4.10.10

Diário da Índia - Dia 11

Inicio de mais uma semana, por Portugal há quem não trabalhe pois aproveitou para prolongar o fim-de-semana, mas por cá eu trabalho, e o dia foi de calor intenso. Consegui voltar à minha forma normal depois de ter aproveitado bem para descansar no tempo que tive livre, e deixei que o suor me escorresse como se necessitasse de secar por dentro, deixei o sangue ferver e encarei o trabalho como um objectivo que não podia falhar, e não falhei, apesar disso não me correu lá muito bem o dia, tive sempre entre 4 a 5 pessoas coladas a mim (e quando digo coladas é a uma distância em que consigo sentir-lhes o bafo a caril) a ver o que eu estava a fazer e a falar e Hindi entre si, e tive um indiano que de tanto me querer ajudar só me estorvava, mas lá consegui dar conta do recado. Acho que me começo a acostumar a esta terra onde se arrota à mesa com toda a vontade e não se pede licença nem desculpa, onde se tem respeito e pena de tudo quanto é ser vivo que se mexa por isso nada de matar os mosquitos que me ferram o corpo todo, onde não ser vegetariano é estranho e é ser diferente e onde dizer que venho de Portugal é como dizer que sou marciano, acho que já me habituei aos bichitos no meu quarto, já nem lhes passo cartão e desvio-me deles para não os pisar e não ser etiquetado de assassino de seres indefesos. Da próxima vez tenho de me lembrar de trazer Fenistil. Num dia que acabou de forma nostálgica, senti uma vontade enorme de correr para uns braços que estão tão longe, e sentir aquele aconchego que senti na partida, deixei escorrer uma lágrima para me lembrar que tenho de suportar isto, e que em breve lá estarei eu a receber esse mesmo abraço mais forte e multiplicado um sem fim de vezes!

3.10.10

Diário da Índia - Dia 10

Domingo, dia de folga, não para toda a gente. Eu trabalho, só de manhã e num ritmo mais baixo que já começa o cansaço a ser muito é certo, mas trabalho. No fundo sinto-me a trabalhar sempre que não estou a dormir, porque os temas de conversa acabam sempre por acabar no trabalho. Preciso de descanso, preciso de algo que me alivie este stress constante, estas pressões pequenas que todas juntam se tornam numa grande. A conversa com amigos era o ideal, mas sem Internet e com um acesso limitado ao telefone não se torna fácil comunicar com os que me são chegados e estão agora tão longe. Vou por isso tentando fazer amigos por aqui, pelo menos para durarem no tempo em que cá estou, sei que nunca mais os vou ver no dia em que partir, mas por estes dias é a eles que me lamento, e com eles que me animo, é com eles que alivio, apesar da língua ser uma entrave há sempre uma maneira de nos exprimir-mos. Escrever já não chega para aliviar as saudades, os telefonemas sabem a pouco, e eu sinto falta de coisas tão básicas que as diferenças de cultura não me dão, mas cá me vou aguentando. Numa tentativa de me distrair e esquecer todo este enorme reboliço de sentimentos, tive neste fim de tarde um jogo de futebol, ou pelo menos algo parecido com isso, um jogo divido por nacionalidades, de um lado 3 portugueses, do outro 4 indianos, o resultado nada importa, até porque na Índia o futebol não é um desporto comum, e eles nem a as regras sabiam, um deles foi a primeira vez que jogou futebol e sentiu-se extremamente feliz por ter marcado um golo! Valeu a pena este tempo passado a dar umas boas corridas e uns valentes chutos na bola, deu para aliviar. Talvez fosse esta a parte mais interessante deste fim de tarde, não fosse o que se passou a seguir extremamente insólito. Fui convidado para ir até à cidade, e lá fui eu, porque oportunidades de sair aqui da fábrica não são muitas. Na volta, o condutor do carro conseguiu infringir a lei mais vezes que uma ambulância do INEM em marcha de urgência, conseguiu andar em contra mão de máximos sempre ligados mesmo quando vinha alguém de frente, sem cinto (coisa que por aqui ninguém usa), a falar ao telemóvel enquanto segurava uma garrafa de cerveja de 1,5l na outra mão! E andam os polícias em Portugal a passar multas de estacionamento nos carros que excederam o tempo do parquímetro…

