Véspera
do festival das luzes, para mim um dia normal, para a maioria dos indianos um
dia especial, só trabalham meio-dia, a partir das 13 horas ninguém trabalha por
cá, quanto a mim, sou o branco cá do sítio, trabalho até às 18h30 e já saio
mais cedo. A fábrica ficou deserta de pessoas e povoada de luzes e velas por
todo o lado. Não há pó de cimento, não há camiões que buzinam e se desfazem a
cada lomba, não há camionistas a cuspirem tabaco mascado. Existe apenas paz e
sossego. Cai a noite e a “guest house Ajit Bhawan” onde pernoito, almoço e
janto, transforma o seu hall, escadaria e entrada num autêntico caminho de
velas, onde apenas o cheiro se torna demasiado. Faz-me sentir calmo, começo a
gostar do Diwali. A única parte que retirava a esta festa é o liberalismo em
relação à pirotecnia, nesta noite toda a gente lança foguetes sem rei nem
roque, para onde estão virados, não se importando com os outros nem se
importando com eles próprios. Das duas uma, ou nestes dias há montes de feridos
e com gravidade, ou são todos inocentes, porque a sorte protege os inocentes.
Tive medo, tive muito medo… regressei por isso a casa, amanhã para eles é
feriado, mas para mim não, eu estou de volta à luta! Feliz Diwali a todos!
13.11.12
12.11.12
Diario da India III - Dia 9
A
palavra trânsito faz sempre muito sentido aqui na India. O trânsito por estas
bandas é algo de impossível, tem poucas regras, muitos conhecem-nas, mas todos
as ignoram. E no que trata a engarrafamentos é algo único. Nos últimos dias
tenho sentido a mesma sensação de quando estamos presos no trânsito e vamos a
caminho da estação de comboio. Aqueles nervos, aquela raiva, aquela vontade de
ter asas, os suores, os murmúrios… Mas finalmente hoje foi o dia em que esse
trânsito começou a fluir melhor, aproximamo-nos alguns passos mais da estação,
mas continuamos longe e receio não chegar a tempo de entrar no comboio. Cai-me
no estômago como uma bola, difícil de digerir como o cimento. Uma leve brisa de
calma soprou e deixou-me apreciar as luzes do Diwali. Luzes iguais às de Natal,
mas não havendo aqui Natal, há Diwali (ou festival das luzes) alguns foguetes e
muita ansiedade para que chegue o dia de amanhã entre os locais, a véspera do
Diwali, já eu só anseio o amanhã por saber que falta menos um dia para te
abraçar e te mimar.
11.11.12
Diario da India III - Dia 8
Há
dias que têm tudo para dar certo quando nascem, o pior é que, por vezes, ainda
são alimentados a leite e já se tornaram no maior pesadelo. Um acidente com
causas misteriosas atrasou ainda mais a conclusão dos objectivos que me
trouxeram cá. Isto e algum esperto me ter cortado os cabos de rede durante a
noite e ter levado cerca de 5 metros de fio! Não se consegue confiar em
ninguém… Conseguir até se consegue, mas são poucos. Os camionistas é impossível
confiar neles, sisudos e cinzentos como o cimento que carregam, estranhos como
o tabaco que cospem depois de mascado. Estou farto de aqui estar. Preciso ir
para casa, preciso de uma lufada de ar fresco que me anime e me dê ânimo para
encarar o que falta, e ao que se sugere, pode ser mais do que esperava. Não
quero isto, não quero mais cá voltar. Demasiada pressão psicológica leva-me a
perder a calma por breves momentos. Sinto-me tenso, a tremer, a morder o lábio,
não consigo focar a visão decentemente e solto um berro tapado pela máscara e
ensurdecido pelo cimento. Volto a acalmar e a deixar de pensar, volto para o
meio de quem não confio, inalo o pó que pelo ar se passeia e odeio-o tanto ou
mais do que ter de estar tão longe de casa, tão longe do mimo, tão longe de ti…
10.11.12
Diario da India III - Dia 7
Encontrei
uma distracção que me faz olhar para o cimento e vê-lo com alguma cor, apazigua
a dor interior, leva-me o pensamento pela mão e faz-me esquecer a dor física do
cansaço, do desespero e da desmotivação. Não se chama droga, chama-se música!
