Começou a contagem decrescente num dia que nada tem de diferente dos últimos, o mesmo cansaço, a mesma falta de ânimo, o mesmo desgaste que me carrega nos ombros e que só vai sendo acalentado pelas palavras recebidas por telemóvel. Deixei o dia ir passando enquanto me tentava distrair com o trabalho, mas o pensamento cravou-se numa espécie de retrospectiva de todo o trabalho que por aqui já fiz e não me deu vontade de continuar, senti-me fraco demais para poder erguer a mão lutar contra todas estas forças. Não me sinto capaz de me animar, e continuo a mentir, mas pior do que tudo é que comecei a tentar enganar-me a mim próprio, comecei a tentar negar a falta que me faz acabar com esta ausência insistente, comecei a tentar negar a necessidade de desabafar, comecei a tentar mentalizar-me que chorar não ajuda. Preciso de um novo fôlego, estou exausto, tolhido, perdido. Preciso de um abraço, de uma carinho que me diga que tudo vai correr bem, de uma palavra que me faça ganhar força e lutar contra tudo e todos. Já não há aventura na Índia, apenas o passar dos dias que penam, já nada é novo, nada me entusiasma a ver o dia nascer, os insectos já são menos, ou já me habituei de tal forma que nem os noto… Seja como for continuo aqui, e é com isso que tenho de contar!
11.10.10
10.10.10
Diário da Índia - Dia 17
Hoje é Domingo, e para mim é o terceiro em que não descanso, porque alguém assim o quer, e porque não tenho eu direito a opção. É o dia do arranque, um dia importante para todos, o dia da inauguração, e a tradição nas inaugurações aqui é bem diferente do nosso tradicional abrir de champanhe. Por cá fazem-se oferendas aos Deuses para afastar os males, e para isso oferece-se ao servidor, aos computadores e aos sistemas montados, bananas, cocos e doces… Num ritual estranho partem-se os cocos e derrama-se por cima do que se quer proteger. Lá se fez a inauguração, e lá se passou a parte da manhã. À tarde, que voltou a não ser de descanso. Tive uma enorme surpresa que me ajudou a alegrar. Um miúdo de 16 anos veio ter comigo e tentou falar comigo em inglês. Era muito educado e estava sempre muito atento ao que eu lhe ia dizendo, na conversa confessou-me que era a primeira vez que estava a ter oportunidade de falar inglês com alguém, e que eu era o primeiro estrangeiro que ele via e com quem falava, até então só os tinha visto na televisão. Expliquei-lhe que eu não era nada mais do que ele, que era uma pessoa normal que apenas vinha de um pais que ele desconhecia, mas ele fez questão de se mostrar encantado por estar a falar inglês e por alguém o conseguir entender numa língua que não é a dele, ele fez-me lembrar que às vezes damos demasiada importância a coisas que não deveriam ter importância nenhuma, e que deveríamos valorizar outras às quais não passamos cartão. Fez-me bem aquele tempo que passei com o miúdo, e o telemóvel que hoje me deixa comunicar bastante bem com Portugal trouxe-me um novo alento para encarar a última semana.
