1.12.11

Diário da Índia - Dia 13



Goza-se em Portugal (por enquanto) mais um feriado, já pela Índia isso é coisa que não existe, pelo menos hoje. Pelo menos, e ao contrário de ontem hoje já consegui trabalhar, já tinha condições para tal, apesar de serem muito más. Passar o dia inteiro em cima de um banco, em pé, num andaime móvel, a comer pó de cimento à força toda, não coisa muito agradável, daí que não estranhe o fim do dia, cheio de dores no corpo todo e completamente de rastos, ainda assim sentia-me bem por dentro, avançou-se mais um pouco no progresso da instalação dos equipamentos e já falta pouco tempo para voltar a casa. Já mal suporto a massa com pimentos e tomate todos os dias ao almoço e ao jantar. Muda o formato mas matem-se o sabor, e diga-se que não lá muito bom. Contudo já só cá estarei mais 4 dias. Ai que saudades…

30.11.11

Diário da Índia - Dia 12


Há dias em que nada se faz, já lá cantavam os Quinta do Bill, e outros dias há em que nada se pode fazer. Hoje foi uma mistura destes dois tipos de dias, nada fiz, porque nada podia fazer. Limitei-me a marcar presença aqui e ali e nem os macacos apareceram para me entreter. Ora não se faz porque falta isto, ora porque aquilo ainda não está pronto, ora porque agora não é boa altura… Será que ninguém percebe que eu só quero acabar isto regressar a casa? Importam-se de me facilitar a vida? Valeu-me o banho de água bem quente, a cavaqueira no fim de jantar e as palavras embrulhadas em carinho vindas de Portugal. Por falar em Portugal, amanhã é feriado, mas não para mim…

29.11.11

Diário da Índia - Dia 11


Diferente este dia, não nas cores, não nos cheiros, não na neblina que se faz sentir nem buzinar dos camiões. Acordei animado, e o dia foi correndo normalmente, aperta-se uns parafusos aqui, faz-se uns furos ali, faz-se uma ficha deste lado conecta-se um cabo daquele, vê-se um bando de macacos a migrarem de um lado da estrada para o outro, enfim, foi passando o dia. Ao jantar, o frango mal passado fazia-me lembrar que este era um dia diferente. Diferente também por, misteriosamente, deixar de acesso à internet. Logo hoje… Terá um macaco roído o cabo? Talvez, talvez não. É então por telefone que se consegue falar para Portugal, saber as novidades e matar algumas saudades. Percebo então que este dia foi igual aos outros, pela primeira vez fiz anos fora de casa, sem festejos, sem bolos, sem beijinhos e abraços. Foi o telemóvel que me fez saber que alguém se lembrou de mim, não consigo agradecer a todos os que o fizeram e sinto-me mal por isso, mas não tenho maneira de os contactar, não tenho internet hoje, logo hoje. Vou deitar-me na dúvida de não saber afinal quando devo achar que não faço anos, às 0h00 da Índia ou 5h30 depois? Não interessa, para o ano faço anos outra vez…

28.11.11

Diário da Índia - Dia 10


De regresso ao trabalho, não se podia esperar um pior regresso. Há dias em que não entendo porque raio me parece que falta tudo para poder trabalhar. Odeio quando as coisas empancam por todo o canto e esquina, começo a perder a calma e a paciência, devolvida apenas ao final do dia, falando para quem ficou pela Europa, lembrando coisas boas passadas, recolocando um sorriso na cara que me enche o peito de ar, e não só, num suspiro enorme. Há dias assim, dias em que nada corre bem, mas só temos de sorrir, esperar pelo próximo e lembrar que falta menos um para regressar a Braga. É menos um dia neste tortuoso caminho serpenteado com um túnel em que se esqueceram de colocar ventilação mas que tem dois enormes portões na entra e na saída… Hoje apetece-me mesmo ir para casa, ir para o abraço que me faz falta. Quase nem me lembrava que amanhã faço anos…

27.11.11

Diário da Índia - Dia 9


Nem sempre é fácil levantar o animo, por isso, eu tento viver cada dia sem olhar ao dia anterior, começar tudo de novo, agarrar-me ao que de melhor tenho e tentar sorrir. Foi o que fiz hoje, apesar de tudo tentei esquecer as réstias de maus sentimentos que moravam em mim. Tive folga, a falta de mão de obra na fábrica obrigou-me a ficar por casa, e consegui umas longas horas de conversa com quem ficou por Portugal e me ajudou a acalmar e a sorrir. Apesar do dia praticamente passado dentro do quarto, senti-me como se tivesse dado meia volta ao mundo, me tivesse enroscado num cobertor quentinho com alguém muito especial, tivesse espalhado sorrisos por todo o lado e tivesse acabado o dia, aconchegado, a ver um pôr do sol qualquer junto ao mar. Soube muito bem, fez-me muito bem. Deu para descansar e animar, amanhã há mais… trabalho!

