17.3.12

Mundo Complexo

Às vezes perdemo-nos na complexidade do que afinal é tão simples, tão básico, tão natural. O Mundo não foi desenhado por nós nem para nós, porquê tentar mudá-lo? Porque não nos afeiçoamos nós a todas as suas características? Se a primavera demora um ano a chegar porque queremos sempre apressar o desabrochar das flores? As coisas bonitas levam tempo a ser construídas, a crescer, a amadurecer. Por muita vontade que tenha em comer fruta, se ela estiver verde nunca me vai saber a fruta madura… Se o que é bom demora tempo espero que o dia de amanhã o seja, porque esta noite parece querer ficar para durar. A noite e a incessante, incansável e intermitente vontade de desistir, de descrer em grande parte do que começo. Não acredito nas coisas que faço, não tenho fé que valha a pena. Desisto por me sentir incapaz, desisto por não saber o que estou afinal a fazer, desisto porque uma nuvem negra insiste em tapar-me o sol. Porque não sou capaz de escrever quando preciso? Porque não o sei fazer quando é suposto? Quem me entala as palavras e a tranquilidade necessária para que a inspiração nasça dentro de mim e brote os amontoados de letras que esperam de mim? Toda esta complexidade é afinal muito simples: não posso escrever quando os outros querem, não sou talhado para isso, não o sei fazer. Acabaram-se as experiências, acabou-se a oportunidade, simplesmente não consigo, perdi-me na complexidade…

16.2.12

O piano e a lágrima que não cai



Embala-me o piano, em batidas leves que fortemente me tocam no coração dorido. Prendo a lágrima com algemas e deito fora a chave. Dói-me a garganta de um nó que não desata e aperto a língua contra o céu da boca, faço força, cerro os punhos, dói-me, não me queixo… É a única vez no dia em que o consigo fazer. As pernas geladas não me bloqueiam o pensamento, mas antes o fizessem. Para que buraco fundo vou eu outra vez? Gosto do embalo que me dá o piano, gosto das notas que me obrigam o corpo a reagir, mas não gosto da dor que hoje me trazem, não gosto da fúria e da raiva que tenho hoje comigo. A voz que acompanha o piano traz-me o desalento, a vontade de desistir, a vontade de ficar parado, olhar a lua, sentir o frio roer-me os ossos, perder-me na imaginação de não pensar em nada, voltar a ser criança, reaprender a rimar… Oiço até à exaustão. Não tenho vontade de fazer nada, por isso espero… Espero que alguém me encontre e sei que me vão encontrar. Não estou escondido, estou só quieto, mas continuo aqui, à espera, contando até três, porque quero ser feliz. É assim que ela canta, é assim que eu oiço, é assim que me dói e é assim que eu não choro.

15.2.12

Porque te amo


Apetece-me ser apaixonado
Tal como me apetece dizer que te amo
Sem qualquer acto profano
Que na mente humana possa ser criado.
Apetece-me beijar-te,
Sentir dos teus lábios o doce travo,
O palpitar forte que no peito te cravo
Com carinho, com ternura, como se fosse uma arte.
Apetece-me sentir o teu abraço
E toda a paz que ele me oferece,
A ternura do teu regaço,
Aquele calor que me aquece.
Apetece-me ficar a lado
Como se o mundo não existisse
Sentir-me desejado, sentir-me amado,
Como se a cada dia um novo amor se abrisse.
Apetece-me tudo isto e muito mais,
Ir contigo sempre mais além
Tenho força para derrubar vendavais,
Para enfrentar o futuro que aí vem.
Apetece-me… deixa-me que te diga,
Apetece-me as borboletas na barriga,
Apetece-me o ternurento beijo que me aquece…
E eu só faço… só faço aquilo que me apetece…

Alívio


- Não tinhas o direito de o fazer. Não sei quem és, mas não te queria dar o direito de o fazer. Fizeste-o sem olhar para trás, e se o fizeste é porque podias. É injusto e não aguento esconder mais. Não consigo esconder mais a raiva por trás do sorriso, o olhar perdido, o sentimento de vazio, o eco dos gritos abafados na garganta. Podias ter avisado, podias ter feito alguma coisa… Podias ter-lhe poupado a vida… Não te apeteceu, e em mim puseste a raiva, a vontade de cerrar os punhos e gritar até que as artérias se mostrem na garganta. Não penses que me ganhas, deste-me um valente soco no estômago, criaste um fosso entre mim e o mundo para eu cair lá, mas não o vais conseguir. Eu não quero e não deixo que isso aconteça, deste-me força para seguir, deste-me força para resistir… Não sei quem és, não sei onde estás, sei que desta vez vai doer e sei que não me vais ganhar! Estás a ouvir-me? Julgas que a felicidade é pura ilusão? Vou mostrar-te o contrário. EU VOU VENCER! EU SOU CAPAZ!

