13.11.12

Diario da India III - Dia 10

 
Véspera do festival das luzes, para mim um dia normal, para a maioria dos indianos um dia especial, só trabalham meio-dia, a partir das 13 horas ninguém trabalha por cá, quanto a mim, sou o branco cá do sítio, trabalho até às 18h30 e já saio mais cedo. A fábrica ficou deserta de pessoas e povoada de luzes e velas por todo o lado. Não há pó de cimento, não há camiões que buzinam e se desfazem a cada lomba, não há camionistas a cuspirem tabaco mascado. Existe apenas paz e sossego. Cai a noite e a “guest house Ajit Bhawan” onde pernoito, almoço e janto, transforma o seu hall, escadaria e entrada num autêntico caminho de velas, onde apenas o cheiro se torna demasiado. Faz-me sentir calmo, começo a gostar do Diwali. A única parte que retirava a esta festa é o liberalismo em relação à pirotecnia, nesta noite toda a gente lança foguetes sem rei nem roque, para onde estão virados, não se importando com os outros nem se importando com eles próprios. Das duas uma, ou nestes dias há montes de feridos e com gravidade, ou são todos inocentes, porque a sorte protege os inocentes. Tive medo, tive muito medo… regressei por isso a casa, amanhã para eles é feriado, mas para mim não, eu estou de volta à luta! Feliz Diwali a todos!

12.11.12

Diario da India III - Dia 9



A palavra trânsito faz sempre muito sentido aqui na India. O trânsito por estas bandas é algo de impossível, tem poucas regras, muitos conhecem-nas, mas todos as ignoram. E no que trata a engarrafamentos é algo único. Nos últimos dias tenho sentido a mesma sensação de quando estamos presos no trânsito e vamos a caminho da estação de comboio. Aqueles nervos, aquela raiva, aquela vontade de ter asas, os suores, os murmúrios… Mas finalmente hoje foi o dia em que esse trânsito começou a fluir melhor, aproximamo-nos alguns passos mais da estação, mas continuamos longe e receio não chegar a tempo de entrar no comboio. Cai-me no estômago como uma bola, difícil de digerir como o cimento. Uma leve brisa de calma soprou e deixou-me apreciar as luzes do Diwali. Luzes iguais às de Natal, mas não havendo aqui Natal, há Diwali (ou festival das luzes) alguns foguetes e muita ansiedade para que chegue o dia de amanhã entre os locais, a véspera do Diwali, já eu só anseio o amanhã por saber que falta menos um dia para te abraçar e te mimar.


11.11.12

Diario da India III - Dia 8

 
Há dias que têm tudo para dar certo quando nascem, o pior é que, por vezes, ainda são alimentados a leite e já se tornaram no maior pesadelo. Um acidente com causas misteriosas atrasou ainda mais a conclusão dos objectivos que me trouxeram cá. Isto e algum esperto me ter cortado os cabos de rede durante a noite e ter levado cerca de 5 metros de fio! Não se consegue confiar em ninguém… Conseguir até se consegue, mas são poucos. Os camionistas é impossível confiar neles, sisudos e cinzentos como o cimento que carregam, estranhos como o tabaco que cospem depois de mascado. Estou farto de aqui estar. Preciso ir para casa, preciso de uma lufada de ar fresco que me anime e me dê ânimo para encarar o que falta, e ao que se sugere, pode ser mais do que esperava. Não quero isto, não quero mais cá voltar. Demasiada pressão psicológica leva-me a perder a calma por breves momentos. Sinto-me tenso, a tremer, a morder o lábio, não consigo focar a visão decentemente e solto um berro tapado pela máscara e ensurdecido pelo cimento. Volto a acalmar e a deixar de pensar, volto para o meio de quem não confio, inalo o pó que pelo ar se passeia e odeio-o tanto ou mais do que ter de estar tão longe de casa, tão longe do mimo, tão longe de ti…

