6.7.08

As portas que (não) me abrem


Já não sinto! Não sinto nada, não sinto o sangue a correr, não sinto o bater do coração, não sinto o cérebro a pedir descanso, não sinto a felicidade, não sinto os sorrisos que dou, só sinto dor, medo, angustia, nervosismo, ansiedade! À muito que me penitencio neste corredor da vida, várias vezes tentei abrir portas que me levassem a salas diferentes, ou a outros corredores com mais portas, mas além da maçaneta todas elas tinham uma fechadura... sem chave! Bati nelas, em todas pelas que passei, sem realmente saber onde me levavam, mas bati porque queria mudar o rumo, mudar o destino, mudar de vida. Apesar da insistência nenhuma me deixou entrar, em algumas ninguém me atendeu, ignoraram-me por completo, e eu sei que havia alguém do outro lado que me podia abrir a porta, mas simplesmente não se deu a tal trabalho, outros entreabriram a porta mas negaram-se a ceder-me passagem, diziam que não era aquele meu destino, era naquele corredor da “morte da sanidade” que eu deveria permanecer pois foi esse que escolhi e deveria saber de antemão que não seria aceite por todos, mas eu não sabia, e não fui eu que escolhi entrar na porta que tinha no inicio deste corredor de sentido único, fui forçado a entrar, o chão da sala que existia antes deste corredor estava velho e podre, a cair para um vazio de onde seria quase impossível sair, por isso entrei na maldita porta que apenas dizia empurre e onde não havia ninguém para negar a entrada. Andei muito tempo desde a última porta em que bati, eu sei que não pertenço a este corredor apesar de quem passa por mim não fazer ideia de tal e me queira moldar para aqui permanecer até não haver mais portas nem portinhas, até ao portão que dizem existir no fim que leva ao derradeiro descanso, mas muito recentemente encontrei duas portas, ficando com três hipóteses, bater numa ou em outra das portas ou continuar neste corredor cada vez mais estreito e mais monótono. Tentei parar para pensar, mas o tempo fazia-se escasso e o peito apertava, o medo de voltar a ouvir um não ou de se escusarem a ver-me a cara era grande mas a vontade de mudar e de acreditar, aliou-se com a fé e misturou-se com a teimosia. Bati em ambas com bastante força para ter a certeza que me fiz ouvir. A porta do lado esquerdo fez um grande eco, como se tudo estivesse vazio, ouvi passos em direcção á porta, cresceu a ansiedade, acelerou o coração e ninguém falou, nada mais ouvi, percebi que talvez eu não fosse bem-vindo mas ainda assim não perdi a esperança que alguém a abra um dia (tarde demais quem sabe), a do lado direito foi um bater mais seco, era uma porta dura, em madeira maciça, logo fui atendido por alguém que abriu a porta, apanhou-me de surpresa e quando me pediu para aguardar que iria chamar por alguém que se poderia interessar pelo que eu teria para dizer, senti o que muitas outras vezes sentira, a vontade de me entregar de corpo e alma a uma vida nova, a vontade de dar tudo de mim, a vontade de finalmente triunfar, a espera foi curta e a felicidade andava estampada nos meus olhos que brilhavam por entre o calor do dia. Foi me dito que apenas uma pessoa poderia entrar naquele local, e eu apercebi-me que não estava sozinho pois mais portas ligavam aquele espaço com outros, informaram de tudo o que necessitavam que essa pessoa fosse, senti que teria de me esforçar arduamente para o conseguir e senti vontade, força e determinação suficientes para poder triunfar, pediram-me para aguardar que a porta seria novamente aberta brevemente. Nos primeiros tempo sentia-me extasiado e empolgado para ver rodar novamente a maçaneta, mas ela tardava e a esperança tinha pressa. Quando já pouca existia eis que novamente a maçaneta roda e a porta abre, disseram-me que seria recebido por alguém que decidiria se o meu futuro passava por debaixo da ombreira da porta no dia seguinte de manhã. Entusiasmei-me, demais até, comecei a imaginar que tudo iria correr bem quando sou interrompido pelo abrir da porta de onde uma voz me pedia desculpa mas que apenas seria recebido de tarde, pouca diferença me fazia, apenas ia aumentar o tempo de espera e mais iria crescer a ansiedade. E cresceu, cresceu, cresceu... Cresceu até me pôr a barriga a doer, os dentes a trincar as unhas, e o pensamento a querer acelerar o relógio. O relógio não acelerou e o tempo já se arrastava quando me veio à lembrança outras vezes em que bati em portas me receberam muito bem, me deram a entender que gostavam de contar comigo e depois simplesmente me ignoraram ou me disseram de uma maneira muito leve que não contavam comigo e me deixaram do lado de fora da porta. Assentei bruscamente os pés na terra e a dor de barriga passou para o peito, senti uma mágoa enorme e um medo terrível do dia seguinte, pois era já noite e o sono não chegava, chorei com os nervos e medo de falhar e voltar a desiludir quem me rodeia e a mim mesmo, acabei por ser vencido pelo cansaço lavado em lágrimas. Acordei bruscamente e sobressaltado com o abrir da porta de manhã cedo. Quando pensava que tudo ficaria resolvido e já estava preparado para o pior a mesma voz me volta a pedir desculpa pelo facto da pessoa que me teria de receber não estar presente e adiando tal encontro para dez dias depois. Voltou o medo da desilusão, do esquecimento, mas ao mesmo tempo uma réstia de esperança por me terem aberto por quatro vezes a porta, foi até hoje a porta onde melhor fui atendido. Estão a ser dez longos dias e ainda nem a meio chegaram, ainda a procissão vai no adro, e eu já sinto o medo, a ansiedade, a esperança, tudo misturado, tudo sem nexo. Tento viver um dia de cada vez, mas é difícil, quando fico só dou comigo a encontrar a vontade de entrar naquela porta e a perguntar a mim mesmo como será do outro lado, ao mesmo tempo que a vontade de permanecer neste agoniante corredor que me mói e quase nula e está mesmo perto do fim, estou a perder a vontade a cada segundo que passa e pergunto-me depois “ se não entrar na porta terei força para continuar neste corredor? Onde vou encontrar a vontade que vou perdendo agora?”. São muitas perguntas, muitas vontades, muitos sentimentos, muita coisa para uma cabeça só, e uma só... uma só vida! Quero vivê-la como a pintei em pequeno, não quero permanecer neste corredor mas para isso preciso que me deixem sair, que me deixem entrar numa porta, que me deixem voltar a ser eu, que me façam parar estas lágrimas que caem espaçadas entre cada vez que engulo em seco e que cerro os dentes com toda a força ao mesmo tempo que escrevo e desabafo, só quero mudar de rumo e estou a lutar arduamente por isso, só quero que não me deixem escrever mais isto, só quero... deixem-me, por favor!

