Hoje não deixei o despertador tocar, despertei eu primeiro que ele, a ânsia de voltar é tanta que acordei antes do tempo e levantei-me logo. Acordei o meu vizinho de quarto e apressei-me a ir tomar o pequeno-almoço. Sem saber ao certo se realmente ia-mos partir ou não, enfiei as malas no carro e fomos esperar pela resolução da reunião que iria decidir a nossa partida, ou o retardamento da mesma. É inacreditável como tão perto do fim ainda não sei se será mesmo o fim, ou apenas uma pedra no sapato dos dias que se avizinham… Temos como limite para a partida as 9h da manhã, a reunião começou às 8h30 e o meu estômago esta prestes a explodir de nervos, já não consigo controlar o abanar das pernas constante nem os suores que me percorrem o corpo… São 9h03m, acaba a reunião e a decisão é favorável à nossa partida, despedimo-nos rapidamente e metemos pés ao caminho que em 300Km nos separa do aeroporto, aquele que tem ar de uma central de camionagem. Por entre vacas, cascatas, calafrios, ultrapassagens arriscadas, carros e motas enviados à valeta, buzinadelas aqui, ali e acolá, lá chegamos ao aeroporto, agora já me consigo rir, finalmente vou embora da Índia, finalmente vou para Portugal, mas tenho ainda um longo caminho a percorrer. Ao fim de 3 horas de ter levantado voo de Kajuraho, aterramos em Delhi, e uma vez dentro do aeroporto, limitamo-nos a esperar 10 horas pelo voo atrasado uma hora que nos levaria de volta a Frankfurt durante a noite, numa jornada de cerca de 8 horas. Sem nada para fazer, tentou-se matar o tempo com algo que tapasse o buraco no estômago e principalmente a dormir, ou pelo menos a tentar…
17.10.10
16.10.10
Diário da Índia - Dia 23
Hoje será o último dia completo que passo cá. Por entre o registo fotográfico do trabalho cá deixado e a visita aos novos equipamentos por parte de quem mais ordena por aqui lá se foi passando a manhã. De tarde fez-se a reunião e deu-se por concluída esta fase de instalação de equipamentos. Depois de uma nova visita a Rewa para nos despedir-mos da cidade que não deixa grande saudade, foi hora de encontrar alguém que nos ofereceu uma imagem de um Deus para trazer de recordação, e à chegada à casa de hóspedes um balde de gelo se abateu sobre nós. Era já noite quando decidimos ligar a agradecer a hospitalidade num acto de cortesia. Do outro lado do telefone informam-nos que temos uma reunião marcada para amanhã às 8h30 da manhã e nem as nossas tentativas de recusa devido à forte possibilidade de perder o avião serviram para recuarem na decisão. O desalento estampou-se na minha cara e foi sem vontade que acabei de fazer a mala, o jantar ficou a meio, e não conseguia encontrar solução para contornar o problema. Liguei para casa mas não disse que afinal podia não ser feito amanhã o meu regresso. Resta-me dormir, secar as lágrimas, e esperar que amanhã as coisas se resolvam rapidamente, temos apenas 30 minutos de folga para concluir a reunião… Eu preciso ir embora!
15.10.10
Diário da Índia - Dia 22
Com o fim cada vez mais perto, os dias começam a ser menos pesados. Pesado fica apenas o tempo que teima em não passar. Olho para trás e começo a ver o que deixei feito, as aventuras que passei, as lágrimas que deixei escorrer, os choques de culturas constantes, todas as marcas que ficarão para sempre gravadas nesta vida que faço por ser minha. Falta ainda um dia de trabalho, que apesar de aqui ser feriado, eu não o vou gozar por completo. Nesta espécie de vila fechada do mundo exterior, a minha história está prestes a encontrar o fim de um capítulo, comigo vou levar as novas amizades, o carinho com que fui tratado, e as lições de vida dadas por quem pouco mais pode dar, mas que o pouco que tem, dá com todo o gosto, levo os sorrisos sinceros das crianças que me acham piada por ser diferente, por não usar bigode, por vestir de maneira diferente, por eu não os entender e eles não me entenderem a mim, por acharem que saí da televisão que eles têm em casa, mas que ainda assim não têm medo de mim, e sorriem porque são felizes com o pouco que têm. Amanhã é dia de acabar de preparar a mala e dar meia volta ao mundo em 2 dias, para ver o que de mais precioso deixei em Portugal… Até já!