- CALA-TE!

- Não me metes medo com o estremecer do chão. Quem és tu? Mostra-te! Responde-me! Vais fugir-me outra vez? FALA COMIGO! COBARDE! NÃO ME VAIS DERROTAR, NÃO DEIXO QUE O FAÇAS!

8.2.12

Não sou doido por cachecois...

Não tenho de me justificar, nem tenho de dar contas a ninguém do que faço, mas sinto uma necessidade de explicar o porquê da colecção de cachecóis, o porquê de continuar a aumentar o número de exemplares. Confesso que tenho uma paixão por símbolos, por emblemas e sempre me fascinaram os cachecóis de futebol. Por mero acaso, nas deslocações do Sporting de Braga, comecei a trocar cachecóis do meu clube com os adeptos da equipa da casa, foi por aí que começou a colecção. Uma vez que não existe número de exemplares definidos, defini eu que coleccionaria os cachecóis das equipas adversárias do Sporting de Braga. Nas equipas portuguesas a vida foi-me sendo facilitada a cada jogo fora que o Sporting de Braga fazia, quanto às equipas estrangeiras, que em tempos ou mais recentemente o Sporting de Braga defronta nas competições europeias, é mais difícil adquirir os cachecóis dessas equipas. Assim sendo, facilita-me a vida a Internet. Coloquei os meus cachecóis na Internet, e visitei inúmeros sites de outros coleccionadores com cachecóis que me interessavam.  Não conhecia ninguém, mas a verdade é que fiz inúmeros amigos. E digo amigos porque o são na verdade. Troco cachecóis com os mais variados países da Europa. Da vizinha Espanha à França, da Itália a Inglaterra, da Grécia à Rússia, passando pela Holanda, Roménia, Alemanha e Israel, da Bulgária à Eslováquia e até da Eslovénia à Ucrânia. Espalhados pela Europa estão pessoas de diferentes clubes, diferentes etnias, diferentes credos, mas sempre com a mesma paixão por cachecóis, por futebol e pelo fair-play, pela amizade. É inexplicável o sentimento que tenho sabendo distribuo cachecóis do Braga (e não só) pela Europa fora, que recebo encomendas do outro lado da Europa, onde alguém como eu, tem prazer e gosto por aquilo que faz. Contudo, o contacto não se resume a troca de cachecóis. Oferecem-se presentes, trocam-se ideias, fala-se de jogos antigos, de jogos recentes, fala-se da família, do estado do país e do estado do Mundo.  É esta união, é este grupo, United Scarves Collectors, que me faz continuar a contactar com todos eles, a trocar cachecóis e não só. Sinto-me bem com isso, não sou doido por cachecóis, não os tenho num sitio onde ninguém pode tocar, qualquer um pode lá ir, tocar neles, abri-los, vê-los, não é algo que guardo com a vida. Conseguem imaginar como um simples pedaço de pano com um símbolo pode levar dois desconhecidos a encontrarem-se num qualquer país? É como ter um amigo para ir ver num país que visitamos pela primeira vez. Assim fez o Simon Moses, Israelita, aquando da sua visita a Portugal. Visitou Braga e o nosso estádio num desvio à sua passagem pelo Porto, porque lhe falei da cidade e do clube. É a amizade que nos une, os cachecóis são só um pretexto. Que o diga o Mark Nienhaus, adepto do Shalke 04, alemão e com dois filhos, o mais novo tem uma babete com o símbolo do Braga, porque o pai assim desejou. Não me julguem por ter muitos cachecóis, façam um esforço para perceber o gozo que isso me dá… Deixem de me chamar doido, de me chamar viciado, recuso sê-lo…

28.1.12

Sem sentido


Repetem-se as explosões de ideias.
Faminto de as concretizar
Sinto o apetite correr-me nas veias
Sinto o sangue a queimar
Como a lava laranja de um vulcão,
Espessa, quente, forte,
Devastando tudo sem perdão,
Espalhando o terror, semeando a morte.
A morte que em mim são das vontades,
Dos pensamentos, dos impulsos.
Afinal porque me invades,
Se depois me apertas os pulsos?
Deixa-me deitar água na fervura,
Limpar a mente insana,
Beber da água mais pura,
Sentir o odor que o Mundo emana.
Quero acalmar todas estas ganas,
Voltar apenas a escrever com sentido,
Ser o que afinal tu proclamas,
Ir em busca do sorriso fugido.
Que se me rebentem as artérias
De tão forte bater o coração,
Por se acabarem as misérias
Se crie em mim uma explosão.
Que se acabem as drogas que me alimentam,
Que me desvairam e me tiram o juízo,
São elas que estas ideias fomentam,
As que me correm no sangue sem aviso.
Apetece-me, correr de pernas atadas,
Gritar amordaçado,
Esbracejar de mãos amarradas
E se estou livre, apetece-me ficar parado…

