31.8.12

80 horas em busca de um sonho

 

Há alturas na vida em que tomamos decisões sem pensarmos bem naquilo que nos acabámos de meter. Não, esta não é uma frase que demonstra arrependimento, é uma frase que quero que transporte adrenalina e a sensação de não sabermos o que vem a seguir. Em jeito de promessa disse a meio da viagem, já em Udine, que faria um relato escrito da aventura para que ficasse gravado não só em imagens, porém nem sempre as coisas correm do nosso agrado e como tal prefiro não me focar num relato tão específico, mas mais abrangente, pessoal e sobre sentimentos, daqueles que não controlámos...
Foi como se um relâmpago se tivesse dado na minha cabeça entre o “Ir até Udine era porreiro!”, o “Ir até Udine de autocarro era uma aventura” e o “Vou embarcar na aventura”. E foi assim que comprei o bilhete em direção às estrelas de fundo azul que dão milhões aos clubes. A mim pouco me importam os milhões, importa-me mais o prestígio de ver o meu Braga nesta competição, “reservada” em tempos só a alguns. Não me importei com os dias que a viagem levava, com o tempo e a longa distância, com o ir sozinho e me ter enfiado na aventura de cabeça. Não me importei, não por ser desleixado, mas por achar que quanto mais pensasse mais tendência teria de ver o jogo pela televisão que afinal até parece que nem se via em condições. Desde que comprei o bilhete, na noite de sexta-feira, até às 16h30 de domingo pouco pensei na viagem, não vivia em mim a ansiedade. Mas no momento em que pego nas mochilas e fecho a porta de casa foi como se o barulho dela bater me tivesse desbloqueado um friozinho na barriga que não mais me largou. Pelo caminho até ao ponto de partida da aventura, imaginei que mais gente tivesse perdido o juízo como eu, a verdade é que constatei que pouco mais de 60 pessoas se tornaram parceiros de viagem. Numa vista rápida pelo autocarro este parece que é dos que nunca avariam, já me sinto mais confiante. Embarcámos então rumo a Este. Muitos parceiros têm 2 bancos à sua mercê, eu para já tenho um companheiro de viagem. Ainda as curvas não iam em dez, e a música do cd dos Red Boys não tinha ultrapassado a primeira faixa e fui tomado de assalto, como se de um susto se tratasse, pelo pensamento “A Itália não é já ali a seguir a Aveiro ou a Coimbra… Eu nunca andei tanto tempo de autocarro! No que me fui eu meter!” A verdade é que quando me lembrei que ia ver o Braga, o meu Braga, tudo isto me pareceu apenas um pequeno pormenor, apenas um detalhe, e a vida é feita de detalhes… Ao contrário de outras viagens em que se fala sobre tudo, se ri sobre cada piada e se cantam as músicas do Braga sem que fiquemos exaustos, nesta viagem, ainda antes da paragem para jantar os temas de conversa começavam-se a esgotar, as piadas já se repetiam e as músicas já se entoavam ao pensamento do “Outra vez?”. Era já noite portanto quando parámos para jantar, algures numa área de serviço em Espanha, já se tinham adiantado os relógios, não tanto como o do autocarro que teimosamente se manteve 12 horas adiantado, ou atrasado, toda a viagem. Foi portanto a altura certa para pegar no cobertor que gentilmente me aconselharam a levar, e sentar-me no mesmo lugar. O problema é que é cedo para dormir, o filme não se consegue ler as legendas, não se conseguem ouvir as falas e parece-me chato, o que me leva à inquietação de não conseguir fazer nada e nada poder fazer para alterar isto. Pensei em pegar no mp3 para ouvir um pouco de música, mas se calhar é melhor guardar a bateria para o regresso. Acaba o filme, ou para a meio, nem sei bem que não estava com atenção e começa uma série de musicas que nada me distraem, Zé Amaro e Jorge Ferreira são dois bons exemplos que só servem para entreter o povo dos discos pedidos, perdoem-me a alfinetada. Decido então cerrar os olhos, mas não adormeço, não consigo, e nem era o barulho que me incomodava nem o bater da cabeça no vidro com o soluçar da camioneta. Era esta inquietação e de olhos fechados só consigo imaginar como será o jogo, se irei gritar até não poder mais, se conseguirei gritar o golo que todos vamos em busca, se traremos a vitória na mala, se seremos capazes de os