13.11.12

Diario da India III - Dia 10

 
Véspera do festival das luzes, para mim um dia normal, para a maioria dos indianos um dia especial, só trabalham meio-dia, a partir das 13 horas ninguém trabalha por cá, quanto a mim, sou o branco cá do sítio, trabalho até às 18h30 e já saio mais cedo. A fábrica ficou deserta de pessoas e povoada de luzes e velas por todo o lado. Não há pó de cimento, não há camiões que buzinam e se desfazem a cada lomba, não há camionistas a cuspirem tabaco mascado. Existe apenas paz e sossego. Cai a noite e a “guest house Ajit Bhawan” onde pernoito, almoço e janto, transforma o seu hall, escadaria e entrada num autêntico caminho de velas, onde apenas o cheiro se torna demasiado. Faz-me sentir calmo, começo a gostar do Diwali. A única parte que retirava a esta festa é o liberalismo em relação à pirotecnia, nesta noite toda a gente lança foguetes sem rei nem roque, para onde estão virados, não se importando com os outros nem se importando com eles próprios. Das duas uma, ou nestes dias há montes de feridos e com gravidade, ou são todos inocentes, porque a sorte protege os inocentes. Tive medo, tive muito medo… regressei por isso a casa, amanhã para eles é feriado, mas para mim não, eu estou de volta à luta! Feliz Diwali a todos!

12.11.12

Diario da India III - Dia 9



A palavra trânsito faz sempre muito sentido aqui na India. O trânsito por estas bandas é algo de impossível, tem poucas regras, muitos conhecem-nas, mas todos as ignoram. E no que trata a engarrafamentos é algo único. Nos últimos dias tenho sentido a mesma sensação de quando estamos presos no trânsito e vamos a caminho da estação de comboio. Aqueles nervos, aquela raiva, aquela vontade de ter asas, os suores, os murmúrios… Mas finalmente hoje foi o dia em que esse trânsito começou a fluir melhor, aproximamo-nos alguns passos mais da estação, mas continuamos longe e receio não chegar a tempo de entrar no comboio. Cai-me no estômago como uma bola, difícil de digerir como o cimento. Uma leve brisa de calma soprou e deixou-me apreciar as luzes do Diwali. Luzes iguais às de Natal, mas não havendo aqui Natal, há Diwali (ou festival das luzes) alguns foguetes e muita ansiedade para que chegue o dia de amanhã entre os locais, a véspera do Diwali, já eu só anseio o amanhã por saber que falta menos um dia para te abraçar e te mimar.


11.11.12

Diario da India III - Dia 8

 
Há dias que têm tudo para dar certo quando nascem, o pior é que, por vezes, ainda são alimentados a leite e já se tornaram no maior pesadelo. Um acidente com causas misteriosas atrasou ainda mais a conclusão dos objectivos que me trouxeram cá. Isto e algum esperto me ter cortado os cabos de rede durante a noite e ter levado cerca de 5 metros de fio! Não se consegue confiar em ninguém… Conseguir até se consegue, mas são poucos. Os camionistas é impossível confiar neles, sisudos e cinzentos como o cimento que carregam, estranhos como o tabaco que cospem depois de mascado. Estou farto de aqui estar. Preciso ir para casa, preciso de uma lufada de ar fresco que me anime e me dê ânimo para encarar o que falta, e ao que se sugere, pode ser mais do que esperava. Não quero isto, não quero mais cá voltar. Demasiada pressão psicológica leva-me a perder a calma por breves momentos. Sinto-me tenso, a tremer, a morder o lábio, não consigo focar a visão decentemente e solto um berro tapado pela máscara e ensurdecido pelo cimento. Volto a acalmar e a deixar de pensar, volto para o meio de quem não confio, inalo o pó que pelo ar se passeia e odeio-o tanto ou mais do que ter de estar tão longe de casa, tão longe do mimo, tão longe de ti…

10.11.12

Diario da India III - Dia 7


Encontrei uma distracção que me faz olhar para o cimento e vê-lo com alguma cor, apazigua a dor interior, leva-me o pensamento pela mão e faz-me esquecer a dor física do cansaço, do desespero e da desmotivação. Não se chama droga, chama-se música! Encontrei hoje na mochila o mp3, fez-me bem ouvir os sons conhecidos, reviver momentos, cantar ao som da música, vibrar com elas e sorrir um pouco, descontraí, e fez-me extremamente bem. Hoje mudo-me da planta de Bela para Rewa, tenho um quarto mais pequeno mas mais cómodo, com lençóis lavados, melhor comida, melhor atendimento e com grilos! Tenho grilos no jardim em frente ao quarto que vão cantar toda a noite e tenho um grilo dentro do meu quarto que me fugiu para debaixo de um armário e que não consigo apanhar. Faz hoje uma semana que entrei no aeroporto de Delhi, e apesar de não fazer uma semana que estou a trabalhar sinto-me de rastos. Encontrei uma balança e o peso era de menos 1,5 quilos que o normal. Talvez a balança não esteja correcta, ou a aceleração da gravidade tenha feito das suas. Um quilo e meio numa semana é muita coisa, e eu tenho-me alimentado bem, pelo menos não tenho sentido fome. Mas tenho alguns desejos, por causa da conversa de ontem, hoje apetecia-me umas castanhinhas assadas e agora á noite deu-me um desejo enorme de broa de milho… Também tenho saudades tuas, não o digo todos os dias porque me tento enganar a mim próprio, mas tenho saudades, muitas mesmo… bolas…

