27.9.10

Diário da Índia - Dia 4

A primeira segunda-feira de trabalho não começa da melhor maneira, começa cedo demais, são 3h da manhã e eu acordo gelado e com o estômago a doer. Parou-me a digestão, tento vomitar para melhorar mas não sou capaz, não sai nada, apenas saliva, e a dor não me deixa dormir. Uma hora depois socorro-me do meu vizinho de quarto com alguns medicamentos para males do estômago, tomo-os e volto-me a deitar, volto a sentir as pernas geladas, e o estômago virado do avesso, volto a adormecer já passava das 5h. De manhã acordo já bem melhor e vou até ao refeitório tomar o pequeno-almoço, mas pelo caminho ainda sinto o sabor a pimento que me vem do estômago. Tomo o pequeno-almoço como normalmente tenho feito e vou trabalhar. Já no armazém e enquanto abro alguns caixotes sinto que algo não está bem comigo, as pernas começam a fraquejar, o suor já é demasiado para o calor a esta hora e a visão começa a ficar distorcida. E de uma das vezes que estou sentado sobre os calcanhares alguém repara e me chama o motorista para me levar de volta à residência. Tomo um chá e volto-me a deitar na cama o resto do dia, só saio de lá para jantar às 20h30. Comi pouco, porque ainda sinto algum reboliço no estômago, voltei para a cama, falei ao telemóvel com quem sinto mais saudades e fiquei melhor, espero agora passar bem a noite, e espero amanhã voltar a 100% ao trabalho… Quero ir para casa, rápido…

26.9.10

Diário da Índia - Dia 3

O primeiro dia no terreno foi o terceiro na Ásia, acordo de manhã e vejo que já não existem insectos no chão do quarto, preparo-me então para o pequeno almoço e ao descer as escadas em direcção ao refeitório reparo no trabalho de um dos empregados, andar a varrer os insectos que cá ficaram dentro do chão. No fim do pequeno-almoço dirigimo-nos para o armazém a fim de começar a separar os materiais. Para isso temos a ajuda de cerca de 15 indianos. 15 que não conseguem fazer o serviço de 2. Muito pacatos, sem força, sem vontade de trabalhar e sem iniciativa de qualquer tipo, excesso de homens e falta de força, estorvam-se uns aos outros e não ajudam lá muito, é o que há e é com o que posso contar, percebo então que vou ter de suar muito e desgastar-me bem nos próximos tempos. Apesar de me verem normalmente a falar português ou inglês, eles insistem em falar comigo num dialecto que eu não entendo uma única palavra, bem entendo uma, “tica” significa ok, gostava muito de lhes poder responder mas não consigo já que nem pedir-lhes desculpa por não os entender consigo, e também eles me tratam com grande respeito, juntando as mão no peito e curvando-se sempre que me vêem… Depois lutar contra a curiosidade de cerca de 100 indianos sobre o que seriam aqueles postos que eu ando a montar lá consegui por um posto pronto, o chamado posto de parque. Fora desta barraca onde me encontro, estão a montar o painel informativo em cima de um andaime e subo então até lá cima. Fica mesmo no meio do parque, e depois de suar as estopinhas lá conseguimos colocar o painel fixo nas vigas, debaixo de um calor de cerca de 40ºC, ergo-me vejo o pôr do sol por trás das montanhas e sinto saudades de casa, da família, daquele beijo, daquele abraço… Antes de jantar vamos conhecer outra fábrica que fica aqui bem perto. Existe lá também um templo maior que o daqui, e voltam-me a colocar uma pinta na cabeça desta vez é uma espécie de creme da cor da minha pele e por isso não se nota muito. Em casa do chefe, cujo nome não consigo pronunciar, por isso não sou capaz de o escrever, como uns doces tradicionais indianos um pouco a custo, e aprendo que quando se cumprimentam pessoas muito mais velhas e lhes queremos mostrar respeito devemos curvar-nos e tocar-lhe nos pés, tocando depois no peito. Volto para a residência para jantar, e colocam-me ao lado uma tigela de sopa espanhola, com um aspecto delicioso e um sabor intragável. Ao fim de 3 colheres ponho-a de parte que já não consigo comer mais. Volto no fim para o quarto, para os insectos, para a humidade, ligo a quem mais gosto e deito-me a dormir que amanhã é outro dia, é segunda-feira!

