Há
livros vazios de conteúdo, livros vazios de palavras, livros por escrever e
livros que não o deviam ser. Contudo, existem bons livros, livros que nos
apaixonam com a sua história e nos fazem sonhar, livros que nos oferece a nossa
paixão, livros que são o nosso sonho, livros que nos tocam, que nos marcam nem
que seja pela dedicatória escrita num virar de página. Todos são livros que
demoram uma eternidade a escrever, tudo é revisto ao pormenor para não falhar
nada, para sair na perfeição, para agradar, para vender. Por aqui nota-se a
falta de livros, sejam eles quais forem, bons ou maus não interessa, mas não
existem, não se encontram. Acredito que cada pessoa que comigo se cruza na rua
tinha histórias que dariam um bom livro, mas falta-lhes o tempo e a mim também.
Cheguei ao fim do dia de rastos, inalei quilos de cimento, tenho o sabor do pó
a roer-me os dentes e sinto-me como se tivesse acabado de escrever uma
enciclopédia de uma assentada só. Mas não o fiz, porque falta-me o tempo,
começo a senti-lo escorregar-me entre os dedos como o cimento que rapidamente
se acumula em tudo o que está parado. Aflige-me este sentimento, assusta-me
olhar para o futuro, e por isso continuo a querer olhar só para hoje,
aproveitar a coisa que melhor me sabe em terras indianas, um bom banho quente
para limpar toda a porcaria que carrego, e deixar-me arrastar até à cama no fim
de um jantar com uma comida intragável e adormecer sem dar por isso. Hoje há
futebol em Braga, um dos melhores e mais apetecíveis jogos na minha cidade natal.
O meu Braga defronta o poderoso Manchester United e eu estou do outro lado do
mundo a tentar despertar à 1h30 da manhã para me agarrar à TV e ver o meu clube
através da Tem Sports. Sinto a cabeça a explodir, preciso relaxar, preciso
desligar o cérebro.
7.11.12
6.11.12
Diario da India III - Dia 3
Todos
os dias tenho atravessado uma linha de comboio em pleno funcionamento e outra
em construção. Ao contrário do que se pensa por esse mundo fora, os comboios
aqui também podem ser normais, onde as pessoas vão e permanecem sentadas, é
desses comboios que por cá passam, muitas composições mas sem penduras nas
janelas e no tejadilho. Ao passar pelo caminho-de-ferro que está a ser
construído imaginei como é triste ser comboio, os outros trilham-nos os
caminhos e não nos podemos desviar deles sob perigo de não voltarmos a
encarrilhar. Não quero ser um comboio, quero trilhar o meu próprio caminho,
pisar onde quero mas ter o cuidado de não pisar ninguém, ao contrário do que
faço com os insectos que se passeiam pelo meu quarto e pela minha cama. Comigo
não dorme ninguém, nem coisa nenhuma! Por aqui começo finalmente a ver a
locomotiva sair da estação. Como uma máquina a vapor, devagarinho lá vai
tentando movimentar as rodas todas presas umas às outras, muito fumo, mas ainda
assim pouco movimento para o esforço gasto, tivesse a locomotiva uma pequena
ajuda para vencer a inércia e tudo escorregaria melhor. Outra coisa engraçada
que tenho visto por cá são os miúdos todas as manhãs em direcção à escola. É
giro vê-los de uniforme, como se de uma telenovela de tratasse, sem os
conhecer, desejo-lhes a maior sorte do mundo, eles não me vêm, não me ouvem,
mas sei que por certo sentirão o meu sorriso. Não merecem esta miséria, merecem
crescer como os uniformes, sempre limpos, aprumados e sem falta do essencial.
Por falar em essencial, por aqui o essencial para mim tem sido a comida, e tem
melhorado diga-se em abono da verdade. Hoje voltei a comer no mesmo local de há
dois anos atrás, revi caras que continuam iguais e comia a comida a que já
estava habituado com uma surpresa, hoje havia batatas fritas aos palitos! Que
maravilha… Ainda me falta contar a história do livro em Itália, mas hoje já não
dá tempo.
