20.9.10

Até já

Deste aperto no peito que me doí
Não quero que uma lágrima nasça,
Desse suspiro profundo que te mói
Não quero que a tristeza te cresça.
Se o adeus é o que mais custa na partida
Despeço-me de ti com um até já,
E não te mostrarei a minha saída
Porque na verdade estarei sempre lá.
Lá, onde tu me queres ter
Lá, onde me possas ver
Onde possas sentir que nem saí de cá.
Na verdade, não vou sair desse cantinho
Que sei que existe dentro do peito
Onde me guardas com grande carinho
E me aconchegas com esse teu jeito
De quem protege do vento uma pena
Com medo que este para longe a leve
Da vida pacata, tranquila e serena,
Que ela outra vida nunca teve.
Aconteça o que acontecer 
Vou estar sempre aqui,
Dê por onde der
Ter-me-às cá para ti...

15.9.10

Saudades de(la)

Bate-me o coração de forma diferente,
Arritmado, mas sem dor,
Reconfortante e suavemente ardente.
Bastou o ultimo olhar para lhe dar cor.
A cada passo por esta estranha cidade
Relembro um momento do teu olho reluzente,
Atada a este vem sempre a saudade.
Realidade que me enfraquece, me faz carente.
Atira-me ao pensamento o teu sorriso,
Fazendo-me lembrar o quanto dele preciso
Antes de ser invadido por este sentimento
Estranho como o conforto deste aposento.
Limpo então a lágrima que escorre
Ansiando pela hora que a minha saudade morre...

2.9.10

Costumes

Costumava escrever sentimentos
Onde marcava o meu cunho.
Quentes, de amor sedentos,
Como flores numa tarde de Junho.
Transpirava aquela ausência
Que me desidratava a alma.
Um rosto sem aparência,
Uma mão sem palma.
Não via a cara para onde olhava
Apenas uns olhos desconhecidos,
Não existia a mão que segurava
Naqueles sonhos erguidos.
Costumava dormir à noite
E sonhar poemas que escrevia,
Acordados à lei do açoite
Pelo barulho que se ouvia.
Bandos de palavras soltas ao vento
Que afugentaram borboletas
E tornaram-me o mundo mais cinzento,
Descoloriram as imagens agora incompletas.
Costumava lamentar-me de tudo
O que de azar me cabia sorte.
Mas calei o grito, tornei-o mudo,
O espasmo vocal que pedia morte
Deste simples eu que apenas exprime
Em palavras nem sempre certas
O que o medo não mais reprime,
Tenho agora portas abertas
A uma nova maneira de ser,
Em vez de sonhar, apenas durmo,
E se perguntam que costumo fazer?
Respondo que agora, já não costumo.

31.8.10

Será que devo?

A meia dúzia de passos
De embarcar numa aventura
Que ainda desconheço os traços
E que será, porventura,
A mais longa distância
Que terei dos teus braços,
E vivo entretanto, nesta ânsia
De serem de regresso estes passos.
Mas ainda não o são
E eu ainda não parti
Mas dentro do coração
Só guardo a saudade de ti.
A vontade só tenho de voltar
Para de onde não quero sair
Por não me apetecer limpar
As lágrimas que ando a carpir
Ainda que inocentemente
Por em mim se ter criado um receio
Que me apoquenta ultimamente
E me traça esta vontade a meio
De querer dar meia volta ao mundo
Conhecer o que do outro lado se faz
Sem nunca cair ao fundo
Do poço onde por agora jaz
O medo do fracasso
E o medo do obscuro.
O tempo é tão escasso
Para me poder sentir seguro...

19.8.10

Estarei vivo?

“Desde pequeno vou à bola,
Largo tudo pra te ver,
Só quero que sues a camisola,
Sou do Braga até morrer...”

Esta é talvez das letras que mais sentido faz para mim nos cânticos da massa adepta do Braga. São 3h30 da manhã e ainda não consegui pregar olho nem despir a camisola do Braga. Da cabeça não me sai toda aquela decoração azul estrelada do AXA, aquela bola gigante agitada no centro do terreno, aquele hino, aquele arrepio, aquela lágrima que teimosamente quer fugir, aquele golo, aquele explodir de alegria, uma abraço aqui, um aperto de mão ali, um grito vindo do estômago com toda a força, um perder de noção de espaço e tempo... numa palavra: loucura!
Pode este resultado ser escasso, pode não ser suficiente na 2ª mão o golo com direito a chupeta, nada disso me importa, porque neste momento sinto-me só dono e senhor do mundo. Um mundo de fantasia, de sonho. Um mundo que quando ia à bola em pequeno estava reservado aos outros, sempre aos outros, e agora eu pude vibrar com as mesmas sensações no meu estádio, na minha cidade, a apoiar o meu clube... Uma parte da cidade não teve noção da grandeza do que se passou naquele cantinho a que apelidamos carinhosamente de “Pedreira”, mas os que lá estiveram, tão cedo não se vão esquecer do que sentiram. Depois de alguns calafrios, um cruzamento teleguiado para a cabeça de Paulo César, proporciona grande defesa a Palop, Matheus encosta a cabeça na “estrelada” e a bola beija suavemente as redes da baliza... Cerram-se os punho, contraem-se os músculos e da garganta sai o mais belo grito no mundo do futebol, é golo, é do Braga, na Champions... Arrepia, dá vontade de sentir um abraço, dá vontade de deixar escorrer uma lágrima? Também a mim! Há quem lhe chame de tudo, eu chamo-lhe amor verdadeiro, paixão descomunal! Para quem como eu sentiu o arrepio ao ler o texto, sabe bem do que estou a falar. São 4h da manhã, e caso se perguntem porque demorei tanto a escrever um texto pequeno, foi porque escrevi cada coisa que mentalmente consigo visualizar e voltar a sentir cada emoção, cada arrepio... Trinta minutos depois, e um sem fim de arrepios no corpo, só vos consigo dizer:

“Durante o ano eu te acompanho,
De norte a sul só pra te ver
Seja em Braga ou noutro estádio
Porque eu sem ti não sei viver...”

18.8.10

Atiro-me ao rio

Parado no tempo,
Sem me mover no espaço,
Fixo o olhar no firmamento
E abro ao máximo cada braço.
Uma leve brisa beija-me o rosto
Num gesto terno de despedida
E eu tento fingir que não gosto
De me despedir desta vida.
Sem balanço ganho apenas coragem
De sem dobrar o joelhos, me inclinar
E esperar não atingir a margem
Deste rio onde me vou afogar.
A leve brisa passa rajada forte,
O equilíbrio a abandono
Será esta a queda para a morte
Atingido o ponto sem retorno.
Não espero que venham atrás de mim
E me sigam cruéis pisadas
Não sou modelo, não sou assim,
Sinto-me apenas de mãos atadas.
Se o rio quiser hei-de vir à tona
E hei-de encalhar na mesma pedra
Que se tornará senhora e dona
Da reles vida que me deserda!

14.8.10

Mau-estar

Faz-me falta uma dose de loucura
Das doses maiores, sem olhar a meios,
Da fresca, da nova, da pura
Que me leve por caminhos alheios
Me faça abrir os olhos cheios de poeira,
Me faça sentir vivo e que vale pena
Viver a vida quer queira ou não queira,
Mesmo que lá dentro a temperatura seja amena
E nada mais haja que me aqueça e me alente
Nada mais me preencha a mente
Nem o lugar que de vazio deixou de existir.
Não mora cá ninguém, nem sei bem se o quero,
Se o deva voltar a ter ou o deva deixar extinguir
Com a razão de que nunca será o que espero.
Deixo-me torturar por este comum vazio
Que se diz não se querer vago
E me morde ferozmente a cada trago
Deste fel venenoso, agreste e baldio
Que aos poucos me vai dissecando
Esta desenxabida treta que chamo vida
E que aos poucos me vai deixando de ser querida,
Que aos poucos me vai matando...

3.8.10

Sem borboletas no estômago

Sem o cheiro das flores
Sem quaisquer outros odores
Apenas a ausência delas,
As coloridas, esvoaçantes, belas...
Pintadas de imaginação,
Imaginadas por diversão,
Criadas pela minha mente
Que se apagou de repente
Antes que a diversão me tente.
No estômago já não as tenho,
Mas existe o empenho
Que a ele próprio se confunde,
E antes mesmo que me afunde
Prefiro cortar pela raiz
A flor que nunca quis.
Sem flores não há borboletas,
Sem borboletas não há primavera,
Sem primavera acaba a quimera
De no estômago voarem como roletas...

15.7.10

Cinzas

Acabou-se o fogo e o fulgor
Daquele estranho sentimento
A que teimam chamar de amor
E que traz no seu seguimento
Nada mais que sofrimento e dor.
Já cá não mora o ardor
Que me acalentou noutras alturas,
Em fraquezas agora mais maduras,
Mas já nada tem o mesmo sabor.
É salgado agora o trago
E o que antes fora preenchido
Esta agora oco, vago,
Nada mais que desvanecido,
Tal e qual a luz da Lua
Que não mais me alumia
Nesta triste e negra rua
Onde nem o sol bate de dia
E não se consegue ver o fundo
Ou vislumbrar uma saída
Que me volte a devolver o Mundo
E a vontade de lutar por esta vida...

4.7.10

Brasas

Seremos apenas pequenas brasas,
Vermelhas, incandescentes,
Nacos de carvão preto
Fumegantes, quentes,
Que não deixam arder de paixão
E com água nos abafam
Atirando para o caixão
Todo aquele sentimento
De quem sofre do mal do coração
E não consegue ter discernimento
Suficiente para desvendar o segredo,
Bem guardado e codificado,
De como se ama sem medo
De deixar um coração danificado?
Serei apenas uma pequena brasa
Do que resta da enorme fogueira
Tentando voltar a ficar inteira
Eliminar tudo o que me atrasa
E levar-te comigo para casa?
Ter-te para sempre à minha beira
Debaixo da minha asa.
Porque não pode isso ser verdade?
Porque não te posso eu ter?
E ser obrigado a enfrentar com crueldade
Que apenas uma brasa posso ser,
Ainda que prestes a apagar,
Pelo peito ter a soluçar...