2.10.10

Diário da Índia - Dia 9

Dia 2 de Outubro é o aniversário de Gandhi, por isso é feriado nacional, mas não é para toda a gente, para mim por exemplo foi dia de trabalho na parte da manhã, e na parte da tarde fui visitar o centro da cidade de Rewa, no fim de uma sesta para recuperar energias, que bem preciso. O caminho de cerca de 11Km até Rewa não é muito fácil de ser feito, ora pela sinuosa estrada, ora pelo trânsito desordenado, ora pelas vacas no meio do caminho, é sempre uma viagem emocionante. Na verdade a cidade não tem muita coisa para ver, tem um museu com animais embalsamados, como tigres, tigres brancos, e outros de pequeno porte, valiosas peças em prata pertencentes à realeza, e a particularidade de apenas se poder visitar o museu descalço. No centro da cidade a azafama é imensa, e atravessar a estrada é uma tarefa árdua com sucessivos avanços e recuos. Existe o chamado mercado, que não passa de uma avenida ladeada de lojas onde se vende sobretudo ouro e roupa, e onde cada loja com porta tem uma pessoa cujo único serviço é abrir e fechar a porta, quando alguém tenciona passar. Escurece e torna-se muito difícil circular por aqui, porque devido à quantidade de luz aqui existente, a quantidade de insectos é muito maior, ao ponto de ser impossível pousar um pé sem esmagar uns quantos bichos, na verdade andamos literalmente em cima dos bichos. É por isso hora de retornar a casa, jantar e voltar a descansar…

1.10.10

Diário da Índia - Dia 8

Mais um escaldante dia de trabalho, mais umas valentes suadelas, mais uns milhentos mosquitos afugentados da minha cara e mais duas básculas prontas num dia que eu pensava que ia acabar cedo! Durante o dia os camionistas que vão ficando surpreendidos com as mudanças, iam-me questionando sobre a finalidade dos dispositivos que estou a montar, em indiano é claro, e eu farto de ouvir falar uma língua que não entendo e farto de tentar falar em inglês para eles e dizer que não percebo o que me dizem decidi falar-lhes em português, respondendo que o que eles vêm vai no futuro servir para tirar gelados e mais tarde café, coisa que por aqui eles acham que é cevada. E lá me fui entretendo assim pelo resto do dia. Consegui até ser atropelado por um insecto de grande porte que me pôs alguns segundos à procura do norte tal foi a pancada no olho esquerdo! E quando pensava que tinha terminado o trabalho por hoje eis que alguém se lembra de fazer testes e configurações, coisa que durou até às nove e meia, e foi preciso apertar para irmos embora caso contrário íamos ficar sem jantar… As refeições são sem dúvida o que mais me custa a passar. O pequeno-almoço é divinal, bem ocidental, com leite, cereais, torradas, fruta, sumo, já as outras refeições são vegetarianas e o esforço deles para fazerem comida ocidental é enorme, mas falta-lhes aquele paladar português, serve simplesmente para tapar o buraco. Amanhã é dia de aniversário, mas não meu…