5.11.12
Diario da India III - Dia 2
Há
dias em que as coisas só podem mesmo melhorar, e hoje era um dia desses se as
coisas não se tivessem mantido abaixo do que eu desejava. Não consigo perceber
onde pode chegar a falta de vontade de um humano. De positivo (sim existe
sempre algo positivo) destaco a comida e o acesso à internet. A comida, não que
tenha sido muito boa, mas foi melhorando ao longo do dia. Ao pequeno-almoço
fomos brindados com torradas recheadas com puré de batata e salsa acompanhadas
de ovos estrelados com pedacinhos de tomate e cebola misturados com a clara, um
espectáculo! Mas eu não comi, lá me trouxeram umas torraditas com manteiga como
manda a sapatilha. Do almoço nada a relatar e o jantar esse sim, bem melhor que
o resto, uma massinha com cenouras e feijão-verde digna de registo, dentro das
coisas más que por aqui se comem esta era realmente a menos reles. Durante o
dia também fui comendo, involuntariamente, cimento a magotes. Nem a máscara que
me sufoca me valeu de muito já que cheguei ao fim do dia e sentia aquele pó
cinzento a arranhar-me os dentes. Não arranhava só os dentes já que graças ao
cimento acumulado em todo o corpo ao tomar banho à noite tive direito a uma
esfoliação corporal simultânea. Tenho tentado manter um estilo alegre e bem-disposto
durante estes relatos, tentando evitar algumas palavras e expressões, mas não
consigo esconder mais. Hoje com o acesso à internet e algum tempo disponível para
pôr a leitura da caixa de e-mail em dia, senti um perto no peito. Chama-se
saudade e tenho evitado falar nela. É ela que me forma uma lágrima que não cai
mas que me dá tanta vontade de sair daqui. Apetece-me sair daqui e correr para
os teus braços. Não pertenço a este mundo imundo, desinteressado e diferente o
suficiente para não me interessar por uma pontinha dele. Não tenho nada contra
a India mas não quero cá voltar. Desta vez estou mesmo farto, apetece-me atirar
a toalha ao chão, desistir, fazer-me fraco. Tenho vivido um dia de cada vez,
pensando e desejando apenas que chegue o amanhã, tenho tolhido e bloqueado o
meu próprio pensamento, tornei-me prisioneiro de mim mesmo, libertem-me…
Diario da India III - Dia 1
Mais
um dia destinado a viagem. Desta vez a viagem cumpria o trajecto Delhi – Rewa,
passando por Kajuraho. A primeira parte feita em avião correu como esperado, no
avião ao estilo camioneta de carreira com paragem em Varanasi. De volta aos
ares e de volta a Kajuraho 2 anos depois. Quase tudo igual, o calor, o ar
abafado, o aeroporto parecido com uma estação de camionagem, as escadas movidas
pela força humana, o carrinho que transportam as malas entre o avião e a
passadeira de recolha pelos passageiros movido a força de pernas de 10
indianos, quase tudo igual ao que encontrei há 2 anos atrás, a única diferença
foi ouvir no meio de cerca de 100 pessoas “Eles estão a empurrar o carrinho à
mão!” Foi muito estranho ouvir uma voz portuguesa que não a de nós os 4. Sim
estavam mais dois portugueses no aeroporto de Kajuraho e se por um lado parecia
um milagre, por outro só confirma a teoria de que existe um português seja onde
for. Foi um episódio engraçado, para relembrar, tal como o episódio do livro no
aeroporto de Milão, ainda não o contei, esqueci-me, mas conto depois mais para
a frente. Faltavam-nos ainda cerca de 3 horas até ao destino final, por montes
e vales e locais onde a placa “Fim do mundo” assenta que nem uma luva, e foi por
aí que pela primeira vez vi elefantes, 3 enormes elefantes com suas trombas
usadas para derrubar árvores, e se não era essa a sua tarefa era o que lhes
tinha apetecido fazer, e não era eu que lá ia pedir para eles pararem. Ontem
falava no meu receio de as coisas piorarem, pois é que pioraram mesmo, a casa
de hóspedes de Rewa não tem lugar para nos hospedar e ficaremos nos próximos
dias na fábrica de Bela, não muito longe, mas que provocará um certo transtorno
em transportes de um lado para outro. Vamos a ver como correm as coisas daqui
em diante, amanhã é o primeiro dia mais duro, mas continua a ser o mais
esperado. Sim, porque enquanto aqui estou anseio sempre pelo dia de amanhã,
para que chegue mais rápido o dia de abraçar quem amo…
3.11.12
Diário da Índia III - Dia 0
Voltei.
Voltei a escrever o dia 0 na minha terceira visita à India. Confesso que não
tenho a mesma vontade, a mesma força e a mesma frescura mental para aguentar o
que por cá se pena. A verdade é que será esta a estadia mais longa, imagino-a a
mais complicada. Começou por sê-lo na despedida, nenhuma das outras duas me
custou tanto. Três. Três era o número de vezes que tinha, em tempos, previsto
visitar a India, e cá estou, mas já nada me surpreende, já não há aventura, já
sei para o que venho, já sei o que encontro, não me faz confusão as mãos dadas
em homens de bigode posto, não me faz confusão o calor húmido nem o cheiro característico
que para mim será sempre o cheiro a India, porque não o encontro em mais lado
nenhum, e não o assemelho a nada mais. De diferente, desta vez, talvez só
consiga destacar o valente trambolhão que dei no aeroporto, uma queda
desamparada como se tivesse sido atropelado por um comboio, mas na verdade
tropecei só numa mala. Não me lembrava de cair assim desde miúdo, mas pouca
gente reparou, e quem se riu mais até fui eu. Por estranho que pareça, os 5
lugares do carro que rapidamente se transformaram em 6 e a condução habilidosa
de quem consegue conduzir em Delhi já me parecem banais, como o detector de
metais à entrada do hotel 5 estrelas que apita, mas ninguém quer saber porquê!