10.11.12

Diario da India III - Dia 7


Encontrei uma distracção que me faz olhar para o cimento e vê-lo com alguma cor, apazigua a dor interior, leva-me o pensamento pela mão e faz-me esquecer a dor física do cansaço, do desespero e da desmotivação. Não se chama droga, chama-se música! Encontrei hoje na mochila o mp3, fez-me bem ouvir os sons conhecidos, reviver momentos, cantar ao som da música, vibrar com elas e sorrir um pouco, descontraí, e fez-me extremamente bem. Hoje mudo-me da planta de Bela para Rewa, tenho um quarto mais pequeno mas mais cómodo, com lençóis lavados, melhor comida, melhor atendimento e com grilos! Tenho grilos no jardim em frente ao quarto que vão cantar toda a noite e tenho um grilo dentro do meu quarto que me fugiu para debaixo de um armário e que não consigo apanhar. Faz hoje uma semana que entrei no aeroporto de Delhi, e apesar de não fazer uma semana que estou a trabalhar sinto-me de rastos. Encontrei uma balança e o peso era de menos 1,5 quilos que o normal. Talvez a balança não esteja correcta, ou a aceleração da gravidade tenha feito das suas. Um quilo e meio numa semana é muita coisa, e eu tenho-me alimentado bem, pelo menos não tenho sentido fome. Mas tenho alguns desejos, por causa da conversa de ontem, hoje apetecia-me umas castanhinhas assadas e agora á noite deu-me um desejo enorme de broa de milho… Também tenho saudades tuas, não o digo todos os dias porque me tento enganar a mim próprio, mas tenho saudades, muitas mesmo… bolas…

9.11.12

Diario da India III - Dia 6


Descobri duas coisas que todos os indianos têm, além de muitas outras bem estranhas, fiquemos só por estas duas. Ter um lenço “da mão” também conhecido por lenço de pano sempre à mão e conseguir beber uma garrafa de água de uma só vez sem tocar no gargalo da dita e sem fechar a boca, tentem esta proeza. Esta perícia acaba por ser fácil de perceber porque atinge toda a gente, com a falta de limpeza e higiene que por aqui cresce mais que cogumelos na floresta e não sendo ético (mesmo na India) negar água a ninguém, toda a gente bebe de todo o lado, com a devida autorização desde que não enfie lá os beiços. Confesso que tentei e como é evidente molhei-me todo, só consigo encher a boca, fechá-la e engolir a aguinha, sempre engarrafada e lacrada, a saber ao cloro. Quanto ao lenço da mão é essencial e serve para tudo, desde máscara de partículas a engraxador de sapatos (a quem os tem), serve ainda para limpar o nariz e o suor que escorre pela cara ou as mãos no fim de as lavar, um multiusos portanto. Tenho passado nos últimos dias por imensos animais que andam à solta, não têm dono, mas que convivem no meio das pessoas como se sempre aqui estivessem. Entre eles, corvos, javalis e imagine-se raposas. Faz-me uma certa confusão como estes animais se passeiam pelo meio de pessoas, bicicletas, motas carros e camiões. Raio de país estranho. Tirando todas estas curiosidades continuo a ingerir quilos de cimento diariamente e creio estar a ficar com os neurónios muito perto do “Tilt”, talvez seja cimento a mais.

8.11.12

Diario da India III - Dia 5


Levantei-me com um peso nos ombros como se carregasse toda a India. Começou a bater-me o cansaço, sinto-me aqui preso há um mês e nem há uma semana cheguei. Arrasto os pés tal e qual um dos sujeitos a quem tentei ingloriamente explicar onde ficava Portugal. É enorme a dificuldade com a língua, nem mesmo a língua gestual se consegue aplicar como se pensa, exemplo disso é a grande maioria dos que me rodeiam não compreender o sentido de um polegar erguido e o resto da mão fechada. É a língua que nos define e é ela que esconde muitos problemas, como a afta que me afecta e que só no final do dia consegui descobrir, a falta de espelhos tem destas coisas, não vemos em nós o que facilmente vemos nos outros. Vamos lá contar a história do livro em Itália e deixar as brincadeiras parvas com a tentativa de aguçar a curiosidade pelo dia seguinte deste diário. Após a aterragem do avião em tamanho reduzido da Portugália, no aeroporto de Milão, os passageiros, como normal, arrumam os seus pertences e saem ordeiramente do avião. Se a saída não se efectuar directamente para o interior do aeroporto, por norma existe um autocarro para fazer o transporte, ora foi exactamente o que aconteceu, toda a gente entrou no autocarro com a excepção de um passageiro que continuava dentro da aeronave à procura de um livro, e tendo a certeza que o fazia transportar consigo e que não poderia ter saído pelo próprio pé do avião, avisou a tripulação que não estava a conseguir encontrar o seu livro. Dirige-se então um membro da tripulação do avião à porta traseira do autocarro e grita alto e bom som “Alguém por engano ou distracção trouxe consigo um livro que não lhe pertencia?” Os passageiros olham uns para os outros, uns na tentativa de identificar um movimento suspeito outros a perguntarem-se com os olhos que pergunta estranha era aquela, outros a perguntar o que disse o homem porque não falam português, e para esses, o senhor repetiu exactamente o mesmo mas agora em inglês cerca de 10 segundos depois. Volta a aguardar mais 10 segundos e à falta de reposta pergunta novamente, ninguém responde e ele fica-se apenas pelo “Não?” A pontos de voltar costas por ver a sua esperança desvanecida, levanta-se um sujeito com o cabelo todo branco a aparentar os seus 60 anos e que estava a meio metro do tripulante do avião, chega-se perto dele, coloca a mala de mão no chão enquanto a abre e diz “Sou eu que tenho, mas peguei nele só porque não estava lá ninguém e o livro estava sozinho, foi para não o deixar lá, pensei que alguém se tinha esquecido dele!” 3 conselhos para quando viajarem de avião, nunca percam de vista os vossos pertences, se encontrarem algo que parece estar perdido entreguem à tripulação e no caso de não entregarem respondam que são vocês que têm o objecto perdido à primeira vez que perguntarem, fica bem, e não passam por ladrões.