Encontrei hoje na mochila o mp3, fez-me bem ouvir os sons conhecidos, reviver
momentos, cantar ao som da música, vibrar com elas e sorrir um pouco,
descontraí, e fez-me extremamente bem. Hoje mudo-me da planta de Bela para
Rewa, tenho um quarto mais pequeno mas mais cómodo, com lençóis lavados, melhor
comida, melhor atendimento e com grilos! Tenho grilos no jardim em frente ao
quarto que vão cantar toda a noite e tenho um grilo dentro do meu quarto que me
fugiu para debaixo de um armário e que não consigo apanhar. Faz hoje uma semana
que entrei no aeroporto de Delhi, e apesar de não fazer uma semana que estou a
trabalhar sinto-me de rastos. Encontrei uma balança e o peso era de menos 1,5
quilos que o normal. Talvez a balança não esteja correcta, ou a aceleração da gravidade
tenha feito das suas. Um quilo e meio numa semana é muita coisa, e eu tenho-me
alimentado bem, pelo menos não tenho sentido fome. Mas tenho alguns desejos,
por causa da conversa de ontem, hoje apetecia-me umas castanhinhas assadas e
agora á noite deu-me um desejo enorme de broa de milho… Também tenho saudades
tuas, não o digo todos os dias porque me tento enganar a mim próprio, mas tenho
saudades, muitas mesmo… bolas…
9.11.12
Diario da India III - Dia 6
Descobri
duas coisas que todos os indianos têm, além de muitas outras bem estranhas,
fiquemos só por estas duas. Ter um lenço “da mão” também conhecido por lenço de
pano sempre à mão e conseguir beber uma garrafa de água de uma só vez sem tocar
no gargalo da dita e sem fechar a boca, tentem esta proeza. Esta perícia acaba
por ser fácil de perceber porque atinge toda a gente, com a falta de limpeza e
higiene que por aqui cresce mais que cogumelos na floresta e não sendo ético
(mesmo na India) negar água a ninguém, toda a gente bebe de todo o lado, com a
devida autorização desde que não enfie lá os beiços. Confesso que tentei e como
é evidente molhei-me todo, só consigo encher a boca, fechá-la e engolir a
aguinha, sempre engarrafada e lacrada, a saber ao cloro. Quanto ao lenço da mão
é essencial e serve para tudo, desde máscara de partículas a engraxador de
sapatos (a quem os tem), serve ainda para limpar o nariz e o suor que escorre
pela cara ou as mãos no fim de as lavar, um multiusos portanto. Tenho passado
nos últimos dias por imensos animais que andam à solta, não têm dono, mas que
convivem no meio das pessoas como se sempre aqui estivessem. Entre eles,
corvos, javalis e imagine-se raposas. Faz-me uma certa confusão como estes
animais se passeiam pelo meio de pessoas, bicicletas, motas carros e camiões.
Raio de país estranho. Tirando todas estas curiosidades continuo a ingerir
quilos de cimento diariamente e creio estar a ficar com os neurónios muito
perto do “Tilt”, talvez seja cimento a mais.
8.11.12
Diario da India III - Dia 5
Levantei-me
com um peso nos ombros como se carregasse toda a India. Começou a bater-me o
cansaço, sinto-me aqui preso há um mês e nem há uma semana cheguei. Arrasto os
pés tal e qual um dos sujeitos a quem tentei ingloriamente explicar onde ficava
Portugal. É enorme a dificuldade com a língua, nem mesmo a língua gestual se
consegue aplicar como se pensa, exemplo disso é a grande maioria dos que me
rodeiam não compreender o sentido de um polegar erguido e o resto da mão
fechada. É a língua que nos define e é ela que esconde muitos problemas, como a
afta que me afecta e que só no final do dia consegui descobrir, a falta de
espelhos tem destas coisas, não vemos em nós o que facilmente vemos nos outros.
Vamos lá contar a história do livro em Itália e deixar as brincadeiras parvas
com a tentativa de aguçar a curiosidade pelo dia seguinte deste diário. Após a
aterragem do avião em tamanho reduzido da Portugália, no aeroporto de Milão, os
passageiros, como normal, arrumam os seus pertences e saem ordeiramente do avião.
Se a saída não se efectuar directamente para o interior do aeroporto, por norma
existe um autocarro para fazer o transporte, ora foi exactamente o que
aconteceu, toda a gente entrou no autocarro com a excepção de um passageiro que
continuava dentro da aeronave à procura de um livro, e tendo a certeza que o
fazia transportar consigo e que não poderia ter saído pelo próprio pé do avião,
avisou a tripulação que não estava a conseguir encontrar o seu livro. Dirige-se
então um membro da tripulação do avião à porta traseira do autocarro e grita
alto e bom som “Alguém por engano ou distracção trouxe consigo um livro que não
lhe pertencia?” Os passageiros olham uns para os outros, uns na tentativa de
identificar um movimento suspeito outros a perguntarem-se com os olhos que
pergunta estranha era aquela, outros a perguntar o que disse o homem porque não
falam português, e para esses, o senhor repetiu exactamente o mesmo mas agora
em inglês cerca de 10 segundos depois. Volta a aguardar mais 10 segundos e à
falta de reposta pergunta novamente, ninguém responde e ele fica-se apenas pelo
“Não?” A pontos de voltar costas por ver a sua esperança desvanecida,
levanta-se um sujeito com o cabelo todo branco a aparentar os seus 60 anos e
que estava a meio metro do tripulante do avião, chega-se perto dele, coloca a
mala de mão no chão enquanto a abre e diz “Sou eu que tenho, mas peguei nele só
porque não estava lá ninguém e o livro estava sozinho, foi para não o deixar
lá, pensei que alguém se tinha esquecido dele!” 3 conselhos para quando
viajarem de avião, nunca percam de vista os vossos pertences, se encontrarem
algo que parece estar perdido entreguem à tripulação e no caso de não
entregarem respondam que são vocês que têm o objecto perdido à primeira vez que
perguntarem, fica bem, e não passam por ladrões.
