostou o Bayern às cordas, olhou-o olhos nos olhos, sem medos nem receios. Foi um Braga que demonstrou ser merecedor da alcunha carinhosa dada pelos adeptos, foi o verdadeiro “Enorme”...” Ao fim de ouvir isto só posso dizer que tive pena de não poder ter ido ao estádio, foi difícil ouvir o relato e sentir o coração próximo do ataque cardíaco mas acima de tudo que sinto orgulho em ser Braguista e que a prenda chegou via rádio...

29.11.07

Mais um 29 de Novembro




Faz hoje, exactamente 200 anos, que a Família Real Portuguesa partiu em direcção ao Brasil com o objectivo de escapar às inimigas mãos de Junot, o general francês a quem Napoleão Bonaparte confiou a primeira invasão a terras de Camões.
Pode o primeiro parágrafo ter bastante importância na história do meu país, pode até ser alvo de estudo nas aulas de História, mas para mim, existe algo que ultrapassa tal importância, algo bem mais recente... Não é estudado na escola em disciplina nenhuma, nem sequer é merecedor de tal. Apenas me diz respeito a mim, e por tal, já é de estrema importância pessoal. Faz hoje 21 anos que passei a constar como um novo cidadão português no Registo Civil lusitano. Podia olhar para trás, reviver, ainda que apenas em pensamento, todas as coisas boas por que já passei, lembrar todas as más que, por minha culpa ou por culpa de outrém, me fazem querer mudá-las e me fizeram aprender com os próprios erros para não cair duas vezes na mesma casca de banana. São 21 anos de encontros e desencontros, derrotas e vitórias, altos e baixos, tudo o que uma vida normal tem. Podia, realmente podia, mas não o vou fazer. Não o faço por uma razão simples, ontem, alguém com uma opinião que eu respeito e valorizo disse-me que “quando olhámos para trás podemos não nos aperceber do degrau que temos à frente, e podemos (ou não) cair nele”, daí que, a jogar pelo seguro, vou olhar bem para o degrau, para não tropeçar nele, ainda que, se por ventura, este degrau me leve a um nível mais baixo vou cair de pé e com uma certeza: um dia vai aparecer um degrau para subir, e aí eu vou estar atento e vou subi-lo com os pés bem firmes...
Desejo a todos os que hoje fazem anos um excelente dia, e como forma de agradecimento a todos os que se lembraram de mim deixo, mesmo antes de partir, uma musica...




24.11.07

Devagar




Aos poucos. Assim vai acontecendo o meu regresso, no fundo como tudo na minha vida. É difícil viver o dia de hoje com 10% do pensamento na saudade de ontem, mais 10% no desejo de poder voltar atrás para modificar o que ficou gravado,5% a tentar mudar o futuro, e com uma grande parte a recear o futuro próximo. Tento viver de pequenos momentos onde se mistura o passado, o presente e o temível futuro. Continuo a sorrir para que não se note nenhuma diferença em mim, mas minto, minto como quantos dedos tenho nas mãos. Sinto-me triste e desorientado por dentro. Tenho medo, medo de ver as horas passar, medo da correspondência que o carteiro traz, medo que o futuro chegue... Ouço dizer, pelas ruas da minha memória, que com a saúde não se brinca. E eu juro a pés juntos, que não me lembro de ter brincado com ela nos 20 anos que levo de existência. Juro ser tão verdade como a lágrima que me escorre. Mas ela é irmã gémea da vida, e como se não chegasse ainda tem muito em comum com ela, é injusta, dura e atinge ao acaso...
À pouco menos de um ano, um zumbido no ouvido e um líquido invulgar que me escorria do ouvido esquerdo fez-me ganhar uma ida ao médico, na altura o médico da fábrica onde trabalhava. Foi-me dito que era um infecção pequena e que com o tempo passava... Mas não passou, e por força do aumento de liquido que parecia nascer no orifício por onde ouço, resolvi ir a uma urgência no posto médico. Desta feita na vinda para casa tive de passar pela farmácia e levantar o receituário. Uma otite, era do que padecia. Acalmou por uns tempos o fluxo que brotava anteriormente, mas acabado o tratamento com antibiótico voltou a aumentar, e desta vez vinha mais frequente, mais grosso e tinha cheiro (insuportável diga-se). Nova ida às urgências, novo antibiótico receitado, mais forte desta vez... Parou de escorrer, mas a audição estava diferente... mais baixa... bem mais baixa... Volta o fluído, mais grosso, mais escuro, mais mal cheiroso, e desta vez com sangue à mistura uma vez entre outra. O susto leva-me de volta ao centro de saúde, mais um antibiótico, que no fundo, era a junção dos dois anteriores, e o conselho de consultar um otorrino. A ausência de dor, sempre me levou a crer que seria algo passageiro, mas o último conselho dado como forma de única solução e a perda parcial de audição abalaram tal crença. Após consultado o otorrino ganho dois antibióticos e um anti-estaminico que me iria ajudar a manter o ouvido seco, num tratamento de cerca de 8 dias. Um pedido de um TAC veio anexado à novidade de que o tímpano esquerdo teria uma ruptura de cerca de 3mm. De volta ao posto médico na tentativa de bater um recorde, lá consigo a consulta com a médica de família que me iria passar o tal TAC enquanto eu a punha ao corrente da situação. Marcado e feito o TAC e já com o último tratamento terminado, volto ao consultório de otorrinolaringologia para saber o resultado. A eternidade de cerca de 20 min na sala de espera, faz-me suar, acelerar o coração, e alienar-me para um outro lugar qualquer. Ouço o meu nome ser chamado e não me lembro sequer de como fui ter ao consultório, a ânsia não deixou. O relatório trazia escondido algo que não estava de todo à espera. Um tumor. Benigno e pequeno, mas não deixa de o ser por isso e não deixa de me arrepiar nem de eu o temer. “Habita” no meu ouvido perto da bigorna e do martelo (2 dos 3 ossos constituintes do ouvido médio). Uma operação resolve o problema e dentro de 15 dias deverei receber uma carta do hospital com notícias. Daí eu não desejar o futuro, daí eu ter medo que os ponteiros se mexam, daí eu ter medo do que traz o carteiro...
Feliz daquele que lhe dói alguma coisa, é sinal que sabe que tem um algo mal... ao contrário de mim...