4.12.11

Diário da Índia - Dia 16


Shimla! Não, não se trata de um espirro, trata-se de uma cidade, capital de Himachal Pradesh na Índia, com uma altitude de 2400 m e que eu fui visitar ontem. Demorei cerca de 3h horas a percorrer os 75 km que separam Baga de Shimla. Um caminho tortuoso de curvas e contra-curvas apertadas, altos e baixo, buracos e lombas mal amanhadas que fazem sofrer o mais duro estômago. Por entre macacos, águias e falcões e densa floresta lá chegamos ao destino para fazer uma viagem a cavalo, viagem essa com o custo de 350 rupias (5,83 €), valor que nós não tínhamos connosco. Aliás não tínhamos dinheiro nenhum senão euros. Ainda assim, e não sei bem como, lá cavalgamos durante 5 minutos, monte acima, onde é cobrada a entrada, 10 (0,17 €) rupias por pessoa, e onde no interior existe um templo, um espaço para admirar os Himalaias com neve, entre outras coisas. Os cavalos ficam cá fora e mais uma vez não temos dinheiro para entrar no parque, ainda assim, 0,40 € são o suficiente para deixar entrar 4 pessoas. Entramos e em vez da 1h30m definida pelo dono dos cavalos pedimos apenas que esperasse 30 minutos, mas quando voltámos estavam lá só 2 cavalos… Já cá em baixo é-nos pedido para pagar as viagens, voltámos a explicar que não temos dinheiro, nem maneira de pagar, o nosso motorista  saca de 600 rupias para abater à conta e explica que passa lá outro dia para pagar o resto, não me perguntem como, juro que não percebo estes negócios. Voltámos para a cidade onde nos foi garantido que existem McDonald’s e Pizza Hut. A rua onde existem chama-se Mall Street e não passam lá carros, fica muito mais elevada que as outras ruas da cidade, temos de subir ou pelas escadas, ou apanhar dois elevadores que cobram 7 (0,12 € )rupias pela subida. Ora nós não temos rupias e mais uma vez 0,20 € fazem milagres e compram 4 passagens, recebendo ainda 22 rupias (0,37 €) de troco! Chegados a Mall Street só à terceira é que conseguimos levantar dinheiro e descobrimos que não existe McDonald’s nem Pizza Hut, existe isso sim Domino’s que também faz pizzas. A fome aperta tanto que lá fomos ao Domino’s. Apesar de pedirmos encarecidamente uma pizza que não fosse picante ela vem cheia de pimenta que até faz chorar os olhos. Mesmo raspando toda a pimenta visível, o sabor está entranhado no resto dos ingredientes. A viagem feita de volta por aquele caminho tortuoso logo a seguir não podia correr muito bem como é óbvio e lá parámos pelo caminho antes que “o barco virasse”. Custou-me imenso chegar a casa sem vomitar, mas lá consegui, e fica a maior aventura desta viagem… Acho que ainda sinto o cheiro a cavalo!

3.12.11

Diário da Índia - Dia 15


O último sábado que passo deste lado do Mundo é hoje. É tempo de ultimar os pequenos pormenores, dar formação de utilização e manutenção de todos os equipamentos e dar por terminada a tarefa. Como tal, se tudo correr bem, espero uns dias mais sossegados de agora em diante. Tendo mais tempo para reparar em pequenos pormenores, começo a encontrar diferenças desta fábrica para a fábrica da minha outra aventura por estas bandas, Rewa. Reparando bem nos camiões, estes não trazem pneus com a câmara de ar à mostra, não estão partidos, têm todas as partes que constituem a carcaça e os seu motoristas estão constantemente a limpá-los. Os motoristas são também diferentes. Mais educados, mais civilizados, mais respeitadores. Ao contrário do que acontecia em Rewa, aqui em Baga os motoristas respeitam os semáforos vermelhos, apesar de ter sido eu a instalar os únicos num raio de cerca de 100 km. Continuando nas pequenas diferenças, aqui não encontro vacas, mas encontro 2 cabras e muitos macacos, também encontrei alguns cães, por sinal, um deles fez questão de me acordar várias vezes a noite passada. O clima é também diferente, muito mais frio aqui em Baga, provavelmente está relacionado com a altitude (1800 m). Ao longe, muito ao longe mesmo, e só quando o nevoeiro o permite, consigo vislumbrar uns picos ainda mais altos que estes com neve. Em Rewa predominavam mais as planícies. Um só país mas muitas pequenas coisas a diferenciá-lo. E lá passou mais um dia, está mesmo quase…

