25.6.10

Vontade de amar

Há-de o sol nascer
Se a noite assim o deixar
Se alguém mais alto o desejar
Nem que tenha alguém em contra o querer
Pois o estado não importa
Nem a força de terceiros.
Não me desiludes se já estiveres morta
Quero apenas que digas sem rodeios,
Em poucas palavras e de forma breve,
Sem espaço a interrupções.
Não me tiras a graça que nunca tive
Nem vou exigir explicações
Pois quem nada tem para oferecer,
Apesar da vontade, nada dá.
E hoje sinto que o sol há-de nascer
Amanhã de manhã
Se assim eu desejar
Se assim alguém deixar...

13.6.10

Suicidio

Acordou-me o sentimento de vazio por dentro, a falta incessante que algo me faz, e eu nem sequer sei porquê! Sei que se foram com o amanhecer, e sei que não voltam mais. Estou farto de rastejar, farto de vergar, farto de não quebrar de vez. Levantei-me e saí de casa, contrastava o barulho da rua com o silêncio da minha mente, nada me prendia a atenção, seguia a passos firmes e certos, típicos de quem sabe o que procura, para onde vai e o que vai encontrar. Tinha como destino uma rua sem nome, onde existe um prédio que lá do alto me deixa ver toda a minha cidade. Subi, mas não lembro das escadas, continuava com o cérebro ocupado demais, e o peito com uma dor insuportável. Já lá no cimo, sentei-me na beira. Senti uma leve brisa beijar-me a face, parecendo querer trazer o abraço de quem não teve coragem de se despedir. Encheu-me os olhos de uma água salgada, que me escorre sem obstáculos face abaixo, trouxe-me memórias, pensamentos, e obrigou-me a fazer uma lista em jeito de resumo do que deixei por fazer ou do que deveria ter feito. Sempre mostrei que para ajudar os outros não é preciso receber algo em troca, um sorriso numa cara que antes era de tristeza é o suficiente para me agradecer o esforço, estendi a mão a todos os que me pediram, caí com eles, levantei-me com eles, entrei nas guerras deles, curamos as feridas, seguimos em frente. Porém não fui capaz de dizer nem mostrar o quanto amei alguns, não fui forte para aguentar até ver o meu Braga campeão, não fui capaz de dar a volta por cima a mais uma contrariedade, e fui fraco o suficiente para fazer todo este caminho até aqui. Com as pernas do lado de fora e curvado para a frente, deixei que as lágrimas caíssem no meio da multidão lá em baixo que se afasta. Não ouço o que dizem, não me interessa o que dizem. Senti uma mão no ombro, e um choro “NÃO!”, senti o impulso de saltar, senti o ar rasgar-me a cara, senti o impacto no chão, senti-me morto, senti-me bem... Vi que era um sonho, acordei e desejei que tudo tivesse sido real...

8.6.10

Pára-quedas


No pensamento não existem lesões, nada se parte, não se faz luxações, não existem torções, não existe dor física. A bem dizer no pensamento não existe nada, a não ser desejos, ânsias, esperanças e pouco mais. Foi por isso sobre a minha cama numa noite destas que me deixei vencer pelo cansaço, fechei os olhos e deixei-me guiar pela imaginação. Entrei numa pequena avioneta com alguns amigos, munido de pára-quedas e decidi experimentar a adrenalina da queda livre e o fascinante mundo do pára-quedismo. Depois de levantarmos voo chegamos ao ponto de retorno impossível. Nada nos devolverá a calma que sentíamos à instantes atrás, e em condições normais temos apenas 2 alternativas, ou nos lançamos para fora da avioneta, ou nos deixamos lá ficar ate que ela volte a terra. Eu optei pela primeira, tal como a maioria dos amigos que foram comigo neste pensamento, mas houve quem quisesse ficar lá dentro, por medo, falta de vontade ou por outro motivo qualquer. Já borda fora e em queda livre, vislumbrando bem ao longe o limite da queda que nenhum quer atingir aquela velocidade, fomos formando um só grupo coeso e unido e juramos um a um não nos separarmos mesmo depois da aterragem. Mas pouco tempo durou até essa jura ser quebrada, alguém acaba por se afastar nem que seja por momentos, para sentir a sua própria liberdade, e mesmo sabendo que o mais provável era voltar a juntar-se ao grupo, eu senti a sua falta, e precisava daquela presença, que me ia dar mais força, me ia tornar mais forte, me ia dar alento para o resto da descida que ainda falta percorrer. Mas não estava lá naquele momento, nem voltou tão cedo. Fui o primeiro a abrir o pára-quedas e consequentemente o último a chegar ao chão. Quando voltei a tocar o solo, já não estavam lá todos os que desceram comigo, nem sequer quem voltou na avioneta. Tentei reunir os resistentes e convencê-los a voltar a subir, só mais uma vez, mas preferiram ficar a ver-me ao longe, ainda assim encorajaram-me a ir, mas quando cheguei à avioneta não estava lá ninguém, olhei para trás e vi todos os que davam força. Esses eu sabia que podia contar eles, mas continuava-me a fazer falta quem se desviou, e fez a descida sem ninguém... Algures tocava o despertador, acordei, estava sozinho na minha cama, já era dia... lá se foi mais uma noite mal dormida...