30.9.10

Diário da Índia - Dia 7

O sol e o calor começam a ficar insuportáveis, e a cor da minha pele está a aproximar-se cada vez mais da cor da pele dos indianos. O cansaço já se faz sentir bastante, o arrastar das minhas pernas é cada vez mais pesado, e a alimentação não ajuda muito, das poucas coisas tragáveis ao paladar português, apenas consigo variar entre arroz seco com bocaditos de cogumelos e pimentos e massa esparguete seca simples, contudo não me sinto a perder peso, sinto-me apenas com menos força, e a falta de folgas tem ajudado a isso. No pouco tempo livre que tenho e em que tento socializar um pouco, só me falam de trabalho, se esta etapa já está pronta, se é possível acabar aquela amanhã, se temos tempo ainda de começar a outra e eu sinto-me cada vez com menos força, e a arrastar-me pelos dias… Vai-me valendo as estranhas coisas que por aqui acontecem para me entreterem o cérebro, hoje descobri que o motorista do meu jipe toma drogas, não das pesadas, mas das outras, ainda perguntei que outras mas fiquei a perceber o mesmo, e não, não são medicamentos, mas ao que percebi é algo que ele precisa mesmo, é sempre positivo ter um motorista que se droga, assim ando sempre de jipe com uma moca! Outra coisa engraçada que descobri é no serviço de lavandaria aqui da residência, eles lavam por fora e sujam por dentro, é que cada peça de roupa que mando para lavar traz o numero três escrito pelo lado de dentro, que é o número do meu quarto. Começo a achar que estou dentro de uma espécie de “Iniciativa Dharma” da série “Lost”, todos vestem os mesmos uniformes cinzentos, são muito simpáticos connosco, estamos rodeados de uma cerca para onde não podemos passar, e lá fora está o mundo com o qual (quase) não temos contacto, os “Outros”. Por falar em contacto começa a ser cada vez mais difícil e complicado falar com as pessoas em Portugal. Via telefone não é fácil perceber os verdadeiros sentimentos que têm, gostava de os ver, saber como realmente estão, abraçá-los. Ligo porque me sinto só, porque preciso esquecer que estou longe, mas não há conversa, as coisas não flúem, não há nada para dizer, apenas perguntar se está tudo bem todos os dias já não chega, preciso de ir para casa, levem-me, tirem-me daqui… Sinto-me perdido, porque me habituei (habituas-te) mal…

«Se não te tivesse conhecido, não tinha gostado de ti. Se não tivesse gostado de ti, não te amava. Se não te amasse, não sentia saudades tuas. Mas conheci, amo e sinto muitas saudades!»


29.9.10

Diário da Índia - Dia 6

A cada dia que passa aprendo algo novo, todos devemos ter a noção que podemos aprender com o mais ignorante dos seres, e não devemos julgar as pessoas pelo aspecto. Depois de ter tostado ontem no sol tórrido que por aqui se faz sentir, hoje nas primeiras horas de trabalho durante a manhã um indiano, veio ter comigo e disse-me que tinha algo para mim, ele comprou um protector solar para mim e eu fiquei sem saber o que lhe oferecer ou dizer para agradecer, porque aqui não tenho nada para retribuir, ele disse que não é necessário qualquer tipo de retribuição, que foi com amabilidade que fez este gesto. No escritório costumam dizer que ele tem um ar ocidental por se vestir de maneira diferente e por ter uma visão fora do normal para os “limites” indianos. É sem qualquer tipo de dúvida o indiano com quem me tenho dado melhor nos últimos dias, passa o dia junto de mim a aprender o que eu faço, e vai-me falando da cultura indiana. Mostrou-me que é normal na índia dois homens casados e com filhos se passearem na rua de mão dada, sem qualquer tipo de problema e sem isso os diminuir na sua masculinidade ou sem o perigo de serem conotados como sendo homossexuais. Num local onde existe tanta pobreza, esta é das poucas maneiras que eles têm de mostrar a sua amizade e mostrarem como querem bem aos outros. É de admirar também como dois dos indianos que me têm ajudado e que não falam inglês, tentam comunicar comigo, por gestos, por símbolos, por palavras que tentam dizer em inglês porque perguntaram a outro que consegue falar, querem sentir-se próximos, querem fazer-me sentir bem num país que não é meu. Perguntam-me pela família, pela namorada, pelos amigos, se estão todos bem, se tenho saudades, se quero voltar, e notam que os meus olhos vidram e a minha voz embarga enquanto tento dizer que sim… Tentam de imediato animar-me, e é com a força deles que me vou aguentando por aqui, numa terra diferente da minha em tudo. Se por um lado estes que nada têm me querem oferecer o mundo, ou pelo menos os sentimentos bons deste mundo, e tanto me têm ensinado, por outro aqueles que tudo têm ensinaram-me que aqui, ser engenheiro e não ser, não é a mesma coisa, ser casado e não ser, não é a mesma coisa, é-se menos, muito menos. Estou misturado no meio do povo, no meio da miséria, mas tenho aprendido muito com eles, posso não conseguir falar com eles, posso não entender o que me dizem, mas sinto o que os olhos deles me mostram, e se as palavras e os sorrisos mentem, os olhos não o conseguem fazer! Já só faltam 6 básculas…