2.12.11

Diário da Índia - Dia 14


Em Portugal existem coisas tão banais que as vemos como sendo normais em qualquer parte do mundo, infelizmente não o são, e felizmente consigo ver algumas delas pelo menos, conseguindo assim dar mais valor ao que temos. É praticamente impossível mulher em Portugal pensar em ir trabalhar e levar o seu filho consigo quando este ainda precisa ser amamentado, mas aqui na Índia não existem creches nem amas para ficar com os bebés, e as mães têm de os levar para o trabalho, seja ele qual for. Uma imagem que certamente irei guardar  por muitos bons anos é a de uma mãe, talvez com 30 anos, andar no emprego com o filho de cerca de 3 ou 4 meses, às costas, preso com um lenço. Nada de fascinante, não trabalhasse esta mãe na construção civil e eu até nem acharia isto tão estranho. Esta pobre mãe, além de acarretar a pobre criança faminta às costas tem de transportar à cabeça pratos em ferro cheios de cimentos, cerca de 15 kg (sim pratos, aqui não existem baldes de cimento) e tijolos, durante todo o dia, é impressionante a força desta mãe. Talvez por isso tenha reparado nas poucas crianças que por aqui existem. Não têm brinquedos, por isso, brincam ajudando os mais adultos no trabalho, brincam com pás, transportam tijolos, peneiram a areia e a terra… Era tão bom que pudéssemos ter todos acesso às coisas básicas e simples. Quanto ao trabalho está praticamente tudo acertado, em breve voo para casa… Até já!

1.12.11

Diário da Índia - Dia 13



Goza-se em Portugal (por enquanto) mais um feriado, já pela Índia isso é coisa que não existe, pelo menos hoje. Pelo menos, e ao contrário de ontem hoje já consegui trabalhar, já tinha condições para tal, apesar de serem muito más. Passar o dia inteiro em cima de um banco, em pé, num andaime móvel, a comer pó de cimento à força toda, não coisa muito agradável, daí que não estranhe o fim do dia, cheio de dores no corpo todo e completamente de rastos, ainda assim sentia-me bem por dentro, avançou-se mais um pouco no progresso da instalação dos equipamentos e já falta pouco tempo para voltar a casa. Já mal suporto a massa com pimentos e tomate todos os dias ao almoço e ao jantar. Muda o formato mas matem-se o sabor, e diga-se que não lá muito bom. Contudo já só cá estarei mais 4 dias. Ai que saudades…

30.11.11

Diário da Índia - Dia 12


Há dias em que nada se faz, já lá cantavam os Quinta do Bill, e outros dias há em que nada se pode fazer. Hoje foi uma mistura destes dois tipos de dias, nada fiz, porque nada podia fazer. Limitei-me a marcar presença aqui e ali e nem os macacos apareceram para me entreter. Ora não se faz porque falta isto, ora porque aquilo ainda não está pronto, ora porque agora não é boa altura… Será que ninguém percebe que eu só quero acabar isto regressar a casa? Importam-se de me facilitar a vida? Valeu-me o banho de água bem quente, a cavaqueira no fim de jantar e as palavras embrulhadas em carinho vindas de Portugal. Por falar em Portugal, amanhã é feriado, mas não para mim…