7.11.12
Diario da India III - Dia 4
Há
livros vazios de conteúdo, livros vazios de palavras, livros por escrever e
livros que não o deviam ser. Contudo, existem bons livros, livros que nos
apaixonam com a sua história e nos fazem sonhar, livros que nos oferece a nossa
paixão, livros que são o nosso sonho, livros que nos tocam, que nos marcam nem
que seja pela dedicatória escrita num virar de página. Todos são livros que
demoram uma eternidade a escrever, tudo é revisto ao pormenor para não falhar
nada, para sair na perfeição, para agradar, para vender. Por aqui nota-se a
falta de livros, sejam eles quais forem, bons ou maus não interessa, mas não
existem, não se encontram. Acredito que cada pessoa que comigo se cruza na rua
tinha histórias que dariam um bom livro, mas falta-lhes o tempo e a mim também.
Cheguei ao fim do dia de rastos, inalei quilos de cimento, tenho o sabor do pó
a roer-me os dentes e sinto-me como se tivesse acabado de escrever uma
enciclopédia de uma assentada só. Mas não o fiz, porque falta-me o tempo,
começo a senti-lo escorregar-me entre os dedos como o cimento que rapidamente
se acumula em tudo o que está parado. Aflige-me este sentimento, assusta-me
olhar para o futuro, e por isso continuo a querer olhar só para hoje,
aproveitar a coisa que melhor me sabe em terras indianas, um bom banho quente
para limpar toda a porcaria que carrego, e deixar-me arrastar até à cama no fim
de um jantar com uma comida intragável e adormecer sem dar por isso. Hoje há
futebol em Braga, um dos melhores e mais apetecíveis jogos na minha cidade natal.
O meu Braga defronta o poderoso Manchester United e eu estou do outro lado do
mundo a tentar despertar à 1h30 da manhã para me agarrar à TV e ver o meu clube
através da Tem Sports. Sinto a cabeça a explodir, preciso relaxar, preciso
desligar o cérebro.
6.11.12
Diario da India III - Dia 3
Todos
os dias tenho atravessado uma linha de comboio em pleno funcionamento e outra
em construção. Ao contrário do que se pensa por esse mundo fora, os comboios
aqui também podem ser normais, onde as pessoas vão e permanecem sentadas, é
desses comboios que por cá passam, muitas composições mas sem penduras nas
janelas e no tejadilho. Ao passar pelo caminho-de-ferro que está a ser
construído imaginei como é triste ser comboio, os outros trilham-nos os
caminhos e não nos podemos desviar deles sob perigo de não voltarmos a
encarrilhar. Não quero ser um comboio, quero trilhar o meu próprio caminho,
pisar onde quero mas ter o cuidado de não pisar ninguém, ao contrário do que
faço com os insectos que se passeiam pelo meu quarto e pela minha cama. Comigo
não dorme ninguém, nem coisa nenhuma! Por aqui começo finalmente a ver a
locomotiva sair da estação. Como uma máquina a vapor, devagarinho lá vai
tentando movimentar as rodas todas presas umas às outras, muito fumo, mas ainda
assim pouco movimento para o esforço gasto, tivesse a locomotiva uma pequena
ajuda para vencer a inércia e tudo escorregaria melhor. Outra coisa engraçada
que tenho visto por cá são os miúdos todas as manhãs em direcção à escola. É
giro vê-los de uniforme, como se de uma telenovela de tratasse, sem os
conhecer, desejo-lhes a maior sorte do mundo, eles não me vêm, não me ouvem,
mas sei que por certo sentirão o meu sorriso. Não merecem esta miséria, merecem
crescer como os uniformes, sempre limpos, aprumados e sem falta do essencial.