9.11.12

Diario da India III - Dia 6


Descobri duas coisas que todos os indianos têm, além de muitas outras bem estranhas, fiquemos só por estas duas. Ter um lenço “da mão” também conhecido por lenço de pano sempre à mão e conseguir beber uma garrafa de água de uma só vez sem tocar no gargalo da dita e sem fechar a boca, tentem esta proeza. Esta perícia acaba por ser fácil de perceber porque atinge toda a gente, com a falta de limpeza e higiene que por aqui cresce mais que cogumelos na floresta e não sendo ético (mesmo na India) negar água a ninguém, toda a gente bebe de todo o lado, com a devida autorização desde que não enfie lá os beiços. Confesso que tentei e como é evidente molhei-me todo, só consigo encher a boca, fechá-la e engolir a aguinha, sempre engarrafada e lacrada, a saber ao cloro. Quanto ao lenço da mão é essencial e serve para tudo, desde máscara de partículas a engraxador de sapatos (a quem os tem), serve ainda para limpar o nariz e o suor que escorre pela cara ou as mãos no fim de as lavar, um multiusos portanto. Tenho passado nos últimos dias por imensos animais que andam à solta, não têm dono, mas que convivem no meio das pessoas como se sempre aqui estivessem. Entre eles, corvos, javalis e imagine-se raposas. Faz-me uma certa confusão como estes animais se passeiam pelo meio de pessoas, bicicletas, motas carros e camiões. Raio de país estranho. Tirando todas estas curiosidades continuo a ingerir quilos de cimento diariamente e creio estar a ficar com os neurónios muito perto do “Tilt”, talvez seja cimento a mais.

8.11.12

Diario da India III - Dia 5


Levantei-me com um peso nos ombros como se carregasse toda a India. Começou a bater-me o cansaço, sinto-me aqui preso há um mês e nem há uma semana cheguei. Arrasto os pés tal e qual um dos sujeitos a quem tentei ingloriamente explicar onde ficava Portugal. É enorme a dificuldade com a língua, nem mesmo a língua gestual se consegue aplicar como se pensa, exemplo disso é a grande maioria dos que me rodeiam não compreender o sentido de um polegar erguido e o resto da mão fechada. É a língua que nos define e é ela que esconde muitos problemas, como a afta que me afecta e que só no final do dia consegui descobrir, a falta de espelhos tem destas coisas, não vemos em nós o que facilmente vemos nos outros. Vamos lá contar a história do livro em Itália e deixar as brincadeiras parvas com a tentativa de aguçar a curiosidade pelo dia seguinte deste diário. Após a aterragem do avião em tamanho reduzido da Portugália, no aeroporto de Milão, os passageiros, como normal, arrumam os seus pertences e saem ordeiramente do avião. Se a saída não se efectuar directamente para o interior do aeroporto, por norma existe um autocarro para fazer o transporte, ora foi exactamente o que aconteceu, toda a gente entrou no autocarro com a excepção de um passageiro que continuava dentro da aeronave à procura de um livro, e tendo a certeza que o fazia transportar consigo e que não poderia ter saído pelo próprio pé do avião, avisou a tripulação que não estava a conseguir encontrar o seu livro. Dirige-se então um membro da tripulação do avião à porta traseira do autocarro e grita alto e bom som “Alguém por engano ou distracção trouxe consigo um livro que não lhe pertencia?” Os passageiros olham uns para os outros, uns na tentativa de identificar um movimento suspeito outros a perguntarem-se com os olhos que pergunta estranha era aquela, outros a perguntar o que disse o homem porque não falam português, e para esses, o senhor repetiu exactamente o mesmo mas agora em inglês cerca de 10 segundos depois. Volta a aguardar mais 10 segundos e à falta de reposta pergunta novamente, ninguém responde e ele fica-se apenas pelo “Não?” A pontos de voltar costas por ver a sua esperança desvanecida, levanta-se um sujeito com o cabelo todo branco a aparentar os seus 60 anos e que estava a meio metro do tripulante do avião, chega-se perto dele, coloca a mala de mão no chão enquanto a abre e diz “Sou eu que tenho, mas peguei nele só porque não estava lá ninguém e o livro estava sozinho, foi para não o deixar lá, pensei que alguém se tinha esquecido dele!” 3 conselhos para quando viajarem de avião, nunca percam de vista os vossos pertences, se encontrarem algo que parece estar perdido entreguem à tripulação e no caso de não entregarem respondam que são vocês que têm o objecto perdido à primeira vez que perguntarem, fica bem, e não passam por ladrões.

7.11.12

Diario da India III - Dia 4


Há livros vazios de conteúdo, livros vazios de palavras, livros por escrever e livros que não o deviam ser. Contudo, existem bons livros, livros que nos apaixonam com a sua história e nos fazem sonhar, livros que nos oferece a nossa paixão, livros que são o nosso sonho, livros que nos tocam, que nos marcam nem que seja pela dedicatória escrita num virar de página. Todos são livros que demoram uma eternidade a escrever, tudo é revisto ao pormenor para não falhar nada, para sair na perfeição, para agradar, para vender. Por aqui nota-se a falta de livros, sejam eles quais forem, bons ou maus não interessa, mas não existem, não se encontram. Acredito que cada pessoa que comigo se cruza na rua tinha histórias que dariam um bom livro, mas falta-lhes o tempo e a mim também. Cheguei ao fim do dia de rastos, inalei quilos de cimento, tenho o sabor do pó a roer-me os dentes e sinto-me como se tivesse acabado de escrever uma enciclopédia de uma assentada só. Mas não o fiz, porque falta-me o tempo, começo a senti-lo escorregar-me entre os dedos como o cimento que rapidamente se acumula em tudo o que está parado. Aflige-me este sentimento, assusta-me olhar para o futuro, e por isso continuo a querer olhar só para hoje, aproveitar a coisa que melhor me sabe em terras indianas, um bom banho quente para limpar toda a porcaria que carrego, e deixar-me arrastar até à cama no fim de um jantar com uma comida intragável e adormecer sem dar por isso. Hoje há futebol em Braga, um dos melhores e mais apetecíveis jogos na minha cidade natal. O meu Braga defronta o poderoso Manchester United e eu estou do outro lado do mundo a tentar despertar à 1h30 da manhã para me agarrar à TV e ver o meu clube através da Tem Sports. Sinto a cabeça a explodir, preciso relaxar, preciso desligar o cérebro. 