29.11.11

Diário da Índia - Dia 11


Diferente este dia, não nas cores, não nos cheiros, não na neblina que se faz sentir nem buzinar dos camiões. Acordei animado, e o dia foi correndo normalmente, aperta-se uns parafusos aqui, faz-se uns furos ali, faz-se uma ficha deste lado conecta-se um cabo daquele, vê-se um bando de macacos a migrarem de um lado da estrada para o outro, enfim, foi passando o dia. Ao jantar, o frango mal passado fazia-me lembrar que este era um dia diferente. Diferente também por, misteriosamente, deixar de acesso à internet. Logo hoje… Terá um macaco roído o cabo? Talvez, talvez não. É então por telefone que se consegue falar para Portugal, saber as novidades e matar algumas saudades. Percebo então que este dia foi igual aos outros, pela primeira vez fiz anos fora de casa, sem festejos, sem bolos, sem beijinhos e abraços. Foi o telemóvel que me fez saber que alguém se lembrou de mim, não consigo agradecer a todos os que o fizeram e sinto-me mal por isso, mas não tenho maneira de os contactar, não tenho internet hoje, logo hoje. Vou deitar-me na dúvida de não saber afinal quando devo achar que não faço anos, às 0h00 da Índia ou 5h30 depois? Não interessa, para o ano faço anos outra vez…

28.11.11

Diário da Índia - Dia 10


De regresso ao trabalho, não se podia esperar um pior regresso. Há dias em que não entendo porque raio me parece que falta tudo para poder trabalhar. Odeio quando as coisas empancam por todo o canto e esquina, começo a perder a calma e a paciência, devolvida apenas ao final do dia, falando para quem ficou pela Europa, lembrando coisas boas passadas, recolocando um sorriso na cara que me enche o peito de ar, e não só, num suspiro enorme. Há dias assim, dias em que nada corre bem, mas só temos de sorrir, esperar pelo próximo e lembrar que falta menos um para regressar a Braga. É menos um dia neste tortuoso caminho serpenteado com um túnel em que se esqueceram de colocar ventilação mas que tem dois enormes portões na entra e na saída… Hoje apetece-me mesmo ir para casa, ir para o abraço que me faz falta. Quase nem me lembrava que amanhã faço anos…

27.11.11

Diário da Índia - Dia 9


Nem sempre é fácil levantar o animo, por isso, eu tento viver cada dia sem olhar ao dia anterior, começar tudo de novo, agarrar-me ao que de melhor tenho e tentar sorrir. Foi o que fiz hoje, apesar de tudo tentei esquecer as réstias de maus sentimentos que moravam em mim. Tive folga, a falta de mão de obra na fábrica obrigou-me a ficar por casa, e consegui umas longas horas de conversa com quem ficou por Portugal e me ajudou a acalmar e a sorrir. Apesar do dia praticamente passado dentro do quarto, senti-me como se tivesse dado meia volta ao mundo, me tivesse enroscado num cobertor quentinho com alguém muito especial, tivesse espalhado sorrisos por todo o lado e tivesse acabado o dia, aconchegado, a ver um pôr do sol qualquer junto ao mar. Soube muito bem, fez-me muito bem. Deu para descansar e animar, amanhã há mais… trabalho!

26.11.11

Diário da Índia - Dia 8


Eis que chegou o dia que eu mais receava, o dia e que já nada é novidade, em que tudo se torna monotonamente chato, em que o buzinar musical dos camiões já não me faz sorrir, o dia em que todas estas curvas, subidas e descidas já não me fazem sentir numa animada montanha-russa mas sim num infernal e enjoativo caminho a percorrer e que parece cada vez ser maior. Sinto-me exausto, sem força física e força de vontade para acabar o que comecei, contudo, sei que tenho de o acabar… Fui abaixo, não há grande coisa que me ajude deste lado a encarar melhor os sentimentos que se baralham. Na verdade nem sequer tenho pensado muito no que tinha antes de cá chegar, ou no que vou encontrar quando lá chegar. Tenho tentado manter dentro de um frasco toda a ansiedade e toda a saudade. Já nem os macaquinhos que me cabem na palma da mão e que por aqui brincam me fazem animar. Apenas os aprecio com o olhar distante. Custou-me a passar este gélido dia, custou-me continuar a imaginar que não existe nada mais do que o que consigo ver. Custou-me ver as injustiças e só não me custou a adormecer…