28.6.08

Acorda-me quando chegares XVI




Sete, apelidado de número perfeito,
Não por todos mas por muitos.
É o número de dias cravado no peito
Desde o fim-de-semana que passamos juntos.
Longe de tudo, de todos, do Mundo,
Da vida, de nós mesmos.
Não demos por perdido um só segundo,
E aumentámos o amor que temos!
Num vale, onde ainda corre a água para o mar,
Perto da mó que ainda lá está,
Apesar da farinha já não brotar,
Estive no meio do que mais belo há!
Senti-me a amar na mais pura essência,
Amor puro e sem igual,
Mostrei que amo com benevolência,
E tenho montes de razões para tal!
Quando o sol já não era rei,
Por entre aconchegos, mimos
E já sem forças, a teu lado fiquei,
Num sono que ambos sentimos!
Não chegaste para me acordar,
Desta vez já lá estavas,
Quando decidiste o sol me mostrar,
Amei-te enquanto me acordavas...

1.6.08

Guerreiros do Minho


Salve ó Guerreiro do Minho
Que de tão nobre Legião és!
Ergue-te por entre as cinzas,
E luta pelos que caíram a teus pés.
Depois de muitas batalhas perdidas,
Com suor, lágrimas e sangue derramado,
Encontras novamente o teu povo,
E novo Guerreiro por ele serás aclamado.
É tempo de reunir tropas e esquecer tristezas,
Pois grandes batalhas se avizinham,
Com muita fé e poucas fraquezas
Vencereis todos os que contra vós alinham.
Por entre a densa selva fareis trilho,
Tende força e agilidade.
A Pantera representa sarilho,
E não conteis com facilidade.
Seguireis o curso do rio
Para defrontar os Homens do Mar,
Aos da Trofa tirais-lhe o pio,
Pois tendes um Dragão para atacar!
Os arcos das Caxinas vão tremer
Ao sentir o vosso marchar,
O saber dos Doutores devereis absorver
Para a força Naval eliminar.
Espera-vos o VIII exército no Sado
São terras de muito sal
Munidos de canhões e armas ao lado,
Tereis de lutar de igual para igual!
Quando a fome vos apertar,
E nada mais houver de comer,
As Águias ireis caçar,
E delas vos defender!
Calareis os Velhos do Restelo
E à arena sereis deitados,
E sem medo nem apelo
Mostrais que até Leões podem ser domados!
Quebrai a Estrela que nada ilumina,
Entrai pelo mar em busca de algo novo,
Encontrareis a esquecida vida Felina,
E do Nacional quem se diz povo.
E quando pensardes que tudo acabou,
Começa uma nova e grande batalha
Foi El Rei de Espanha quem preparou,
E o terror pelo povo espalha.
Contra seus homens lutareis,
Até derrubares o castelo.
Mostrai-vos fortes e vencereis
Quebrando assim o último elo.
Proclamareis alto e bom som
Quando regressardes à vossa terra:
“Preparai festa com tudo de bom.
Finalmente ganhámos a guerra”...