Por falar em essencial, por aqui o essencial para mim tem sido a comida, e tem
melhorado diga-se em abono da verdade. Hoje voltei a comer no mesmo local de há
dois anos atrás, revi caras que continuam iguais e comia a comida a que já
estava habituado com uma surpresa, hoje havia batatas fritas aos palitos! Que
maravilha… Ainda me falta contar a história do livro em Itália, mas hoje já não
dá tempo.
5.11.12
Diario da India III - Dia 2
Há
dias em que as coisas só podem mesmo melhorar, e hoje era um dia desses se as
coisas não se tivessem mantido abaixo do que eu desejava. Não consigo perceber
onde pode chegar a falta de vontade de um humano. De positivo (sim existe
sempre algo positivo) destaco a comida e o acesso à internet. A comida, não que
tenha sido muito boa, mas foi melhorando ao longo do dia. Ao pequeno-almoço
fomos brindados com torradas recheadas com puré de batata e salsa acompanhadas
de ovos estrelados com pedacinhos de tomate e cebola misturados com a clara, um
espectáculo! Mas eu não comi, lá me trouxeram umas torraditas com manteiga como
manda a sapatilha. Do almoço nada a relatar e o jantar esse sim, bem melhor que
o resto, uma massinha com cenouras e feijão-verde digna de registo, dentro das
coisas más que por aqui se comem esta era realmente a menos reles. Durante o
dia também fui comendo, involuntariamente, cimento a magotes. Nem a máscara que
me sufoca me valeu de muito já que cheguei ao fim do dia e sentia aquele pó
cinzento a arranhar-me os dentes. Não arranhava só os dentes já que graças ao
cimento acumulado em todo o corpo ao tomar banho à noite tive direito a uma
esfoliação corporal simultânea. Tenho tentado manter um estilo alegre e bem-disposto
durante estes relatos, tentando evitar algumas palavras e expressões, mas não
consigo esconder mais. Hoje com o acesso à internet e algum tempo disponível para
pôr a leitura da caixa de e-mail em dia, senti um perto no peito. Chama-se
saudade e tenho evitado falar nela. É ela que me forma uma lágrima que não cai
mas que me dá tanta vontade de sair daqui. Apetece-me sair daqui e correr para
os teus braços. Não pertenço a este mundo imundo, desinteressado e diferente o
suficiente para não me interessar por uma pontinha dele. Não tenho nada contra
a India mas não quero cá voltar. Desta vez estou mesmo farto, apetece-me atirar
a toalha ao chão, desistir, fazer-me fraco. Tenho vivido um dia de cada vez,
pensando e desejando apenas que chegue o amanhã, tenho tolhido e bloqueado o
meu próprio pensamento, tornei-me prisioneiro de mim mesmo, libertem-me…
Diario da India III - Dia 1
Mais
um dia destinado a viagem. Desta vez a viagem cumpria o trajecto Delhi – Rewa,
passando por Kajuraho. A primeira parte feita em avião correu como esperado, no
avião ao estilo camioneta de carreira com paragem em Varanasi. De volta aos
ares e de volta a Kajuraho 2 anos depois. Quase tudo igual, o calor, o ar
abafado, o aeroporto parecido com uma estação de camionagem, as escadas movidas
pela força humana, o carrinho que transportam as malas entre o avião e a
passadeira de recolha pelos passageiros movido a força de pernas de 10
indianos, quase tudo igual ao que encontrei há 2 anos atrás, a única diferença
foi ouvir no meio de cerca de 100 pessoas “Eles estão a empurrar o carrinho à
mão!” Foi muito estranho ouvir uma voz portuguesa que não a de nós os 4. Sim
estavam mais dois portugueses no aeroporto de Kajuraho e se por um lado parecia
um milagre, por outro só confirma a teoria de que existe um português seja onde
for. Foi um episódio engraçado, para relembrar, tal como o episódio do livro no
aeroporto de Milão, ainda não o contei, esqueci-me, mas conto depois mais para
a frente. Faltavam-nos ainda cerca de 3 horas até ao destino final, por montes
e vales e locais onde a placa “Fim do mundo” assenta que nem uma luva, e foi por
aí que pela primeira vez vi elefantes, 3 enormes elefantes com suas trombas
usadas para derrubar árvores, e se não era essa a sua tarefa era o que lhes
tinha apetecido fazer, e não era eu que lá ia pedir para eles pararem. Ontem
falava no meu receio de as coisas piorarem, pois é que pioraram mesmo, a casa
de hóspedes de Rewa não tem lugar para nos hospedar e ficaremos nos próximos
dias na fábrica de Bela, não muito longe, mas que provocará um certo transtorno
em transportes de um lado para outro. Vamos a ver como correm as coisas daqui
em diante, amanhã é o primeiro dia mais duro, mas continua a ser o mais
esperado. Sim, porque enquanto aqui estou anseio sempre pelo dia de amanhã,
para que chegue mais rápido o dia de abraçar quem amo…
3.11.12
Diário da Índia III - Dia 0
Voltei.