25.11.11

Diário da Índia - Dia 7



Tenho mais um objectivo praticamente acabado, o que fica pendente não depende só de mim, começo a animar por ver o trabalho finalmente a ficar concluído aos poucos. No caminho para casa, por entre uma infinidade de curvas vejo como se lava cá a loiça (não a loiça onde eu como, outra fora do meu “habitat”), numa bica de água deixa-se molhar a loiça a lavar, raspa-se alguma areia do chão com a mão e esfrega-se… o resultado é… nem consigo dizer.  É extrema a pobreza que por cá existe. Confessou a pessoa que zela pela cozinha onde faço as minhas refeições que vê a família dele cerca de 12 dias por ano. Tem mulher e uma filha… Finalmente encontrei a camisola perdida na lavandaria, afinal não tinha sido perdida, só não foi devolvida antes porque, como me explicou o responsável, o sol esteve muito gelado nos últimos dias. Hoje bateram-me bem fortes as saudades do Braga. Já na cama vi vídeos sem fim relacionados com o Braga, quase senti o cheiro e o ambiente do estádio, quase me senti gritar ao som das músicas e quase deixei cair uma lágrima, pena ninguém aqui me conseguir entender. Vou guardar só o arrepio e deixar-me adormecer amanhã é um novo dia.

24.11.11

Diário da Índia - Dia 6


Este foi o dia para curar doenças, do estômago principalmente. Não que a comida tenha sido má (e que o doente seja eu), mas temos comido sempre a mesma massa e o cansaço é cada vez maior, a pressão também não ajuda nada, nem os indianos… Senti todo o corpo gelar hoje quando o frio me atravessava a roupa, foi difícil trabalhar, e a força física foi aparecendo não sei bem de onde, as a mente encontrou-a. Foi um dia de mais uma sapatada no trabalho que há a fazer e prefiro não olhar o futuro e o que ainda tenho para fazer. Sinto-me nervoso por dentro mas não o deixo transparecer, mantenho-me sereno e deixo o dia acabar. Vejo a minha família, o meu sobrinho que insiste que eu estou na suíça e vejo a minha namorada. Estou cansado e vou dormir…

23.11.11

Diário da Índia - Dia 5


Mais um comprimido de Malarone e mais um dia pela frente. Muito pó de cimento inalado, muito cansaço físico e psicológico e um desgaste que já custa a recuperar. Mas nem tudo é mau, o sorriso do indiano a quem ofereci algumas moedas de euro para a sua colecção, compensou em parte, uma outra parte foi compensada com a surpresa ao almoço, PIZZA! Sem caril nem especiarias malucas, simplesmente pão, com tomate e queijo crocante, que delicia, soube-me pela vida. Ganhei ânimo para a tarde e ao jantar nova surpresa, FRANGO, duro como borracha e pequeno como uma perdiz mas estava saboroso, e misturado com a massa do costume fez-me sentir bem. Mais uma caneca de chá a ferver e vamos lá experimentar a internet. Não tenho acesso ao facebook, mas tenho ao email e tenho Superbraga, tenho ao blog para actualizando as aventuras e tenho ao youtube para ouvir musica. Mais importante é mesmo fazer videochamadas para os de casa de quem já sinto saudades. Por falar em saudades tenho de me lembrar de não as voltar a mencionar em conversas, ontem fiz-te chorar…