9.10.10
Diário da Índia - Dia 16
Acordei com a esperança de tornar este dia num ponto de viragem, mas fracassei 20 minutos depois de despertar. Voltei a tomar o pequeno-almoço sozinho, voltei a lembrar-me da falta que me fazem as pessoas que mais gosto e voltei a cair no erro de me deixar acinzentar, de me deixar ficar mal-humorado e já nem a musica me anima. O trabalho, esse voltou a ser feito aos soluços, sem grande rendimento e sem poder “entreter” o cérebro para esquecer tudo o resto. Há atitudes que me deixam com vontade de largar tudo e gritar bem alto “para mim já chega”, dá-me vontade de virar as costas a tudo e não me importar com as consequências. Fartei-me, e já não consigo disfarçar mais, consigo apenas mentir, mas minto mal, ninguém acredita em mim. Continuo exausto, cansado do trabalho e já mal suporto o calor e o sol. Nunca imaginei que pudesse ser tão difícil querer explicar algo a alguém e não ser capaz por falar uma língua diferente, o que me leva por vezes a desejar não entender a minha própria língua. Hoje há horas extras a fazer, amanhã é o dia do arranque do sistema que ainda não está completo, ainda há muito a fazer e eu não aguento muito mais… Sinto-me a morrer por dentro…
8.10.10
Diário da Índia - Dia 15
Mais um dia em que tentei apenas ir arranjando que fazer, obedecendo a ordens que nem sempre concordo, calando as ideias que guardo em mente e me fazem torcer o bico, me fazem mostrar uma cara de desagrado mesmo não querendo mostrar. Odeio ter de arranjar que fazer quando na verdade não tenho, ou se tenho não o posso fazer, ou porque não me deixam, ou porque não me dão liberdade de escolher. Arrastou-se o dia e arrastei-me eu por onde passava. O corpo estava cá, a cabeça na lua, e o coração perdido tentando encontrar o caminho de regresso para onde nunca deveria ter saído. Ainda não me consegui mentalizar que vou cá estar mais de uma semana, continuo a sentir-me isolado do mundo ao qual pertenço e duas semanas depois ainda não me consegui adaptar a esta nova cultura. A minha cara mudou, está mais rude, mais seca, e eu estou perdido, mantenho a calma por fora mas por dentro o reboliço deixa-me doido, fervo os nervos que me tiram do sério, e desejo regressar a casa, ontem de preferência!
7.10.10
Diário da Índia - Dia 14
Acordei cinzento como o dia, não que aparente chuva, mas o sol anda meio escondido. A temperatura baixou, mas não o suficiente, e a indefinição de como vai ser o dia deixa-me com estômago às voltas. Por falar em estômago, sinto cada vez mais a falta de carne e de peixe na ementa diária. Deixei que o dia se arrastasse entre pequenas arestas que faltam limar, e entre arestas que alguns decidem criar. Foi precisamente uma dessas arestas que me fez perder a calma, pôs-me o sangue em reboliço e não aguentei mais, fartei-me de engolir sapos e abanar a cabeça, não insultei ninguém mas dei a entender que não estava virado para ser saco de boxe. Estou farto de uma terra que não é minha e que não me diz nada, estou farto de tostar ao sol todo o dia em pé, estou farto de me sentir fraco, cansado, totalmente esgotado ao fim 14 dias de trabalho ininterrupto, preciso de descansar, preciso de pôr as ideias em ordem, preciso de ir embora daqui. Chegou o dia que eu mais temia, o dia em que a aventura ia deixar de ter ilusão, ia deixar de ser novidade e se ia tornar numa monotonia que não me agrada. Custa olhar em frente e ver o que ainda falta, custa encarar cada dia como sendo apenas mais um, custa lidar com as saudades e sentir-me distante de tudo o que mais quero. Custa não ter ninguém para falar e custa cada vez mais mentir que está tudo bem quando na verdade estou a segurar as lágrimas para não caírem enquanto me mentalizo que tenho de ser mais forte ainda e quando me apetece largar tudo e correr em direcção a um pouco de carinho. Sinto-me encarcerado, rotinado e estou farto, estou cansado, quero ir embora, já…
6.10.10
Diário da Índia - Dia 13
Hoje foi o primeiro dia da segunda parte da aventura, metade da duração da estadia já passou, agora falta a outra metade! E para começar a segunda parte da melhor maneira, nada melhor que acabar com o trabalho mais duro e mais sujo, ou pelo menos assim acho eu! Desta vez sem o meu ajudante e intérprete habitual, lá tive de me desenrascar sozinho a tentar falar com o motorista numa língua que nem eu sei bem o que era! Mas lá fez o obséquio de me entender e ajudar. Ao fim de cerca 3 horas e de 4kg de pó de cimento misturado com carvão em cima, lá acabei de montar a última báscula! Da parte da tarde foram feitas as configurações da praxe e ficam agora a faltar só pequenos ajustes e acabamentos. Houve ainda tempo para eu conseguir dar uma espreitadela na minha atulhada caixa de e-mail, e descansar alguns, dando finalmente notícias através do facebook, não sei é se lá vou conseguir voltar tão cedo! O final do dia terminou em amena cavaqueira, um pouco também para esquecer a distância que nos separa de Portugal.
