Última
vez que tenho massa como refeição. Durante todos os dias que aqui passei, não
comi mais nada que não fosse massa, com vários feitios mas, sempre com o mesmo
sabor. Já mal posso imaginar comer massa, além disso preciso de umas batatinhas
fritas, de um bom bifinho, ou de uma francesinha à moda da Joana! Mas lá virá o
tempo. Aqui a comida parece saber toda ao mesmo, sabores muito estranhos e
diferentes do que estamos habituados, quando vemos um prato com bom aspecto não
passa de fogo de vista, o sabor torna-se uma desilusão, por exemplo, hoje
apresentaram-me um prato com salada de fruta, temperada com orégãos e pimenta! Sabia
tão bem só a frutinha laminada… Hoje foi dia de reuniões finais, e de ultimar
alguns pormenores, foi também dia de algumas despedidas, amanhã se farão mais
certamente. Deixo para trás dias frios, sorrisos rasgados, lágrimas sentidas,
nervos à flor de pele e as batalhas ganhas, a partir de agora só quero pensar
numa viagem longa e tranquila até aos braços de quem me espera. Não quero mais saber da massa, mas
talvez sinta falta dos litros e litros de chá que devorei por estas bandas.
Confesso que estou farto disto, preciso de Portugal, preciso de me sentir em
casa, preciso daquele abraço carinhoso, mas não quero deixar que a ansiedade
tome conta de mim, quero descansar, esquecer esta dor de barriga, dormir
sossegado e amanhã de manhã partir de Baga rumo a Braga. É tempo de esquecer o
stress e esperar que tudo corra bem, tenho uma longa viagem pela frente e agora
vou descansar. Darei notícias em breve. Até já!
5.12.11
4.12.11
Diário da Índia - Dia 16
Shimla!
Não, não se trata de um espirro, trata-se de uma cidade, capital de Himachal
Pradesh na Índia, com uma altitude de 2400 m e que eu fui visitar ontem. Demorei
cerca de 3h horas a percorrer os 75 km que separam Baga de Shimla. Um caminho
tortuoso de curvas e contra-curvas apertadas, altos e baixo, buracos e lombas
mal amanhadas que fazem sofrer o mais duro estômago. Por entre macacos, águias
e falcões e densa floresta lá chegamos ao destino para fazer uma viagem a cavalo,
viagem essa com o custo de 350 rupias (5,83 €), valor que nós não tínhamos
connosco. Aliás não tínhamos dinheiro nenhum senão euros. Ainda assim, e não
sei bem como, lá cavalgamos durante 5 minutos, monte acima, onde é cobrada a
entrada, 10 (0,17 €) rupias por pessoa, e onde no interior existe um templo, um
espaço para admirar os Himalaias com neve, entre outras coisas. Os cavalos
ficam cá fora e mais uma vez não temos dinheiro para entrar no parque, ainda
assim, 0,40 € são o suficiente para deixar entrar 4 pessoas. Entramos e em vez
da 1h30m definida pelo dono dos cavalos pedimos apenas que esperasse 30
minutos, mas quando voltámos estavam lá só 2 cavalos… Já cá em baixo é-nos
pedido para pagar as viagens, voltámos a explicar que não temos dinheiro, nem
maneira de pagar, o nosso motorista saca
de 600 rupias para abater à conta e explica que passa lá outro dia para pagar o
resto, não me perguntem como, juro que não percebo estes negócios. Voltámos para
a cidade onde nos foi garantido que existem McDonald’s e Pizza Hut. A rua onde
existem chama-se Mall Street e não passam lá carros, fica muito mais elevada
que as outras ruas da cidade, temos de subir ou pelas escadas, ou apanhar dois
elevadores que cobram 7 (0,12 € )rupias pela subida. Ora nós não temos rupias e
mais uma vez 0,20 € fazem milagres e compram 4 passagens, recebendo ainda 22
rupias (0,37 €) de troco! Chegados a Mall Street só à terceira é que
conseguimos levantar dinheiro e descobrimos que não existe McDonald’s nem Pizza
Hut, existe isso sim Domino’s que também faz pizzas. A fome aperta tanto que lá
fomos ao Domino’s. Apesar de pedirmos encarecidamente uma pizza que não fosse
picante ela vem cheia de pimenta que até faz chorar os olhos. Mesmo raspando
toda a pimenta visível, o sabor está entranhado no resto dos ingredientes. A viagem
feita de volta por aquele caminho tortuoso logo a seguir não podia correr muito
bem como é óbvio e lá parámos pelo caminho antes que “o barco virasse”.
Custou-me imenso chegar a casa sem vomitar, mas lá consegui, e fica a maior
aventura desta viagem… Acho que ainda sinto o cheiro a cavalo!