6.11.12

Diario da India III - Dia 3


Todos os dias tenho atravessado uma linha de comboio em pleno funcionamento e outra em construção. Ao contrário do que se pensa por esse mundo fora, os comboios aqui também podem ser normais, onde as pessoas vão e permanecem sentadas, é desses comboios que por cá passam, muitas composições mas sem penduras nas janelas e no tejadilho. Ao passar pelo caminho-de-ferro que está a ser construído imaginei como é triste ser comboio, os outros trilham-nos os caminhos e não nos podemos desviar deles sob perigo de não voltarmos a encarrilhar. Não quero ser um comboio, quero trilhar o meu próprio caminho, pisar onde quero mas ter o cuidado de não pisar ninguém, ao contrário do que faço com os insectos que se passeiam pelo meu quarto e pela minha cama. Comigo não dorme ninguém, nem coisa nenhuma! Por aqui começo finalmente a ver a locomotiva sair da estação. Como uma máquina a vapor, devagarinho lá vai tentando movimentar as rodas todas presas umas às outras, muito fumo, mas ainda assim pouco movimento para o esforço gasto, tivesse a locomotiva uma pequena ajuda para vencer a inércia e tudo escorregaria melhor. Outra coisa engraçada que tenho visto por cá são os miúdos todas as manhãs em direcção à escola. É giro vê-los de uniforme, como se de uma telenovela de tratasse, sem os conhecer, desejo-lhes a maior sorte do mundo, eles não me vêm, não me ouvem, mas sei que por certo sentirão o meu sorriso. Não merecem esta miséria, merecem crescer como os uniformes, sempre limpos, aprumados e sem falta do essencial. Por falar em essencial, por aqui o essencial para mim tem sido a comida, e tem melhorado diga-se em abono da verdade. Hoje voltei a comer no mesmo local de há dois anos atrás, revi caras que continuam iguais e comia a comida a que já estava habituado com uma surpresa, hoje havia batatas fritas aos palitos! Que maravilha… Ainda me falta contar a história do livro em Itália, mas hoje já não dá tempo.

5.11.12

Diario da India III - Dia 2


 
 
Há dias em que as coisas só podem mesmo melhorar, e hoje era um dia desses se as coisas não se tivessem mantido abaixo do que eu desejava. Não consigo perceber onde pode chegar a falta de vontade de um humano. De positivo (sim existe sempre algo positivo) destaco a comida e o acesso à internet. A comida, não que tenha sido muito boa, mas foi melhorando ao longo do dia. Ao pequeno-almoço fomos brindados com torradas recheadas com puré de batata e salsa acompanhadas de ovos estrelados com pedacinhos de tomate e cebola misturados com a clara, um espectáculo! Mas eu não comi, lá me trouxeram umas torraditas com manteiga como manda a sapatilha. Do almoço nada a relatar e o jantar esse sim, bem melhor que o resto, uma massinha com cenouras e feijão-verde digna de registo, dentro das coisas más que por aqui se comem esta era realmente a menos reles. Durante o dia também fui comendo, involuntariamente, cimento a magotes. Nem a máscara que me sufoca me valeu de muito já que cheguei ao fim do dia e sentia aquele pó cinzento a arranhar-me os dentes. Não arranhava só os dentes já que graças ao cimento acumulado em todo o corpo ao tomar banho à noite tive direito a uma esfoliação corporal simultânea. Tenho tentado manter um estilo alegre e bem-disposto durante estes relatos, tentando evitar algumas palavras e expressões, mas não consigo esconder mais. Hoje com o acesso à internet e algum tempo disponível para pôr a leitura da caixa de e-mail em dia, senti um perto no peito. Chama-se saudade e tenho evitado falar nela. É ela que me forma uma lágrima que não cai mas que me dá tanta vontade de sair daqui. Apetece-me sair daqui e correr para os teus braços. Não pertenço a este mundo imundo, desinteressado e diferente o suficiente para não me interessar por uma pontinha dele. Não tenho nada contra a India mas não quero cá voltar. Desta vez estou mesmo farto, apetece-me atirar a toalha ao chão, desistir, fazer-me fraco. Tenho vivido um dia de cada vez, pensando e desejando apenas que chegue o amanhã, tenho tolhido e bloqueado o meu próprio pensamento, tornei-me prisioneiro de mim mesmo, libertem-me…

Diario da India III - Dia 1


 
Mais um dia destinado a viagem. Desta vez a viagem cumpria o trajecto Delhi – Rewa, passando por Kajuraho. A primeira parte feita em avião correu como esperado, no avião ao estilo camioneta de carreira com paragem em Varanasi. De volta aos ares e de volta a Kajuraho 2 anos depois. Quase tudo igual, o calor, o ar abafado, o aeroporto parecido com uma estação de camionagem, as escadas movidas pela força humana, o carrinho que transportam as malas entre o avião e a passadeira de recolha pelos passageiros movido a força de pernas de 10 indianos, quase tudo igual ao que encontrei há 2 anos atrás, a única diferença foi ouvir no meio de cerca de 100 pessoas “Eles estão a empurrar o carrinho à mão!” Foi muito estranho ouvir uma voz portuguesa que não a de nós os 4. Sim estavam mais dois portugueses no aeroporto de Kajuraho e se por um lado parecia um milagre, por outro só confirma a teoria de que existe um português seja onde for. Foi um episódio engraçado, para relembrar, tal como o episódio do livro no aeroporto de Milão, ainda não o contei, esqueci-me, mas conto depois mais para a frente. Faltavam-nos ainda cerca de 3 horas até ao destino final, por montes e vales e locais onde a placa “Fim do mundo” assenta que nem uma luva, e foi por aí que pela primeira vez vi elefantes, 3 enormes elefantes com suas trombas usadas para derrubar árvores, e se não era essa a sua tarefa era o que lhes tinha apetecido fazer, e não era eu que lá ia pedir para eles pararem. Ontem falava no meu receio de as coisas piorarem, pois é que pioraram mesmo, a casa de hóspedes de Rewa não tem lugar para nos hospedar e ficaremos nos próximos dias na fábrica de Bela, não muito longe, mas que provocará um certo transtorno em transportes de um lado para outro. Vamos a ver como correm as coisas daqui em diante, amanhã é o primeiro dia mais duro, mas continua a ser o mais esperado. Sim, porque enquanto aqui estou anseio sempre pelo dia de amanhã, para que chegue mais rápido o dia de abraçar quem amo…

