15.7.10

Cinzas

Acabou-se o fogo e o fulgor
Daquele estranho sentimento
A que teimam chamar de amor
E que traz no seu seguimento
Nada mais que sofrimento e dor.
Já cá não mora o ardor
Que me acalentou noutras alturas,
Em fraquezas agora mais maduras,
Mas já nada tem o mesmo sabor.
É salgado agora o trago
E o que antes fora preenchido
Esta agora oco, vago,
Nada mais que desvanecido,
Tal e qual a luz da Lua
Que não mais me alumia
Nesta triste e negra rua
Onde nem o sol bate de dia
E não se consegue ver o fundo
Ou vislumbrar uma saída
Que me volte a devolver o Mundo
E a vontade de lutar por esta vida...

4.7.10

Brasas

Seremos apenas pequenas brasas,
Vermelhas, incandescentes,
Nacos de carvão preto
Fumegantes, quentes,
Que não deixam arder de paixão
E com água nos abafam
Atirando para o caixão
Todo aquele sentimento
De quem sofre do mal do coração
E não consegue ter discernimento
Suficiente para desvendar o segredo,
Bem guardado e codificado,
De como se ama sem medo
De deixar um coração danificado?
Serei apenas uma pequena brasa
Do que resta da enorme fogueira
Tentando voltar a ficar inteira
Eliminar tudo o que me atrasa
E levar-te comigo para casa?
Ter-te para sempre à minha beira
Debaixo da minha asa.
Porque não pode isso ser verdade?
Porque não te posso eu ter?
E ser obrigado a enfrentar com crueldade
Que apenas uma brasa posso ser,
Ainda que prestes a apagar,
Pelo peito ter a soluçar...

30.6.10

Só por te estar a perder não significa que já te tenha perdido de vez, para sempre. Não significa que deva ou vá parar de te tentar mostrar o que sinto. Só porque me sinto magoado não significa que vá magoar alguém, não significa que não tenha tido o que mereci, nem melhor, nem pior, o justo... Só porque me sinto em baixo não significa que deixe de sorrir, posso mentir com o sorriso, pois sei que alguém se vai enganar. Só porque não tenho coragem não significa que deva desistir e virar as costas. Só porque não sou capaz de dizer que te amo, que te quero, que me arde o coração por ti, não significa que não sinta nada por ti. Só porque me sinto parvo, não significa que tenha de o ser, que tenha de to dizer. Só porque sinto esta dor no peito, não significa que tenha perdido a esperança, que não possa viver nesta ilusão boa. Só porque se trata de uma ilusão, não quer dizer que me acarrete para o sofrimento, e no caso de me acarretar, não significa que não aprenda com isso, nem que não queira voltar a ter ilusões. Se por morrer uma andorinha não acaba o verão, não se vai acabar o amor que tenho só por uma desilusão. Só porque não vês que és realmente tu que me ocupas o cérebro, não significa que sejas cega, porque eu por vezes também rimo os sentimentos e não significa que sou poeta... Só porque te quero, significa que não te posso ter?

29.6.10

Nemec...


Tentei matar-te. Durante todo o dia tentei arranjar uma desculpa plausível para acabar contigo. Não fui capaz, afinal és o único que consegue descrever o que na cabeça me mora, és o único capaz de me ouvir desabafar, e se mal entendido sou, é porque mal me expresso. Não tive coragem suficiente para acabar contigo, porque no fundo és parte de mim, e seria um suicídio parcial, a morte da minha veia mais artística, a morte do meu lado com mais graça, a morte do meu tubo de escape que levaria ao apodrecimento de todo o resto físico. A solução não passa pela tua morte, passa pela minha vida! Um dia alguém me há-de perceber, alguém conseguirá decifrar o escondo em cada texto, e conseguirá saber que está correcto, podendo haver também quem se engane, por se achar capaz de decifrar o que os olhos não alcançam e apenas o sentimento é capaz de ver. Deixo-te por isso viver, e quando este turbilhão de ideias, sentimentos, frustrações e tristezas desaparecer, ou der mostras disso, voltamos a falar. Até lá, estou cansado demais para transmitir ideias, pensamentos, desabafos e alucinações. A morte não é saída, é apenas a desistência, e ainda não é desta que desisto...