Voltei a escrever o dia 0 na minha terceira visita à India. Confesso que não
tenho a mesma vontade, a mesma força e a mesma frescura mental para aguentar o
que por cá se pena. A verdade é que será esta a estadia mais longa, imagino-a a
mais complicada. Começou por sê-lo na despedida, nenhuma das outras duas me
custou tanto. Três. Três era o número de vezes que tinha, em tempos, previsto
visitar a India, e cá estou, mas já nada me surpreende, já não há aventura, já
sei para o que venho, já sei o que encontro, não me faz confusão as mãos dadas
em homens de bigode posto, não me faz confusão o calor húmido nem o cheiro característico
que para mim será sempre o cheiro a India, porque não o encontro em mais lado
nenhum, e não o assemelho a nada mais. De diferente, desta vez, talvez só
consiga destacar o valente trambolhão que dei no aeroporto, uma queda
desamparada como se tivesse sido atropelado por um comboio, mas na verdade
tropecei só numa mala. Não me lembrava de cair assim desde miúdo, mas pouca
gente reparou, e quem se riu mais até fui eu. Por estranho que pareça, os 5
lugares do carro que rapidamente se transformaram em 6 e a condução habilidosa
de quem consegue conduzir em Delhi já me parecem banais, como o detector de
metais à entrada do hotel 5 estrelas que apita, mas ninguém quer saber porquê!
Sim leram bem, estou num hotel 5 estrelas, em que o chão espelha e reflecte a
minha imagem, em que tenho um senhor no elevador de luvas brancas para
pressionar o botão por mim, e onde trabalha gente cuja função é sorrir e
perguntar às pessoas se estão bem ou precisam de alguma coisa. Que coisa boa…
Por falar em coisas boas, nunca tive duas refeições tão boas na India como
hoje. Sem picantes, com arroz com sal, com massa sem imenso pimento e pimenta,
com amendoins, com carne de frango e de borrego… claro que o restaurante só
podia ser chinês-japonês. Enchi o bandulho, porque tão cedo não como tão bem.
Parto de manhã cedo rumo ao que me trouxe cá, acabam-se as mordomias, as
comidas boas e dizemos olá ao cimento e aos enlatados que levamos de casa. Só
espero estar a contar com o pior e as coisas melhorarem, porque senão…
23.10.12
Teatro dos sonhos
Chamam-lhe teatro dos sonhos. Nem me
interessa saber porquê, para mim ficará para sempre gravado esse nome por me
ter feito sonhar, e como o sonho comanda a vida, fez-me viver. Fez-me sonhar
primeiro com a possibilidade de voltar a terras de sua majestade, mas não fui,
fiquei por cá a sofrer, podia ter sido pior e podia estar do outro lado do
Mundo a sofrer ainda mais. Sofri, antes do apito inicial o friozinho na barriga
não me deixava sossegar, mexia as pernas sem sentido, não me concentrava no que
me diziam, não fazia sentido por mais atinado que fosse. Após as pancadinhas de
Molière, um cruzamento com olhinhos do Hugo Viana encontrou a cabeça do Alan
que lhe deu a melhor direção possível, as redes de Old Traford, leva-me ao
delírio, grito, cerro os punho com bastante força, é golo, é do meu Braga, calámos
os ingleses, marcámos um golo, quase nem acredito. É quase tão difícil, para
mim, acreditar neste golo como é acreditar que consigo ouvir os Gverreiros que
na bancada puxam com toda a força pelo clube de que tanto se orgulham. Somos
nós, os do Braga que lá estamos, somos nós que acreditámos que os sonhos se
realizam. Assim o fez Éder, acreditou que era capaz, acreditou que conseguia e
conseguiu mesmo, fintou o defesa, levantou-me do sofá e obrigou Alan a não
falhar novamente, que sensação, que desassossego, que nervos, que vontade, que
grito, que arrepio agora que me lembro disso… Marcámos dois golos ao Manchester
United, no seu próprio covil, trocávamos a bola, jogávamos bonito, mostrava-mos
a nossa raça, a nossa crença o nosso valor. Por dentro sabia que havia muito
jogo, mas continuava a sonhar… Aos poucos o sonho foi-se perdendo e acabei por
acordar. As luzes continuavam acesas, caímos com a cortina, mas caímos tal e
qual como ela, caímos em pé, mostrámos que somos Gverreiros, mostrámos contra
um colosso europeu que quando se acredita tudo é possível. Não me venham com
pieguices, não culpem ninguém, saibam ver o futebol como futebol que é, vejam o
jogo como um jogo sem polémicas com duas excelentes equipas, que lutaram ambas
pela vitória, que jogaram limpo, que jogaram bonito, que jogaram futebol e não
se limitaram a jogar à bola, orgulhem-se do Braga e não apontem o dedo a
ninguém. Adivinho o que me amanhã me dirão, e só me deixam duas possibilidades de
resposta que é com dois dedos bem esticados, se amanhã falarem para mim,
escolham bem o dedo que querem ver erguido. Caímos de pé como a cortina, no
palco do teatro dos sonhos, e mesmo depois da luz apagar eu vou continuar de pé
a aplaudir, porque tenho orgulho no meu Sporting Clube de Braga…
20.9.12
Fantasmas que vão... e voltam!