5.10.10
Diário da Índia - Dia 12
Hoje é feriado, não para mim como é óbvio, mas para alguns que habitam a uns milhares de quilómetros da Índia. Assim sendo, lá volto eu à minha rotina de acordar cedo e verificar que o sol lá fora já brilha, o que significa que tenho água morna na torneira marcada a azul, e água a ferver na torneira marcada a vermelho. Descubro que tenho mais uma mordidela de mosquito numa perna e lá vou eu para o trabalho cheio de vontade de acabar com isto, e da parte da manhã foram talvez as horas que melhor me correram, nem dei pelo tempo passar e o trabalho era como se voasse das minhas mãos. Voltei a casa para o almoço e tive a felicidade de comer um prato bem português, comi feijoada! Juntei um pouco de arroz sem sal, e consegui um sabor quase português. Ainda assim sinto falta de coisas tão básicas e simples que não passa pela cabeça de ninguém. Um dia destes acordei com vontade de comer um bife, com batatas fritas e um ovo estrelado, isto de ser vegetariano à força não é nada fácil, até do pão sinto falta, ou de um iogurte, coisas que quando estou por Portugal são banais. Deixo-me passar pelas brasas no fim de almoço com paladar português e ao despertar consegui, imaginem só, escaldar uma mão ao abrir a torneira… da água fria! Na Índia é tudo possível… Talvez por me ter escaldado a tarde já se arrastou mais um pouco e ao cair da noite fiquei um pouco mais nostálgico, e deixei as saudades baterem à porta, foi-me valendo que hoje o telemóvel deixa-me receber mensagens e fui falando com os amigos para tentar apaziguar a saudade. Contudo não me posso queixar de falta de companhia, hoje tenho especialmente o quarto cheio de insectos! Não sei o que se passa, talvez um dos residentes do meu quarto faça anos e tenha decidido dar cá uma festa, tive de fazer um esforço para não pisar nenhum no caminho até à cama. Já lhes pedi para fazerem pouco barulho que quero dormir e para se deixarem ficar pelo chão, nada de me vir fazer companhia durante a noite para a cama, espero que obedeçam senão acabam-se as festarolas à semana aqui no quarto, ficam desde já avisados!
4.10.10
Diário da Índia - Dia 11
Inicio de mais uma semana, por Portugal há quem não trabalhe pois aproveitou para prolongar o fim-de-semana, mas por cá eu trabalho, e o dia foi de calor intenso. Consegui voltar à minha forma normal depois de ter aproveitado bem para descansar no tempo que tive livre, e deixei que o suor me escorresse como se necessitasse de secar por dentro, deixei o sangue ferver e encarei o trabalho como um objectivo que não podia falhar, e não falhei, apesar disso não me correu lá muito bem o dia, tive sempre entre 4 a 5 pessoas coladas a mim (e quando digo coladas é a uma distância em que consigo sentir-lhes o bafo a caril) a ver o que eu estava a fazer e a falar e Hindi entre si, e tive um indiano que de tanto me querer ajudar só me estorvava, mas lá consegui dar conta do recado. Acho que me começo a acostumar a esta terra onde se arrota à mesa com toda a vontade e não se pede licença nem desculpa, onde se tem respeito e pena de tudo quanto é ser vivo que se mexa por isso nada de matar os mosquitos que me ferram o corpo todo, onde não ser vegetariano é estranho e é ser diferente e onde dizer que venho de Portugal é como dizer que sou marciano, acho que já me habituei aos bichitos no meu quarto, já nem lhes passo cartão e desvio-me deles para não os pisar e não ser etiquetado de assassino de seres indefesos. Da próxima vez tenho de me lembrar de trazer Fenistil. Num dia que acabou de forma nostálgica, senti uma vontade enorme de correr para uns braços que estão tão longe, e sentir aquele aconchego que senti na partida, deixei escorrer uma lágrima para me lembrar que tenho de suportar isto, e que em breve lá estarei eu a receber esse mesmo abraço mais forte e multiplicado um sem fim de vezes!