Rui Xavier

27.6.10

Monologo a dois

- Porque me mandaste chamar?
- Porque preciso falar contigo. Quero...
- Não me podias ter chamado tu como fizeste tantas outras vezes?
- Não. Não vês que me deixaste fechado entre quatro pensamentos sem janela ou porta por onde escapar? Não sou capaz de voar, e os pensamentos são altos demais para os transpor.
- Culpas-me então por esse teu entorpecimento e essa tua falta de vontade de te erguer? Não foste tu que pediste que te ferisse? Tentaste pelo menos abrir as asas e voar?
- Tentei...
- Mentiroso! Não mereces nada do que sentes por ninguém, as feridas que te faço deveriam servir para te ergueres e voares, para te atirares de cabeça, para tentares... Não fazes mesmo ideia do que queres pois não? Porque choras como uma criança?
- Porque não sou capaz de distinguir o que quero do que tu me obrigas a querer, do sentimento que tu me cravas com essas lanças, da vontade que eu tinha de deixar tudo serenar e da que agora me deste de voltar a entrar no jogo de vida ou morte! Eu não te pedi isto!
- E eu não te dei nada disso. As confusões fazes tu na tua cabeça! Eu torno as coisas simples, encarreiro-te para quem tu queres, não escolho ninguém, nem estejas à espera que faça tudo por ti. Eu dou-te o que precisas para começar, agora só tens de fazer o resto, sem ajudas de ninguém, apenas com todo o teu valor.
- Qual valor? Eu não tenho valor, ninguém o vê em mim, ninguém me...
- Cala-te! Se ninguém vê que tens valor e que vales a pena é porque não o mostras, é porque o escondes. A culpa é tua e só tua. Sabes que mais, vou-me embora, não tenho de te dar explicações de nada do que faça, tu não passas de um mortal e eu vou continuar a ferir-te com lanças quando bem entender e como bem entender. Adeus!
- Não penses que essa cara de menino me faz ter pena de ti e deixar de te culpar pelo meu sofrimento de não saber o que fazer, de ter medo de arriscar e de querer o que não posso ter. Isso, vai, voa para bem longe! Deixa-me ficar só! Desaparece Eros!

O Eros foi, não sei se volta, e eu não sei se lhe devia ter o que disse, afinal sinto-me culpado de tudo e o que ele diz faz sentido, ou não fosse ele um Deus... Maldito sejas Eros!

25.6.10

Vontade de amar

Há-de o sol nascer
Se a noite assim o deixar
Se alguém mais alto o desejar
Nem que tenha alguém em contra o querer
Pois o estado não importa
Nem a força de terceiros.
Não me desiludes se já estiveres morta
Quero apenas que digas sem rodeios,
Em poucas palavras e de forma breve,
Sem espaço a interrupções.
Não me tiras a graça que nunca tive
Nem vou exigir explicações
Pois quem nada tem para oferecer,
Apesar da vontade, nada dá.
E hoje sinto que o sol há-de nascer
Amanhã de manhã
Se assim eu desejar
Se assim alguém deixar...

