O
último sábado que passo deste lado do Mundo é hoje. É tempo de ultimar os
pequenos pormenores, dar formação de utilização e manutenção de todos os
equipamentos e dar por terminada a tarefa. Como tal, se tudo correr bem, espero
uns dias mais sossegados de agora em diante. Tendo mais tempo para reparar em
pequenos pormenores, começo a encontrar diferenças desta fábrica para a fábrica
da minha outra aventura por estas bandas, Rewa. Reparando bem nos camiões,
estes não trazem pneus com a câmara de ar à mostra, não estão partidos, têm
todas as partes que constituem a carcaça e os seu motoristas estão constantemente
a limpá-los. Os motoristas são também diferentes. Mais educados, mais
civilizados, mais respeitadores. Ao contrário do que acontecia em Rewa, aqui em
Baga os motoristas respeitam os semáforos vermelhos, apesar de ter sido eu a
instalar os únicos num raio de cerca de 100 km. Continuando nas pequenas
diferenças, aqui não encontro vacas, mas encontro 2 cabras e muitos macacos,
também encontrei alguns cães, por sinal, um deles fez questão de me acordar
várias vezes a noite passada. O clima é também diferente, muito mais frio aqui
em Baga, provavelmente está relacionado com a altitude (1800 m). Ao longe,
muito ao longe mesmo, e só quando o nevoeiro o permite, consigo vislumbrar uns
picos ainda mais altos que estes com neve. Em Rewa predominavam mais as
planícies. Um só país mas muitas pequenas coisas a diferenciá-lo. E lá passou
mais um dia, está mesmo quase…
3.12.11
2.12.11
Diário da Índia - Dia 14
Em
Portugal existem coisas tão banais que as vemos como sendo normais em qualquer
parte do mundo, infelizmente não o são, e felizmente consigo ver algumas delas pelo
menos, conseguindo assim dar mais valor ao que temos. É praticamente impossível
mulher em Portugal pensar em ir trabalhar e levar o seu filho consigo quando
este ainda precisa ser amamentado, mas aqui na Índia não existem creches nem
amas para ficar com os bebés, e as mães têm de os levar para o trabalho, seja
ele qual for. Uma imagem que certamente irei guardar por muitos bons anos é a de uma mãe, talvez
com 30 anos, andar no emprego com o filho de cerca de 3 ou 4 meses, às costas,
preso com um lenço. Nada de fascinante, não trabalhasse esta mãe na construção
civil e eu até nem acharia isto tão estranho. Esta pobre mãe, além de acarretar
a pobre criança faminta às costas tem de transportar à cabeça pratos em ferro
cheios de cimentos, cerca de 15 kg (sim pratos, aqui não existem baldes de
cimento) e tijolos, durante todo o dia, é impressionante a força desta mãe.
Talvez por isso tenha reparado nas poucas crianças que por aqui existem. Não
têm brinquedos, por isso, brincam ajudando os mais adultos no trabalho, brincam
com pás, transportam tijolos, peneiram a areia e a terra… Era tão bom que
pudéssemos ter todos acesso às coisas básicas e simples. Quanto ao trabalho
está praticamente tudo acertado, em breve voo para casa… Até já!