25.5.08

Devaneio de um outro eu


Deito-me já tarde neste vale que me embala. É neste momento que atinjo um estado em que se torna possível escrever algo com nexo e sentimento. Não, eu não tenho qualquer tipo de dom da escrita, eu limito-me a, em certos momentos não programados, pôr em palavras escritas aquilo que sinto e que a alma transfigurada me dita. Devaneios autênticos de uma mente nunca satisfeita em busca da perfeição. Há já algum tempo que não actualizava o blog, não por falta de vontade ou inspiração, mas talvez por uma pergunta que me foi feita várias vezes (e para a qual não fui capaz de arranjar argumento suficiente) e pela lucidez de pensamentos se ter extraviado por entre a rotina dos dias. Talvez esta tenha voltado com a chuva que nos últimos dias tem caído sobre mim. Apenas hoje consegui atingir a velocidade de pensamento e sentimento necessária para que as palavras me saiam pelas pontas dos dedos à medida que pressiono coordenadamente cada tecla, velocidade essa que, ao contrário do que se pensa, é bem lenta. Uma velocidade que aos poucos me desliga os circuitos dos sentidos um por um, primeiro a audição que ignora o bater da chuva na janela, depois o odor que apenas consegue sentir o cheiro da calma, o paladar em seguida deixando-me a boca sequiosa, o tacto que faz com que eu apenas imagine que estou a escrever o que penso e por fim a visão que me apaga tudo o que me envolve deixando-me a viver num vazio escuro onde apenas sei que tenho o coração a bater, e o pensamento a comandar. É neste estado quase defunto que me encontro e em que tento encontrar resposta a tão difícil pergunta. Várias são as pessoas que por este blog passam e numa leitura na diagonal do que por aqui vou escrevendo põem em causa a originalidade de tais textos, e interpelam-me porque escrevo eu coisas tão tristes sendo eu na vida real totalmente o oposto, bem-disposto, carinha alegre, tentando sempre sorrir para receber um sorriso em troca. Não é fácil fazer as pessoas acreditar que eu também tenho problemas por resolver e obstáculos para vencer, e que tal como a água tento contorná-los em vez de enfrentá-los, é difícil de perceberem que no meio de tanta alegria tem de existir um espaço para a tristeza, para o desabafo. Foi com esse intuito que comecei a escrever. Escrevia para desabafar, para muitas vezes chorar sozinho e encontrar forças onde antes existiam lágrimas, e comecei a publicar para que alguém pudesse usufruir de um certo conforto ao ler, e não para me lamentar ou queixar! É extremamente difícil para mim explicar como consigo escrever, e o que consigo escrever, uma vez que é como se fosse outra pessoa que habita em mim que existisse para desabafar comigo mesmo e me levantar quando caio, como se tivesse outra cara dentro da minha cabeça, um pseudónimo, daí eu assinar como Nemec, nome que por mero acaso é também dado a umas correntes (correntes de Nemec) que servem de alívio à dor. É neste estado, sem sentidos, que me sinto ao mais puro eu, que fico cru, que me exponho como sou e não como finjo ser por vezes, poderia escrever sobre algo que fizesse rir ou pelo menos sorrir, mas seria sem sentimento, seria uma contradição do que sente o meu pseudónimo. Sei que são raras as pessoas que lêem de princípio a fim o que escrevo, por ser muito extenso torna-se maçudo de ler o que eu compreendo e respeito, mas não deixo de publicar por isso, porque não me importa o que os outros lêem pois são livres de escolher, apenas me importo em desabafar o que me fere, mata, ou simplesmente toca cá dentro, em devaneios nem sempre compreendidos mas sentidos. Quem sabe eu não sou capaz de acabar o livro que à muito comecei e mostrar finalmente aquilo de que sou capaz? Quem sabe se amanhã não será diferente? Mas como ainda não é amanhã, chegou a hora de desligar o que resta dos circuitos e esperar pela aurora...