22.11.11

Diário da Índia - Dia 4


Hoje perdi oficialmente a noção dos dias, não sei se é segunda, terça, quarta ou nenhum destes, estou perdido! Mas lembro-me sempre do que comi ontem e anteontem e no dia anterior, isto porque foi sempre massa. Os indianos não são todos iguais mas há alguns que nascem com uma espécie de cola, colam-se a nós e oferecem-nos todas as mãos do mundo para ajudar, que no caso, sendo tantas só servem para estorvar. É simplesmente impossível trabalhar com eles, é impossível fazer seja o que for com alguém de queixo colado no ombro, que me segura na chave de fendas quando eu estou a rodá-la, que me segura na mala ao mesmo tempo que eu, que me faz sentir o seu bafo a caril de tão colado que esta a mim, gritei em desespero “SE METESSES A MÂO NO CÚ PAH!”, ao que parece que entendeu e retirou a mão, mas por breves momentos, uma questão de segundos… é impossível fugir deles, e quando te escondeste, ele escondeu-se contigo… Além disso começo a ficar chalado…

21.11.11

Diário da Índia - Dia 3


Depois de forrado o estômago com um belo de um pequeno almoço, preparei-me psicologicamente para um dia de trabalho longo e com obrigação de ter um rendimento mais elevado devido ao inesperado atraso no início. Ora se bem o imaginei, mais mal ele corria. Descobri que em toda uma cimenteira existe apenas uma máquina de furar que eu posso utilizar, cuja, tem a servir de extensão dois cabos presos com fita isoladora junto da ficha. Por azar o broca que trazia agarrada era 2 mm mais pequena que o que eu necessitava, sendo assim vamos lá arranjar outra… mas não há! Então compra-se. E lá foram comprar, voltam 2h30 depois com uma broca de furar ferro… troca-se… só se trabalha de tarde… Isto é muito difícil estar no meio do nada! Como se não bastasse tenho dois moçoilos de turbante na cabeça, que me faz uma impressão enorme, literalmente colados a mim, estão sempre a menos de 50cm de mim, mal consigo respirar, e não consigo perceber o que dizem porque enfiam “erres” em tudo o que é palavra, são piores que os de Setúbal! Continuo a esperar por melhores dias. Ah! Hoje jantei bem.

20.11.11

Diário da Índia - Dia 2


Só hoje com a luz do dia consigo perceber onde realmente estou. Rodeado de montanhas muito próximas de mim, e numa montanha mais baixa que todas as outras. As estradas que se serpenteiam pelas encostas fazem-me perceber o porquê da demora para cá chegar. Da montanha onde eu vivo (leia-se durmo) consigo ver a montanha onde a fábrica está plantada, e entre estas duas montanhas existe uma outra montanha onde fizeram um túnel para melhor a atravessar. Ao contrário do que parece estou em linha recta a pouco mais de 2 quilómetros! A curiosidade deste túnel, é que mesmo escavando toneladas de pedra o túnel foi feito cheio de curvas. Após a reunião onde se acertaram alguns pontos, fez-se a visita ao (futuro) armazém para desembalar tudo e pegar no material necessário para iniciar a obra. À hora de almoço recebemos informação que estão a passar uns cabos para os nossos quartos que nos permitirão ter internet, a ver vamos se é verdade, o cabo já cá está dentro pelo menos. Foi melhor esta notícia que o almoço em si, estava demasiado picante a massa. A tarde começou com um protesto dos camionistas que fecharam a entrada e a saída da fábrica com dois camiões, o que atrasou tudo, “furado” este protesto a tarde arrastou‑se e arrastou-se e eu senti-me cada vez mais fraco, fruto das saudades e das falhas na alimentação.  Por entre um idioma que não percebo e um inglês muito mal expresso lá chegou a hora de jantar e de comer uma massa melada mas já sem picante. Não é saborosa, mas a ideia de ser algo que me dá energia faz-me ter vontade de a comer.  A internet ainda cá não está, mas o sono já cá morava, hora de dormir e sonhar com um dia bem melhor amanhã.