1.12.11
Diário da Índia - Dia 13
Goza-se
em Portugal (por enquanto) mais um feriado, já pela Índia isso é coisa que não
existe, pelo menos hoje. Pelo menos, e ao contrário de ontem hoje já consegui
trabalhar, já tinha condições para tal, apesar de serem muito más. Passar o dia
inteiro em cima de um banco, em pé, num andaime móvel, a comer pó de cimento à
força toda, não coisa muito agradável, daí que não estranhe o fim do dia, cheio
de dores no corpo todo e completamente de rastos, ainda assim sentia-me bem por
dentro, avançou-se mais um pouco no progresso da instalação dos equipamentos e
já falta pouco tempo para voltar a casa. Já mal suporto a massa com pimentos e
tomate todos os dias ao almoço e ao jantar. Muda o formato mas matem-se o
sabor, e diga-se que não lá muito bom. Contudo já só cá estarei mais 4 dias. Ai
que saudades…
30.11.11
Diário da Índia - Dia 12
Há
dias em que nada se faz, já lá cantavam os Quinta do Bill, e outros dias há em
que nada se pode fazer. Hoje foi uma mistura destes dois tipos de dias, nada
fiz, porque nada podia fazer. Limitei-me a marcar presença aqui e ali e nem os
macacos apareceram para me entreter. Ora não se faz porque falta isto, ora
porque aquilo ainda não está pronto, ora porque agora não é boa altura… Será
que ninguém percebe que eu só quero acabar isto regressar a casa? Importam-se
de me facilitar a vida? Valeu-me o banho de água bem quente, a cavaqueira no
fim de jantar e as palavras embrulhadas em carinho vindas de Portugal. Por
falar em Portugal, amanhã é feriado, mas não para mim…
29.11.11
Diário da Índia - Dia 11
Diferente
este dia, não nas cores, não nos cheiros, não na neblina que se faz sentir nem
buzinar dos camiões. Acordei animado, e o dia foi correndo normalmente,
aperta-se uns parafusos aqui, faz-se uns furos ali, faz-se uma ficha deste lado
conecta-se um cabo daquele, vê-se um bando de macacos a migrarem de um lado da
estrada para o outro, enfim, foi passando o dia. Ao jantar, o frango mal
passado fazia-me lembrar que este era um dia diferente. Diferente também por,
misteriosamente, deixar de acesso à internet. Logo hoje… Terá um macaco roído o
cabo? Talvez, talvez não. É então por telefone que se consegue falar para
Portugal, saber as novidades e matar algumas saudades. Percebo então que este
dia foi igual aos outros, pela primeira vez fiz anos fora de casa, sem
festejos, sem bolos, sem beijinhos e abraços. Foi o telemóvel que me fez saber
que alguém se lembrou de mim, não consigo agradecer a todos os que o fizeram e
sinto-me mal por isso, mas não tenho maneira de os contactar, não tenho
internet hoje, logo hoje. Vou deitar-me na dúvida de não saber afinal quando
devo achar que não faço anos, às 0h00 da Índia ou 5h30 depois? Não interessa, para
o ano faço anos outra vez…
28.11.11
Diário da Índia - Dia 10
De
regresso ao trabalho, não se podia esperar um pior regresso. Há dias em que não
entendo porque raio me parece que falta tudo para poder trabalhar. Odeio quando
as coisas empancam por todo o canto e esquina, começo a perder a calma e a
paciência, devolvida apenas ao final do dia, falando para quem ficou pela
Europa, lembrando coisas boas passadas, recolocando um sorriso na cara que me
enche o peito de ar, e não só, num suspiro enorme. Há dias assim, dias em que
nada corre bem, mas só temos de sorrir, esperar pelo próximo e lembrar que
falta menos um para regressar a Braga. É menos um dia neste tortuoso caminho
serpenteado com um túnel em que se esqueceram de colocar ventilação mas que tem
dois enormes portões na entra e na saída… Hoje apetece-me mesmo ir para casa,
ir para o abraço que me faz falta. Quase nem me lembrava que amanhã faço anos…
27.11.11
Diário da Índia - Dia 9
Nem
sempre é fácil levantar o animo, por isso, eu tento viver cada dia sem olhar ao
dia anterior, começar tudo de novo, agarrar-me ao que de melhor tenho e tentar
sorrir. Foi o que fiz hoje, apesar de tudo tentei esquecer as réstias de maus
sentimentos que moravam em mim. Tive folga, a falta de mão de obra na fábrica
obrigou-me a ficar por casa, e consegui umas longas horas de conversa com quem
ficou por Portugal e me ajudou a acalmar e a sorrir. Apesar do dia praticamente
passado dentro do quarto, senti-me como se tivesse dado meia volta ao mundo, me
tivesse enroscado num cobertor quentinho com alguém muito especial, tivesse
espalhado sorrisos por todo o lado e tivesse acabado o dia, aconchegado, a ver
um pôr do sol qualquer junto ao mar. Soube muito bem, fez-me muito bem. Deu
para descansar e animar, amanhã há mais… trabalho!