13.6.10

Suicidio

Acordou-me o sentimento de vazio por dentro, a falta incessante que algo me faz, e eu nem sequer sei porquê! Sei que se foram com o amanhecer, e sei que não voltam mais. Estou farto de rastejar, farto de vergar, farto de não quebrar de vez. Levantei-me e saí de casa, contrastava o barulho da rua com o silêncio da minha mente, nada me prendia a atenção, seguia a passos firmes e certos, típicos de quem sabe o que procura, para onde vai e o que vai encontrar. Tinha como destino uma rua sem nome, onde existe um prédio que lá do alto me deixa ver toda a minha cidade. Subi, mas não lembro das escadas, continuava com o cérebro ocupado demais, e o peito com uma dor insuportável. Já lá no cimo, sentei-me na beira. Senti uma leve brisa beijar-me a face, parecendo querer trazer o abraço de quem não teve coragem de se despedir. Encheu-me os olhos de uma água salgada, que me escorre sem obstáculos face abaixo, trouxe-me memórias, pensamentos, e obrigou-me a fazer uma lista em jeito de resumo do que deixei por fazer ou do que deveria ter feito. Sempre mostrei que para ajudar os outros não é preciso receber algo em troca, um sorriso numa cara que antes era de tristeza é o suficiente para me agradecer o esforço, estendi a mão a todos os que me pediram, caí com eles, levantei-me com eles, entrei nas guerras deles, curamos as feridas, seguimos em frente. Porém não fui capaz de dizer nem mostrar o quanto amei alguns, não fui forte para aguentar até ver o meu Braga campeão, não fui capaz de dar a volta por cima a mais uma contrariedade, e fui fraco o suficiente para fazer todo este caminho até aqui. Com as pernas do lado de fora e curvado para a frente, deixei que as lágrimas caíssem no meio da multidão lá em baixo que se afasta. Não ouço o que dizem, não me interessa o que dizem. Senti uma mão no ombro, e um choro “NÃO!”, senti o impulso de saltar, senti o ar rasgar-me a cara, senti o impacto no chão, senti-me morto, senti-me bem... Vi que era um sonho, acordei e desejei que tudo tivesse sido real...

8.6.10

Pára-quedas


No pensamento não existem lesões, nada se parte, não se faz luxações, não existem torções, não existe dor física. A bem dizer no pensamento não existe nada, a não ser desejos, ânsias, esperanças e pouco mais. Foi por isso sobre a minha cama numa noite destas que me deixei vencer pelo cansaço, fechei os olhos e deixei-me guiar pela imaginação. Entrei numa pequena avioneta com alguns amigos, munido de pára-quedas e decidi experimentar a adrenalina da queda livre e o fascinante mundo do pára-quedismo. Depois de levantarmos voo chegamos ao ponto de retorno impossível. Nada nos devolverá a calma que sentíamos à instantes atrás, e em condições normais temos apenas 2 alternativas, ou nos lançamos para fora da avioneta, ou nos deixamos lá ficar ate que ela volte a terra. Eu optei pela primeira, tal como a maioria dos amigos que foram comigo neste pensamento, mas houve quem quisesse ficar lá dentro, por medo, falta de vontade ou por outro motivo qualquer. Já borda fora e em queda livre, vislumbrando bem ao longe o limite da queda que nenhum quer atingir aquela velocidade, fomos formando um só grupo coeso e unido e juramos um a um não nos separarmos mesmo depois da aterragem. Mas pouco tempo durou até essa jura ser quebrada, alguém acaba por se afastar nem que seja por momentos, para sentir a sua própria liberdade, e mesmo sabendo que o mais provável era voltar a juntar-se ao grupo, eu senti a sua falta, e precisava daquela presença, que me ia dar mais força, me ia tornar mais forte, me ia dar alento para o resto da descida que ainda falta percorrer. Mas não estava lá naquele momento, nem voltou tão cedo. Fui o primeiro a abrir o pára-quedas e consequentemente o último a chegar ao chão. Quando voltei a tocar o solo, já não estavam lá todos os que desceram comigo, nem sequer quem voltou na avioneta. Tentei reunir os resistentes e convencê-los a voltar a subir, só mais uma vez, mas preferiram ficar a ver-me ao longe, ainda assim encorajaram-me a ir, mas quando cheguei à avioneta não estava lá ninguém, olhei para trás e vi todos os que davam força. Esses eu sabia que podia contar eles, mas continuava-me a fazer falta quem se desviou, e fez a descida sem ninguém... Algures tocava o despertador, acordei, estava sozinho na minha cama, já era dia... lá se foi mais uma noite mal dormida...

