13.1.11

Sem igual

De te descrever parei de tentar,
A quem pergunta porque sorrio afinal.
Digo só que o sentimento é como o mar
Enorme, apaixonante, mas sem o sabor a sal.
Aquele sal que escorre pela face
Que nenhum de nós saboreou
Não existe, fizeste com que secasse
A fonte que antes brotou.
A tua mão trouxe-me o conforto
Em suaves carícias que me dão.
No teu peito encontrei o porto
Que serve de abrigo a um coração
Eternamente derretido
Pelo calor do teu abraço,
Pelo carinho garantido,
Por me teres guardado um espaço
Nesse mundo onde és Rainha,
De um reino a cores pintado,
Onde sonhei que serias minha
E que esse sonho seria realizado.
Dos teus lábios deixa-me sentir o mel
Que me adoça o paladar,
Dos meus sairão palavras sem fel
Pois sou feliz só por te amar…

15.12.10

Recado


Pudesse eu não te sentir doer
Sem significar que não existisses,
Pudesse eu a tua dor sofrer
Para que bem tu te sentisses.
Não seria mais pobre do que sou
Nem ficaria a minha alma mais ferida
Por não sair do sitio onde estou
Mesmo que no chão esteja escrito partida.
Não tenho vontade de voltar a correr
Nas veias da vida que me sustém,
De sangue já me fartei ser
Por não ser derramado por ninguém.
Só te peço que pares de me bombear
E me deixes ficar aqui, quieto,
As minhas mágoas a soluçar
Sem ter de sentir qualquer afecto.
Deixa-me ficar com o que te mói,
Deixa-me sofrer por ti,
Para poderes dizer que já não dói,
A lágrima que cair não vi.
Reduz-me à insignificância que tenho
Desdenha-me até te sentires leve,
Culpa-me pela falta de empenho
Do recado que esta mão escreve…

17.11.10

Não sei voar

Não dançarei a valsa que me tocas
Por não ter asas que ma deixem voar,
Tornaram-me a alma e a mente ocas,
Sem sentimentos… abafo, sem ar.
Cortara-me me as asas e já não te acompanho,
Não tiro, assim, ao teu esvoaçar beleza
Por entre jardins e prados floridos
Restando em mim apenas a fraqueza
De rastejar por mundos descoloridos
Monocromáticos, tristes e sem vida.
Apenas a dor de uma trovoada imensa
E da penosa chuva agora aparecida
Fica só o amolecer da caminhada extensa
Em busca da felicidade que não me apetece
Apaziguando a dor que me endurece
Me torna menos sentimental
Já que eu nem sequer sei voar afinal…

16.11.10

Ergue-me

Custa voltar a erguer a espada
Que antes caiu por falta de força.
Antes que o meu pescoço torça
E a minha alma seja iluminada
Deixa-me só soltar um grito,
Juro que não te peço mais nada,
Apenas que não me deixes aflito
E deixes sair estas palavras quentes
Presa nas cordas da garganta
E ameaçadas de morte pelos dentes
Que este vociferar espanta.
Só queria apagar esta dor
E voltar a ter o mesmo fulgor
De tempos que já mal me lembro.
Talvez tenha sido outro Novembro
Mais frio, menos chuvoso
Por entre o cheiro do gelar gostoso.
Não sei, já não sei nada…
Sei que me caiu a espada
E não a estou a conseguir erguer
Resta-me apenas a vontade…
Já não sei do querer…
Não me mintas, diz-me a verdade!