28.9.10

Diário da Índia - Dia 5

Com uma noite bem melhor dormida que a anterior, acordo para mais um dia de trabalho. Toda a gente que encontro me pergunta se me sinto melhor, e no fim do pequeno-almoço, dirijo-me até ao escritório onde tudo quanto era indiano capaz de falar inglês me perguntava se me sentia melhor. É de certa forma estranho o carinho com que me recebem aqui. Começo a comparar a Índia a Portugal, onde toda a gente se preocupa com os que vê na rua. Os indianos são todos muito afáveis, divertidos e simpáticos, gostam é pouco de dar ao cabedal! Durante a manhã dividida entre o armazém e a báscula 7, e a tarde exclusivamente tirada para a báscula 7. Apesar de ter trabalhado o dia todo sobre um sol que atingiu os 37ºC e rodeado de poeira de carvão, o dia rendeu bastante, e além disso fartei-me de dizer e ouvir piadas de um indiano com sentido de humor, que me ensinou que os indianos dão mais valor ao sentimento que às relações, daí eles adorarem andar aos abraços e darem-se bem uns com os outros, ensinou-me ainda que os indianos não fazem ideia do que significa o polegar levantado, daí me olharem com uma cara estranha sempre que o faço, a mesma cara estranha que eu os olho sempre que eles tentam falar para mim em hindi! Já o sol se tinha posto e já os mosquitos não me deixavam trabalhar quando arrumei as ferramentas e percebi que tinha os braços um pouco vermelhos, mas só depois de tomar banho percebi que não era sujidade mas sim os braços e o cachaço a começarem a ficar morenos, morenos demais diria eu! No fim de jantar aproveitei para saber como andava Portugal, o meu Braga joga hoje para a Liga dos Campeões em casa e eu nem oportunidade vou ter de saber que tal está a correr. Apesar disso correu bem a conversa com o sítio onde me sinto melhor, e depois de um passeio pelo parque onde a espaços se consegue vislumbrar um pouco de relva no meio de tantos insectos, resta-me dormir, que tenho mais um dia de trabalho pela frente.

27.9.10

Diário da Índia - Dia 4

A primeira segunda-feira de trabalho não começa da melhor maneira, começa cedo demais, são 3h da manhã e eu acordo gelado e com o estômago a doer. Parou-me a digestão, tento vomitar para melhorar mas não sou capaz, não sai nada, apenas saliva, e a dor não me deixa dormir. Uma hora depois socorro-me do meu vizinho de quarto com alguns medicamentos para males do estômago, tomo-os e volto-me a deitar, volto a sentir as pernas geladas, e o estômago virado do avesso, volto a adormecer já passava das 5h. De manhã acordo já bem melhor e vou até ao refeitório tomar o pequeno-almoço, mas pelo caminho ainda sinto o sabor a pimento que me vem do estômago. Tomo o pequeno-almoço como normalmente tenho feito e vou trabalhar. Já no armazém e enquanto abro alguns caixotes sinto que algo não está bem comigo, as pernas começam a fraquejar, o suor já é demasiado para o calor a esta hora e a visão começa a ficar distorcida. E de uma das vezes que estou sentado sobre os calcanhares alguém repara e me chama o motorista para me levar de volta à residência. Tomo um chá e volto-me a deitar na cama o resto do dia, só saio de lá para jantar às 20h30. Comi pouco, porque ainda sinto algum reboliço no estômago, voltei para a cama, falei ao telemóvel com quem sinto mais saudades e fiquei melhor, espero agora passar bem a noite, e espero amanhã voltar a 100% ao trabalho… Quero ir para casa, rápido…

