8.11.09

Insónia


Acordo gelado de um sonho,
Sento-me na cama enquanto penso
Sobre algo que tem agora senso.
Passo despercebido de manhã à noite
E já não resta nada que me afoite,
Levaram-me a alma, levaram-me o coração,
Agora apenas estou, sem qualquer suposição,
Não mais do que vivo,
Enquanto mal sobrevivo,
Numa palavra sou um... esquecido.
Ofuscado pela luz do meu calabouço
Onde existe escuridão e um sorriso evadido,
Murmuro um silêncio, e agora
Já nem quando penso alto me ouço...
Não sairão mais palavras da minha boca
Criadas por esta mente oca,
Que apenas consigo fala
E todos os prenúncios de voz cala.
É como se vivesse alguém dentro de mim,
Alguém que me acorda quando fecho os olhos,
Alguém que sabe quando será o meu fim
Como se me descobrisse sempre que minto
E me ridicularizasse se já não nem sinto.
Sei que estou a ficar paranóico,
E que não sou mais que um acanhado.
Nunca serei capaz de um acto heróico
Que me liberte deste tornado
Que há muito me habita a mente
E me baralha o que antes era desejado
E agora tão de repente
É um tumulto de poeiras despejado.
Sujidade de um cérebro poluído
De pequenos sonhos e objectivos,
Nenhum deles foi concluído,
E acabaram-me os incentivos.
Não quero mais mentir
E mostrar quem não sou,
Quero apenas de mim fugir
Mas não tenho para onde ir,
A solidão tudo me roubou...

25.10.09

O meu lado do futebol


Muito se tem falado sobre a quantidade de Braguistas que vivem na nossa cidade, mas hoje peço-vos um “exercício” diferente, e pensem na quantidade de Braguistas que saem da nossa cidade em dias frios, abrasadores, de chuva, de sol, de neve, de dia, de noite, percorrem quilómetros e quilómetros e fazem sacrifícios, tudo para ver 90 minutos do jogo do seu clube amado. Peço-vos que pensem no meu lado do futebol, porque lá encontram estórias e histórias que ficaram gravadas, memórias de golos, de bolas no poste, de penalties falhados, de jogadas fantásticas e de erros que deitaram tudo a perder, de emoções contidas e explodidas, de amigos que se fazem, uns que se mantêm outros que ficam para trás. O meu lado do futebol é o lado que alimenta tudo o que é jogado, que paga os ordenados, que idolatra os que entram em campo, que chora por eles, que bate palmas se perde, que canta e explode de alegria ou de raiva a cada golo, que custa a adormecer e acorda triste no dia seguinte às derrotas, que não dorme para ir esperar a equipa ao aeroporto, em troca de sorrisos e obrigados dos que chegam. O meu lado do futebol é o que falta às aulas e arranja desculpas no emprego, que põe de lado a família porque joga o Braga, e quando a namorada lhe pergunta se gosta mais dela ou do Braga, ele responde sinceramente que antes de gostar dela, já amava o Braga. O meu lado do futebol é o que se sacrifica e recusa festas e noitadas para poupar dinheiro para ir ver o Braga jogar fora, entra por um caminho que o vicia, e não tem retorno, é onde se gosta do jogo puro, sem truques, limpo e corrido, e que se abraça ao desconhecido a seu lado, mas que na celebração do golo são como conhecidos de longa data. O meu lado do futebol percorre quilómetros de estrada, e passa noites sem dormir, justificando as pequenas loucuras a quem pergunta com um simples “É pelo Braga”. O meu lado do futebol é aquele que a comunicação social quer abafar e mostrar que não existe, são os apelidados de fanáticos e doentes, e se me dizem que à frente do Braga coloco só a saúde pergunto “Como, se quando estou doente vou ver o Braga na mesma?”, e se dizem que sou doido por pensar assim, respondo apenas que somos o lado bom do futebol não jogado dentro de campo, o lado não corrupto, não financeiro, não televisivo, o lado da essência, o lado puro, o lado que não se vê, que se sente, o lado que só aqueles que entendem estas minhas palavras sentem, sentiram e querem continuar a sentir... Eis o nosso lado do futebol... Eis os Gverreiros do Minho... Eis os Braguistas!