ultrapassar, arrepio-me, volto a ficar lucido, e volta tudo ao início. A certa altura acabo por adormecer, não sei pelo que passei, sei que algo me fez acordar de súbito, talvez um sonho, desperto e não mais prego olho, atravessei a fronteira francesa a dormir. A verdade é que nem me importo porque me soube bem este pequeno descanso, preocupa-me mais esta falta de sono quando o caminho ainda nem a meio a vai. Já nada me entretém, o mp3 ajuda a desviar o pensamento do jogo, alivia a ansiedade, mas não me adormece. Chega a luz do dia, o pequeno-almoço, e o sono, talvez pelo cansaço. Dizem-me entretanto que passei por uma série de cidades francesas, não faço ideia, abria os olhos a espaços só para confirmar que continuávamos a andar, mas queria continuar a dormir, era a única coisa que me sossegava. E a dormir cheguei ao Mónaco. Cheguei pelo menos a um alto onde vislumbro lá no fundo o Mónaco a banhar-se em águas Mediterrâneas. Também eu me banhava se lá chegasse. Almoça-se o que se trouxe de farnel e parte-se rumo a Itália. Entre o Mónaco e a cidade de Génova existem tantos túneis que se a cada túnel perdêssemos um passageiro o autocarro ficaria vazio antes do fim, impressionante! Mas o mais importante, no meio de tanto túnel, era realmente a placa que indicava que estamos finalmente em terras italianas. Não sei que mosca me mordeu, mas voltei a adormecer até perto de Milão, onde voltamos a parar. Daí em diante, esperava eu e toda a gente, uma jornada até Brescia, a verdade é que fomos para Bergamo, e em vez do Hotel Plaza, fomos também para o 4 estrelas Hotel Palace. Hotel este que tinha mais estrelas do que empregados e não me pareceram a mim bem encarados, se calhar tiveram um mau dia, acontece a todos. Fico então alojado num quarto com 3 camas (só disse isto porque percebi mais tarde que houve quem tivesse de dividir a mesma cama com outra pessoa e não eram um casal, nem eram irmãos, eram amigos e assim ficaram). Depois de um banho que me traz vida, vem a massa, as febras e as batatas fritas regadas com água Flávia. Não é nenhum manjar, contava com melhor confesso, mas dá para tapar o buraco no estômago. O calor da noite convida a uma caminhada a pé, há quem prefira um viagem de táxi até Milão, eu, após analisar o ambiente em volta do hotel, sem pisar o passeio além do portão, decido ficar pelo meu quarto. A zona não inspira confiança, e a correria e movimentações de carros ao sinal de luzes de telemóvel não me agrada. Sei o que andam a fazer mas nem me interessa divulgar. Ligo a televisão, estico-me ao comprido na cama do meio (porque no meio é que está a virtude e porque era a única cama de frente para a televisão) e adormeço, nem me lembro de ter carregado 3 vezes para mudar de canal, já só me acordou o despertador! No fim do pequeno-almoço ruma-se à cidade que afinal nos trouxe cá, Udine! É sob escolta policial que viajámos da saída da autoestrada até à estação de caminho-de-ferro, bem no centro de Udine, porém, um mal entendido (ou 2, ou 3, não interessa) levou-nos até ao parque de estacionamento, ainda vazio, do Stadio Friuli com a promessa que após almoço um autocarro, que não o que nos trouxe até cá (teria de ficar parado durante 9 horas), nos levaria de volta até ao centro da cidade e nos transportava de volta à hora do jogo nos cerca de 5 km que nos separam. Assim sendo almoça-se por aqui uma bela de uma pizza, num restaurante indicado pela policia, e volta-se para perto do estádio. Dou comigo a encarar o estádio por fora e a imaginar o seu ambiente mais logo, lá dentro. Enquanto o autocarro não chega aproveito para comprar mais um cachecol alusivo ao jogo para a minha coleção na loja oficial da Udinese, onde a policia não me queria deixar ir, por estar equipado à Braga e poder haver problemas mas após alguma insistência lá cedeu. Volto da loja e percebo que a história do autocarro é afinal uma ilusão. Ficar aqui a penar entre um estádio fechado, um parque de estacionamento vazio e a sombra de um muro do quartel do exército não é solução, portanto, venha de lá um táxi que nos leve até ao centro de Udine! Por entre fotos, esplanadas, praças, policias em cada esquina e adeptos que gritam o