7.11.12

Diario da India III - Dia 4


Há livros vazios de conteúdo, livros vazios de palavras, livros por escrever e livros que não o deviam ser. Contudo, existem bons livros, livros que nos apaixonam com a sua história e nos fazem sonhar, livros que nos oferece a nossa paixão, livros que são o nosso sonho, livros que nos tocam, que nos marcam nem que seja pela dedicatória escrita num virar de página. Todos são livros que demoram uma eternidade a escrever, tudo é revisto ao pormenor para não falhar nada, para sair na perfeição, para agradar, para vender. Por aqui nota-se a falta de livros, sejam eles quais forem, bons ou maus não interessa, mas não existem, não se encontram. Acredito que cada pessoa que comigo se cruza na rua tinha histórias que dariam um bom livro, mas falta-lhes o tempo e a mim também. Cheguei ao fim do dia de rastos, inalei quilos de cimento, tenho o sabor do pó a roer-me os dentes e sinto-me como se tivesse acabado de escrever uma enciclopédia de uma assentada só. Mas não o fiz, porque falta-me o tempo, começo a senti-lo escorregar-me entre os dedos como o cimento que rapidamente se acumula em tudo o que está parado. Aflige-me este sentimento, assusta-me olhar para o futuro, e por isso continuo a querer olhar só para hoje, aproveitar a coisa que melhor me sabe em terras indianas, um bom banho quente para limpar toda a porcaria que carrego, e deixar-me arrastar até à cama no fim de um jantar com uma comida intragável e adormecer sem dar por isso. Hoje há futebol em Braga, um dos melhores e mais apetecíveis jogos na minha cidade natal. O meu Braga defronta o poderoso Manchester United e eu estou do outro lado do mundo a tentar despertar à 1h30 da manhã para me agarrar à TV e ver o meu clube através da Tem Sports. Sinto a cabeça a explodir, preciso relaxar, preciso desligar o cérebro. 

6.11.12

Diario da India III - Dia 3


Todos os dias tenho atravessado uma linha de comboio em pleno funcionamento e outra em construção. Ao contrário do que se pensa por esse mundo fora, os comboios aqui também podem ser normais, onde as pessoas vão e permanecem sentadas, é desses comboios que por cá passam, muitas composições mas sem penduras nas janelas e no tejadilho. Ao passar pelo caminho-de-ferro que está a ser construído imaginei como é triste ser comboio, os outros trilham-nos os caminhos e não nos podemos desviar deles sob perigo de não voltarmos a encarrilhar. Não quero ser um comboio, quero trilhar o meu próprio caminho, pisar onde quero mas ter o cuidado de não pisar ninguém, ao contrário do que faço com os insectos que se passeiam pelo meu quarto e pela minha cama. Comigo não dorme ninguém, nem coisa nenhuma! Por aqui começo finalmente a ver a locomotiva sair da estação. Como uma máquina a vapor, devagarinho lá vai tentando movimentar as rodas todas presas umas às outras, muito fumo, mas ainda assim pouco movimento para o esforço gasto, tivesse a locomotiva uma pequena ajuda para vencer a inércia e tudo escorregaria melhor. Outra coisa engraçada que tenho visto por cá são os miúdos todas as manhãs em direcção à escola. É giro vê-los de uniforme, como se de uma telenovela de tratasse, sem os conhecer, desejo-lhes a maior sorte do mundo, eles não me vêm, não me ouvem, mas sei que por certo sentirão o meu sorriso. Não merecem esta miséria, merecem crescer como os uniformes, sempre limpos, aprumados e sem falta do essencial. Por falar em essencial, por aqui o essencial para mim tem sido a comida, e tem melhorado diga-se em abono da verdade. Hoje voltei a comer no mesmo local de há dois anos atrás, revi caras que continuam iguais e comia a comida a que já estava habituado com uma surpresa, hoje havia batatas fritas aos palitos! Que maravilha… Ainda me falta contar a história do livro em Itália, mas hoje já não dá tempo.