4.6.10

Sol gelado

Quando o sol gela, é como um trago de sopa fria fumegante, quando precisamos de algo que nos aqueça até a alma. É um vazio de sentimentos e emoções que nos deixa desnorteados, a vaguear sem sabermos bem por onde. Quando o sol gela, não tenho quem me aqueça, faz-me falta um abraço, uma palavra, um carinho... Quando o sol gela, nada mais brilha, nada mais tem encanto, e a escuridão apodera-se do que os olhos vêm. Deixam de existir as borboletas, as flores, as estrelas, e deixa de fazer sentido lutar pelo dia de amanhã. Por muito que tente e por mais ainda que queira, não vejo forma de mudar as coisas. O desinteresse parece-me lógico de alguém com medo de arriscar, com medo de pelo menos tentar, com medo de aquecer o sol. Sei que vos assusto e que talvez não seja coerente, sei que não sou floricultor, astrónomo nem tampouco entomólogo lepdoptero. Sei tudo isso e continuo sem saber o que sou afinal, continuo sem saber porque gela o sol e me põe este frio cá dentro que me arrepia a espinha e me faz gritar interiormente com todas as minhas forças, até que as lágrimas me escorram cara abaixo pelo esforço feito... Não consigo moldar ninguém, nem que se sintam tocados por mim, preciso de um sol que me aqueça para poder dar o afecto, o carinho e o calor que os outros precisam e para que possam desejá-lo. Porque foges de mim, porque sopras a vela que me aquece por fora e me engana o interior, porque não derretes o gelo do sol?

Quebra o gelo,
Deixa que o sol brilhe,
Porque quando o sol gela
Eu não sei mais se te ame...

30.5.10

(Des)ilusões

Já nem sei se me sinto. Serei feito de carne e completado de alma ou estarei incompleto e largado ao degredo? Quem me irá dizer, nem sequer sabe se o pode ou se o deve. Sinto-me vazio por dentro, falta-me a alma, a chama que me aquece. Gélido no interior vagueei no vazio das horas que deveriam ter sido de descanso, mas preencheu-as a ansiedade, a crença, a ilusão! Deixei-me iludir por um Luís de Matos que não transforma lenços de seda em pombas brancas, mas transforma sentimentos não adquiridos por vontade própria em desilusões que me fazem questionar vezes sem conta porque raio eu tentei, ou porque raio achei que deveria dar a entender o que ia tentar. Mas quem nunca sonhou que era capaz de voar? Eu só tentei passar o sonho para a realidade. Merecia tamanha queda? Talvez. Foi essa a maneira que o “desilusionista” encontrou para me acordar para a realidade, em que eu fui capaz de ver que para voar preciso ter asas, não basta apenas imaginá-las ou querer tê-las com toda a força. “As ovelhas não são para mato, para mato são as cabras”. Eu não fui talhado para voar, tenho de me juntar aos meus semelhantes e não desejar o que não posso ter. Lido mal com a rejeição, e pior ainda se não sei porque me negam a descolagem. Porque me fazem acreditar que consigo tocar no céu se ao mesmo tempo me atam os pés ao chão sem que me aperceba? É demasiado para conseguir processar de uma vez só e assimilar correctamente todos os sentimentos... Se há quem por um lado me eleve a crença e me dê valor, há por outro que me destrua por dentro os pilares mais largos do meu sustento emocional, fazendo transbordar a agua salgada que os olhos não são capazes de segurar e as mãos incapazes de disfarçar... Um dia destes levanto-me de novo, ergo a cabeça e sigo em frente, agora vou dormir um sono profundo e esperar que acorde, talvez ainda hoje, talvez só amanhã...