Serão os
fantasmas invencíveis?
Poderão eles
ir e voltar quando querem?Malditos seres invisíveis
Que me atormentam e me ferem
O orgulho, a paz, a calma, a alma.
Invejo-lhes a frieza com que me atacam
Em momentos precisos
Com ataques concisos
Famintos de tristezas alheias
Dos que lhes corre o sangue nas veias,
Sedentos das lágrimas salgadas
Jorradas pelas vontades falhadas.
Serão os fantasmas capazes de ir e voltar?
Serei eu capaz de os voltar a afastar?
Terei eu a calma suficiente
Para com passo firme seguir em frente?
Afastar as almas penadas
Que em mim se passeiam como fadas?
9.9.12
Bala
Dedilho uma bala, sinto-lhe o peso,
Imagino-lhe a força, a impulsão.Sinto o medo, cerro-a na mão,
Suo, tremo, que confusão…
Abro lentamente a mão
E aprecio-lhe o brilho,
Sussurro-lhe um segredo,
Gravo-lhe um nome…
Fecho a câmara e
Do gatilho tiro o dedo.
Baixo a arma, baixo os braços,
Desisto, não tenho mais força
Para calar a voz que me berra
Desisto, acabou-se a guerra…
8.9.12
Que futuro?
Que futuro? É a pergunta que mais faço quando
falo apenas comigo mesmo. Não consigo imaginar o futuro, não consigo olhar em
frente e ter uma imagem, ainda que ténue, do que poderei fazer ou que caminho
poderei seguir. Sinto-me deveras perdido. Tenho 25 anos. Talvez devesse começar
um novo projeto na vida, a verdade é que tenho imensa vontade de o fazer, mas
nada mais me resta que a simples vontade. Sinto-me incapacitado por quem tem
poder para tal, por quem se acha capaz de comandar as vidas de um país, por
quem fala do futuro e das melhorias que ele traz mas que na verdade nunca foram
vistas. Fico angustiado, grito de desespero, choro de tristeza por me roubarem
os sonhos e no fim não me sinto aliviado, sinto-me preso a umas correntes que
parecem definitivas, sinto-me controlado como uma marionete. Não vejo solução
para uma vida que parece estagnada, condenada a definhar até ao juízo final.
Não tenho futuro, não existe futuro, existe e existirá sempre um presente
pesado que me fará penar e ficar revoltado. Não me venham a mim dizer que os jovens
de hoje em dia não querem empregos, que não querem fazer nada, não querem
trabalhar. Isso para mim são tretas, são muitos os que como eu lutam
diariamente para sobreviver, sujeitando-se a tudo e mais alguma coisa, na
esperança que um dia o futuro aconteça. Sinto-me roubado e mal tratado pelo meu
próprio país, sinto-me indesejado aqui quando as medidas que me mostram me
querem obrigar a deixar a minha nação. Mas a quem governa deixo o aviso, o país
é do povo, não de quem governa, e eu recuso-me a emigrar, recuso-me a deixar o
meu país. Antes morrer na podridão das mentes de alguns que ceder a pressões
bacocas. É triste não existir futuro para os jovens no seu próprio país, é
triste prenderem-nos a uma vida impossibilitada de mudança onde cada vez mais somos
obrigados a ter menos, somos obrigados a sacrifícios injustos e inglórios. Não
me obriguem a pagar pelos erros de quem cá chegou antes de mim, julguem quem
agiu de má fé, condenem quem nos arrastou para o fundo do poço e encontrem
medidas justas que nos mostrarão o caminho da subida, onde ainda existe
esperança, onde ainda existe futuro. Deixem-me viver, deixem-me voltar a ser
feliz e voltar a ter orgulho em ser português. Não destruam os sonhos a quem
tem força para lutar por eles. Deixem-me pelo menos (voltar a) ter um futuro…
5.9.12
Procuro-te
Um