19.10.09

Duas flores, uma pedra e um monólogo


Deixei que toda a cidade recolhesse, cada qual num aconchego que pode, e sai do meu. Fartei-me de ver paredes pintadas de branco a toda volta e de pensamentos negros que criavam um mundo a duas cores. Em passos curtos e lentos, olhando o chão como quem procura o que sabe que não vai encontrar, deixei que me guiasse o inconsciente para onde lhe tinha pedido. Voltei a sentar-me na mesma pedra de pernas cruzadas à chinês, como se me quisesse sentir uma criança que nunca quis deixar de ser. Preguei o olhar no luar distante, deixei-me embalar pelo vento que aos poucos me apaga à chama que me aquece por dentro, e tentei não pensar em nada. Não quis incomodar as flores que me rodeiam com conversas de fazer correr lágrimas, nem quis disfarçar com um mentiroso sorriso a tristeza que mesmo sem a querer, guardo. Há muito que tinha sentido que não estava só, mas não tive força nem coragem para esboçar a mais pequena palavra. Elas aperceberam-se e deixaram-se simplesmente ficar ali a meu lado, como quem sofre a dor dos outros para a tentar serenar. Deixei-me aproveitar o momento que tão bem me estava a fazer, e aos poucos lá fui abrindo a boca, dando voz ao que a mente bordava num monólogo que ia desenrolando o novelo. “É nos pequenos gestos que me vou apoiando, a falta deles nos últimos tempos fez-me dar uma importância ainda mais elevada, a uma simples palavra, a um simples olá, a um sentido obrigado, e a cada gesto desses é plantado um estímulo que me vai acelerando o bombeador de sangue e me vai mantendo de olhos abertos. Se há quem me ache parvo por agradecer os simples gestos do dia-a-dia, eu acho-os parvos por nunca terem sentido falta de quem os diga. Não peço que me enxuguem as lágrimas se as virem cair, nem que me atrelem só porque sim, apenas quero voltar a sorrir por viver, voltar a habituar-me e relembrar como é ter amigos, voltar a distinguir os sentimentos que se atropelam todos os dias cá dentro e não voltar a dizer coisas que magoam os ouvidos e a alma que as palavras atingem. Quero só saber o que sinto, e não quero mais sentir a ansiedade nem o desespero de cada vez que me confundo por não saber mais... Quero apenas continuar a mimar-vos e a ajudar-vos, só porque me sinto bem, não preciso receber nada em troca, porque é assim que me sinto feliz, a cuidar de vocês sem me querer fazer passar por vosso parente chegado, quero continuar a fazer de tudo para que não vos derrube o Outono e para que o Inverno não vos magoe, e quero que se um dia tiverem de se afastar de mim, que não vos roa a consciência e que sigam em frente com toda força do Mundo, porque no meu pensamento e no peito ficarão sempre guardadas. E se alguém vos perguntar o que vos disse, respondam que foram oito letras em três palavras, e se estou a pedir muito então quero só que me deixem voltar a sentar nesta mesma pedra e relembrar os dias em que cá estavam duas flores...”

15.10.09

Nuvens negras


Acredito que estou a ficar doido,
Pelas nuvens negras que perseguem.
Sinto a alma e o corpo dorido
Além de me achar doido varrido
Por continuar à espera que cheguem
O brilhar que ainda me seduz e
Os dias em que brilhará a luz.
Dela procuro sinais
Mas raramente os vejo,
São já dias e noites a mais
Em busca do que ainda almejo.
Regresso por isso ao meu abrigo
Onde há só a solidão como amigo,
Estou a perder a força e a crença nisto
Mas ainda assim insisto,
As lágrimas escorrem como chuva,
E a dor é sentida como raios, mas não desisto
As nuvens negras podem trazer-me a chuva,
Mas não pensem que vou morder o anzol,
Por muito que tentem não conseguirão matar o Sol

11.10.09

Inquérito


Porque continuo aqui?
Porque sinto que ainda não morri?
Porque me continua o peito a doer,
E porque sofro afinal?
Porque continuo a viver
Se à muito deixei de o querer?
Porque não me espetam pelas costas,
Uma faca no coração, num acto de cobardia?
Porque me obrigam afinal a acordar,
Se não quero mais isso, dia após dia?
Porque não me impedem de respirar
O ar que vos ando a roubar?
Porque não me espancam até à morte,
Em vez de me deixarem entregue à sorte?
Porque me continuam a mimar
E não me deixam acabar
Esta vida que nunca quis,
E tarda em me ensinar a ser feliz?
Porque despejo lágrimas de tristeza,
De raiva, de ódio de tudo?
Porque caio sempre na fraqueza,
E porque caralho eu não mudo?
Porque me continua a nascer
Esta vontade louca de escrever?