25.9.10

Diário da Índia - Dia 2

O dia 2 é o dia que nos vai levar ao local onde vamos ficar nos próximos tempos instalados, por isso metemos cedo os pés ao caminho porque a viagem de 330km demora cerca de 3 horas. Tive por volta das 8h da manhã o último tratamento de rei por parte do pessoal do hotel e lá nos metemos na selva. Um autentico safari pelas montanhas, com estradas nem sempre pavimentadas, camiões parados em cima de curvas sem qualquer tipo de visibilidade nem sinalização. Por falar em sinalização, os camiões aqui são todos da mesma marca, a nacional Tata. Para os distinguirem os camionistas utilizam o chamado no ocidente de Tunning, sendo que por vezes chego a duvidar se certos apetrechos são mesmo assim ou se estarão partidos, quanto ao triangulo de sinalização é usado somente para enfeitar a frente do camião, e na traseira todos têm pintado “please horn”, coisa que eles se recusam a fazer… se estiverem doentes é claro. Por entre uma mina de diamantes e uma reserva de tigres chamada “Pana”, encontrei a miséria. Gente a viver sem qualquer tipo de condições, sem água potável, sem luz, sem higiene… e comecei a ficar assustado, pois quanto mais me aproximava do local onde vou ficar a trabalhar mais gente via nas mesmas condições. Foi talvez essa a razão de eu ter adormecido uma boa parte da viagem, e quando acordei estava já num cruzamento com um Buda no meio. Era o início do parque de estacionamento de camiões da fábrica, julguei estar próximo, puro engano, estou ainda a cerca de 4 km da fábrica e já está tudo entupido de camiões por aqui. São cerca de 800 os que esperam pela sua vez de entrar na fábrica, e chegam a esperar aqui no parque cerca de 2 a 3 dias. Passado o parque cheio de buzinadelas, travagens bruscas e buracos na estrada eis que chegámos às imediações da fábrica onde vivem numa autêntica miséria os que se tentam safar à custa da fábrica, vivendo do lado de fora dos muros da fábrica, vendem de tudo e mais alguma coisa que possa servir aos camionistas e não só. À entrada dos portões da fábrica tenho um segurança que me faz continência e me deixa sem reacção. Sou levado por entre mais 4 portões e outros tantos seguranças até à residência de hóspedes como eles aqui lhe chamam. Fico a saber que o meu quarto será o número 3. Tenho novamente quem me leve a bagagem até ao quarto e quando abro a porta percebo que isto não se vai comparar em nada com os as últimas duas estadias. A cama com um duro colchão, a cobertura que não passa de um simples edredão, a humidade no tecto, a casa de banho com um chuveiro que se limita a despejar água para o chão, as paredes sarapintadas do bolor e o cheiro a mofo, fazem-me ter a certeza que as próximas semanas serão uma grande aventura. Enquanto espero pelas reuniões para conhecer os próximos parceiros de trabalho tento-me conectar à Internet e descubro que não tenho nem uma ficha de rede, nem tão pouco wireless, deixa-me triste, e faz-me lembrar que vai custar ainda mais suportar as saudades e a ausência de notícias… Depois das reuniões da praxe, faço uma visita guiada pela fábrica e pelos locais onde vou ter de intervir e percebo então no mundo onde me tinha metido. A fábrica tem talvez o tamanho da cidade de Braga e à volta só conseguimos ver poeira, sujidade, e falta de condições de trabalho. Vem depois a visita à povoação que fica dentro da fábrica e onde mora a maioria dos trabalhadores. No centro existe um local de oração. Deixo as sapatilhas entregues a um milhar de insectos e subo descalço as escadas até ao templo. Lá dentro esta a pessoa que zela pelo espaço, que me pede para me ajoelhar, deita-me uma espécie de água nas mãos e me diz para passar pela cabeça, pede-me depois que puxe o meu cabelo junto à testa para trás e crava-me uma pinta vermelha entre as duas sobrancelhas, no fim dá-me “docinhos” para comer. Regresso então à residência para jantar, e percebo que se preocuparam em fazer-me comida bem ao estilo ocidental, tirando a parte em que toda a comida tem levar pimento. Começo a ficar com algum receio da residência. Os trabalhadores aqui parecem escravos, andam todos vestidos de igual, com umas largas calças cinzentas e com uma camisola de manga comprida também ela muito larga, e tratam-me como seu eu fosse uma espécie de rei, com muita cerimonia e juntado as mão no peito fazem-me uma vénia, sinto-me estranho e perdido neste mundo… Regresso então ao meu quarto, parecido com uma cela, e vou tomar um banho que bem estava a precisar, mas percebo que não importa para que lado vire o manipulo, a água tem sempre a mesma temperatura, nem quente, nem fria, morna! Mais tarde explicaram-me que aqui não se utilizam esquentadores mas sim “arrefecedores” de água. No fim de tomar o meu banho morno, e enquanto me limpava, vejo no chão um insecto parecido com uma pulga mas que não ferra nem salta e decido enviá-lo pelo ralo abaixo, mas percebo então que ele não está só, e existem cerca de 10 outros iguais a ele, desisti de os tentar retirar do meu quarto e fui dormir na esperança de estar a dormir sozinho nesta cama, esperando que os insectos se passeiem apenas pelo chão!