14.10.10
Diário da Índia - Dia 21
Esperava um dia mais leve, mas as poucas horas dormidas fizeram-me sentir o dia a arrastar-se por entre o pó dos camiões, os pneus que rebentam levantando uma poeira comparada a uma granada e uma dor de cabeça que me deixou louco! Começa a chegara hora da despedida desta terra que tem agora a minha marca. Gostava de ajudar algumas pessoas que cá ficam, porque sinto que me deram muito apesar do nada que têm. Por vezes era o sorriso deles ou as palavras que eu não entendia e que eles a custo me quiseram ensinar que me faziam encarar o dia com outro sorriso, com outra vontade, com outro gosto. Gostava de os poder ajudar, de lhes poder agradecer, de lhes poder dar uma vida melhor, porque sem dúvida que merecem, e de certeza que não tiveram outra escolha. Amanhã será possivelmente o último dia de trabalho, talvez já mais calmo com pequenos retoques e afinações, e com o registo fotográfico para catalogar todo o trabalho aqui dispendido. A ver vamos como corre, ou se na verdade vai ser mais um que se arrasta…
13.10.10
Diário da Índia - Dia 20
E ao vigésimo dia nada mudou. Continuo cada vez mais cansado, sedento de carne, com vontade de ir para o meu país e deixar este continente que piso pela primeira vez. Cada vez me custa mais trabalhar, sinto o corpo dorido e a pedir descanso, adormeço em qualquer canto e esquina sempre que paro de trabalhar, começo agora a perceber a falta de rapidez dos indianos. Eles são assim porque não podem ser de outra maneira, quem trabalha 6 dias e meio numa semana de 7 dias tem de se poupar para aguentar. Apesar de tentar distrair o pensamento entre piadas e atitudes que me fazem tentar alterar o humor e o estado de espírito, não consigo esconder o desligar cerebral que me transporta a mente até Portugal, aos braços de quem me quer bem. Como se já não chegassem as saudades das pessoas e da comida, hoje veio ainda uma vontade imensa de conduzir… que virá amanhã? Para consolo valeu fazer os testes finais e verificar que já está tudo a funcionar, passaporte carimbado para regressar à base, está quase!
12.10.10
Diário da Índia - Dia 19
Continuo sem me habituar ao sol e ao calor. Acordo com o termómetro a marcar 32ºC e consegue rondar durante o dia os 40ºC. Eu passo o dia ao sol, e consigo até sentir a camisola a queimar-me a pele. Aqui tudo queima, as portas dos carros, as ferramentas esquecidas ao sol, os equipamentos que ando a montar, tudo o que recebe a luz do sol. A água é bebida quase sempre morna ou natural porque por muito que se tente encontrar uma sombra para a esconder ela acaba por aquecer. O meu corpo não se habitua e de cada vez que saio lá fora é como se levasse uma chapada que me tolhe o corpo e me tira toda a força, custa respirar com o calor mas custa ainda mais quando o pó do cimento faz parecer que está um dia com nevoeiro intenso. É um país diferente, uma cultura estranha para mim, onde se oferecem doces nos templos, onde andar com uma marca no centro da testa é normal e ninguém faz caso disso, onde os camiões não terem portas ou vidros é normal, onde comer com uma faca é ser estranho, onde jogar futebol e saber as regras é algo de fenomenal, é a Índia, um país que se orgulha de afirmar que na Índia tudo é possível, até mesmo um português cá vir, fazer amigos, e aprender um monte de coisas a nível de sentimentos e de valores morais. Já levei a minha bofetada de cultura, agora preciso voltar ao ponto de partida, que será a minha chegada, preciso voltar à minha normalidade, e lembrar para sempre estas diferenças que começam a ser cada vez mais iguais!
11.10.10
Diário da Índia - Dia 18
Começou a contagem decrescente num dia que nada tem de diferente dos últimos, o mesmo cansaço, a mesma falta de ânimo, o mesmo desgaste que me carrega nos ombros e que só vai sendo acalentado pelas palavras recebidas por telemóvel. Deixei o dia ir passando enquanto me tentava distrair com o trabalho, mas o pensamento cravou-se numa espécie de retrospectiva de todo o trabalho que por aqui já fiz e não me deu vontade de continuar, senti-me fraco demais para poder erguer a mão lutar contra todas estas forças. Não me sinto capaz de me animar, e continuo a mentir, mas pior do que tudo é que comecei a tentar enganar-me a mim próprio, comecei a tentar negar a falta que me faz acabar com esta ausência insistente, comecei a tentar negar a necessidade de desabafar, comecei a tentar mentalizar-me que chorar não ajuda. Preciso de um novo fôlego, estou exausto, tolhido, perdido. Preciso de um abraço, de uma carinho que me diga que tudo vai correr bem, de uma palavra que me faça ganhar força e lutar contra tudo e todos. Já não há aventura na Índia, apenas o passar dos dias que penam, já nada é novo, nada me entusiasma a ver o dia nascer, os insectos já são menos, ou já me habituei de tal forma que nem os noto… Seja como for continuo aqui, e é com isso que tenho de contar!