3.11.12

Diário da Índia III - Dia 0


 
 
Voltei. Voltei a escrever o dia 0 na minha terceira visita à India. Confesso que não tenho a mesma vontade, a mesma força e a mesma frescura mental para aguentar o que por cá se pena. A verdade é que será esta a estadia mais longa, imagino-a a mais complicada. Começou por sê-lo na despedida, nenhuma das outras duas me custou tanto. Três. Três era o número de vezes que tinha, em tempos, previsto visitar a India, e cá estou, mas já nada me surpreende, já não há aventura, já sei para o que venho, já sei o que encontro, não me faz confusão as mãos dadas em homens de bigode posto, não me faz confusão o calor húmido nem o cheiro característico que para mim será sempre o cheiro a India, porque não o encontro em mais lado nenhum, e não o assemelho a nada mais. De diferente, desta vez, talvez só consiga destacar o valente trambolhão que dei no aeroporto, uma queda desamparada como se tivesse sido atropelado por um comboio, mas na verdade tropecei só numa mala. Não me lembrava de cair assim desde miúdo, mas pouca gente reparou, e quem se riu mais até fui eu. Por estranho que pareça, os 5 lugares do carro que rapidamente se transformaram em 6 e a condução habilidosa de quem consegue conduzir em Delhi já me parecem banais, como o detector de metais à entrada do hotel 5 estrelas que apita, mas ninguém quer saber porquê! Sim leram bem, estou num hotel 5 estrelas, em que o chão espelha e reflecte a minha imagem, em que tenho um senhor no elevador de luvas brancas para pressionar o botão por mim, e onde trabalha gente cuja função é sorrir e perguntar às pessoas se estão bem ou precisam de alguma coisa. Que coisa boa… Por falar em coisas boas, nunca tive duas refeições tão boas na India como hoje. Sem picantes, com arroz com sal, com massa sem imenso pimento e pimenta, com amendoins, com carne de frango e de borrego… claro que o restaurante só podia ser chinês-japonês. Enchi o bandulho, porque tão cedo não como tão bem. Parto de manhã cedo rumo ao que me trouxe cá, acabam-se as mordomias, as comidas boas e dizemos olá ao cimento e aos enlatados que levamos de casa. Só espero estar a contar com o pior e as coisas melhorarem, porque senão…

23.10.12

Teatro dos sonhos

 
Chamam-lhe teatro dos sonhos. Nem me interessa saber porquê, para mim ficará para sempre gravado esse nome por me ter feito sonhar, e como o sonho comanda a vida, fez-me viver. Fez-me sonhar primeiro com a possibilidade de voltar a terras de sua majestade, mas não fui, fiquei por cá a sofrer, podia ter sido pior e podia estar do outro lado do Mundo a sofrer ainda mais. Sofri, antes do apito inicial o friozinho na barriga não me deixava sossegar, mexia as pernas sem sentido, não me concentrava no que me diziam, não fazia sentido por mais atinado que fosse. Após as pancadinhas de Molière, um cruzamento com olhinhos do Hugo Viana encontrou a cabeça do Alan que lhe deu a melhor direção possível, as redes de Old Traford, leva-me ao delírio, grito, cerro os punho com bastante força, é golo, é do meu Braga, calámos os ingleses, marcámos um golo, quase nem acredito. É quase tão difícil, para mim, acreditar neste golo como é acreditar que consigo ouvir os Gverreiros que na bancada puxam com toda a força pelo clube de que tanto se orgulham. Somos nós, os do Braga que lá estamos, somos nós que acreditámos que os sonhos se realizam. Assim o fez Éder, acreditou que era capaz, acreditou que conseguia e conseguiu mesmo, fintou o defesa, levantou-me do sofá e obrigou Alan a não falhar novamente, que sensação, que desassossego, que nervos, que vontade, que grito, que arrepio agora que me lembro disso… Marcámos dois golos ao Manchester United, no seu próprio covil, trocávamos a bola, jogávamos bonito, mostrava-mos a nossa raça, a nossa crença o nosso valor. Por dentro sabia que havia muito jogo, mas continuava a sonhar… Aos poucos o sonho foi-se perdendo e acabei por acordar. As luzes continuavam acesas, caímos com a cortina, mas caímos tal e qual como ela, caímos em pé, mostrámos que somos Gverreiros, mostrámos contra um colosso europeu que quando se acredita tudo é possível. Não me venham com pieguices, não culpem ninguém, saibam ver o futebol como futebol que é, vejam o jogo como um jogo sem polémicas com duas excelentes equipas, que lutaram ambas pela vitória, que jogaram limpo, que jogaram bonito, que jogaram futebol e não se limitaram a jogar à bola, orgulhem-se do Braga e não apontem o dedo a ninguém. Adivinho o que me amanhã me dirão, e só me deixam duas possibilidades de resposta que é com dois dedos bem esticados, se amanhã falarem para mim, escolham bem o dedo que querem ver erguido. Caímos de pé como a cortina, no palco do teatro dos sonhos, e mesmo depois da luz apagar eu vou continuar de pé a aplaudir, porque tenho orgulho no meu Sporting Clube de Braga…

20.9.12

Fantasmas que vão... e voltam!



Serão os fantasmas invencíveis?
Poderão eles ir e voltar quando querem?
Malditos seres invisíveis
Que me atormentam e me ferem
O orgulho, a paz, a calma, a alma.
Invejo-lhes a frieza com que me atacam
Em momentos precisos
Com ataques concisos
Famintos de tristezas alheias
Dos que lhes corre o sangue nas veias,
Sedentos das lágrimas salgadas
Jorradas pelas vontades falhadas.
Serão os fantasmas capazes de ir e voltar?
Serei eu capaz de os voltar a afastar?
Terei eu a calma suficiente
Para com passo firme seguir em frente?
Afastar as almas penadas
Que em mim se passeiam como fadas?