4.6.10

Sol gelado

Quando o sol gela, é como um trago de sopa fria fumegante, quando precisamos de algo que nos aqueça até a alma. É um vazio de sentimentos e emoções que nos deixa desnorteados, a vaguear sem sabermos bem por onde. Quando o sol gela, não tenho quem me aqueça, faz-me falta um abraço, uma palavra, um carinho... Quando o sol gela, nada mais brilha, nada mais tem encanto, e a escuridão apodera-se do que os olhos vêm. Deixam de existir as borboletas, as flores, as estrelas, e deixa de fazer sentido lutar pelo dia de amanhã. Por muito que tente e por mais ainda que queira, não vejo forma de mudar as coisas. O desinteresse parece-me lógico de alguém com medo de arriscar, com medo de pelo menos tentar, com medo de aquecer o sol. Sei que vos assusto e que talvez não seja coerente, sei que não sou floricultor, astrónomo nem tampouco entomólogo lepdoptero. Sei tudo isso e continuo sem saber o que sou afinal, continuo sem saber porque gela o sol e me põe este frio cá dentro que me arrepia a espinha e me faz gritar interiormente com todas as minhas forças, até que as lágrimas me escorram cara abaixo pelo esforço feito... Não consigo moldar ninguém, nem que se sintam tocados por mim, preciso de um sol que me aqueça para poder dar o afecto, o carinho e o calor que os outros precisam e para que possam desejá-lo. Porque foges de mim, porque sopras a vela que me aquece por fora e me engana o interior, porque não derretes o gelo do sol?

Quebra o gelo,
Deixa que o sol brilhe,
Porque quando o sol gela
Eu não sei mais se te ame...

30.5.10

(Des)ilusões

Já nem sei se me sinto. Serei feito de carne e completado de alma ou estarei incompleto e largado ao degredo? Quem me irá dizer, nem sequer sabe se o pode ou se o deve. Sinto-me vazio por dentro, falta-me a alma, a chama que me aquece. Gélido no interior vagueei no vazio das horas que deveriam ter sido de descanso, mas preencheu-as a ansiedade, a crença, a ilusão! Deixei-me iludir por um Luís de Matos que não transforma lenços de seda em pombas brancas, mas transforma sentimentos não adquiridos por vontade própria em desilusões que me fazem questionar vezes sem conta porque raio eu tentei, ou porque raio achei que deveria dar a entender o que ia tentar. Mas quem nunca sonhou que era capaz de voar? Eu só tentei passar o sonho para a realidade. Merecia tamanha queda? Talvez. Foi essa a maneira que o “desilusionista” encontrou para me acordar para a realidade, em que eu fui capaz de ver que para voar preciso ter asas, não basta apenas imaginá-las ou querer tê-las com toda a força. “As ovelhas não são para mato, para mato são as cabras”. Eu não fui talhado para voar, tenho de me juntar aos meus semelhantes e não desejar o que não posso ter. Lido mal com a rejeição, e pior ainda se não sei porque me negam a descolagem. Porque me fazem acreditar que consigo tocar no céu se ao mesmo tempo me atam os pés ao chão sem que me aperceba? É demasiado para conseguir processar de uma vez só e assimilar correctamente todos os sentimentos... Se há quem por um lado me eleve a crença e me dê valor, há por outro que me destrua por dentro os pilares mais largos do meu sustento emocional, fazendo transbordar a agua salgada que os olhos não são capazes de segurar e as mãos incapazes de disfarçar... Um dia destes levanto-me de novo, ergo a cabeça e sigo em frente, agora vou dormir um sono profundo e esperar que acorde, talvez ainda hoje, talvez só amanhã...