27.1.12

Já não voas


De que te servem as asas, borboleta?
Não adianta que te mintam
E que bonitas são te digam,
Tal e qual uma colorida paleta
Se na verdade tu nem as mostras
E eu sei que tu disso bem gostas.
Mas se nem as usas, corta-as,
Se nem voas, larga-as,
Se não podes espalhar magia, queima-as.
Deixa que o fogo os sonhos te apague
E que o futuro a dor da perda te afague.
Ainda vives de ilusões porquê?
Não as abres, estão atadas, ninguém as vê!
Terás ainda o jeito à tua mercê?
Não mereces… desiste dessa ideia parva!
Sem asas não passas uma simples e verde larva…

4.1.12

Fantasma



Às vezes sinto-me um fantasma,
Um fantasma de mim.
Hoje sinto-me assim,
Hoje sinto-me um fantasma.
Não engana a cara pálida,
O ar desleixado
De quem não se importa com o legado,
Nem se a crítica é válida.
Invadiu-me o desinteresse,
E sem que nada para isso eu fizesse,
Perdi o estado de harmonia
Como um rádio perde sintonia,
Onde apenas toca agora a maldita estática
Em estalidos que nada mais são na prática
Que meras vontades de ser e de agir,
Vontades de saber o que fazer a seguir.
Diz-me para onde vais
Deixa-me segurar-te a mão.
Prometo-te que não cais
E que não faço promessas em vão.
Diz-me o que sentes mais falta,
O que posso fazer por ti
Não quero mais ser fantasma,
Ajuda-me, ajuda-te, tira-me daqui…

7.12.11

Diário da Índia - Dia 19


Estive tentado a juntar num episódio só os dias 18 e 19. Afinal tratam os dois do mesmo, o meu regresso a Braga, e para mim é como se fosse um dia muito longo. Ainda assim são dias diferentes, um marca a minha saída da Ásia e o outro a minha chegada à Europa. Apesar da partida atrasada em Delhi, acabámos por chegar quase à hora prevista a Frankfurt. É tão bom ver rostos que mais se assemelham aos nossos, ouvir uma língua que ainda sendo desconhecida me soa a casa. Sinto um aconchego de uma cultura mais parecida com a minha, apesar da frieza dos alemães. Não paro de contar os minutos até embarcar de regresso ao Porto. As escassas 3 horas que me separam do meu país parecem-me uma eternidade. Entretenho o cérebro entre uma chamada e a lembrança dela para esquecer a espera. Embarco rumo ao sonho que me invadiu o pensamento nos últimos dias e assim que as rodas do avião voltam a tocar o chão sinto dentro de mim uma explosão de alegria. O sorriso na cara é indisfarçável e já nem me importo da espera pelas malas, saio do aeroporto só com Braga na mente, ou melhor, com quem me vou encontrar em Braga, que saudades eu sinto, mas estão quase a ser eliminadas. Apenas uma curiosidade, desde a minha última visita à Índia que não tinha problemas com acidentes e avarias de carros e camionetas, mas eis que na viagem entre o Porto e Braga feita de carro, tenho um acidente, nada de grave é certo, mas será que trouxe o azar comigo de novo? Quero acreditar que não. Finalmente chego a casa, à comida da minha mãe, ao abraço dos amigos, à ternura da namorada… Tinha saudades deste beijo, saudades deste carinho, e uma vontade enorme de fazer desaparecer este aperto no peito. Agora é só tratar do sono, do apetite e recuperar o tempo perdido. Foram 3 semanas bem sei, mas a mim pareceram-me 3 meses, tempo demais sem algumas coisas bem importantes, que me alimentam o sorriso. Estou em casa, acabou mais uma aventura na Índia…