9.9.12

Bala




Dedilho uma bala, sinto-lhe o peso,
Imagino-lhe a força, a impulsão.
Sinto o medo, cerro-a na mão,
Suo, tremo, que confusão…
Abro lentamente a mão
E aprecio-lhe o brilho,
Sussurro-lhe um segredo,
Gravo-lhe um nome…
Fecho a câmara e
Do gatilho tiro o dedo.
Baixo a arma, baixo os braços,
Desisto, não tenho mais força
Para calar a voz que me berra
Desisto, acabou-se a guerra…

8.9.12

Que futuro?

 
Que futuro? É a pergunta que mais faço quando falo apenas comigo mesmo. Não consigo imaginar o futuro, não consigo olhar em frente e ter uma imagem, ainda que ténue, do que poderei fazer ou que caminho poderei seguir. Sinto-me deveras perdido. Tenho 25 anos. Talvez devesse começar um novo projeto na vida, a verdade é que tenho imensa vontade de o fazer, mas nada mais me resta que a simples vontade. Sinto-me incapacitado por quem tem poder para tal, por quem se acha capaz de comandar as vidas de um país, por quem fala do futuro e das melhorias que ele traz mas que na verdade nunca foram vistas. Fico angustiado, grito de desespero, choro de tristeza por me roubarem os sonhos e no fim não me sinto aliviado, sinto-me preso a umas correntes que parecem definitivas, sinto-me controlado como uma marionete. Não vejo solução para uma vida que parece estagnada, condenada a definhar até ao juízo final. Não tenho futuro, não existe futuro, existe e existirá sempre um presente pesado que me fará penar e ficar revoltado. Não me venham a mim dizer que os jovens de hoje em dia não querem empregos, que não querem fazer nada, não querem trabalhar. Isso para mim são tretas, são muitos os que como eu lutam diariamente para sobreviver, sujeitando-se a tudo e mais alguma coisa, na esperança que um dia o futuro aconteça. Sinto-me roubado e mal tratado pelo meu próprio país, sinto-me indesejado aqui quando as medidas que me mostram me querem obrigar a deixar a minha nação. Mas a quem governa deixo o aviso, o país é do povo, não de quem governa, e eu recuso-me a emigrar, recuso-me a deixar o meu país. Antes morrer na podridão das mentes de alguns que ceder a pressões bacocas. É triste não existir futuro para os jovens no seu próprio país, é triste prenderem-nos a uma vida impossibilitada de mudança onde cada vez mais somos obrigados a ter menos, somos obrigados a sacrifícios injustos e inglórios. Não me obriguem a pagar pelos erros de quem cá chegou antes de mim, julguem quem agiu de má fé, condenem quem nos arrastou para o fundo do poço e encontrem medidas justas que nos mostrarão o caminho da subida, onde ainda existe esperança, onde ainda existe futuro. Deixem-me viver, deixem-me voltar a ser feliz e voltar a ter orgulho em ser português. Não destruam os sonhos a quem tem força para lutar por eles. Deixem-me pelo menos (voltar a) ter um futuro…

5.9.12

Procuro-te


 
Um amargo sabor a saudade povoa-me o paladar, a saudade de um beijo ternurento, doce, mágico, que me leva daqui… daqui onde há consciência, daqui onde se sente dor, onde a realidade existe, onde existe a saudade do acariciar de uns lábios, não uns quaisquer, os teus lábios, a tua carícia na nuca, o teu sorriso no final, o teu sentimento expresso em palavras que nunca o definirão realmente. Um tremor inquieta-me as mãos, uma angustia aperta-me o peito como se me tentasse encolher na zona do estômago. Tenho sede de ti, sede beber o teu ser, engolir o teu sentir, devorar o teu querer, sede de te amar, sede de uma carícia tão simples e tão banal, tão ingénua e tão desejada, tão tua, tão minha, tão nossa… Mostra-me o que sentes falta, diz-me o que procuras, juntos encontraremos a tua Lua, o teu luar, o teu brilho, a tua alma. Ajuda-me a ajudar-te, deixa-me amar-te sem meses, sem dias, sem horas mas com vida, com muita vida, com toda a minha vida, para sempre. Para sempre. Para sempre parece-me bem. Amar-te-ei para sempre

31.8.12

80 horas em busca de um sonho

 