5.11.12

Diario da India III - Dia 2


 
 
Há dias em que as coisas só podem mesmo melhorar, e hoje era um dia desses se as coisas não se tivessem mantido abaixo do que eu desejava. Não consigo perceber onde pode chegar a falta de vontade de um humano. De positivo (sim existe sempre algo positivo) destaco a comida e o acesso à internet. A comida, não que tenha sido muito boa, mas foi melhorando ao longo do dia. Ao pequeno-almoço fomos brindados com torradas recheadas com puré de batata e salsa acompanhadas de ovos estrelados com pedacinhos de tomate e cebola misturados com a clara, um espectáculo! Mas eu não comi, lá me trouxeram umas torraditas com manteiga como manda a sapatilha. Do almoço nada a relatar e o jantar esse sim, bem melhor que o resto, uma massinha com cenouras e feijão-verde digna de registo, dentro das coisas más que por aqui se comem esta era realmente a menos reles. Durante o dia também fui comendo, involuntariamente, cimento a magotes. Nem a máscara que me sufoca me valeu de muito já que cheguei ao fim do dia e sentia aquele pó cinzento a arranhar-me os dentes. Não arranhava só os dentes já que graças ao cimento acumulado em todo o corpo ao tomar banho à noite tive direito a uma esfoliação corporal simultânea. Tenho tentado manter um estilo alegre e bem-disposto durante estes relatos, tentando evitar algumas palavras e expressões, mas não consigo esconder mais. Hoje com o acesso à internet e algum tempo disponível para pôr a leitura da caixa de e-mail em dia, senti um perto no peito. Chama-se saudade e tenho evitado falar nela. É ela que me forma uma lágrima que não cai mas que me dá tanta vontade de sair daqui. Apetece-me sair daqui e correr para os teus braços. Não pertenço a este mundo imundo, desinteressado e diferente o suficiente para não me interessar por uma pontinha dele. Não tenho nada contra a India mas não quero cá voltar. Desta vez estou mesmo farto, apetece-me atirar a toalha ao chão, desistir, fazer-me fraco. Tenho vivido um dia de cada vez, pensando e desejando apenas que chegue o amanhã, tenho tolhido e bloqueado o meu próprio pensamento, tornei-me prisioneiro de mim mesmo, libertem-me…

Diario da India III - Dia 1


 
Mais um dia destinado a viagem. Desta vez a viagem cumpria o trajecto Delhi – Rewa, passando por Kajuraho. A primeira parte feita em avião correu como esperado, no avião ao estilo camioneta de carreira com paragem em Varanasi. De volta aos ares e de volta a Kajuraho 2 anos depois. Quase tudo igual, o calor, o ar abafado, o aeroporto parecido com uma estação de camionagem, as escadas movidas pela força humana, o carrinho que transportam as malas entre o avião e a passadeira de recolha pelos passageiros movido a força de pernas de 10 indianos, quase tudo igual ao que encontrei há 2 anos atrás, a única diferença foi ouvir no meio de cerca de 100 pessoas “Eles estão a empurrar o carrinho à mão!” Foi muito estranho ouvir uma voz portuguesa que não a de nós os 4. Sim estavam mais dois portugueses no aeroporto de Kajuraho e se por um lado parecia um milagre, por outro só confirma a teoria de que existe um português seja onde for. Foi um episódio engraçado, para relembrar, tal como o episódio do livro no aeroporto de Milão, ainda não o contei, esqueci-me, mas conto depois mais para a frente. Faltavam-nos ainda cerca de 3 horas até ao destino final, por montes e vales e locais onde a placa “Fim do mundo” assenta que nem uma luva, e foi por aí que pela primeira vez vi elefantes, 3 enormes elefantes com suas trombas usadas para derrubar árvores, e se não era essa a sua tarefa era o que lhes tinha apetecido fazer, e não era eu que lá ia pedir para eles pararem. Ontem falava no meu receio de as coisas piorarem, pois é que pioraram mesmo, a casa de hóspedes de Rewa não tem lugar para nos hospedar e ficaremos nos próximos dias na fábrica de Bela, não muito longe, mas que provocará um certo transtorno em transportes de um lado para outro. Vamos a ver como correm as coisas daqui em diante, amanhã é o primeiro dia mais duro, mas continua a ser o mais esperado. Sim, porque enquanto aqui estou anseio sempre pelo dia de amanhã, para que chegue mais rápido o dia de abraçar quem amo…