26.11.11
Diário da Índia - Dia 8
Eis
que chegou o dia que eu mais receava, o dia e que já nada é novidade, em que
tudo se torna monotonamente chato, em que o buzinar musical dos camiões já não
me faz sorrir, o dia em que todas estas curvas, subidas e descidas já não me
fazem sentir numa animada montanha-russa mas sim num infernal e enjoativo
caminho a percorrer e que parece cada vez ser maior. Sinto-me exausto, sem
força física e força de vontade para acabar o que comecei, contudo, sei que
tenho de o acabar… Fui abaixo, não há grande coisa que me ajude deste lado a
encarar melhor os sentimentos que se baralham. Na verdade nem sequer tenho
pensado muito no que tinha antes de cá chegar, ou no que vou encontrar quando
lá chegar. Tenho tentado manter dentro de um frasco toda a ansiedade e toda a
saudade. Já nem os macaquinhos que me cabem na palma da mão e que por aqui
brincam me fazem animar. Apenas os aprecio com o olhar distante. Custou-me a
passar este gélido dia, custou-me continuar a imaginar que não existe nada mais
do que o que consigo ver. Custou-me ver as injustiças e só não me custou a
adormecer…
25.11.11
Diário da Índia - Dia 7
Tenho
mais um objectivo praticamente acabado, o que fica pendente não depende só de
mim, começo a animar por ver o trabalho finalmente a ficar concluído aos
poucos. No caminho para casa, por entre uma infinidade de curvas vejo como se
lava cá a loiça (não a loiça onde eu como, outra fora do meu “habitat”), numa
bica de água deixa-se molhar a loiça a lavar, raspa-se alguma areia do chão com
a mão e esfrega-se… o resultado é… nem consigo dizer. É extrema a pobreza que por cá existe.
Confessou a pessoa que zela pela cozinha onde faço as minhas refeições que vê a
família dele cerca de 12 dias por ano. Tem mulher e uma filha… Finalmente
encontrei a camisola perdida na lavandaria, afinal não tinha sido perdida, só
não foi devolvida antes porque, como me explicou o responsável, o sol esteve
muito gelado nos últimos dias. Hoje bateram-me bem fortes as saudades do Braga.
Já na cama vi vídeos sem fim relacionados com o Braga, quase senti o cheiro e o
ambiente do estádio, quase me senti gritar ao som das músicas e quase deixei
cair uma lágrima, pena ninguém aqui me conseguir entender. Vou guardar só o
arrepio e deixar-me adormecer amanhã é um novo dia.
24.11.11
Diário da Índia - Dia 6
Este
foi o dia para curar doenças, do estômago principalmente. Não que a comida
tenha sido má (e que o doente seja eu), mas temos comido sempre a mesma massa e
o cansaço é cada vez maior, a pressão também não ajuda nada, nem os indianos…
Senti todo o corpo gelar hoje quando o frio me atravessava a roupa, foi difícil
trabalhar, e a força física foi aparecendo não sei bem de onde, as a mente
encontrou-a. Foi um dia de mais uma sapatada no trabalho que há a fazer e
prefiro não olhar o futuro e o que ainda tenho para fazer. Sinto-me nervoso por
dentro mas não o deixo transparecer, mantenho-me sereno e deixo o dia acabar.
Vejo a minha família, o meu sobrinho que insiste que eu estou na suíça e vejo a
minha namorada. Estou cansado e vou dormir…
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