10.10.10
Diário da Índia - Dia 17
Hoje é Domingo, e para mim é o terceiro em que não descanso, porque alguém assim o quer, e porque não tenho eu direito a opção. É o dia do arranque, um dia importante para todos, o dia da inauguração, e a tradição nas inaugurações aqui é bem diferente do nosso tradicional abrir de champanhe. Por cá fazem-se oferendas aos Deuses para afastar os males, e para isso oferece-se ao servidor, aos computadores e aos sistemas montados, bananas, cocos e doces… Num ritual estranho partem-se os cocos e derrama-se por cima do que se quer proteger. Lá se fez a inauguração, e lá se passou a parte da manhã. À tarde, que voltou a não ser de descanso. Tive uma enorme surpresa que me ajudou a alegrar. Um miúdo de 16 anos veio ter comigo e tentou falar comigo em inglês. Era muito educado e estava sempre muito atento ao que eu lhe ia dizendo, na conversa confessou-me que era a primeira vez que estava a ter oportunidade de falar inglês com alguém, e que eu era o primeiro estrangeiro que ele via e com quem falava, até então só os tinha visto na televisão. Expliquei-lhe que eu não era nada mais do que ele, que era uma pessoa normal que apenas vinha de um pais que ele desconhecia, mas ele fez questão de se mostrar encantado por estar a falar inglês e por alguém o conseguir entender numa língua que não é a dele, ele fez-me lembrar que às vezes damos demasiada importância a coisas que não deveriam ter importância nenhuma, e que deveríamos valorizar outras às quais não passamos cartão. Fez-me bem aquele tempo que passei com o miúdo, e o telemóvel que hoje me deixa comunicar bastante bem com Portugal trouxe-me um novo alento para encarar a última semana.
9.10.10
Diário da Índia - Dia 16
Acordei com a esperança de tornar este dia num ponto de viragem, mas fracassei 20 minutos depois de despertar. Voltei a tomar o pequeno-almoço sozinho, voltei a lembrar-me da falta que me fazem as pessoas que mais gosto e voltei a cair no erro de me deixar acinzentar, de me deixar ficar mal-humorado e já nem a musica me anima. O trabalho, esse voltou a ser feito aos soluços, sem grande rendimento e sem poder “entreter” o cérebro para esquecer tudo o resto. Há atitudes que me deixam com vontade de largar tudo e gritar bem alto “para mim já chega”, dá-me vontade de virar as costas a tudo e não me importar com as consequências. Fartei-me, e já não consigo disfarçar mais, consigo apenas mentir, mas minto mal, ninguém acredita em mim. Continuo exausto, cansado do trabalho e já mal suporto o calor e o sol. Nunca imaginei que pudesse ser tão difícil querer explicar algo a alguém e não ser capaz por falar uma língua diferente, o que me leva por vezes a desejar não entender a minha própria língua. Hoje há horas extras a fazer, amanhã é o dia do arranque do sistema que ainda não está completo, ainda há muito a fazer e eu não aguento muito mais… Sinto-me a morrer por dentro…
8.10.10
Diário da Índia - Dia 15
Mais um dia em que tentei apenas ir arranjando que fazer, obedecendo a ordens que nem sempre concordo, calando as ideias que guardo em mente e me fazem torcer o bico, me fazem mostrar uma cara de desagrado mesmo não querendo mostrar. Odeio ter de arranjar que fazer quando na verdade não tenho, ou se tenho não o posso fazer, ou porque não me deixam, ou porque não me dão liberdade de escolher. Arrastou-se o dia e arrastei-me eu por onde passava. O corpo estava cá, a cabeça na lua, e o coração perdido tentando encontrar o caminho de regresso para onde nunca deveria ter saído. Ainda não me consegui mentalizar que vou cá estar mais de uma semana, continuo a sentir-me isolado do mundo ao qual pertenço e duas semanas depois ainda não me consegui adaptar a esta nova cultura. A minha cara mudou, está mais rude, mais seca, e eu estou perdido, mantenho a calma por fora mas por dentro o reboliço deixa-me doido, fervo os nervos que me tiram do sério, e desejo regressar a casa, ontem de preferência!
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