3.12.11
Diário da Índia - Dia 15
O
último sábado que passo deste lado do Mundo é hoje. É tempo de ultimar os
pequenos pormenores, dar formação de utilização e manutenção de todos os
equipamentos e dar por terminada a tarefa. Como tal, se tudo correr bem, espero
uns dias mais sossegados de agora em diante. Tendo mais tempo para reparar em
pequenos pormenores, começo a encontrar diferenças desta fábrica para a fábrica
da minha outra aventura por estas bandas, Rewa. Reparando bem nos camiões,
estes não trazem pneus com a câmara de ar à mostra, não estão partidos, têm
todas as partes que constituem a carcaça e os seu motoristas estão constantemente
a limpá-los. Os motoristas são também diferentes. Mais educados, mais
civilizados, mais respeitadores. Ao contrário do que acontecia em Rewa, aqui em
Baga os motoristas respeitam os semáforos vermelhos, apesar de ter sido eu a
instalar os únicos num raio de cerca de 100 km. Continuando nas pequenas
diferenças, aqui não encontro vacas, mas encontro 2 cabras e muitos macacos,
também encontrei alguns cães, por sinal, um deles fez questão de me acordar
várias vezes a noite passada. O clima é também diferente, muito mais frio aqui
em Baga, provavelmente está relacionado com a altitude (1800 m). Ao longe,
muito ao longe mesmo, e só quando o nevoeiro o permite, consigo vislumbrar uns
picos ainda mais altos que estes com neve. Em Rewa predominavam mais as
planícies. Um só país mas muitas pequenas coisas a diferenciá-lo. E lá passou
mais um dia, está mesmo quase…
2.12.11
Diário da Índia - Dia 14
Em
Portugal existem coisas tão banais que as vemos como sendo normais em qualquer
parte do mundo, infelizmente não o são, e felizmente consigo ver algumas delas pelo
menos, conseguindo assim dar mais valor ao que temos. É praticamente impossível
mulher em Portugal pensar em ir trabalhar e levar o seu filho consigo quando
este ainda precisa ser amamentado, mas aqui na Índia não existem creches nem
amas para ficar com os bebés, e as mães têm de os levar para o trabalho, seja
ele qual for. Uma imagem que certamente irei guardar por muitos bons anos é a de uma mãe, talvez
com 30 anos, andar no emprego com o filho de cerca de 3 ou 4 meses, às costas,
preso com um lenço. Nada de fascinante, não trabalhasse esta mãe na construção
civil e eu até nem acharia isto tão estranho. Esta pobre mãe, além de acarretar
a pobre criança faminta às costas tem de transportar à cabeça pratos em ferro
cheios de cimentos, cerca de 15 kg (sim pratos, aqui não existem baldes de
cimento) e tijolos, durante todo o dia, é impressionante a força desta mãe.
Talvez por isso tenha reparado nas poucas crianças que por aqui existem. Não
têm brinquedos, por isso, brincam ajudando os mais adultos no trabalho, brincam
com pás, transportam tijolos, peneiram a areia e a terra… Era tão bom que
pudéssemos ter todos acesso às coisas básicas e simples. Quanto ao trabalho
está praticamente tudo acertado, em breve voo para casa… Até já!
1.12.11
Diário da Índia - Dia 13
Goza-se
em Portugal (por enquanto) mais um feriado, já pela Índia isso é coisa que não
existe, pelo menos hoje. Pelo menos, e ao contrário de ontem hoje já consegui
trabalhar, já tinha condições para tal, apesar de serem muito más. Passar o dia
inteiro em cima de um banco, em pé, num andaime móvel, a comer pó de cimento à
força toda, não coisa muito agradável, daí que não estranhe o fim do dia, cheio
de dores no corpo todo e completamente de rastos, ainda assim sentia-me bem por
dentro, avançou-se mais um pouco no progresso da instalação dos equipamentos e
já falta pouco tempo para voltar a casa. Já mal suporto a massa com pimentos e
tomate todos os dias ao almoço e ao jantar. Muda o formato mas matem-se o
sabor, e diga-se que não lá muito bom. Contudo já só cá estarei mais 4 dias. Ai
que saudades…
30.11.11
Diário da Índia - Dia 12
Há
dias em que nada se faz, já lá cantavam os Quinta do Bill, e outros dias há em
que nada se pode fazer. Hoje foi uma mistura destes dois tipos de dias, nada
fiz, porque nada podia fazer. Limitei-me a marcar presença aqui e ali e nem os
macacos apareceram para me entreter. Ora não se faz porque falta isto, ora
porque aquilo ainda não está pronto, ora porque agora não é boa altura… Será
que ninguém percebe que eu só quero acabar isto regressar a casa? Importam-se