25.5.10

A espera

Voltei a sentar-me perto da linha. Desta vez não me dá grande vontade de a atravessar, nem sequer de ficar parado a meio à espera de ser abalroado pelo que não pode parar. Limitei-me a ficar parado enquanto observo o que à minha volta se passa. Sentado no banco de madeira às travessas, de pernas cruzadas “à chinês”, cotovelos apoiados sobre os joelhos, enquanto as mão se unem para segurar o queixo e ajudar o olhar a fixar o horizonte ao mesmo tempo que a mente me leva para lugares nunca visitados e me faz sentir o que nunca senti. Reparo que enquanto fico aqui neste estado quase de gárgula, são vários os movimentos em frente a mim, vejo-os passar e não me aproximo de nenhum... Tenho medo! Tenho medo do destino que tomam, receio de para onde me possam levar, ou que me deixem ficar pelo caminho. Fobia que me faça o mesmo que o que me deixou aqui apeado... Limito-me a vê-los passar, não me atrevo a tentar apanhar os que passam, nem chego a pensar nisso! Alguns passam tão rápido que nem dão por mim ali sentado, impávido e sereno... Outros param. Desses que param, e que eu não sei se param porque me vêm ali, ou se pararam por acaso, uns abrem as portas e convidam-me a entrar, enquanto outros me dão sinais de que posso entrar se quiser mas continuam de portas fechadas e não me dão mostras de as abrir. Juntando isto aos meus medos, obtém-se o meu estado de estátua. Mas são os que continuam parados e de portas fechadas que mais me intrigam. O que será que querem de mim? Será que se me mexer ele foge? Não sei, nem me apetece muito descobrir, vou-me deixar ficar aqui sentado, de pernas cruzadas como a vida, de cabeça baixa como a moral, e a olhar infinito, na esperança que de lá venham bons ventos...

13.5.10

Mente ocupada

Que estranha forma de viver!
Querer dizer o que se deseja
Bem lá no fundo de um ser,
Onde vive a vontade de ter
Algo que de tanto que se almeja
Me chega a confundir
O pouco senso que ainda tenho
Por não conseguir suprimir
Esta vontade inerte de te ter.
Um desejar que deveria ser impossível
Mas que nasce de uma força indomável
Vinda do sítio mais recôndito e incrível,
O lugar por ti não desejável,
Mas que não sou capaz de evitar.
Talvez por não encontrar alternativa
A esta forma de estar e pensar
Que vai moldando a minha narrativa
Nem sempre como eu quero,
Pois entender é difícil
Porque raio sinto o desespero
De tentar descobrir finalmente
O que me preenche afinal a mente.
Se algo apenas passageiro
Ou uma vontade duradoura
De te ter comigo a tempo inteiro.
Mesmo sem poder
Mesmo sem mandar
Sinto que é impossível controlar
Esta sede de te ter...

6.5.10

Desabafo de um louco


Chamaram-me louco! Louco por amar um clube, louco percorrer centenas de quilómetros para ver 90 minutos de um jogo de futebol, louco por sentir uma explosão no peito em vez de um coração a bater, louco por me abraçar ao desconhecido que no momento do festejo daquele golo foi meu irmão... Se amar é uma loucura, então sim eu sou um louco, mas sabem que mais? Tenho orgulho na minha loucura, porque chorei juntamente com alguns milhares no passado fim-de-semana, e não me senti só, senti-me rodeado de loucos! Loucos com o mesmo sangue vermelho de mangas brancas que nos corre nas veias e ferve a cada jogada, exulta de alegria com a magia espalhada a cada toque e explode qual bomba atómica a cada vez que bola beija a rede e me faz cerrar os punhos como se segurasse a vida. Ainda me arrepio todo só de imaginar o vídeo antes do jogo dedicado aos adeptos, com 20 mil almas a aplaudir um agradecimento pelos quilómetros feitos ao logo da época, ostentando orgulhosamente o símbolo que trazemos cravado no coração. Pensava eu que já chegava de emoções, puro engano, apita o árbitro para o final da partida, e festejava eu euforicamente algo que nem conseguia ter noção da dimensão, até que algo me fez parar, um hino mexeu comigo. Bem lá no meio o hino diz “Ils sont les meilleures, Sie sind die Besten, These are the champions!”, Um arrepio subiu-me a espinha e espalhou-se pelos braços e pela cabeça, não consigo precisar durante quanto tempo, mas sei que foi muito, sei que levei o cachecol enrolado junto da cara e tentei desligar do sentido do hino... Fui fraco e não consegui, tentei reter uma lágrima gorda, mas ela venceu a batalha e desceu cara abaixo, acabou por secar no cachecol... Que orgulho, que vontade de abraçar fortemente cada um daqueles heróis que continuam no relvado, que sede platónica de lhes dizer do fundo do coração um eterno e sentido “Obrigado por me terem feito sonhar”! Só quem nunca festejou uma permanência na divisão maior é que me chama louco, todos os outros sentem o mesmo que eu, uma paixão ardente por um símbolo, um orgulho num clube, num clube de guerreiros, num clube campeões... Continuo a ser louco? Não sou o único, somos milhares e sentimo-nos orgulhosos... Foi este o meu desabafo...