nome da cidade ou do clube local, lá se mata o tempo, hora de voltar para perto da estação, sempre debaixo de uma escolta (ainda que bem disfarçada) por parte da policia. Por aqui se janta e se enche um autocarro de gente vestida de vermelho e branco em direção ao estádio. No meio de tantos cânticos nem dei pela viagem. Chegados ao parque de estacionamento, já bem mais composto, cresce em mim a incerteza de aguentar todo este ânimo e boa disposição. Fará sentido sair daqui derrotado? Poderão as coisas correr verdadeiramente mal? Perguntas a mais para uma cabeça que dói, um coração que se aperta e uma calma que não se encontra… Sou dos primeiros a entrar no estádio, contemplo a imensidão de cada bancada, por enquanto deserta, mas que aos poucos se vai enchendo. Percebo que somos uma insignificância nesta imensidão às listas pretas e brancas, mas o olho atento do Beto que ao acenar no aquecimento mostrou que nos viu e com certeza sentiu, fez-me pensar que só tinha era de gritar e apoiar como um desalmado, e assim fiz, vêm as equipas para o aquecimento e mostrámos que temos vozes para aguentar com tudo e todos, não somos 100, mas temos o poder na voz de cada Braguista que não viajou. Do jogo pouco há para falar. Destaco apenas a vontade com que todos cantámos, com que todos apoiámos, e com que todos sofremos. E quando digo todos é mesmo todos… Arrepiaram-se os corpos ao som do hino, verteram-se lágrimas no golo sofrido, gritou-se com desespero a cada bola que não entrou, suspirou-se de alivio a cada corte da nossa defesa, festejou-se como um golo a cada defesa do Beto, explodimos com o golo do Rúben, e impacientemente desesperamos pelos penaltis. Sei que é muito fácil falar agora, mas a verdade, é que quando o árbitro terminou o prolongamento, algo dentro de mim me dizia para confiar no guarda-redes. Esse sentimento foi aumentando a cada lado que ele adivinhava e que aos meus olhos pareciam uma quase defesa. E ela surgiu, e eu de mãos bem abertas bati nas costas das cadeiras em frente, e gritei, não faço ideia do que gritei, estava fora de mim, estava louco… No último penalti, aos meus olhos, o guarda-redes da Udinese duplicou o tamanho e a baliza encolheu para um terço, mas assim que vi o guarda-redes cair, percebi que o Rúben tinha encontrado o buraco da agulha, corri como um louco para os braços de quem estava mais perto, cerrei os punhos até me doer, gritei até não ter mais forças, senti as pancadas nas costas de umas mãos cheias de felicidade, vi lágrimas de alegria escorrerem dos meus irmãos de viagem, vi tudo e não consigo descrever nada… A maior palavra será sempre pequena demais para que nela caiba cada sorriso, cada abraço, cada lágrima, cada sentimento… Estamos na Champions, estamos todos lá e desejei nesse exato momento, quando tinha os jogadores à minha frente agarrados à rede do fosso que nos separava, poder ter ali o meu pai, a minha namorada e o parceiro de todas as viagens para que comigo festejassem, mas não tinha, e a lágrima que pelo meio da barba enorme se perdeu talvez se devesse a isso, à falta do abraço que ninguém poderia substituir. Recolheu a equipa ao balneário com mais de metade o Stadio Friuli a aplaudir em pé estes enorme Gverreiros. Recolhemos nós ao parque de estacionamento onde entre felicitações, aplausos, e trocas de cachecóis se passou algum tempo em que ainda mal acreditávamos que estávamos na Champions League. Do regresso a Braga nada tenho para contar, apenas que imaginei a festa que iria pelas ruas da minha bela cidade e no aeroporto onde chegou esta fantástica equipa. A mim resta-me sonhar, ainda falta muito caminho pela frente, ninguém me irá receber como herói, e não havendo uma foto de grupo que esteja completa, guardarei para mim a imagem de cada parceiro de viagem, pois cada um deles lutou como eu, uma luta desigual de apoio incondicional ao nosso clube, sem baixar os braços, sem deixar de acreditar… Um dia depois pergunto-me se faz sentido percorrer milhares de quilómetros, durante aproximadamente 50 horas num autocarro, para ver 2 horas de futebol. A resposta é sim, claro que vale a pena, pelo Braga vale sempre tudo a pena. Sim sou louco, mas eu gosto…