amargo sabor a saudade povoa-me o paladar, a saudade de um beijo ternurento, doce,
mágico, que me leva daqui… daqui onde há consciência, daqui onde se sente dor,
onde a realidade existe, onde existe a saudade do acariciar de uns lábios, não
uns quaisquer, os teus lábios, a tua carícia na nuca, o teu sorriso no final,
o teu sentimento expresso em palavras que nunca o definirão realmente. Um
tremor inquieta-me as mãos, uma angustia aperta-me o peito como se me tentasse
encolher na zona do estômago. Tenho sede de ti, sede beber o teu ser, engolir o
teu sentir, devorar o teu querer, sede de te amar, sede de uma carícia tão
simples e tão banal, tão ingénua e tão desejada, tão tua, tão minha, tão nossa…
Mostra-me o que sentes falta, diz-me o que procuras, juntos encontraremos a tua
Lua, o teu luar, o teu brilho, a tua alma. Ajuda-me a ajudar-te, deixa-me
amar-te sem meses, sem dias, sem horas mas com vida, com muita vida, com toda a
minha vida, para sempre. Para sempre. Para sempre parece-me bem. Amar-te-ei
para sempre
31.8.12
80 horas em busca de um sonho
Há
alturas na vida em que tomamos decisões sem pensarmos bem naquilo que nos
acabámos de meter. Não, esta não é uma frase que demonstra arrependimento, é
uma frase que quero que transporte adrenalina e a sensação de não sabermos o
que vem a seguir. Em jeito de promessa disse a meio da viagem, já em Udine, que
faria um relato escrito da aventura para que ficasse gravado não só em imagens,
porém nem sempre as coisas correm do nosso agrado e como tal prefiro não me
focar num relato tão específico, mas mais abrangente, pessoal e sobre
sentimentos, daqueles que não controlámos...
Foi
como se um relâmpago se tivesse dado na minha cabeça entre o “Ir até Udine era
porreiro!”, o “Ir até Udine de autocarro era uma aventura” e o “Vou embarcar na
aventura”. E foi assim que comprei o bilhete em direção às estrelas de fundo
azul que dão milhões aos clubes. A mim pouco me importam os milhões, importa-me
mais o prestígio de ver o meu Braga nesta competição, “reservada” em tempos só
a alguns. Não me importei com os dias que a viagem levava, com o tempo e a
longa distância, com o ir sozinho e me ter enfiado na aventura de cabeça. Não
me importei, não por ser desleixado, mas por achar que quanto mais pensasse
mais tendência teria de ver o jogo pela televisão que afinal até parece que nem
se via em condições. Desde que comprei o bilhete, na noite de sexta-feira, até
às 16h30 de domingo pouco pensei na viagem, não vivia em mim a ansiedade. Mas
no momento em que pego nas mochilas e fecho a porta de casa foi como se o
barulho dela bater me tivesse desbloqueado um friozinho na barriga que não mais
me largou. Pelo caminho até ao ponto de partida da aventura, imaginei que mais
gente tivesse perdido o juízo como eu, a verdade é que constatei que pouco mais
de 60 pessoas se tornaram parceiros de viagem. Numa vista rápida pelo autocarro
este parece que é dos que nunca avariam, já me sinto mais confiante. Embarcámos
então rumo a Este. Muitos parceiros têm 2 bancos à sua mercê, eu para já tenho
um companheiro de viagem. Ainda as curvas não iam em dez, e a música do cd dos
Red Boys não tinha ultrapassado a primeira faixa e fui tomado de assalto, como
se de um susto se tratasse, pelo pensamento “A Itália não é já ali a seguir a
Aveiro ou a Coimbra… Eu nunca andei tanto tempo de autocarro! No que me fui eu meter!”