9.5.08

O último dia... o dia do desabafo


Tudo o que começa tem um fim, assim diz a lei da vida, como tal, sei que amanhã será um dia triste para mim, será o dia do fim! Não, não se trata do dia do meu fim, nem a minha fotografia irá figurar nas páginas da necrologia, é o dia do fim da época, do último jogo, da última emoção. Vou pela última vez colocar o cachecol no pescoço e mostrar orgulhosamente, por esta cidade que é minha, o símbolo que me enche de orgulho o ser. Nas últimas épocas a vida do Braga corria de vento em poupa, chamou à atenção do país, e todos os habitantes de Braga diziam nutrir no mínimo um carinho especial pelo clube da “terra”. Sabia bem ouvir isso apesar de saber que em grande maioria se trava de uma tremenda falsidade, pois esses que na altura se diziam adeptos ferrenhos do Braga, em outras ocasiões gritaram golos de clubes distantes daqui, chamavam-me louco, tolo, anormal, doente, e um sem fim de coisas por sentir que o Braga era o maior mesmo quando não se falava nele. Nesta época que, para mim morre amanhã, o Braga ficou aquém das expectativas, e esses falsos Braguistas voltaram à carga. Desligaram-se de tal maneira do clube que o carinho que diziam nutrir se voltou a transformar em fome de vencer de um outro clube fora da região. Durante os jogos que o Braga não ganhava toda gente me conhecia, todos me gozavam, todos se riam na minha cara, todos falavam para mim, se por outro lado o Braga ganhava nem tema de conversa tinham. Por tudo isso, e para todos esses que me massacraram ao longo destes últimos meses deixo o desabafo:
- A todos aqueles que deixaram de ir ao estádio e diziam que assim castigavam os jogadores pois não os apoiavam porque eles não mereciam, digo que sinceramente eu não consigo, faltei a alguns jogos esta época por estar a trabalhar, ouvi o relato e sofri tamanha dor que por vezes parecia não aguentar, se os jogadores não sentirem apoio, não têm motivação para jogar logo não ganham jogos e saem os adeptos castigados. Ser Braguista é castigar os jogadores do próprio clube?
- A todos aqueles que me chamaram de tolo, doido, maluco digo, um tolo, doido ou maluco é alguém que faz algo que não tem lógica ou totalmente fora do contexto, e agora pergunto, apoiar e defender incondicionalmente o clube da cidade que me viu nascer é algo ilógico? Se assim é eu adoro ser maluco, doido e tolo!
- A todos aqueles que me chamaram doente por continuar a apoiar o Braga digo, uma doença diminui física ou psicologicamente o doente debilitando-o, não me sinto como tal, mas se por ventura se referem ao aspecto que eu um dia aqui referi de que era “Braguista” por sofrer de uma doença genética e me culpam por tal estão a agir mal, caso contrário tentem culpar o diabético pelo simples facto de o ser…
- A todos aqueles que se acham superiores, porque apoiam clubes melhor classificados deixo um apelo em nome de todos os que, como eu, se sentiram massacrados ao longo da época, deixem-nos estar, porque façam o fizerem o nosso clube irá ser sempre o Sporting Clube de Braga, é este clube que vamos sempre apoiar e é por ele que iremos sempre lutar, e chegado o dia de triunfar, irá saber melhor do que todas as conquistas por vós alcançadas.
Serei Braguista até ao meu último dia…até ao dia do desabafo