10.8.12

Chegou o dia


Falta pouco, falta mesmo muito pouco. O dia por mim mais aguardado dos últimos meses chegou. Chamem-me egoísta, chamem-me doido, não me importo, esperei pelo dia de hoje com a mesma impaciência que um menino para abrir os presentes de Natal. Tal como eu sei que a muitos mais lhes vai custar a passar a noite. Chamam-lhes os Gverreiros. Os sonhos, os cheiros, as sensações, as lembranças, os arrepios… ai os arrepios. Tudo começa aqui. Relembro os tempos vividos entre estádios, cânticos, golos, bolas na trave, nervos à flor da pele, gritos de paixão, juras de amor, promessas para uma vida, promessas a que não quero faltar. Quero dizer “eu estive lá, eu vivi, eu vibrei e eu chorei!” Tudo começa aqui, tudo começa hoje, vou cerrar os punhos com os meus irmãos de armas e gritar Braga, somos Gverreiros, não só de nome. Somos Gverreiros de corpo e alma, lutámos, caímos e renascemos cada vez mais fortes… Nós somos o Braga! Não são as bolas que beijam suavemente a rede, como quem acaricia uma flor, que nos levam ao estádio. É toda a ambição, toda a crença e toda a vontade que partilhámos desde a bancada com quem está dentro do campo. O Braga somos nós os adeptos, e o futebol é nosso, ninguém jamais o comprará, porque sentimentos não se compram. Ninguém me poderá tirar o frio na barriga antes de cada jogo, a dor de estômago até ao apito inicial, o cerrar dos punhos, o morder dos lábios, os gritos mudos, os “AAAAAAHHHHHH” e a explosão de alegria a cada golo, o sorriso rasgado a cada vitória e a lágrima marota a cada conquista. Ninguém me vai tirar o prazer de fazer quilómetros pelo meu Braga, ninguém me vai roubar o que guardo cá dentro, nem mesmo que a lágrima seja de dor, porque o desconforto que ela provoca será afagado e partilhado pelo parceiro do lado, tornando-nos ainda mais fortes. Deveria estar a dormir, talvez esteja a divagar demais, mas a verdade é que não me apetece, não consigo controlar esta ansiedade, apetecia-me mesmo era acampar junto a uma das portas cinzentas que me levarão ao céu, ao meu céu, onde eu me sinto melhor e onde eu me sinto cada vez mais vivo…
Chegou o dia, o dia  em que mais uma vez prometo nunca te deixar sozinho…

16.7.12

Quatro traços




Queria nunca ter crescido, ser para sempre criança.
Um eterno menino sem consciência.
Enlouquecido, em estado de total demência
Recusava apaixonar-me sem pagar fiança.
Onde vivia esse querer, porém,
Cresceu algo em mim que devo a alguém.
Amor eterno, chamam-lhe assim.
Sei que gosto, sei que não te fim.
A ti garanto que é para toda a vida
Recuso perder-te ou deixar-te ferida
Consigo imaginar a teu lado um amanha diferente,
O que ontem parecia tão distante
Nada agora dentro do meu sangue quente
Trata-se de um querer fervilhante
Iluminado pelo brilho do teu leve olhar,
Guiado por um gesto de conforto
Ostentado pelo teu meigo dedilhar.
Jamais quero encontrar outro porto,
Outro abrigo, outros braços…
Antes que me tirem esta vida mundana
Nunca te esqueças destes 4 traços:
“Amo-te para sempre Joana”