31.10.10

(Já) não sou poeta

Não sei de onde apareceu
Tamanho saber para pôr em escrita
O que escondo por baixo do véu
Que cobre esta mente aflita
E me faz mostrar uma paz interior,
Um sorriso na cara que nem sempre apetece,
Mas que me faz pensar ser superior
A este inverno que me arrefece.
As mãos geladas são o prenuncio
De que algo está em mudança em mim,
Um golpe infligido sem anuncio
Parece a este dom ter mostrado o fim.
Acabou-se a facilidade de versejar,
Os poemas já não fazem sentido
Não sou mais capaz de rimar
Um verso com um sentimento escondido.
Perdi a minha veia poética,
Algures na cama onde me deito,
E não quero o excerto de uma sintética
Que me fará rimar o que não sente o peito.
Há-de ela, voltar um dia
Para este corpo que me carrega alma
Que por agora não conhece alegria
Por lhe faltar o dom que a acalma.
Lá se foi o meu alento
Arrefecido pelo frio, diluído pela chuva,
Levado para longe por este vento
Que me devolve a visão turva
De uma vida que nem sempre é boa,
De um sorriso que por vezes é triste,
De um amor que também magoa
E de uma saudade que afinal existe.
Por agora não lhe encontro o jeito
De os sonhos voltar a rimar
Mas não dou valor à dor no peito,
Sei que um dia ela há-de voltar…

24.10.10

Quem és?

Voltei para um mundo
Que afinal já não é meu.
Deixei de lhe conhecer o fundo,
Conheço-lhe agora apenas o céu.
O mesmo céu que me trouxe de volta
Para junto dos velhos conhecidos
E me atirou para uma roda solta
Cheia de estranhos apetecidos.
Confundem-me as investidas
De quem antes me ignorava
Por tornar em tão repetidas
As visitas onde antes estava
Apenas eu, e o meu mundo.
Aquele que eu idolatrava
E onde nunca sequer por um segundo
Tanto desconhecido nele entrava.
Não sei que raio se passou
Se terá sido pela pequena ausência
Mas alguém aqui esteve e mudou
O mundo que era meu e a sua aparência.
De entre todos há quem me vicie,
Por ser diferente nas suas conversas
Faz com que goste e aprecie
O que me diz, e não tenha pressas
De sair para outro lugar
Onde não a consiga ter,
Pois apesar de não lhe chegar
Algo me nasce dentro do ser
Que me faz ficar colado
A quem afinal mal conheço,
Mas depois de cá ter entrado
Estranho a hora em que me despeço.

18.10.10

Diário da Índia - Dia 25

É hora de deixar a Índia para trás e partir rumo à Europa. Após a longa espera, lá se abrem as portas do que neste momento apelido de céu, e apesar de um pequeno entrave no passaporte que quase não me deixava embarcar, lá atravesso a porta rumo ao sonho e entro no boeing 747 que me vai levar até Frankfurt onde espero chegar ao amanhecer. A ânsia de voltar a ver e de abraçar os amigos que lá deixei, a família e todos os que comigo se preocuparam nestas últimas semanas faz-me sentir que esta viagem vai ser longa em todos os aspectos. Vai-me valendo o cansaço que me faz adormecer e acordar já quase a meio da viagem quando o sol começa a nascer. Entretenho-me com um filme e deixo que o resto da viagem se vá fazendo por entre as nuvens. Aterro finalmente em solo germânico e à saída do avião sinto arrepio na espinha provocado pelo 3ºC que aqui se fazem sentir. Após 3 revistas à minha pessoa e aos meus pertences lá entrei no terminal que me vai levar até casa, mas onde tenho de ficar ainda cerca de 5 horas a penar… O dia que antes estava cinzento, esta agora mais brilhante e quente e entro no ultimo avião que me leva de regresso a casa. Ainda mal consigo acreditar que vou voltar ao meu sossego, que vou voltar para junto de quem mais gosto, que vou finalmente receber aquele abraço apertado, aquele carinho que tanto desespero, aquelas palavras de conforto… Mal posso esperar… Foi talvez a viagem mais curta e a que mais tempo durou na minha cabeça, mas assim que as rodas do avião tocaram o chão apeteceu-me cerrar os punhos e gritar bem alto, não importa o quê! À chegada a casa travo uma lágrima que quer sair, abraço quem me espera e respiro de alivio. Finalmente cheguei, finalmente estou em casa… Acabou a aventura!