Sim leram bem, estou num hotel 5 estrelas, em que o chão espelha e reflecte a
minha imagem, em que tenho um senhor no elevador de luvas brancas para
pressionar o botão por mim, e onde trabalha gente cuja função é sorrir e
perguntar às pessoas se estão bem ou precisam de alguma coisa. Que coisa boa…
Por falar em coisas boas, nunca tive duas refeições tão boas na India como
hoje. Sem picantes, com arroz com sal, com massa sem imenso pimento e pimenta,
com amendoins, com carne de frango e de borrego… claro que o restaurante só
podia ser chinês-japonês. Enchi o bandulho, porque tão cedo não como tão bem.
Parto de manhã cedo rumo ao que me trouxe cá, acabam-se as mordomias, as
comidas boas e dizemos olá ao cimento e aos enlatados que levamos de casa. Só
espero estar a contar com o pior e as coisas melhorarem, porque senão…
23.10.12
Teatro dos sonhos
Chamam-lhe teatro dos sonhos. Nem me
interessa saber porquê, para mim ficará para sempre gravado esse nome por me
ter feito sonhar, e como o sonho comanda a vida, fez-me viver. Fez-me sonhar
primeiro com a possibilidade de voltar a terras de sua majestade, mas não fui,
fiquei por cá a sofrer, podia ter sido pior e podia estar do outro lado do
Mundo a sofrer ainda mais. Sofri, antes do apito inicial o friozinho na barriga
não me deixava sossegar, mexia as pernas sem sentido, não me concentrava no que
me diziam, não fazia sentido por mais atinado que fosse. Após as pancadinhas de
Molière, um cruzamento com olhinhos do Hugo Viana encontrou a cabeça do Alan
que lhe deu a melhor direção possível, as redes de Old Traford, leva-me ao
delírio, grito, cerro os punho com bastante força, é golo, é do meu Braga, calámos
os ingleses, marcámos um golo, quase nem acredito. É quase tão difícil, para
mim, acreditar neste golo como é acreditar que consigo ouvir os Gverreiros que
na bancada puxam com toda a força pelo clube de que tanto se orgulham. Somos
nós, os do Braga que lá estamos, somos nós que acreditámos que os sonhos se
realizam. Assim o fez Éder, acreditou que era capaz, acreditou que conseguia e
conseguiu mesmo, fintou o defesa, levantou-me do sofá e obrigou Alan a não
falhar novamente, que sensação, que desassossego, que nervos, que vontade, que
grito, que arrepio agora que me lembro disso… Marcámos dois golos ao Manchester
United, no seu próprio covil, trocávamos a bola, jogávamos bonito, mostrava-mos
a nossa raça, a nossa crença o nosso valor. Por dentro sabia que havia muito
jogo, mas continuava a sonhar… Aos poucos o sonho foi-se perdendo e acabei por
acordar. As luzes continuavam acesas, caímos com a cortina, mas caímos tal e
qual como ela, caímos em pé, mostrámos que somos Gverreiros, mostrámos contra
um colosso europeu que quando se acredita tudo é possível. Não me venham com
pieguices, não culpem ninguém, saibam ver o futebol como futebol que é, vejam o
jogo como um jogo sem polémicas com duas excelentes equipas, que lutaram ambas
pela vitória, que jogaram limpo, que jogaram bonito, que jogaram futebol e não
se limitaram a jogar à bola, orgulhem-se do Braga e não apontem o dedo a
ninguém. Adivinho o que me amanhã me dirão, e só me deixam duas possibilidades de
resposta que é com dois dedos bem esticados, se amanhã falarem para mim,
escolham bem o dedo que querem ver erguido. Caímos de pé como a cortina, no
palco do teatro dos sonhos, e mesmo depois da luz apagar eu vou continuar de pé
a aplaudir, porque tenho orgulho no meu Sporting Clube de Braga…
20.9.12
Fantasmas que vão... e voltam!
Serão os
fantasmas invencíveis?
Poderão eles
ir e voltar quando querem?Malditos seres invisíveis
Que me atormentam e me ferem
O orgulho, a paz, a calma, a alma.