10.10.09

Utopia - Within Temptation

The burning desire to live and roam free,
It shines in the dark and it grows within me
You're holding my hand but you don't understand
So where I am going, you won't be in the end

I'm dreaming in colours of getting the chance
Dreaming of tryn'a the perfect romance
In search of the door, to open your mind
In search of the cure of mankind

Help us we're drowning
So close up inside

Why does it rain, rain, rain down on Utopia?
Why does it have to kill the idea of who we are?
Why does it rain, rain, rain down on Utopia?
How will the lights die down, telling us who we are?

I'm searching for answers not given for free
You're hurting inside, is there life within me?
You're holding my hand,but you don't understand
You're taking the road all alone in the end

I'm dreaming in colours
No boundaries are there
I'm dreaming the dream. and I'll sing to share
In search of the door,to open your mind
In search of the cure of mankind

Help us we're drowning
So close up inside

Why does it rain, rain, rain down on Utopia?
Why does it have to kill the idea of who we are?

Why does it rain, rain, rain down on Utopia?
How will the lights die down, telling us who we are?

Why does it rain, rain, rain down on Utopia?
Why does it have to kill the idea of who we are?

Oh, why does it rain, rain, rain down on Utopia?
How will the lights die down, telling us who we are?

Why does it rain?


5.10.09

De duas em duas pegadas


Sinto felicidade se me sento no meio das
areias frias onde o luar é a distância entre as estrelas que me acompanham, me
servem de companhia para onde for, me
ajudam, me guiam por entre as
pegadas que outros cá deixaram e que criam
dificuldades que vou encontrando nesta
longa caminhada a que teimo chamar
vida. Não faço ideia para onde vou
mas continuo, sem norte nem sul, vagueio,
mas sei que não vou só, sinto a companhia das
ondas e do luar que as faz brilhar como
estrelas doces, lindas e cintilantes que
me trazem à memória recordações que
encontrei algures entre o passar dos dias e
que já não posso voltar a viver. Apenas
sei que posso contar sempre com
pedras no caminho, fazem parte dele e sem
elas a meu lado para me acompanhar
não teria vida e seria apenas mais uma pedra
nesta caminhada longa e dura.
Alguém me ia odiar erradamente. Porquê?
São elas que me fazem erguer a cabeça
e pensar que o dia de amanhã será melhor
e devo agradecer tudo o que têm feito
por mim apesar de toda a dor que causam
em mim, por mim e especialmente para mim.
Vou deixando marcas de pegadas para trás.
São recordações que para sempre ficarão
guardadas não na areia que o mar apaga mas
no coração de alguém que escreve
palavras soltas para o mar apagar,
pequenos textos onde exprime toda a gratidão
pela imensidão do mar o acalmar e encantar
pelas estrelas que ele tanto adora...

29.9.09

No início


Ainda que muito procure
Não poderei nunca encontrar
Alguém mais que sem me tocar cure
Bastando que para isso dure
Esta amizade estrelar,
Lembrando que nem sempre brilha
A estrela que o caminho nos trilha
Aquela estrela que nos guia
De onde apenas existe o escuro
Rindo sempre se o caminho é duro
Imaginando que fácil seria
Aquela jornada mais bravia.
Nunca mais triste serei, e
As duas estrelas adorarei