3.7.12

Aos enfermeiros




Todos já fomos pequenos e todos nos lembramos de o ser, mas nenhum de nós se lembra de nascer. Como tal, é impossível saber quem nos viu nascer, quem estava por perto, quem foram as primeiras pessoas a quem o nosso choro fez vibrar os tímpanos. Tirando alguns casos, talvez cada vez menos frequentes, todos nascemos num hospital ou noutro espaço equivalente. Dentro da sala onde berramos pela primeira vez estava alguém cuja profissão é considerada uma arte, além de uma ciência, que se desenvolveu a partir do longínquo séc. XIX. Como pioneira teve Florence Nightingale, enfermeira de guerra, britânica que cuidou dos soldados do seu país na Guerra da Criméia. Mulher de armas, dirão alguns. Pouco me importa, não estou cá para falar dela. Estou cá para falar dos enfermeiros dos dias de hoje, dos enfermeiros do meu país! Ao longo da vida, além de sermos acompanhados por médicos, somos acompanhados por enfermeiros, e pouco ou nenhum valor lhes damos. Em verdade vos digo, por muito valor que lhes dêmos, nunca será o suficiente. Socialmente mal tratados com conotações pouco abonatórias da dignidade de uma pessoa e imagens criadas que em nada correspondem à verdade (no que ao sexo feminino diz respeito principalmente), os enfermeiros têm ainda a má fama de serem severos, mal dispostos, carniceiros e por aí adiante. Não acham que chega de maltratar quem luta por nós sem se importar com o “nada” que lhes damos em troca? Chega de menosprezar quem nunca vira a cara à luta, quem sofre por dentro, quem se esforça nas horas de maior aflição, quem sente que falha e o quão injusta é a vida quando parte alguém que apenas conhece de um internamento,  e que mesmo sem nada saber dele, lutou até ao fim por ele e com ele! Chega de espezinhar quem quer trabalhar no país que necessita de enfermeiros para libertar a carga laboral dos que estão empregados e se vê forçado a abandonar a nação e procurar novos rumos! Chega! Está mais do que na hora de olhar para os enfermeiros como heróis que lutam diariamente em batalhas desiguais pela simples paixão de desempenharem com afinco, profissionalismo e orgulho a sua profissão, está mais do que na hora de deixar a mesquinhez de lado e de ver em cada enfermeiro um amigo, que estará pronto para nos ajudar, para nos salvar, para cuidar de nós. Não sou enfermeiro, mas nos últimos tempos tenho convivido com alguns, e das conversas de cafés, onde por vezes pareço aluado, apenas penso na injustiça por que todos eles passam, apenas penso nas dificuldades que eles sentem e mesmo assim mostram uma força de vontade que engole o mundo de uma vez só. Coloquei os enfermeiros num pedestal, não os enfermeiros que conheço, mas todos os enfermeiros em geral. Coloquei-os lá no alto porque hoje me perguntei a mim mesmo a quem era eu capaz de prestar uma homenagem sentida. Coloquei-os num pedestal, agora façam-me um favor e não os atirem abaixo, tratem-nos com carinho, que é com carinho que eles cuidam de todos nós.  Florence Nightingale foi enfermeira numa guerra, mas hoje, os enfermeiros, travam diariamente a sua própria guerra…

24.6.12

Algures em "O Arquivo"