26.9.10

Diário da Índia - Dia 3

O primeiro dia no terreno foi o terceiro na Ásia, acordo de manhã e vejo que já não existem insectos no chão do quarto, preparo-me então para o pequeno almoço e ao descer as escadas em direcção ao refeitório reparo no trabalho de um dos empregados, andar a varrer os insectos que cá ficaram dentro do chão. No fim do pequeno-almoço dirigimo-nos para o armazém a fim de começar a separar os materiais. Para isso temos a ajuda de cerca de 15 indianos. 15 que não conseguem fazer o serviço de 2. Muito pacatos, sem força, sem vontade de trabalhar e sem iniciativa de qualquer tipo, excesso de homens e falta de força, estorvam-se uns aos outros e não ajudam lá muito, é o que há e é com o que posso contar, percebo então que vou ter de suar muito e desgastar-me bem nos próximos tempos. Apesar de me verem normalmente a falar português ou inglês, eles insistem em falar comigo num dialecto que eu não entendo uma única palavra, bem entendo uma, “tica” significa ok, gostava muito de lhes poder responder mas não consigo já que nem pedir-lhes desculpa por não os entender consigo, e também eles me tratam com grande respeito, juntando as mão no peito e curvando-se sempre que me vêem… Depois lutar contra a curiosidade de cerca de 100 indianos sobre o que seriam aqueles postos que eu ando a montar lá consegui por um posto pronto, o chamado posto de parque. Fora desta barraca onde me encontro, estão a montar o painel informativo em cima de um andaime e subo então até lá cima. Fica mesmo no meio do parque, e depois de suar as estopinhas lá conseguimos colocar o painel fixo nas vigas, debaixo de um calor de cerca de 40ºC, ergo-me vejo o pôr do sol por trás das montanhas e sinto saudades de casa, da família, daquele beijo, daquele abraço… Antes de jantar vamos conhecer outra fábrica que fica aqui bem perto. Existe lá também um templo maior que o daqui, e voltam-me a colocar uma pinta na cabeça desta vez é uma espécie de creme da cor da minha pele e por isso não se nota muito. Em casa do chefe, cujo nome não consigo pronunciar, por isso não sou capaz de o escrever, como uns doces tradicionais indianos um pouco a custo, e aprendo que quando se cumprimentam pessoas muito mais velhas e lhes queremos mostrar respeito devemos curvar-nos e tocar-lhe nos pés, tocando depois no peito. Volto para a residência para jantar, e colocam-me ao lado uma tigela de sopa espanhola, com um aspecto delicioso e um sabor intragável. Ao fim de 3 colheres ponho-a de parte que já não consigo comer mais. Volto no fim para o quarto, para os insectos, para a humidade, ligo a quem mais gosto e deito-me a dormir que amanhã é outro dia, é segunda-feira!