24.4.08

Sol molhado


Cinzentos os dias, as forças, o desalento,
As dores no corpo das feridas que carrego,
Abertas por pequenos nadas, mais de um cento,
Que como a chuva, caem em mim, e como um relâmpago,
Por entre a penumbra que subestimo, e sem qualquer preparo,
Como uma penitência que pago
Me golpeiam a pele e alma,
É triste com o que deparo!
Não sei da minha calma,
Talvez da chuva fugisse.
Se cá estivesse talvez uma porta me abrisse,
Com ligação ao céu celeste,
Onde em cada janela não figurasse,
O cinzento que se tornou peste,
E o Sol triunfalmente brilhasse.
Oh sol porque de mim fugiste?
O sorriso da boca me roubaste,
E aqui fiquei sozinho e triste,
Semblante carregado quanto baste,
Que transparece a dor que existe.
Por mais um dia eu espero,
Por um só raio que na janela bata,
Eu nada posso e apenas quero,
Sorrir para a tristeza que me mata!
Qual meu espanto quando amanhece,
Ao som de um belo canto,
O Sol me aparece.
De sorriso na cara me levanto,
Matando tudo o que me entristece,
Levando para longe tamanho pranto.
E com alegria na cara estampada,
Desejo um bom dia à minha amada,
Porque quem ama nunca esquece…

23.4.08

Para ler e reler do avesso


Faço parte de uma geração perdida
E recuso-me a acreditar que
Posso mudar o Mundo
Acredito que isto possa chocar mas
“A felicidade vem de dentro”
É uma mentira, e
“O dinheiro traz felicidade”
Por isso em 30 anos vou dizer aos meus filhos
Não são o mais importante na minha vida
Os meus patrões saberão que tenho prioridades definidas porque
É mais importante o trabalho não
A família
Digo-vos
Por vezes
As famílias reúnem-se
Mas não será assim na minha era
É uma sociedade sem sentimentos
Os entendidos dizem-me
Daqui a 30 anos vou celebrar o 10º aniversário do divorcio
Não me convenço que
Viverei num pais criado por mim
No futuro
Destruição ambiental será a norma
Nunca mais se poderá dizer que
Eu e os meus, preocupamo-nos com a Terra
Será evidente que
A minha geração será acomodada e doentia
É de doidos presumir que
Ainda existe esperança
E tudo isto será real a não ser que escolhamos revertê-lo