29.4.10

Bloqueio cerebral

É entre a escuridão do meu quarto, enquanto repouso o corpo mal amanhado sobre a cama que me abraça, que fecho os olhos, e sem adormecer deixo que o pensamento me guie por entre mais um devaneio. Nunca sei onde me leva, talvez seja essa incerteza que me faz tanto querer ir e ficar lá. A cada viagem um mundo novo me é mostrado. Desejos, sonhos, caminhos perdidos, opções não equacionadas, tudo me vem à cabeça de uma maneira não muito alinhada mas que faz todo o sentido para mim. Numa dessas viagens bem recentes reencontrei algo que há muito tinha perdido. A vontade de amar, a vontade gostar de alguém, a vontade de arriscar e mostrar o que cá dentro tenho. Quis acordar desse estado de múmia em que me encontrava mas por muito que batalhasse não me conseguia tornar consciente e continuava a sonhar, a desejar e a sentir um ardor no peito misturado com alguma dor. Gostava de falar com essa vontade, dizer-lhe o que penso, expor os meus pontos, e pedir-lhe para ter calma, para que não volte a ter de fugir de mim. Mas não fui capaz de ir ter com ela, e escondi-me por trás da vergonha que me assolou. Se ela fugiu de mim é porque nada queria comigo, porque raio deveria eu agora ir ter com ela? Na verdade esta pergunta foi só para me convencer a deixar de pensar “eu quero voltar a ter vontade e capacidade de amar alguém, quero perder este medo”, não me sai da cabeça... Nesse dia já só acordei de manhã, como se não tivesse dormido pois sentia-me cansado, mentalizei-me que aquilo não passou de um sonho, mas durante o dia algo me foi provando o contrário. Os “frios” no estômago, a cabeça aluada, o desnorte total e a perda da noção das horas faziam-me acreditar que passei toda a noite acordado a pensar no que afinal não tinha sido um sonho. Encontrei mesmo a tal vontade, só não encontrei força para ir ter com ela, não a perdi de vista, nem a quero perder, ate encontrar alguém com quem a partilhar. Pode ser amanhã, na próxima semana, ou na próxima década...

25.4.10

Liberdade

Chamo do alto a liberdade
Que me roubaram sem desdém,
Já nem me importa quem a tem,
Exijo apenas a igualdade,
Ser comparado com os da mesma idade
Poder sorrir sem qualquer medo
Enquanto aponto firmemente o dedo
A quem se baseia na falsidade
Promíscua na ingratidão
Tentando fazer do vento tempestade
Que atinge e destrói sem exactidão
A mais pura e fiel verdade.
Tentam vender-me a troco do fel.
Querem de mim fazer o vilão
Que espalhou a destruição
Onde antes barrei o mel.
Dei o que tinha e o que me faltava
Segurei o leme até não ter mais força,
Capaz de impedir que um sorriso torça
Se num bolo-rei acertar na fava.
Mas de nada valeu e de nada me vale
Porque agora querem que me cale
Perante tamanha mentira e desfaçatez
Criada por pura malvadez
E que distorce a verdade de sentimentos
Passados que foram de acalentos
E que apregoados agora são nas costas
De fingidos, falsos, e que afinal nem gostas.
Estou cansado de viver com correntes
Que me amarram a ideias contra dizentes
Sobre o que no passado se viveu
E que no presente se distorceu.
Quero apenas ser livre e ter vida
Para contar a história não distorcida
Que com sentimentos não se brincam
Nem com as lanças que fincam
Uma alma dilacerada
À espera de ser libertada
Por um cravo que não será vil
E lhe traga o seu 25 de Abril...