«Onde estou, tenho o Terreiro de Moisés à vista. Conhecido por todos, não por este nome, o terreiro ostenta com  orgulho um cavalo em pedra e seu cavaleiro segurando uma lança ao ombro. Que cavaleiro é toda a gente o sabe, que se trata de um santo pouca gente acreditaria se eu contasse. Trata-se de um militar do longínquo exército romano. Sofria de um grave problema de visão, mas acabou torturado, sem dentes e sem língua, por ter abandonado a vida militar e se tornar monge, por deixar de ser pagão e se ter convertido. Mas o que teria acontecido na vida dele afinal para esta súbita mudança? E o que faz uma estátua dele no Terreiro de Moisés? Sendo este um local muito visitado, deveria constar uma pequena informação sobre tão grande estátua e se alto eu soubesse falar, para que toda esta gente que o fotografa pudesse ouvir diria que este a quem fotografam se trata do soldado romano que perfurou Jesus Cristo, quando este estava crucificado, para confirmar que já estaria morto, respingou-lhe o sangue nos olhos, curou-o, deixou a vida militar e tornou-se monge, foi perseguido e torturado. Por cá pouca gente sabe disso, e quando alguém nos massacra a moleirinha dizemos “Vai xotar as moscas ao Longuinhos…”»

20.6.12

Sem corda





Desespero ao olhar o relógio que não avança, desespero ao não ver os ponteiros mexer à velocidade dos meus dedos nervosos que se apertam aleatoriamente entre eles… Desespero porque descobri que nem sempre sobram forças para erguer obras e nem sempre as obras já erguidas assim se mantêm. Chateia-me a pequenez mental e a mesquinhez de mentes que se acham brilhantes por segurarem uma lâmpada. Não sou dono do Mundo e não sou dono da razão, mas sou dono da minha sanidade mental, e por isso olho o relógio que tenho em frente, os ponteiros não mexem, o pendulo não oscila, e o martelo não assinala as horas, nem as meias, nem os quartos. Podia dar-lhe corda, mas não quero, prefiro contemplá-lo assim, sossegado, desinteressado do mundo, porque mesmo quando lhe dizem que está errado, que está atrasado, que está parado, ele mantém a sua postura, digna, bela, inabalável… Acho que afinal adoro vê-lo parado e descobri que o adoro assim ao descobrir que o meu mundo afinal não é tão grande quanto eu pensava, e já não cabem nele aquelas esperanças mortas pelo tempo que o relógio fez passar. Nada parece completar aqueles buracos que cuidadosamente foram identificados pela máquina dos sonhos, por agora parada em frente a mim, e que faz questão de me lembrar que dos sonhos idealizados enquanto o relógio andou, poucos foram realizados… Tenho a alma cansada, a pedir apenas um pouco de repouso, um pouco de colo…

30.5.12

Às vezes doí-me



Às vezes doí-me, como se ma apertasse de raiva com toda força do mundo. Não sangra, porque o sangue não mora lá, mas continua viva, continua a penar, continua a arrastar-se por não ser mais capaz de andar, por lhe pesar cada nada que lhe carregam nas costas, vergadas, gastas e a pedir clemência. Trava-se a vontade, aumenta-se o desejo, cala-se a voz e cerram-se os punhos. Não quebra, resiste e persiste tal como a dor. Entala-me a garganta como se me estrangulasse com os seus dedos finos e cruéis, mas não me quer matar, não, prefere ver-me sofrer, prefere ver a cara de dor, o pânico que os olhos escondem e os nervos que o ar sereno não deixa transparecer. São como estocadas certeiras, rápidas, silenciosas, minuciosamente preparadas. Não sou capaz de as travar, nem consigo sequer reagir, sinto apenas a dor, forte… Às vezes doí-me, como se ma quisessem rasgar, dar por perdida, destinar-lhe o fim que ainda recuso encontrar. Às vezes doí-me e não há cura nem atenuador porque às vezes… Às vezes doí-me a alma…