Há alturas na vida em que tomamos decisões sem pensarmos bem naquilo que nos acabámos de meter. Não, esta não é uma frase que demonstra arrependimento, é uma frase que quero que transporte adrenalina e a sensação de não sabermos o que vem a seguir. Em jeito de promessa disse a meio da viagem, já em Udine, que faria um relato escrito da aventura para que ficasse gravado não só em imagens, porém nem sempre as coisas correm do nosso agrado e como tal prefiro não me focar num relato tão específico, mas mais abrangente, pessoal e sobre sentimentos, daqueles que não controlámos...
Foi como se um relâmpago se tivesse dado na minha cabeça entre o “Ir até Udine era porreiro!”, o “Ir até Udine de autocarro era uma aventura” e o “Vou embarcar na aventura”. E foi assim que comprei o bilhete em direção às estrelas de fundo azul que dão milhões aos clubes. A mim pouco me importam os milhões, importa-me mais o prestígio de ver o meu Braga nesta competição, “reservada” em tempos só a alguns. Não me importei com os dias que a viagem levava, com o tempo e a longa distância, com o ir sozinho e me ter enfiado na aventura de cabeça. Não me importei, não por ser desleixado, mas por achar que quanto mais pensasse mais tendência teria de ver o jogo pela televisão que afinal até parece que nem se via em condições. Desde que comprei o bilhete, na noite de sexta-feira, até às 16h30 de domingo pouco pensei na viagem, não vivia em mim a ansiedade. Mas no momento em que pego nas mochilas e fecho a porta de casa foi como se o barulho dela bater me tivesse desbloqueado um friozinho na barriga que não mais me largou. Pelo caminho até ao ponto de partida da aventura, imaginei que mais gente tivesse perdido o juízo como eu, a verdade é que constatei que pouco mais de 60 pessoas se tornaram parceiros de viagem. Numa vista rápida pelo autocarro este parece que é dos que nunca avariam, já me sinto mais confiante. Embarcámos então rumo a Este. Muitos parceiros têm 2 bancos à sua mercê, eu para já tenho um companheiro de viagem. Ainda as curvas não iam em dez, e a música do cd dos Red Boys não tinha ultrapassado a primeira faixa e fui tomado de assalto, como se de um susto se tratasse, pelo pensamento “A Itália não é já ali a seguir a Aveiro ou a Coimbra… Eu nunca andei tanto tempo de autocarro! No que me fui eu meter!” A verdade é que quando me lembrei que ia ver o Braga, o meu Braga, tudo isto me pareceu apenas um pequeno pormenor, apenas um detalhe, e a vida é feita de detalhes… Ao contrário de outras viagens em que se fala sobre tudo, se ri sobre cada piada e se cantam as músicas do Braga sem que fiquemos exaustos, nesta viagem, ainda antes da paragem para jantar os temas de conversa começavam-se a esgotar, as piadas já se repetiam e as músicas já se entoavam ao pensamento do “Outra vez?”. Era já noite portanto quando parámos para jantar, algures numa área de serviço em Espanha, já se tinham adiantado os relógios, não tanto como o do autocarro que teimosamente se manteve 12 horas adiantado, ou atrasado, toda a viagem. Foi portanto a altura certa para pegar no cobertor que gentilmente me aconselharam a levar, e sentar-me no mesmo lugar. O problema é que é cedo para dormir, o filme não se consegue ler as legendas, não se conseguem ouvir as falas e parece-me chato, o que me leva à inquietação de não conseguir fazer nada e nada poder fazer para alterar isto. Pensei em pegar no mp3 para ouvir um pouco de música, mas se calhar é melhor guardar a bateria para o regresso. Acaba o filme, ou para a meio, nem sei bem que não estava com atenção e começa uma série de musicas que nada me distraem, Zé Amaro e Jorge Ferreira são dois bons exemplos que só servem para entreter o povo dos discos pedidos, perdoem-me a alfinetada. Decido então cerrar os olhos, mas não adormeço, não consigo, e nem era o barulho que me incomodava nem o bater da cabeça no vidro com o soluçar da camioneta. Era esta inquietação e de olhos fechados só consigo imaginar como será o jogo, se irei gritar até não poder mais, se conseguirei gritar o golo que todos vamos em busca, se traremos a vitória na mala, se seremos capazes de os ultrapassar, arrepio-me, volto a ficar lucido, e volta tudo ao início. A certa altura acabo por adormecer, não sei pelo que passei, sei que algo me fez acordar de súbito, talvez um sonho, desperto e não mais prego olho, atravessei a fronteira francesa a dormir. A verdade é que nem me importo porque me soube bem este pequeno descanso, preocupa-me mais esta falta de sono quando o caminho ainda nem a meio a vai. Já nada me entretém, o mp3 ajuda a desviar o pensamento do jogo, alivia a ansiedade, mas não me adormece. Chega a luz do dia, o pequeno-almoço, e o sono, talvez pelo cansaço. Dizem-me entretanto que passei por uma série de cidades francesas, não faço ideia, abria os olhos a espaços só para confirmar que continuávamos a andar, mas queria continuar a dormir, era a única coisa que me sossegava. E a dormir cheguei ao Mónaco. Cheguei pelo menos a um alto onde vislumbro lá no fundo o Mónaco a banhar-se em águas Mediterrâneas. Também eu me banhava se lá chegasse. Almoça-se o que se trouxe de farnel e parte-se rumo a Itália. Entre o Mónaco e a cidade de Génova existem tantos túneis que se a cada túnel perdêssemos um passageiro o autocarro ficaria vazio antes do fim, impressionante! Mas o mais importante, no meio de tanto túnel, era realmente a placa que indicava que estamos finalmente em terras italianas. Não sei que mosca me mordeu, mas voltei a adormecer até perto de Milão, onde voltamos a parar. Daí em diante, esperava eu e toda a gente, uma jornada até Brescia, a verdade é que fomos para Bergamo, e em vez do Hotel Plaza, fomos também para o 4 estrelas Hotel Palace. Hotel este que tinha mais estrelas do que empregados e não me pareceram a mim bem encarados, se calhar tiveram um mau dia, acontece a todos. Fico então alojado num quarto com 3 camas (só disse isto porque percebi mais tarde que houve quem tivesse de dividir a mesma cama com outra pessoa e não eram um casal, nem eram irmãos, eram amigos e assim ficaram). Depois de um banho que me traz vida, vem a massa, as febras e as batatas fritas regadas com água Flávia. Não é nenhum manjar, contava com melhor confesso, mas dá