27.3.08

Paulo Gonzo (com Lúcia Moniz) - Leve Beijo Triste

Teimoso subi
Ao cimo de mim
E no alto rasgei
As voltas que dei

Sombra de mil sóis em glória
Cobrem todo o vale ao fundo
Dorme meu pequeno mundo

Como um barco vazio
P´las margens do rio
Desce o denso véu lilás
Desce em silêncio e paz
Manso e macio

Deixa que te leve
assim tão leve
Leve e que te beije meu anjo triste
Deixo-te o meu canto canção tão breve
Brando como tu amor pediste

Não fales calei
Assim fiquei
Sombra de mil sóis cansados
Crescendo como dedos finos
A embalar nossos destinos

Deixa que te leve
assim tão leve
Leve e que te beije meu anjo triste
Deixo-te o meu canto canção tão breve
Brando como tu amor pediste

Deixa que te leve
assim tão leve
Leve e que te beije meu anjo triste
Deixo-te o meu canto canção tão breve
Brando como tu amor pediste


24.3.08

Eu, o sol e... o cu!




Todos nós nascemos e iremos morrer um dia, é a ordem natural da vida. Nascer, crescer e morrer. Entre o nascer e o morrer temos uma imensidão de pequenas coisas que nos vão marcando e vão sendo escritas no grande livro da nossa vida. Cada pessoa escreve o seu próprio livro, onde contém todos os sentimentos e peripécias que vamos vivendo. As fazes boas, as fazes más, as lutas por um objectivo, as desistências… Ultimamente tenho reflectido bastante sobre que caminho dar ao meu livro, se devo fechar um capítulo, se o devo manter por mais algum tempo encerrando-o depois por outra qualquer razão, se valerá a pena arriscar por o ponto final para virar a pagina… Dúvidas que não se calam e me obrigam a pensar em todos aqueles que não as têm. Apesar da tenra idade que tenho, já muitas vezes escrevi no meu livro algo que não tinha projectado, que mudou o rumo da história, por acreditar em mim, por lutar pelos meus objectivos, por defender o que possuo, por todas as conquistas que vou conseguindo com sangue, suor e lágrimas, por procurar incessávelmente a perfeição inatingível por qualquer mortal, por querer ser especial sem dar nas vistas, por querer ser diferente, por querer ser eu… Uma luta diária, cansativa e dura mas que me faz encher de orgulho por tudo aquilo que sou e que tenho. Troquei a entrada na Universidade pela entrada no mercado de trabalho, lutei contra a vontade dos meus pais, professores e amigos. Por entre as batalhas diárias travadas diariamente no emprego lá fui conseguindo amealhar dinheiro para conseguir cumprir aos poucos os meus objectivos. Tirei a carta comprei um telemóvel, um portátil, um carro, consegui a independência necessária para sustentar os meus desejos. Sacrifiquei-me, chorei muitas vezes, revoltei-me contra mim e contra o mundo e deu-me vontade de desistir, mas lá fui conseguindo levar o meu barco, remando muitas vezes contra a maré, outras deixando-me ir à deriva, esforcei-me e consegui atingir alguns objectivos. De todas as palavras redigidas até agora no meu livro lembro várias que não deveriam figurar lá, entre elas a troca da electrónica pela metalomecânica. Mundos dispares, a que me tive de afeiçoar sem preparação. Ajudou-me a raiva transformada em força, e a necessidade transformada em vontade. Ainda continua a ser difícil ouvir das bocas de muita gente “Eu bem te avisei, ias para a Universidade…”, custa porque eles não sabem o que é a vida, não sabem o que é trabalhar porque assim tem de ser, trabalhar e parte do salário ser para a ajuda da família, trabalhar porque o dinheiro auferido vai fazer mais falta a alguém do que a mim, sujeitar-me a empregos e horários que muitos desempregados rejeitariam, fazer sacrifícios para poupar algum dinheiro para que ele estique até ao próximo fim do mês, eles não sabem… Não sabem porque têm a vida facilitada, ofereceram-lhes a carta no dia em que fizeram 18 anos, a prenda por ter passado no exame de condução é o carro com que eles fazem inveja aos amigos, falam com o pai ou com a mãe quando se esticam mais um bocado nos gastos da mesada e eis que nascem mais uns euros na conta, gastam com exagero porque nada lhes custa, sobem na vida porque o dinheiro é algo que se dão ao luxo de esbanjar, e gabam-se, gabam-se de boca cheia que são os melhores, que têm os melhores empregos (mas não dizem que foi uma “cunha”) não lutam pela vida, nunca lutaram e nunca vão precisar de lutar, nasceram com tudo, e isso é o que vão deixar quando morrerem, nasceram com o cu virado para o sol, e por muito que abanem ou escondam o sol vai estar sempre a brilhar no fundo das costas, mas eu não, eu nasci com o cu na sombra e tenho de lutar, tenho de chorar, tenho de sangrar para triunfar, mesmo não sendo reconhecido, mesmo não me sendo dado o devido valor, e por muito que procure o sol com o cu ele há-de fugir-lhe sempre. Mas no fundo tenho orgulho do que sou, tenho orgulho de todas as escolhas que fiz, tenho orgulho em ser eu e agradeço por não ter nascido com o cu virado para o sol…