19.11.11

Diário da Índia - Dia 1

À chegada a Deli já não estranhei a maioria das coisas, como o chão alcatifado, os militares armados, a má disposição dos funcionários que controlam as entradas no país, o cheiro, a chapada de ar quente e húmido, 20º perto das 2h da manhã... nada disto me soou a novo. Depois de recuperada a bagagem enviada no Porto, procurei a porta que pela manhã, bem cedo, me cederá passagem para o avião até Chandigarh. Encontrei a porta e julgava ter encontrado numa espécie de “bancos-cama” o local ideal para dormir cerca de 4 horas, mas estava errado, não consegui nem 10 min. A televisão muito alta com o teclado bloqueado e a luz muito forte que mesmo de olhos fechado me fazia confusão obrigaram-me a ficar acordado até de manhã, cada vez mais cansado. Lembro-me de andar a arrastar os pés por sentir que estavam cada vez mais pesados, e se calhar até estavam, o pé torcido voltou a inchar, e de que maneira. Foi então sem dormir que fui ao encontro do avião que, ao contrário do que eu esperava, não estava munido de dois poderosos jactos mas sim de duas hélices a fazer lembrar um avião de combate da 2ª grande guerra. Entrei e pude constatar que por dentro o avião não tinha melhor aspecto do que por fora. Avisaram depois todos os passageiros que a descolagem foi adiada por existir muito nevoeiro no aeroporto de Chandigarh. Novo aviso e novo adiamento… só à quarta o avião se fez à pista, do outro lado do aeroporto por sinal e já eu tinha descansado os olhos um bom par de minutos. Da viagem em si só me lembro do quase fim e do fim, o que separa isto do inicio foi passado de olhos fechados. O quase fim resume-se a uma tentativa falhada de aterrar o avião, segundo o comandante não havia radar e o denso nevoeiro não o deixou identificar a pista, pelo que se aceleraram os motores e se foi dar a volta ao avião. Depois de aterrar e de um duche rápido num hotel próximo, tapei o buraco com parte de uma pizza e fiz-me ao caminho até aos Himalaias. Não imaginava eu que estava tão longe. Já da outra vez me fascinou a perícia com que se conduz por aqui, sem grandes regras, mas hoje tive a prova cabal de que é preciso muito sangue frio. Foram quilómetros a fio percorrido entre curvas e contra-curvas, sempre com ultrapassagens do outro mundo e que não lembra a ninguém. O que é certo é que cheguei à fábrica de Baga inteiro, numa só peça, e já é hora do jantar. Se calhar já me tinha esquecido de como era a comida por cá, mas ao entrar no refeitório, o cheiro intenso a caril e pimenta que me entrou pelo nariz dentro, rapidamente me fez lembrar todos os sacrifícios. Hoje foi massa, mais picante que o normal, amanhã logo se verá. Tudo a postos para começar o trabalho. São 16:24 em Braga, 22:04 em Solan, Índia, e eu vou tentar repor as energias gastas na viagem, vou dormir.

18.11.11

Diário da Índia - Dia 0

É novamente bem cedo que me faço à aventura. Afinal a caminhada não será assim tão diferente da última, apenas alguns pormenores mudam. Ia o sol a meio do seu sono quando me despedi dos que cá ficaram, levando comigo o nó no peito de recordação, ainda assim, obrigo a que em mim reine a boa disposição, numa tentativa de tornar tudo menos doloroso. Não sei se por mero acaso, por infelicidade ou por “vontades” de alguém que desconheço, as coisas não começam da melhor forma e a meio da fila para a revista da passagem à zona de embarque oiço o meu nome ser chamado nos altifalantes do aeroporto, estava atrasado e estavam já a fazer a última chamada… Ultrapassou-se esse pequeno problema e lá entrei no avião, com lugar reservado na última fila, junto do corredor. Lembro-me bem do avião ter levantado, mas a certa altura o peso nos olhos era tanto que fui obrigado a cerrar as pálpebras, ainda que não seja considerado dormir. Dormir dentro de um avião é tarefa impossível, uma vez que, para mim, dormir implica descansar.
Chegado ao gelado povo alemão, procurei a porta de embarque, ainda fechada, que me levará a Deli, procuro depois um local para almoçar, desta feita o McDonalds  para que me lembre de quando foi o última vez que a carne fez parte da minha ementa. Regressado à porta de embarque, reparo que me acabaram de marcar um lugar em executiva com o nome de Jacob Xavier… Alguém quer que fique por aqui e que não embarque rumo à Ásia. Apesar da senhora do balcão da companhia aérea Lufthansa não ter ficado muito convencida de que o meu nome não era Jacob, lá me deu o bilhete certo, sentado entre um indiano com cerca de 30 anos e uma indiana bem mais velha, com cerca de 60, no corredor do meio do avião. Desta viagem lembro-me apenas de alguns tópicos, lembro-me de passar grande parte do tempo de olhos fechados, lembro-me da primeira refeição, frango com batata, lembro-me da dor de costas terrível e lembro-me do desespero que começo a sentir por não poder descansar e dormir em condições, custou imenso fazer a viagem, mas lá se fez e cá cheguei… Olá Deli!