26.11.11

Diário da Índia - Dia 8


Eis que chegou o dia que eu mais receava, o dia e que já nada é novidade, em que tudo se torna monotonamente chato, em que o buzinar musical dos camiões já não me faz sorrir, o dia em que todas estas curvas, subidas e descidas já não me fazem sentir numa animada montanha-russa mas sim num infernal e enjoativo caminho a percorrer e que parece cada vez ser maior. Sinto-me exausto, sem força física e força de vontade para acabar o que comecei, contudo, sei que tenho de o acabar… Fui abaixo, não há grande coisa que me ajude deste lado a encarar melhor os sentimentos que se baralham. Na verdade nem sequer tenho pensado muito no que tinha antes de cá chegar, ou no que vou encontrar quando lá chegar. Tenho tentado manter dentro de um frasco toda a ansiedade e toda a saudade. Já nem os macaquinhos que me cabem na palma da mão e que por aqui brincam me fazem animar. Apenas os aprecio com o olhar distante. Custou-me a passar este gélido dia, custou-me continuar a imaginar que não existe nada mais do que o que consigo ver. Custou-me ver as injustiças e só não me custou a adormecer…

25.11.11

Diário da Índia - Dia 7



Tenho mais um objectivo praticamente acabado, o que fica pendente não depende só de mim, começo a animar por ver o trabalho finalmente a ficar concluído aos poucos. No caminho para casa, por entre uma infinidade de curvas vejo como se lava cá a loiça (não a loiça onde eu como, outra fora do meu “habitat”), numa bica de água deixa-se molhar a loiça a lavar, raspa-se alguma areia do chão com a mão e esfrega-se… o resultado é… nem consigo dizer.  É extrema a pobreza que por cá existe. Confessou a pessoa que zela pela cozinha onde faço as minhas refeições que vê a família dele cerca de 12 dias por ano. Tem mulher e uma filha… Finalmente encontrei a camisola perdida na lavandaria, afinal não tinha sido perdida, só não foi devolvida antes porque, como me explicou o responsável, o sol esteve muito gelado nos últimos dias. Hoje bateram-me bem fortes as saudades do Braga. Já na cama vi vídeos sem fim relacionados com o Braga, quase senti o cheiro e o ambiente do estádio, quase me senti gritar ao som das músicas e quase deixei cair uma lágrima, pena ninguém aqui me conseguir entender. Vou guardar só o arrepio e deixar-me adormecer amanhã é um novo dia.

24.11.11

Diário da Índia - Dia 6


Este foi o dia para curar doenças, do estômago principalmente. Não que a comida tenha sido má (e que o doente seja eu), mas temos comido sempre a mesma massa e o cansaço é cada vez maior, a pressão também não ajuda nada, nem os indianos… Senti todo o corpo gelar hoje quando o frio me atravessava a roupa, foi difícil trabalhar, e a força física foi aparecendo não sei bem de onde, as a mente encontrou-a. Foi um dia de mais uma sapatada no trabalho que há a fazer e prefiro não olhar o futuro e o que ainda tenho para fazer. Sinto-me nervoso por dentro mas não o deixo transparecer, mantenho-me sereno e deixo o dia acabar. Vejo a minha família, o meu sobrinho que insiste que eu estou na suíça e vejo a minha namorada. Estou cansado e vou dormir…

23.11.11

Diário da Índia - Dia 5


Mais um comprimido de Malarone e mais um dia pela frente. Muito pó de cimento inalado, muito cansaço físico e psicológico e um desgaste que já custa a recuperar. Mas nem tudo é mau, o sorriso do indiano a quem ofereci algumas moedas de euro para a sua colecção, compensou em parte, uma outra parte foi compensada com a surpresa ao almoço, PIZZA! Sem caril nem especiarias malucas, simplesmente pão, com tomate e queijo crocante, que delicia, soube-me pela vida. Ganhei ânimo para a tarde e ao jantar nova surpresa, FRANGO, duro como borracha e pequeno como uma perdiz mas estava saboroso, e misturado com a massa do costume fez-me sentir bem. Mais uma caneca de chá a ferver e vamos lá experimentar a internet. Não tenho acesso ao facebook, mas tenho ao email e tenho Superbraga, tenho ao blog para actualizando as aventuras e tenho ao youtube para ouvir musica. Mais importante é mesmo fazer videochamadas para os de casa de quem já sinto saudades. Por falar em saudades tenho de me lembrar de não as voltar a mencionar em conversas, ontem fiz-te chorar…

22.11.11

Diário da Índia - Dia 4


Hoje perdi oficialmente a noção dos dias, não sei se é segunda, terça, quarta ou nenhum destes, estou perdido! Mas lembro-me sempre do que comi ontem e anteontem e no dia anterior, isto porque foi sempre massa. Os indianos não são todos iguais mas há alguns que nascem com uma espécie de cola, colam-se a nós e oferecem-nos todas as mãos do mundo para ajudar, que no caso, sendo tantas só servem para estorvar. É simplesmente impossível trabalhar com eles, é impossível fazer seja o que for com alguém de queixo colado no ombro, que me segura na chave de fendas quando eu estou a rodá-la, que me segura na mala ao mesmo tempo que eu, que me faz sentir o seu bafo a caril de tão colado que esta a mim, gritei em desespero “SE METESSES A MÂO NO CÚ PAH!”, ao que parece que entendeu e retirou a mão, mas por breves momentos, uma questão de segundos… é impossível fugir deles, e quando te escondeste, ele escondeu-se contigo… Além disso começo a ficar chalado…