18.3.08

"O Pedro e o sonho" - A concretização


Cumpri o prometido. Levei o “Pedro” ao estádio, que orgulhosamente vestiu o cachecol do Braga. É difícil encontrar palavras que descrevam todos os momentos que quer eu, quer ele vivemos. Saltou, gritou, apoiou o Braga como nunca antes tinha feito, sentia-se a criança mais feliz do mundo. Apesar de não saber o nome dos jogadores, sentia-se um felizardo por poder vê-los ali tão de perto e ver que mesmo eles parecendo algo diferentes de todos os outros humanos, são no fundo pessoas como qualquer um de nós. Ele imaginava-os maiores, como se fossem Deuses, como se não reparassem que estavam ali milhares de pessoas a torcer por eles por serem tão importantes, mas não, ele sentiu que afinal são pessoas como ele, quis aprender os cânticos e tudo o resto, sentiu-se bem por estar ali no meio de toda aquela festa, sentiu-se em casa, sentiu-se Braguista!
Há quem diga que não há felicidade maior que ver um sorriso de uma criança, mas eu digo que há, é simplesmente inexplicável a sensação de realizar o sonho de um miúdo e sentir a felicidade que dos olhos lhe saía… Já em minha casa e enquanto jantava-mos, ele contava eufórico aos pais e à irmã como tinha sido o dia mais feliz da vida dele. Uma lágrima marota quis fugir, mas prendi-a no canto do olho, deixei-me embalar pelo momento e sorri ao mesmo tempo que me senti realizado, senti que nasceu mais um Braguista e a confirmação veio logo a seguir quando a irmã, mais nova do que ele, lhe atirou “Eu sabia que tu ias virar a casaca…”, e ele com o sorriso que não conseguiu disfarçar o dia todo respondeu que “Desta vez é diferente, até tenho um cachecol e tudo! Agora vou ser sempre do Braga”. Já o sol dormia à muito quando me despedi dele, apertou-me a mão com força, olhou-me nos olhos, e eu vi nos dele um brilho ofuscante, e um sorriso maravilhoso e gratificante, não resisti, abracei-o e disse-lhe um simples mas sentido obrigado. Ele ficou confuso pois obrigado era o que ia dizer, e eu é que agradeci, agradeci por me ele me ter deixado feliz e agradeci por ele sentir que o meu clube também é dele, agradeci pela felicidade que a sua criou em mim. Ele foi embora, ainda de cachecol ao pescoço, e eu senti-me feliz por realizar o sonho de um menino… E assim nasceu mais um Braguista, que no que depender de mim, será para sempre…