17.11.11

Não deixes cair mais


Escorre, salgada, fria, agreste…
Como a despedida
E o último beijo que me deste.
Mas não apaga a dor sentida
Nem tira o aperto do peito.
Continua a escorrer no seu leito
Cara abaixo, a lágrima triste
Caindo na mão que ternamente abriste
Para guardar um sopro de mim
Junto ao teu coração doce
Onde por agora só guardas esse frenesim
E desejas que o dia de regresso já fosse.
Mas ainda não o é…
E ainda nem sequer fui, mas…
Quando voltar vou estar ainda mais próximo de ti
Para te contar as histórias que vivi
Passar um bom bocado contigo,
Que eu cumpro sempre aquilo que digo,
Até deixo-te uma lembrança,
Um abraço enorme e um beijo sentido,
Vou, mas volto na esperança
De saber curar esse coração ferido…

15.10.11

A vontade da telha


E se a telha estiver partida?
Se recusar encaminhar água
Para o caleiro como fez toda a vida?
Tem o direito de se achar perdida,
De não mais querer ser telha
Por achar-se já velha,
Queimada pelo sol, que lhe bateu durante anos,
Roída pela água que encaminhou para os canos.
Desgastada de uma vida dura
Onde ninguém lhe encontra cura.
Com vontade de deixar as demais,
Deixar de ser pouso de pardais
E simplesmente nada fazer,
Apreciar um dia o amanhecer
Gozar a vida até ao anoitecer…
Permitirá o telhado tal desejo
Gerado pela telha num breve ensejo?
Sem ela o telhado não tem valor,
Fica oco, sem alma, perde a cor…
Acorda a telha em sobressalto
Com a água que cai lá do alto,
Jura nunca mais querer
Ao telhado não pertencer,
Enche-se de força e consegue gritar
Para que a ouçam além, no mar:
- Poderei para sempre ser velha
Mas orgulho-me de ainda ser telha,
A ti que de pedras tens as mãos fartas
Só te rogo que não me partas!

22.9.11

Vento


Subi à mais alta montanha!
Queria ver-te, tenho saudades.
Puxei pelas minhas habilidades
E tentei decifrar tudo o que olho o apanha.
Não te consegui ver, estás distante.
Desanimei e sentei-me nas flores a meus pés
Contei-lhes tudo, disse-lhes quem és,
Disse-lhes o que sinto, o quanto és importante.
No meio da conversa tentou meter-se o vento
Com seu ar forte e valentão, ia soprando
Ia-se fazendo de desatento,
Mas chamava-me fraco e suspirando
Pedi-lhe um enorme favor,
Pedi-lhe que te entregasse um beijo
Doce, ternurento, meigo, cheio de amor,
E te dissesse que ver-te neste ensejo
Era o meu maior desejo.
Poder sussurrar-te o quanto te quero,
Acalmando-te prometendo que por ti espero
Como se estivesses ao virar da esquina,
É assim que vou sobrevivendo,
Enganando a mente que também desatina,
Enganando um coração que resiste à dor
Anestesiada pelo teu amor.
Depressa o vento forte se comoveu
E o seu ar agreste desapareceu,
Amainou e ouvi-o prometer
Que te entregaria o meu pedido
Numa leve brisa ao amanhecer.
Um beijo, um carinho e um amo-te sentido…