6.12.11

Diário da Índia - Dia 18


Hoje é o dia de começar a viagem de regresso e a chuva que ameaça cair faz-me pensar que o tempo por aqui fica mais triste sem mim, ainda assim quero voltar, não quero cá ficar. Confesso que pensar nas tortuosas curvas que tenho até chegar perto de Chandigar me assustam e causam um friozinho na barriga. Tento esquecê-lo e entretenho a mente com as despedidas e as memórias dos tempos que por cá passei. Não sei porquê mas sinto alguma nostalgia, ainda assim não quero cá ficar, quero voltar e bem rápido. Faço-me então à estrada no conforto do banco traseiro, acomodo-me o melhor que posso e tento nem pensar nas horas que tenho para andar de carro, por entre curvas e contra-curvas, subidas íngremes e descidas loucas, ultrapassagens apertadas, buracos na estrada maiores que o da madeira, paisagens de perder de vista e animais que nunca lhes tinha posto a vista em cima. Encontra-se de tudo por estes caminhos da Índia. Imagine-se que no meio disto tudo está uma banca montada na beira da estrada a cobrar a passagem na cidade dos veículos, consoante o número de passageiros, e que me dá a entender que foi alguém que se lembrou de montar ali a banca porque lhe apeteceu e viu uma oportunidade de negócio. As curvas são intermináveis e o estômago começa a dar sinais de não estar a gostar da brincadeira, afinal já passaram 3h desde que saí de casa e continuo a fazer curvas e curvas e curvas… Ou será isto só fome? Como não sei e tenho medo de descobrir a certeza ligo a música no telemóvel, fecho os olhos e tento abstrair-me do que se passa à minha volta, apenas o balançar do corpo me faz lembrar que continuo a fazer curvas. A próxima paragem é para almoçar, imagine-se, no McDonald’s algures perdido nos Himalaias. Quem se lembra de fazer um restaurantes destes aqui? O certo é que veio mesmo a calhar. As únicas diferenças que encontrei neste em relação aos de Portugal é a particularidade da placa que diz que neste restaurante não se vende carne de porco nem de vaca e a de não existir aqui um WC. O único hambúrguer que conheci foi o McChicken  e foi a minha refeição. Finda a refeição voltamos às estradas estreitas, onde para se cruzarem dois carros um ter de ir à valeta, às curvas, e às ultrapassagens mirabolantes durante mais cerca de 1h30. Chegados ao aeroporto de Chandigar, que funciona como base militar também, o tempo de espera foi de cerca de 2 horas antes de embarcar no primeiro voo até Delhi, capital da Índia que me irá fornecer a passagem para a tão aguardada Europa. Desta vez a viagem foi feita num avião à séria, com dois potentes jactos, e ficam já avisados os próximos visitantes da Índia que nos voos da Jet Airways apenas se serve um copo de água aos passageiros, o que já não é mau diga-se de passagem. Chegados a Delhi, e aos característicos 28ºC com o sol posto, uma hora depois, a espera é muito longa e decidimos ir conhecer melhor a cidade, já que o tempo chega e sobra. Isto é uma cidade de loucos! Conduzir aqui, para mim, é completamente impossível. Estava à espera de algo diferente, uma cidade melhor, mais bonita, mas na verdade continua a ser a mesma miséria que nos outros sítios. A mesma sujidade, o mesmo cheiro, os mesmos costumes. Encontrámos algo diferente, um centro comercial do outro mundo… Enorme, brilhante, cheio de lojas conceituadas, onde se inclui as sopas Knorr, onde nos conseguimos sentir realmente numa zona civilizada. À entrada do parque são controlados todos os carros, mesmo no porta-bagagem para evitar atentados e coisas parecidas. Todos não, o nosso não foi porque no porta-bagagem vinham as nossas malas de viagem e dava muito trabalho verificar, de maneira que, o segurança fez o favor de nos ceder a passagem. A entrada do centro comercial em pedra polida e brilhante faz-me perguntar se realmente estou na Índia, mas obtenho rapidamente a resposta ao entrar na porta umas escadas acima onde sou revistado da cabeça aos pés… Já dentro do centro comercial, sinto-me na Europa. As lojas conhecidas, o cheiro diferente, o ambiente que se respira, a paz, a sanidade, a calma e o respeito, muito diferente do que se encontra destas portas para fora. Para matar a fome valeu-nos a Pizza Hut desta vez. Sem picantes, sem especiarias malucas, apenas pão, queijo, tomate e frango. Que delícia, que sabor, que saudades… Depois de um passeio pelos ovais corredores e pelas escadas rolantes chega a hora de voltar ao aeroporto para retomar a viagem rumo à Europa. O atraso de 30 minutos no voo cria-me alguma apreensão se o tempo será suficiente para em Frankfurt apanhar o voo que me levará até ao Porto. Sem problemas no passaporte desta vez, aguardo ansiosamente a abertura das portas, entro no avião, acomodo-me e tento nem me lembrar que vou passar as próximas 8h30 dentro deste avião… Entretanto será já outro dia!