Diário da Índia - Dia 1

Este sim deveria ter sido o meu primeiro dia de trabalho. Digo deveria porque na verdade não foi. Depois de 3 horas mal dormidas no quarto de hotel estava na hora de me preparar para fazer um novo voo, desta vez com destino a Khajuraho, onde nos esperava quem nos levará até Rewa e até à fábrica de cimentos. Depois de 3 horas de voo com uma paragem pelo meio onde não é necessário abandonar o avião, eis que chegamos a Khajuraho, um aeroporto parecido com uma central de camionagem com cerca de 40 anos. Cá fora estava, sem ramo de flores, o responsável do projecto e mais dois motoristas que gentilmente me tiraram as bagagens da mão e as transportaram por mim até ao carro. Ao contrário do esperado não fomos para Rewa, estamos na verdade a um pouco mais de 300km de Rewa, e ficaremos aqui instalados num hotel até amanhã de manhã, de onde partiremos então para Rewa. À chegada ao hotel voltei a sentir-me um rei, com alguém que me abrisse a porta para sair do carro, encontrei as portas abertas por um segurança que fez continência quando entrei, e veio em minha direcção um empregado do bar trazer sumo natural e bem refrescante. O hotel é simplesmente algo de genial, no chão consigo ver o meu reflexo, e os funcionários espalham bondade e simpatia por todo o lado. Sinto um exagero ser tratado com tanta fineza, mas eles insistem que tem de ser assim. A contrastar com esta enorme bondade está o facto de a Internet via wireless ser taxada. Ora não se vai à Net, queima-se tempo na piscina, água aquecida naturalmente através do sol quente que se faz sentir, e que bem que lá dentro se está, no fim de tantas horas de viagem nada melhor que um banhinho na piscina para relaxar. É a meio de uma dúzia de braçadas na piscina que me lembro que eu não vim cá para tirar férias e que os próximos dias vão ser bem duros, mas deixa-me aproveitar o momento que não terei outro igual tão cedo. Depois do banho de água e de sol, fui fazer uma visita aos monumentos de Khajuraho. Monumentos dedicados a Deuses Hindus e que na parte exterior são decorados com figuras do Kamasutra. É bom recordar que a franquia neste parque é 25 vezes superior para estrangeiros, os Indianos pagam 10 Rupias e os estrangeiros pagam 250 Rupias, e se levarem uma máquina fotográfica ainda têm de pagar mais 250 Rupias. Isto dá cerca de 0,17€ para um Indiano, e 4,17€ para um estrangeiro e o dobro no caso de ele levar uma máquina fotográfica. Depois disto tivemos a nossa primeira experiência de comida Indiana e digamos que foi algo… picante… não, bastante picante… Hora de dormir que amanhã temos Rewa como destino.