17.10.10

Diário da Índia - Dia 24

Hoje não deixei o despertador tocar, despertei eu primeiro que ele, a ânsia de voltar é tanta que acordei antes do tempo e levantei-me logo. Acordei o meu vizinho de quarto e apressei-me a ir tomar o pequeno-almoço. Sem saber ao certo se realmente ia-mos partir ou não, enfiei as malas no carro e fomos esperar pela resolução da reunião que iria decidir a nossa partida, ou o retardamento da mesma. É inacreditável como tão perto do fim ainda não sei se será mesmo o fim, ou apenas uma pedra no sapato dos dias que se avizinham… Temos como limite para a partida as 9h da manhã, a reunião começou às 8h30 e o meu estômago esta prestes a explodir de nervos, já não consigo controlar o abanar das pernas constante nem os suores que me percorrem o corpo… São 9h03m, acaba a reunião e a decisão é favorável à nossa partida, despedimo-nos rapidamente e metemos pés ao caminho que em 300Km nos separa do aeroporto, aquele que tem ar de uma central de camionagem. Por entre vacas, cascatas, calafrios, ultrapassagens arriscadas, carros e motas enviados à valeta, buzinadelas aqui, ali e acolá, lá chegamos ao aeroporto, agora já me consigo rir, finalmente vou embora da Índia, finalmente vou para Portugal, mas tenho ainda um longo caminho a percorrer. Ao fim de 3 horas de ter levantado voo de Kajuraho, aterramos em Delhi, e uma vez dentro do aeroporto, limitamo-nos a esperar 10 horas pelo voo atrasado uma hora que nos levaria de volta a Frankfurt durante a noite, numa jornada de cerca de 8 horas. Sem nada para fazer, tentou-se matar o tempo com algo que tapasse o buraco no estômago e principalmente a dormir, ou pelo menos a tentar…

16.10.10

Diário da Índia - Dia 23

Hoje será o último dia completo que passo cá. Por entre o registo fotográfico do trabalho cá deixado e a visita aos novos equipamentos por parte de quem mais ordena por aqui lá se foi passando a manhã. De tarde fez-se a reunião e deu-se por concluída esta fase de instalação de equipamentos. Depois de uma nova visita a Rewa para nos despedir-mos da cidade que não deixa grande saudade, foi hora de encontrar alguém que nos ofereceu uma imagem de um Deus para trazer de recordação, e à chegada à casa de hóspedes um balde de gelo se abateu sobre nós. Era já noite quando decidimos ligar a agradecer a hospitalidade num acto de cortesia. Do outro lado do telefone informam-nos que temos uma reunião marcada para amanhã às 8h30 da manhã e nem as nossas tentativas de recusa devido à forte possibilidade de perder o avião serviram para recuarem na decisão. O desalento estampou-se na minha cara e foi sem vontade que acabei de fazer a mala, o jantar ficou a meio, e não conseguia encontrar solução para contornar o problema. Liguei para casa mas não disse que afinal podia não ser feito amanhã o meu regresso. Resta-me dormir, secar as lágrimas, e esperar que amanhã as coisas se resolvam rapidamente, temos apenas 30 minutos de folga para concluir a reunião… Eu preciso ir embora!

15.10.10

Diário da Índia - Dia 22

Com o fim cada vez mais perto, os dias começam a ser menos pesados. Pesado fica apenas o tempo que teima em não passar. Olho para trás e começo a ver o que deixei feito, as aventuras que passei, as lágrimas que deixei escorrer, os choques de culturas constantes, todas as marcas que ficarão para sempre gravadas nesta vida que faço por ser minha. Falta ainda um dia de trabalho, que apesar de aqui ser feriado, eu não o vou gozar por completo. Nesta espécie de vila fechada do mundo exterior, a minha história está prestes a encontrar o fim de um capítulo, comigo vou levar as novas amizades, o carinho com que fui tratado, e as lições de vida dadas por quem pouco mais pode dar, mas que o pouco que tem, dá com todo o gosto, levo os sorrisos sinceros das crianças que me acham piada por ser diferente, por não usar bigode, por vestir de maneira diferente, por eu não os entender e eles não me entenderem a mim, por acharem que saí da televisão que eles têm em casa, mas que ainda assim não têm medo de mim, e sorriem porque são felizes com o pouco que têm. Amanhã é dia de acabar de preparar a mala e dar meia volta ao mundo em 2 dias, para ver o que de mais precioso deixei em Portugal… Até já!