27.5.12

Um ano depois



É difícil encontrar a data do início, tal como é difícil definir a data do primeiro aniversário. Alarga-se por isso as comemorações ao dia adjacente, sempre ciente que na verdade isso nem importa nada. Não é um dia para trás ou para a frente que vai mudar a forma de crescer e evoluir deste meu sentimento tão nosso. Na verdade acaba por ser giro dizer que o aniversário é ali algures entre um dia e o outro. Um pouco à semelhança de quando te conheci, um pouco à semelhança de todos os cafés que tomámos com o único objetivo de satisfazer aquele bichinho que nos roía cá dentro e que nem sabíamos o que era mas que negávamos sempre, um pouco à semelhança daquelas conversas quase até nascer o dia que nunca sabíamos se tinham começado hoje ou se seria ainda ontem. Tempos confusos e de negações constantes que um beijo acabou por alterar. Sim lembro-me bem… Recordo com carinho o local, fecho os olhos e consigo imaginar tudo de novo, o friozinho na barriga, as mil e uma perguntas sem resposta, tudo isso acabou num instante, e de repente, senti-te ao alcance do meu braço, senti-te ao alcance do meu abraço. Lembro-me de como me tremiam as pernas enquanto me sentava no muro, lembro-me de como te arrepiavas e culpavas o frio que se fazia sentir, mas acima de tudo lembro-me do sorriso, puro e singelo, lembro-me do brilho dos teus olhos, lembro-me do carinho, lembro-me da paixão… Ai é tão bom estar apaixonado, sentir o coração alado a bater tão forte só por lembrar o teu toque suave e doce, e sabes uma coisa? Continua tudo igual… Há um ano que jurei lutar por ti e contigo, enfrentar todas as batalhas com garra, jurei amar-te e jurei fazer com que te sentisses apaixonada todos os momentos da tua vida, tudo em troca de um sorriso, afinal um sorriso é o que de melhor me podes dar, e a paixão é o melhor que temos como sentimento. Ao fim de um ano parece que te conheço há uma década, completas-me, fazes-me bem, fazes-me feliz. Podia ter engalanado e embandeirado este texto, podia ter escondido algo aqui pelo meio, mas não o fiz, escrevi pura e simplesmente o que sentia, relembrando os fins de Maio do ano passado, escrevi o texto com a simplicidade, pureza e verdade com que te digo que te amo Joana…

21.5.12

Contos da minha fada



Há histórias e há histórias de amor.
Contos de fadas, autênticos paraísos
Cheios de brilho, sentimentos e sorrisos,
Onde reina a felicidade num mundo cheio de cor.
Existem princesas que perdem sapatos,
Que adormecem eternamente,
Presas em torres por mentecaptos,
Salvas por um príncipe carinhosamente.
Largam casas, cabanas e grutas de gelo,
Perdidas nos arredores, ou mesmo na floresta,
Casam-se com o amado príncipe, fazem uma festa,
Mudam-se para o palácio e criam o próprio castelo.
Derrotadas as forças do mal,
Prevalecerá a paz nos seus castelos,
Nada mais atormentará o casal
E terão em suas vidas os momentos mais belos.
Não quero que sejas a Cinderela,
A Rapunzel ou a bela adormecida.
Serás sempre a Joana,  sempre a mais bela,
Com quem quero ficar toda a minha vida.
Não o digo por ser bonito,
Não o digo porque mo ensinaram
Digo-o nos olhos que me apaixonaram
Digo-o com o coração que fica aflito.
Digo-o a todo o Mundo se precisar
Por se tratar da minha maior glória.
Há histórias e histórias de encantar,
Mas a melhor será sempre a nossa história.

10.5.12

Há dias



Há dias em que as palavras me faltam,
Dias em que o azar teima em rimar com destino
E me levam a um total desatino,
Dias em que à franja os nervos me saltam.
Tremem-me as mãos, esvanece-se  a visão,
Turvam-se os sentidos, aperta-se o coração.
Dói este desalento que me corrói
Dói pensar, dói agir, dói ferir…
Dói… Sei que não mata, mas sei que mói…
Há dias em que as palavras são demais,
Melhor fora se estivesse calado
E a flor não tivesse secado
Com palavras, palavras a mais...
Há dias em que o telemóvel não liga,
Em que a máquina do café não é amiga,
Fica-te com o troco e nem a bebida adoça,
Há dias em que um arranhão parece uma mossa.
Há dias que não me apetecia ter
E dias que eu nem queria ver,
Há dias que me roubam o querer
E dias que nem dias deviam ser…