de me facilitar a vida? Valeu-me o banho de água bem quente, a cavaqueira no
fim de jantar e as palavras embrulhadas em carinho vindas de Portugal. Por
falar em Portugal, amanhã é feriado, mas não para mim…
29.11.11
Diário da Índia - Dia 11
Diferente
este dia, não nas cores, não nos cheiros, não na neblina que se faz sentir nem
buzinar dos camiões. Acordei animado, e o dia foi correndo normalmente,
aperta-se uns parafusos aqui, faz-se uns furos ali, faz-se uma ficha deste lado
conecta-se um cabo daquele, vê-se um bando de macacos a migrarem de um lado da
estrada para o outro, enfim, foi passando o dia. Ao jantar, o frango mal
passado fazia-me lembrar que este era um dia diferente. Diferente também por,
misteriosamente, deixar de acesso à internet. Logo hoje… Terá um macaco roído o
cabo? Talvez, talvez não. É então por telefone que se consegue falar para
Portugal, saber as novidades e matar algumas saudades. Percebo então que este
dia foi igual aos outros, pela primeira vez fiz anos fora de casa, sem
festejos, sem bolos, sem beijinhos e abraços. Foi o telemóvel que me fez saber
que alguém se lembrou de mim, não consigo agradecer a todos os que o fizeram e
sinto-me mal por isso, mas não tenho maneira de os contactar, não tenho
internet hoje, logo hoje. Vou deitar-me na dúvida de não saber afinal quando
devo achar que não faço anos, às 0h00 da Índia ou 5h30 depois? Não interessa, para
o ano faço anos outra vez…
28.11.11
Diário da Índia - Dia 10
De
regresso ao trabalho, não se podia esperar um pior regresso. Há dias em que não
entendo porque raio me parece que falta tudo para poder trabalhar. Odeio quando
as coisas empancam por todo o canto e esquina, começo a perder a calma e a
paciência, devolvida apenas ao final do dia, falando para quem ficou pela
Europa, lembrando coisas boas passadas, recolocando um sorriso na cara que me
enche o peito de ar, e não só, num suspiro enorme. Há dias assim, dias em que
nada corre bem, mas só temos de sorrir, esperar pelo próximo e lembrar que
falta menos um para regressar a Braga. É menos um dia neste tortuoso caminho
serpenteado com um túnel em que se esqueceram de colocar ventilação mas que tem
dois enormes portões na entra e na saída… Hoje apetece-me mesmo ir para casa,
ir para o abraço que me faz falta. Quase nem me lembrava que amanhã faço anos…
27.11.11
Diário da Índia - Dia 9
Nem
sempre é fácil levantar o animo, por isso, eu tento viver cada dia sem olhar ao
dia anterior, começar tudo de novo, agarrar-me ao que de melhor tenho e tentar
sorrir. Foi o que fiz hoje, apesar de tudo tentei esquecer as réstias de maus
sentimentos que moravam em mim. Tive folga, a falta de mão de obra na fábrica
obrigou-me a ficar por casa, e consegui umas longas horas de conversa com quem
ficou por Portugal e me ajudou a acalmar e a sorrir. Apesar do dia praticamente
passado dentro do quarto, senti-me como se tivesse dado meia volta ao mundo, me
tivesse enroscado num cobertor quentinho com alguém muito especial, tivesse
espalhado sorrisos por todo o lado e tivesse acabado o dia, aconchegado, a ver
um pôr do sol qualquer junto ao mar. Soube muito bem, fez-me muito bem. Deu
para descansar e animar, amanhã há mais… trabalho!
26.11.11
Diário da Índia - Dia 8
Eis
que chegou o dia que eu mais receava, o dia e que já nada é novidade, em que
tudo se torna monotonamente chato, em que o buzinar musical dos camiões já não
me faz sorrir, o dia em que todas estas curvas, subidas e descidas já não me
fazem sentir numa animada montanha-russa mas sim num infernal e enjoativo
caminho a percorrer e que parece cada vez ser maior. Sinto-me exausto, sem
força física e força de vontade para acabar o que comecei, contudo, sei que
tenho de o acabar… Fui abaixo, não há grande coisa que me ajude deste lado a
encarar melhor os sentimentos que se baralham. Na verdade nem sequer tenho
pensado muito no que tinha antes de cá chegar, ou no que vou encontrar quando
lá chegar. Tenho tentado manter dentro de um frasco toda a ansiedade e toda a
saudade. Já nem os macaquinhos que me cabem na palma da mão e que por aqui
brincam me fazem animar. Apenas os aprecio com o olhar distante. Custou-me a
passar este gélido dia, custou-me continuar a imaginar que não existe nada mais
do que o que consigo ver. Custou-me ver as injustiças e só não me custou a
adormecer…
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