para tapar o buraco no estômago. O calor da noite convida a uma caminhada a pé, há quem prefira um viagem de táxi até Milão, eu, após analisar o ambiente em volta do hotel, sem pisar o passeio além do portão, decido ficar pelo meu quarto. A zona não inspira confiança, e a correria e movimentações de carros ao sinal de luzes de telemóvel não me agrada. Sei o que andam a fazer mas nem me interessa divulgar. Ligo a televisão, estico-me ao comprido na cama do meio (porque no meio é que está a virtude e porque era a única cama de frente para a televisão) e adormeço, nem me lembro de ter carregado 3 vezes para mudar de canal, já só me acordou o despertador! No fim do pequeno-almoço ruma-se à cidade que afinal nos trouxe cá, Udine! É sob escolta policial que viajámos da saída da autoestrada até à estação de caminho-de-ferro, bem no centro de Udine, porém, um mal entendido (ou 2, ou 3, não interessa) levou-nos até ao parque de estacionamento, ainda vazio, do Stadio Friuli com a promessa que após almoço um autocarro, que não o que nos trouxe até cá (teria de ficar parado durante 9 horas), nos levaria de volta até ao centro da cidade e nos transportava de volta à hora do jogo nos cerca de 5 km que nos separam. Assim sendo almoça-se por aqui uma bela de uma pizza, num restaurante indicado pela policia, e volta-se para perto do estádio. Dou comigo a encarar o estádio por fora e a imaginar o seu ambiente mais logo, lá dentro. Enquanto o autocarro não chega aproveito para comprar mais um cachecol alusivo ao jogo para a minha coleção na loja oficial da Udinese, onde a policia não me queria deixar ir, por estar equipado à Braga e poder haver problemas mas após alguma insistência lá cedeu. Volto da loja e percebo que a história do autocarro é afinal uma ilusão. Ficar aqui a penar entre um estádio fechado, um parque de estacionamento vazio e a sombra de um muro do quartel do exército não é solução, portanto, venha de lá um táxi que nos leve até ao centro de Udine! Por entre fotos, esplanadas, praças, policias em cada esquina e adeptos que gritam o nome da cidade ou do clube local, lá se mata o tempo, hora de voltar para perto da estação, sempre debaixo de uma escolta (ainda que bem disfarçada) por parte da policia. Por aqui se janta e se enche um autocarro de gente vestida de vermelho e branco em direção ao estádio. No meio de tantos cânticos nem dei pela viagem. Chegados ao parque de estacionamento, já bem mais composto, cresce em mim a incerteza de aguentar todo este ânimo e boa disposição. Fará sentido sair daqui derrotado? Poderão as coisas correr verdadeiramente mal? Perguntas a mais para uma cabeça que dói, um coração que se aperta e uma calma que não se encontra… Sou dos primeiros a entrar no estádio, contemplo a imensidão de cada bancada, por enquanto deserta, mas que aos poucos se vai enchendo. Percebo que somos uma insignificância nesta imensidão às listas pretas e brancas, mas o olho atento do Beto que ao acenar no aquecimento mostrou que nos viu e com certeza sentiu, fez-me pensar que só tinha era de gritar e apoiar como um desalmado, e assim fiz, vêm as equipas para o aquecimento e mostrámos que temos vozes para aguentar com tudo e todos, não somos 100, mas temos o poder na voz de cada Braguista que não viajou. Do jogo pouco há para falar. Destaco apenas a vontade com que todos cantámos, com que todos apoiámos, e com que todos sofremos. E quando digo todos é mesmo todos… Arrepiaram-se os corpos ao som do hino, verteram-se lágrimas no golo sofrido, gritou-se com desespero a cada bola que não entrou, suspirou-se de alivio a cada corte da nossa defesa, festejou-se como um golo a cada defesa do Beto, explodimos com o golo do Rúben, e impacientemente desesperamos pelos penaltis. Sei que é muito fácil falar agora, mas a verdade, é que quando o árbitro terminou o prolongamento, algo dentro de mim me dizia para confiar no guarda-redes. Esse sentimento foi aumentando a cada lado que ele adivinhava e que aos meus olhos pareciam uma quase defesa. E ela surgiu, e eu de mãos bem abertas bati nas costas das cadeiras em frente, e gritei, não faço ideia do que gritei, estava fora de mim, estava louco… No último penalti, aos meus olhos, o guarda-redes da Udinese duplicou o tamanho e a baliza encolheu para um terço, mas assim que vi o guarda-redes cair, percebi que o Rúben tinha encontrado o buraco da agulha, corri como um louco para os braços de quem estava mais perto, cerrei os punhos até me doer, gritei até não ter mais forças, senti as pancadas nas costas de umas mãos cheias de felicidade, vi lágrimas de alegria escorrerem dos meus irmãos de viagem, vi tudo e não consigo descrever nada… A maior palavra será sempre pequena demais para que nela caiba cada sorriso, cada abraço, cada lágrima, cada sentimento… Estamos na Champions, estamos todos lá e desejei nesse exato momento, quando tinha os jogadores à minha frente agarrados à rede do fosso que nos separava, poder ter ali o meu pai, a minha namorada e o parceiro de todas as viagens para que comigo festejassem, mas não tinha, e a lágrima que pelo meio da barba enorme se perdeu talvez se devesse a isso, à falta do abraço que ninguém poderia substituir. Recolheu a equipa ao balneário com mais de metade o Stadio Friuli a aplaudir em pé estes enorme Gverreiros. Recolhemos nós ao parque de estacionamento onde entre felicitações, aplausos, e trocas de cachecóis se passou algum tempo em que ainda mal acreditávamos que estávamos na Champions League. Do regresso a Braga nada tenho para contar, apenas que imaginei a festa que iria pelas ruas da minha bela cidade e no aeroporto onde chegou esta fantástica equipa. A mim resta-me sonhar, ainda falta muito caminho pela frente, ninguém me irá receber como herói, e não havendo uma foto de grupo que esteja completa, guardarei para mim a imagem de cada parceiro de viagem, pois cada um deles lutou como eu, uma luta desigual de apoio incondicional ao nosso clube, sem baixar os braços, sem deixar de acreditar… Um dia depois pergunto-me se faz sentido percorrer milhares de quilómetros, durante aproximadamente 50 horas num autocarro, para ver 2 horas de futebol. A resposta é sim, claro que vale a pena, pelo Braga vale sempre tudo a pena. Sim sou louco, mas eu gosto…