24.9.10

Diário da Índia - Dia 0

O dia 0. Chamemos-lhe assim por ter sido o dia da partida para a aventura, em busca do desconhecido, numa longa viagem até terras por mim nunca viajadas. Faltavam ainda algumas horas para nascer o sol e já eu me deslocava em direcção ao aeroporto Sá Carneiro, a fim de levantar voo com direcção a Frankfurt onde iria fazer escala, antes da chegada ao meu destino final. Uma viagem rápida com pouco mais de 2 horas que serviu acima de tudo para enfrentar o “touro” e pegar nele pelos cornos, assim que as rodas do avião recolheram ultrapassei o ponto sem retorno, enchi-me de coragem e lá fui vencendo aos poucos aquele medo inicial e o receio do que iria encontrar na Ásia. Chegado à Alemanha, deparei-me com o povo frio, nada hospitaleiro e que acha que todos devem nascer ensinados. Mas não foi grande a espera e um par de horas depois estava a entrar na porta 44 em direcção ao voo Lh760 com o destino de Delhi, e se 7h20 dentro de um avião é dose, fazê-las ao lado de um Indiano que não tomava banho à 3 dias e pior um bocadinho. Após o desgaste físico e mental de uma viagem tão grande, eis que as rodas tocam o chão. Era o primeiro impacto com um mundo novo, um novo país, uma nova cultura, a minha primeira vez na Ásia! As diferenças são enormes e notórias poucos segundo depois de deixar o avião para trás. A pele morena, os polícias armados com metralhadoras e todos com uma cadeira para se sentarem, o chão alcatifado e a má disposição de quem é acordado às 2h30 da manhã para pôr carimbos em passaportes foi o que encontrei no início. Apesar de tudo este era um espaço isolado do exterior. Sendo um local de chegada e partida de estrangeiros, a cultura e os usos e costumes são um pouco atenuados. Depois de ser recebido com a oferta de um ramo de flores por um gigante de turbante na cabeça, chega a hora de sair para o mundo real. Confesso que me assustei, levei uma chapada de ar quente e húmido como nunca tinha levado, 34ºC às 3h da manhã é obra, a sensação de estar a abafar ao ar livre, o ar que me entrava nas narinas parecia não ser suficiente para alimentar todo o meu corpo e o suor parecia orvalho que nascia na minha pele, tudo isto me fez ignorar por completo o que me rodeava, as diferentes vestimentas, o olhar de desconfiado para quem é diferente de uns que contrastava com o tratamento de reis dado pelos outros. Vi os carros que até então existiam para mim apenas em filmes, as amolgadelas que aqui são normais, a falta de leis trânsito, os semáforos que servem afinal para enfeitar as estradas, a condução acompanhada de buzinadelas a torto e a direito, só porque sim, ou às vezes “porque não?” e lá vai mais uma buzinadela. A saída do aeroporto é feita através de uma espécie de fronteira controlada pelo exército, onde o carro é revistado de cima a baixo e onde se procuram por bombas instaladas no carro! A viagem feita até ao hotel é bem ao estilo da condução indiana numa cidade onde nem todos são capazes de conduzir. As ultrapassagens, as buzinadelas, as travagens bruscas, tudo faz parte do dia-a-dia deles, até mesmo a buzinadela ao segurança do hotel para acordar do seu sono laboral e abrir o portão da entrada que na verdade ficava numa estrada que indicava em bom inglês “out”. Chegado ao hotel, onde me voltei a sentir um rei, fui recebido com um sumo delicioso, e depois de cerca de uma hora de conversa onde pusemos alguns pontos nos seus devidos sítios com o senhor do turbante, retornamos ao quarto onde tive oportunidade de me conectar à Internet pela primeira vez e dizer a algumas pessoas que cheguei inteiro. No fim era hora de dormir, porque já só faltavam 3 horas para me levantar novamente.

20.9.10

Até já

Deste aperto no peito que me doí
Não quero que uma lágrima nasça,
Desse suspiro profundo que te mói
Não quero que a tristeza te cresça.
Se o adeus é o que mais custa na partida
Despeço-me de ti com um até já,
E não te mostrarei a minha saída
Porque na verdade estarei sempre lá.
Lá, onde tu me queres ter
Lá, onde me possas ver
Onde possas sentir que nem saí de cá.
Na verdade, não vou sair desse cantinho
Que sei que existe dentro do peito
Onde me guardas com grande carinho
E me aconchegas com esse teu jeito
De quem protege do vento uma pena
Com medo que este para longe a leve
Da vida pacata, tranquila e serena,
Que ela outra vida nunca teve.
Aconteça o que acontecer 
Vou estar sempre aqui,
Dê por onde der
Ter-me-às cá para ti...

15.9.10

Saudades de(la)

Bate-me o coração de forma diferente,
Arritmado, mas sem dor,
Reconfortante e suavemente ardente.
Bastou o ultimo olhar para lhe dar cor.
A cada passo por esta estranha cidade
Relembro um momento do teu olho reluzente,
Atada a este vem sempre a saudade.
Realidade que me enfraquece, me faz carente.
Atira-me ao pensamento o teu sorriso,
Fazendo-me lembrar o quanto dele preciso
Antes de ser invadido por este sentimento
Estranho como o conforto deste aposento.
Limpo então a lágrima que escorre
Ansiando pela hora que a minha saudade morre...