27.9.09

O brilho das estrelas


Roubei duas estrelas,
De um céu que não é meu.
Foi por acaso que tropecei nelas
Em dia de baixo brilho, que por estar
Eu mais escuro, ao chegar perto delas,
Reparei no doente cintilar.
É uma dor que as deixa fracas,
Uma dor que não mostra marcas.
É por dentro que ela mora,
A dor que quero apaziguar
Que tenho sede de matar,
Antes que a estrela vá embora.
Quero curá-las para sempre,
Para que seu corpo volte a ser quente,
E volte eu para o meu lugar,
De onde ao longe voltarei a apreciar,
Duas estrelas a brilhar
Nessa imensidão distante.
Por ter eu falta de luz,
Num mundo que há muito me enclausurou,
Invade-me um pensamento atroz
Que na boca me amargou
E não me deixa dizer o que sinto
Sei apenas que minto,
Sei que o quero dizer, mas calo
E se me perguntam porque não falo
Nunca digo o que sinto...
Não é por não o saber,
Mas sim pelo medo me deter
As palavras que querem sair,
E a vergonha me fazer acreditar
Que não é este o seu lugar.
Sei que se um dia me deixarem
E voltarem ao mundo a que pertencem,
Vou guardar sempre na memória
Cada página desta história
Na esperança que um dia voltem
Não para de vez ficarem, mas por algum
Tempo estarem comigo,
Falar do tempo antigo
Do dia em que sem medo nenhum
Encontraram mais um amigo
Que as quis voltar a ver brilhar,
E passava a vida a agradecer
Sem razão aparente de ser.
Mas a verdade é que ele se sentia
No dever de agradecer por cada dia
Que passava junto das duas estrelas que roubou,
Daquela imensidão de céu
Que por muito que ele queira, não voltará a ser seu...

21.9.09

Flores no meu caminho


Vivemos uma vida feita de corridas e monotonias. Falámos em sair da rotina por vezes mas não conseguimos viver sem criar rotinas atrás de rotinas. É natural passarmos todos os dias pelo mesmo sítio em passo apressado, para não deixarmos que a rotina se altere, e vamos focando o que ao longe almejamos. Nunca reparamos que pelo caminho que percorremos existem várias coisas a que erradamente e inconscientemente apelidamos de nadas, mas que na verdade podem ser muito, basta querer, basta ter vontade de olhá-las e tentar entende-las. Foi num desses dias de rotina percorrida à velocidade do costume, que descobri que no meu caminho de todos os dias existia uma flor que diariamente me olhava mas nunca me dissera nada. Uma flor pequena e bela, com o seu jeito tímido e envergonhado o suficiente para me atrair a atenção. Prendeu-me o olhar, mas nesse dia não podia dizer-lhe um olá sequer, não podia quebrar a rotina. Continuei assim o meu caminho a flor continuava a ocupar-me espaço no pensamento e levava-me a perguntar como nunca tinha reparado nela antes. Decidi que nessa noite quebraria a rotina e tentaria falar com ela, assim fiz, nessa noite decidi ir ao encontro dela e sentei-me numa pequena pedra que a ladeia. Não tinha muito para falar com ela mas fui falando, deixando a conversa seguir, sem saber ao certo o onde queria que ela me levasse. Estive horas numa conversa que me rejuvenesceu interiormente. Sentia-me mais leve, mais feliz e confesso que me custou sair de ao pé dela, mas tinha de ser, não podia ficar para sempre lá e arrancá-la está de fora de questão. Saí com a promessa e o convite de voltar, e vontade não faltava na verdade. Assim sendo criei o hábito de ir ter com a flor e ajudá-la em tudo o que podia, regando-a, deixando que o sol a aquece-se mas não em demasia, tirando as ervas que a rodeavam para que crescesse forte e saudável, mas sobretudo falava com ela, sobre todas as coisas possíveis e imaginárias, sem receio de ser julgado ou apontado, começou a ser uma terapia para um dia duro de trabalho. Acabei naturalmente por conhecer outra flor que a costuma ladear, diferentes as duas, na cor, no número de pétalas, no cheiro, mas iguais no sentimento e na vontade de ouvir os lamentos de quem passa e se senta nessa pedra. Ainda hoje continuo a falar assiduamente com essas duas flores que encontrei no caminho para casa, ainda hoje as tento ajudar em tudo o que posso, e não espero nada em troca, quero apenas agradar e agradecer todo o carinho que elas me dão, toda a compreensão que elas têm e quero estimar, no fundo, as únicas duas amigas que tenho, e toda a amizade que delas brota. Não tenho medo que me achem doido por falar com duas flores, só tenho medo do Outono, e ele começa amanhã. Vou por isso lutar contra a queda das pétalas e contra o frio que as gela, nem que para isso tenha de dar eu a minha vida...