3.10.10
Diário da Índia - Dia 10
Domingo, dia de folga, não para toda a gente. Eu trabalho, só de manhã e num ritmo mais baixo que já começa o cansaço a ser muito é certo, mas trabalho. No fundo sinto-me a trabalhar sempre que não estou a dormir, porque os temas de conversa acabam sempre por acabar no trabalho. Preciso de descanso, preciso de algo que me alivie este stress constante, estas pressões pequenas que todas juntam se tornam numa grande. A conversa com amigos era o ideal, mas sem Internet e com um acesso limitado ao telefone não se torna fácil comunicar com os que me são chegados e estão agora tão longe. Vou por isso tentando fazer amigos por aqui, pelo menos para durarem no tempo em que cá estou, sei que nunca mais os vou ver no dia em que partir, mas por estes dias é a eles que me lamento, e com eles que me animo, é com eles que alivio, apesar da língua ser uma entrave há sempre uma maneira de nos exprimir-mos. Escrever já não chega para aliviar as saudades, os telefonemas sabem a pouco, e eu sinto falta de coisas tão básicas que as diferenças de cultura não me dão, mas cá me vou aguentando. Numa tentativa de me distrair e esquecer todo este enorme reboliço de sentimentos, tive neste fim de tarde um jogo de futebol, ou pelo menos algo parecido com isso, um jogo divido por nacionalidades, de um lado 3 portugueses, do outro 4 indianos, o resultado nada importa, até porque na Índia o futebol não é um desporto comum, e eles nem a as regras sabiam, um deles foi a primeira vez que jogou futebol e sentiu-se extremamente feliz por ter marcado um golo! Valeu a pena este tempo passado a dar umas boas corridas e uns valentes chutos na bola, deu para aliviar. Talvez fosse esta a parte mais interessante deste fim de tarde, não fosse o que se passou a seguir extremamente insólito. Fui convidado para ir até à cidade, e lá fui eu, porque oportunidades de sair aqui da fábrica não são muitas. Na volta, o condutor do carro conseguiu infringir a lei mais vezes que uma ambulância do INEM em marcha de urgência, conseguiu andar em contra mão de máximos sempre ligados mesmo quando vinha alguém de frente, sem cinto (coisa que por aqui ninguém usa), a falar ao telemóvel enquanto segurava uma garrafa de cerveja de 1,5l na outra mão! E andam os polícias em Portugal a passar multas de estacionamento nos carros que excederam o tempo do parquímetro…
2.10.10
Diário da Índia - Dia 9
Dia 2 de Outubro é o aniversário de Gandhi, por isso é feriado nacional, mas não é para toda a gente, para mim por exemplo foi dia de trabalho na parte da manhã, e na parte da tarde fui visitar o centro da cidade de Rewa, no fim de uma sesta para recuperar energias, que bem preciso. O caminho de cerca de 11Km até Rewa não é muito fácil de ser feito, ora pela sinuosa estrada, ora pelo trânsito desordenado, ora pelas vacas no meio do caminho, é sempre uma viagem emocionante. Na verdade a cidade não tem muita coisa para ver, tem um museu com animais embalsamados, como tigres, tigres brancos, e outros de pequeno porte, valiosas peças em prata pertencentes à realeza, e a particularidade de apenas se poder visitar o museu descalço. No centro da cidade a azafama é imensa, e atravessar a estrada é uma tarefa árdua com sucessivos avanços e recuos. Existe o chamado mercado, que não passa de uma avenida ladeada de lojas onde se vende sobretudo ouro e roupa, e onde cada loja com porta tem uma pessoa cujo único serviço é abrir e fechar a porta, quando alguém tenciona passar. Escurece e torna-se muito difícil circular por aqui, porque devido à quantidade de luz aqui existente, a quantidade de insectos é muito maior, ao ponto de ser impossível pousar um pé sem esmagar uns quantos bichos, na verdade andamos literalmente em cima dos bichos. É por isso hora de retornar a casa, jantar e voltar a descansar…
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