2.9.10

Costumes

Costumava escrever sentimentos
Onde marcava o meu cunho.
Quentes, de amor sedentos,
Como flores numa tarde de Junho.
Transpirava aquela ausência
Que me desidratava a alma.
Um rosto sem aparência,
Uma mão sem palma.
Não via a cara para onde olhava
Apenas uns olhos desconhecidos,
Não existia a mão que segurava
Naqueles sonhos erguidos.
Costumava dormir à noite
E sonhar poemas que escrevia,
Acordados à lei do açoite
Pelo barulho que se ouvia.
Bandos de palavras soltas ao vento
Que afugentaram borboletas
E tornaram-me o mundo mais cinzento,
Descoloriram as imagens agora incompletas.
Costumava lamentar-me de tudo
O que de azar me cabia sorte.
Mas calei o grito, tornei-o mudo,
O espasmo vocal que pedia morte
Deste simples eu que apenas exprime
Em palavras nem sempre certas
O que o medo não mais reprime,
Tenho agora portas abertas
A uma nova maneira de ser,
Em vez de sonhar, apenas durmo,
E se perguntam que costumo fazer?
Respondo que agora, já não costumo.

31.8.10

Será que devo?

A meia dúzia de passos
De embarcar numa aventura
Que ainda desconheço os traços
E que será, porventura,
A mais longa distância
Que terei dos teus braços,
E vivo entretanto, nesta ânsia
De serem de regresso estes passos.
Mas ainda não o são
E eu ainda não parti
Mas dentro do coração
Só guardo a saudade de ti.
A vontade só tenho de voltar
Para de onde não quero sair
Por não me apetecer limpar
As lágrimas que ando a carpir
Ainda que inocentemente
Por em mim se ter criado um receio
Que me apoquenta ultimamente
E me traça esta vontade a meio
De querer dar meia volta ao mundo
Conhecer o que do outro lado se faz
Sem nunca cair ao fundo
Do poço onde por agora jaz
O medo do fracasso
E o medo do obscuro.
O tempo é tão escasso
Para me poder sentir seguro...

19.8.10

Estarei vivo?

“Desde pequeno vou à bola,
Largo tudo pra te ver,
Só quero que sues a camisola,
Sou do Braga até morrer...”

Esta é talvez das letras que mais sentido faz para mim nos cânticos da massa adepta do Braga. São 3h30 da manhã e ainda não consegui pregar olho nem despir a camisola do Braga. Da cabeça não me sai toda aquela decoração azul estrelada do AXA, aquela bola gigante agitada no centro do terreno, aquele hino, aquele arrepio, aquela lágrima que teimosamente quer fugir, aquele golo, aquele explodir de alegria, uma abraço aqui, um aperto de mão ali, um grito vindo do estômago com toda a força, um perder de noção de espaço e tempo... numa palavra: loucura!
Pode este resultado ser escasso, pode não ser suficiente na 2ª mão o golo com direito a chupeta, nada disso me importa, porque neste momento sinto-me só dono e senhor do mundo. Um mundo de fantasia, de sonho. Um mundo que quando ia à bola em pequeno estava reservado aos outros, sempre aos outros, e agora eu pude vibrar com as mesmas sensações no meu estádio, na minha cidade, a apoiar o meu clube... Uma parte da cidade não teve noção da grandeza do que se passou naquele cantinho a que apelidamos carinhosamente de “Pedreira”, mas os que lá estiveram, tão cedo não se vão esquecer do que sentiram. Depois de alguns calafrios, um cruzamento teleguiado para a cabeça de Paulo César, proporciona grande defesa a Palop, Matheus encosta a cabeça na “estrelada” e a bola beija suavemente as redes da baliza... Cerram-se os punho, contraem-se os músculos e da garganta sai o mais belo grito no mundo do futebol, é golo, é do Braga, na Champions... Arrepia, dá vontade de sentir um abraço, dá vontade de deixar escorrer uma lágrima? Também a mim! Há quem lhe chame de tudo, eu chamo-lhe amor verdadeiro, paixão descomunal! Para quem como eu sentiu o arrepio ao ler o texto, sabe bem do que estou a falar. São 4h da manhã, e caso se perguntem porque demorei tanto a escrever um texto pequeno, foi porque escrevi cada coisa que mentalmente consigo visualizar e voltar a sentir cada emoção, cada arrepio... Trinta minutos depois, e um sem fim de arrepios no corpo, só vos consigo dizer:

“Durante o ano eu te acompanho,
De norte a sul só pra te ver
Seja em Braga ou noutro estádio
Porque eu sem ti não sei viver...”