Invejo-lhes a frieza com que me atacam
Em momentos precisos
Com ataques concisos
Famintos de tristezas alheias
Dos que lhes corre o sangue nas veias,
Sedentos das lágrimas salgadas
Jorradas pelas vontades falhadas.
Serão os fantasmas capazes de ir e voltar?
Serei eu capaz de os voltar a afastar?
Terei eu a calma suficiente
Para com passo firme seguir em frente?
Afastar as almas penadas
Que em mim se passeiam como fadas?
9.9.12
Bala
Dedilho uma bala, sinto-lhe o peso,
Imagino-lhe a força, a impulsão.Sinto o medo, cerro-a na mão,
Suo, tremo, que confusão…
Abro lentamente a mão
E aprecio-lhe o brilho,
Sussurro-lhe um segredo,
Gravo-lhe um nome…
Fecho a câmara e
Do gatilho tiro o dedo.
Baixo a arma, baixo os braços,
Desisto, não tenho mais força
Para calar a voz que me berra
Desisto, acabou-se a guerra…
8.9.12
Que futuro?
Que futuro? É a pergunta que mais faço quando
falo apenas comigo mesmo. Não consigo imaginar o futuro, não consigo olhar em
frente e ter uma imagem, ainda que ténue, do que poderei fazer ou que caminho
poderei seguir. Sinto-me deveras perdido. Tenho 25 anos. Talvez devesse começar
um novo projeto na vida, a verdade é que tenho imensa vontade de o fazer, mas
nada mais me resta que a simples vontade. Sinto-me incapacitado por quem tem
poder para tal, por quem se acha capaz de comandar as vidas de um país, por
quem fala do futuro e das melhorias que ele traz mas que na verdade nunca foram
vistas. Fico angustiado, grito de desespero, choro de tristeza por me roubarem
os sonhos e no fim não me sinto aliviado, sinto-me preso a umas correntes que
parecem definitivas, sinto-me controlado como uma marionete. Não vejo solução
para uma vida que parece estagnada, condenada a definhar até ao juízo final.
Não tenho futuro, não existe futuro, existe e existirá sempre um presente
pesado que me fará penar e ficar revoltado. Não me venham a mim dizer que os jovens
de hoje em dia não querem empregos, que não querem fazer nada, não querem
trabalhar. Isso para mim são tretas, são muitos os que como eu lutam
diariamente para sobreviver, sujeitando-se a tudo e mais alguma coisa, na
esperança que um dia o futuro aconteça. Sinto-me roubado e mal tratado pelo meu
próprio país, sinto-me indesejado aqui quando as medidas que me mostram me
querem obrigar a deixar a minha nação. Mas a quem governa deixo o aviso, o país
é do povo, não de quem governa, e eu recuso-me a emigrar, recuso-me a deixar o
meu país. Antes morrer na podridão das mentes de alguns que ceder a pressões
bacocas. É triste não existir futuro para os jovens no seu próprio país, é
triste prenderem-nos a uma vida impossibilitada de mudança onde cada vez mais somos
obrigados a ter menos, somos obrigados a sacrifícios injustos e inglórios. Não
me obriguem a pagar pelos erros de quem cá chegou antes de mim, julguem quem
agiu de má fé, condenem quem nos arrastou para o fundo do poço e encontrem
medidas justas que nos mostrarão o caminho da subida, onde ainda existe
esperança, onde ainda existe futuro. Deixem-me viver, deixem-me voltar a ser
feliz e voltar a ter orgulho em ser português. Não destruam os sonhos a quem
tem força para lutar por eles. Deixem-me pelo menos (voltar a) ter um futuro…
5.9.12
Procuro-te
Um
amargo sabor a saudade povoa-me o paladar, a saudade de um beijo ternurento, doce,
mágico, que me leva daqui… daqui onde há consciência, daqui onde se sente dor,
onde a realidade existe, onde existe a saudade do acariciar de uns lábios, não
uns quaisquer, os teus lábios, a tua carícia na nuca, o teu sorriso no final,
o teu sentimento expresso em palavras que nunca o definirão realmente. Um
tremor inquieta-me as mãos, uma angustia aperta-me o peito como se me tentasse
encolher na zona do estômago. Tenho sede de ti, sede beber o teu ser, engolir o
teu sentir, devorar o teu querer, sede de te amar, sede de uma carícia tão
simples e tão banal, tão ingénua e tão desejada, tão tua, tão minha, tão nossa…
Mostra-me o que sentes falta, diz-me o que procuras, juntos encontraremos a tua
Lua, o teu luar, o teu brilho, a tua alma. Ajuda-me a ajudar-te, deixa-me
amar-te sem meses, sem dias, sem horas mas com vida, com muita vida, com toda a
minha vida, para sempre. Para sempre. Para sempre parece-me bem. Amar-te-ei
para sempre
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