10.8.12

Chegou o dia


Falta pouco, falta mesmo muito pouco. O dia por mim mais aguardado dos últimos meses chegou. Chamem-me egoísta, chamem-me doido, não me importo, esperei pelo dia de hoje com a mesma impaciência que um menino para abrir os presentes de Natal. Tal como eu sei que a muitos mais lhes vai custar a passar a noite. Chamam-lhes os Gverreiros. Os sonhos, os cheiros, as sensações, as lembranças, os arrepios… ai os arrepios. Tudo começa aqui. Relembro os tempos vividos entre estádios, cânticos, golos, bolas na trave, nervos à flor da pele, gritos de paixão, juras de amor, promessas para uma vida, promessas a que não quero faltar. Quero dizer “eu estive lá, eu vivi, eu vibrei e eu chorei!” Tudo começa aqui, tudo começa hoje, vou cerrar os punhos com os meus irmãos de armas e gritar Braga, somos Gverreiros, não só de nome. Somos Gverreiros de corpo e alma, lutámos, caímos e renascemos cada vez mais fortes… Nós somos o Braga! Não são as bolas que beijam suavemente a rede, como quem acaricia uma flor, que nos levam ao estádio. É toda a ambição, toda a crença e toda a vontade que partilhámos desde a bancada com quem está dentro do campo. O Braga somos nós os adeptos, e o futebol é nosso, ninguém jamais o comprará, porque sentimentos não se compram. Ninguém me poderá tirar o frio na barriga antes de cada jogo, a dor de estômago até ao apito inicial, o cerrar dos punhos, o morder dos lábios, os gritos mudos, os “AAAAAAHHHHHH” e a explosão de alegria a cada golo, o sorriso rasgado a cada vitória e a lágrima marota a cada conquista. Ninguém me vai tirar o prazer de fazer quilómetros pelo meu Braga, ninguém me vai roubar o que guardo cá dentro, nem mesmo que a lágrima seja de dor, porque o desconforto que ela provoca será afagado e partilhado pelo parceiro do lado, tornando-nos ainda mais fortes. Deveria estar a dormir, talvez esteja a divagar demais, mas a verdade é que não me apetece, não consigo controlar esta ansiedade, apetecia-me mesmo era acampar junto a uma das portas cinzentas que me levarão ao céu, ao meu céu, onde eu me sinto melhor e onde eu me sinto cada vez mais vivo…
Chegou o dia, o dia  em que mais uma vez prometo nunca te deixar sozinho…

16.7.12

Quatro traços




Queria nunca ter crescido, ser para sempre criança.
Um eterno menino sem consciência.
Enlouquecido, em estado de total demência
Recusava apaixonar-me sem pagar fiança.
Onde vivia esse querer, porém,
Cresceu algo em mim que devo a alguém.
Amor eterno, chamam-lhe assim.
Sei que gosto, sei que não te fim.
A ti garanto que é para toda a vida
Recuso perder-te ou deixar-te ferida
Consigo imaginar a teu lado um amanha diferente,
O que ontem parecia tão distante
Nada agora dentro do meu sangue quente
Trata-se de um querer fervilhante
Iluminado pelo brilho do teu leve olhar,
Guiado por um gesto de conforto
Ostentado pelo teu meigo dedilhar.
Jamais quero encontrar outro porto,
Outro abrigo, outros braços…
Antes que me tirem esta vida mundana
Nunca te esqueças destes 4 traços:
“Amo-te para sempre Joana”

3.7.12

Aos enfermeiros




Todos já fomos pequenos e todos nos lembramos de o ser, mas nenhum de nós se lembra de nascer. Como tal, é impossível saber quem nos viu nascer, quem estava por perto, quem foram as primeiras pessoas a quem o nosso choro fez vibrar os tímpanos. Tirando alguns casos, talvez cada vez menos frequentes, todos nascemos num hospital ou noutro espaço equivalente. Dentro da sala onde berramos pela primeira vez estava alguém cuja profissão é considerada uma arte, além de uma ciência, que se desenvolveu a partir do longínquo séc. XIX. Como pioneira teve Florence Nightingale, enfermeira de guerra, britânica que cuidou dos soldados do seu país na Guerra da Criméia. Mulher de armas, dirão alguns. Pouco me importa, não estou cá para falar dela. Estou cá para falar dos enfermeiros dos dias de hoje, dos enfermeiros do meu país! Ao longo da vida, além de sermos acompanhados por médicos, somos acompanhados por enfermeiros, e pouco ou nenhum valor lhes damos. Em verdade vos digo, por muito valor que lhes dêmos, nunca será o suficiente. Socialmente mal tratados com conotações pouco abonatórias da dignidade de uma pessoa e imagens criadas que em nada correspondem à verdade (no que ao sexo feminino diz respeito principalmente), os enfermeiros têm ainda a má fama de serem severos, mal dispostos, carniceiros e por aí adiante. Não acham que chega de maltratar quem luta por nós sem se importar com o “nada” que lhes damos em troca? Chega de menosprezar quem nunca vira a cara à luta, quem sofre por dentro, quem se esforça nas horas de maior aflição, quem sente que falha e o quão injusta é a vida quando parte alguém que apenas conhece de um internamento,  e que mesmo sem nada saber dele, lutou até ao fim por ele e com ele! Chega de espezinhar quem quer trabalhar no país que necessita de enfermeiros para libertar a carga laboral dos que estão empregados e se vê forçado a abandonar a nação e procurar novos rumos! Chega! Está mais do que na hora de olhar para os enfermeiros como heróis que lutam diariamente em batalhas desiguais pela simples paixão de desempenharem com afinco, profissionalismo e orgulho a sua profissão, está mais do que na hora de deixar a mesquinhez de lado e de ver em cada enfermeiro um amigo, que estará pronto para nos ajudar, para nos salvar, para cuidar de nós. Não sou enfermeiro, mas nos últimos tempos tenho convivido com alguns, e das conversas de cafés, onde por vezes pareço aluado, apenas penso na injustiça por que todos eles passam, apenas penso nas dificuldades que eles sentem e mesmo assim mostram uma força de vontade que engole o mundo de uma vez só. Coloquei os enfermeiros num pedestal, não os enfermeiros que conheço, mas todos os enfermeiros em geral. Coloquei-os lá no alto porque hoje me perguntei a mim mesmo a quem era eu capaz de prestar uma homenagem sentida. Coloquei-os num pedestal, agora façam-me um favor e não os atirem abaixo, tratem-nos com carinho, que é com carinho que eles cuidam de todos nós.  Florence Nightingale foi enfermeira numa guerra, mas hoje, os enfermeiros, travam diariamente a sua própria guerra…