25.9.10

Diário da Índia - Dia 2

O dia 2 é o dia que nos vai levar ao local onde vamos ficar nos próximos tempos instalados, por isso metemos cedo os pés ao caminho porque a viagem de 330km demora cerca de 3 horas. Tive por volta das 8h da manhã o último tratamento de rei por parte do pessoal do hotel e lá nos metemos na selva. Um autentico safari pelas montanhas, com estradas nem sempre pavimentadas, camiões parados em cima de curvas sem qualquer tipo de visibilidade nem sinalização. Por falar em sinalização, os camiões aqui são todos da mesma marca, a nacional Tata. Para os distinguirem os camionistas utilizam o chamado no ocidente de Tunning, sendo que por vezes chego a duvidar se certos apetrechos são mesmo assim ou se estarão partidos, quanto ao triangulo de sinalização é usado somente para enfeitar a frente do camião, e na traseira todos têm pintado “please horn”, coisa que eles se recusam a fazer… se estiverem doentes é claro. Por entre uma mina de diamantes e uma reserva de tigres chamada “Pana”, encontrei a miséria. Gente a viver sem qualquer tipo de condições, sem água potável, sem luz, sem higiene… e comecei a ficar assustado, pois quanto mais me aproximava do local onde vou ficar a trabalhar mais gente via nas mesmas condições. Foi talvez essa a razão de eu ter adormecido uma boa parte da viagem, e quando acordei estava já num cruzamento com um Buda no meio. Era o início do parque de estacionamento de camiões da fábrica, julguei estar próximo, puro engano, estou ainda a cerca de 4 km da fábrica e já está tudo entupido de camiões por aqui. São cerca de 800 os que esperam pela sua vez de entrar na fábrica, e chegam a esperar aqui no parque cerca de 2 a 3 dias. Passado o parque cheio de buzinadelas, travagens bruscas e buracos na estrada eis que chegámos às imediações da fábrica onde vivem numa autêntica miséria os que se tentam safar à custa da fábrica, vivendo do lado de fora dos muros da fábrica, vendem de tudo e mais alguma coisa que possa servir aos camionistas e não só. À entrada dos portões da fábrica tenho um segurança que me faz continência e me deixa sem reacção. Sou levado por entre mais 4 portões e outros tantos seguranças até à residência de hóspedes como eles aqui lhe chamam. Fico a saber que o meu quarto será o número 3. Tenho novamente quem me leve a bagagem até ao quarto e quando abro a porta percebo que isto não se vai comparar em nada com os as últimas duas estadias. A cama com um duro colchão, a cobertura que não passa de um simples edredão, a humidade no tecto, a casa de banho com um chuveiro que se limita a despejar água para o chão, as paredes sarapintadas do bolor e o cheiro a mofo, fazem-me ter a certeza que as próximas semanas serão uma grande aventura. Enquanto espero pelas reuniões para conhecer os próximos parceiros de trabalho tento-me conectar à Internet e descubro que não tenho nem uma ficha de rede, nem tão pouco wireless, deixa-me triste, e faz-me lembrar que vai custar ainda mais suportar as saudades e a ausência de notícias… Depois das reuniões da praxe, faço uma visita guiada pela fábrica e pelos locais onde vou ter de intervir e percebo então no mundo onde me tinha metido. A fábrica tem talvez o tamanho da cidade de Braga e à volta só conseguimos ver poeira, sujidade, e falta de condições de trabalho. Vem depois a visita à povoação que fica dentro da fábrica e onde mora a maioria dos trabalhadores. No centro existe um local de oração. Deixo as sapatilhas entregues a um milhar de insectos e subo descalço as escadas até ao templo. Lá dentro esta a pessoa que zela pelo espaço, que me pede para me ajoelhar, deita-me uma espécie de água nas mãos e me diz para passar pela cabeça, pede-me depois que puxe o meu cabelo junto à testa para trás e crava-me uma pinta vermelha entre as duas sobrancelhas, no fim dá-me “docinhos” para comer. Regresso então à residência para jantar, e percebo que se preocuparam em fazer-me comida bem ao estilo ocidental, tirando a parte em que toda a comida tem levar pimento. Começo a ficar com algum receio da residência. Os trabalhadores aqui parecem escravos, andam todos vestidos de igual, com umas largas calças cinzentas e com uma camisola de manga comprida também ela muito larga, e tratam-me como seu eu fosse uma espécie de rei, com muita cerimonia e juntado as mão no peito fazem-me uma vénia, sinto-me estranho e perdido neste mundo… Regresso então ao meu quarto, parecido com uma cela, e vou tomar um banho que bem estava a precisar, mas percebo que não importa para que lado vire o manipulo, a água tem sempre a mesma temperatura, nem quente, nem fria, morna! Mais tarde explicaram-me que aqui não se utilizam esquentadores mas sim “arrefecedores” de água. No fim de tomar o meu banho morno, e enquanto me limpava, vejo no chão um insecto parecido com uma pulga mas que não ferra nem salta e decido enviá-lo pelo ralo abaixo, mas percebo então que ele não está só, e existem cerca de 10 outros iguais a ele, desisti de os tentar retirar do meu quarto e fui dormir na esperança de estar a dormir sozinho nesta cama, esperando que os insectos se passeiem apenas pelo chão!