A verdade é que quando me lembrei que ia ver o Braga, o meu Braga, tudo isto me
pareceu apenas um pequeno pormenor, apenas um detalhe, e a vida é feita de
detalhes… Ao contrário de outras viagens em que se fala sobre tudo, se ri sobre
cada piada e se cantam as músicas do Braga sem que fiquemos exaustos, nesta
viagem, ainda antes da paragem para jantar os temas de conversa começavam-se a
esgotar, as piadas já se repetiam e as músicas já se entoavam ao pensamento do
“Outra vez?”. Era já noite portanto quando parámos para jantar, algures numa
área de serviço em Espanha, já se tinham adiantado os relógios, não tanto como
o do autocarro que teimosamente se manteve 12 horas adiantado, ou atrasado,
toda a viagem. Foi portanto a altura certa para pegar no cobertor que
gentilmente me aconselharam a levar, e sentar-me no mesmo lugar. O problema é
que é cedo para dormir, o filme não se consegue ler as legendas, não se
conseguem ouvir as falas e parece-me chato, o que me leva à inquietação de não
conseguir fazer nada e nada poder fazer para alterar isto. Pensei em pegar no
mp3 para ouvir um pouco de música, mas se calhar é melhor guardar a bateria
para o regresso. Acaba o filme, ou para a meio, nem sei bem que não estava com
atenção e começa uma série de musicas que nada me distraem, Zé Amaro e Jorge
Ferreira são dois bons exemplos que só servem para entreter o povo dos discos
pedidos, perdoem-me a alfinetada. Decido então cerrar os olhos, mas não
adormeço, não consigo, e nem era o barulho que me incomodava nem o bater da
cabeça no vidro com o soluçar da camioneta. Era esta inquietação e de olhos
fechados só consigo imaginar como será o jogo, se irei gritar até não poder
mais, se conseguirei gritar o golo que todos vamos em busca, se traremos a
vitória na mala, se seremos capazes de os ultrapassar, arrepio-me, volto a
ficar lucido, e volta tudo ao início. A certa altura acabo por adormecer, não
sei pelo que passei, sei que algo me fez acordar de súbito, talvez um sonho,
desperto e não mais prego olho, atravessei a fronteira francesa a dormir. A
verdade é que nem me importo porque me soube bem este pequeno descanso,
preocupa-me mais esta falta de sono quando o caminho ainda nem a meio a vai. Já
nada me entretém, o mp3 ajuda a desviar o pensamento do jogo, alivia a ansiedade,
mas não me adormece. Chega a luz do dia, o pequeno-almoço, e o sono, talvez
pelo cansaço. Dizem-me entretanto que passei por uma série de cidades
francesas, não faço ideia, abria os olhos a espaços só para confirmar que
continuávamos a andar, mas queria continuar a dormir, era a única coisa que me
sossegava. E a dormir cheguei ao Mónaco. Cheguei pelo menos a um alto onde
vislumbro lá no fundo o Mónaco a banhar-se em águas Mediterrâneas. Também eu me
banhava se lá chegasse. Almoça-se o que se trouxe de farnel e parte-se rumo a
Itália. Entre o Mónaco e a cidade de Génova existem tantos túneis que se a cada
túnel perdêssemos um passageiro o autocarro ficaria vazio antes do fim,
impressionante! Mas o mais importante, no meio de tanto túnel, era realmente a
placa que indicava que estamos finalmente em terras italianas. Não sei que
mosca me mordeu, mas voltei a adormecer até perto de Milão, onde voltamos a
parar. Daí em diante, esperava eu e toda a gente, uma jornada até Brescia, a
verdade é que fomos para Bergamo, e em vez do Hotel Plaza, fomos também para o
4 estrelas Hotel Palace. Hotel este que tinha mais estrelas do que empregados e
não me pareceram a mim bem encarados, se calhar tiveram um mau dia, acontece a
todos. Fico então alojado num quarto com 3 camas (só disse isto porque percebi
mais tarde que houve quem tivesse de dividir a mesma cama com outra pessoa e
não eram um casal, nem eram irmãos, eram amigos e assim ficaram). Depois de um
banho que me traz vida, vem a massa, as febras e as batatas fritas regadas com
água Flávia. Não é nenhum manjar, contava com melhor confesso, mas dá para
tapar o buraco no estômago. O calor da noite convida a uma caminhada a pé, há
quem prefira um viagem de táxi até Milão, eu, após analisar o ambiente em volta
do hotel, sem pisar o passeio além do portão, decido ficar pelo meu quarto. A
zona não inspira confiança, e a correria e movimentações de carros ao sinal de
luzes de telemóvel não me agrada. Sei o que andam a fazer mas nem me interessa
divulgar. Ligo a televisão, estico-me ao comprido na cama do meio (porque no
meio é que está a virtude e porque era a única cama de frente para a televisão)
e adormeço, nem me lembro de ter carregado 3 vezes para mudar de canal, já só
me acordou o despertador! No fim do pequeno-almoço ruma-se à cidade que afinal
nos trouxe cá, Udine! É sob escolta policial que viajámos da saída da
autoestrada até à estação de caminho-de-ferro, bem no centro de Udine, porém,
um mal entendido (ou 2, ou 3, não interessa) levou-nos até ao parque de estacionamento,
ainda vazio, do Stadio Friuli com a promessa que após almoço um autocarro, que
não o que nos trouxe até cá (teria de ficar parado durante 9 horas), nos
levaria de volta até ao centro da cidade e nos transportava de volta à hora do
jogo nos cerca de 5 km que nos separam. Assim sendo almoça-se por aqui uma bela
de uma pizza, num restaurante indicado pela policia, e volta-se para perto do
estádio. Dou comigo a encarar o estádio por fora e a imaginar o seu ambiente
mais logo, lá dentro. Enquanto o autocarro não chega aproveito para comprar
mais um cachecol alusivo ao jogo para a minha coleção na loja oficial da
Udinese, onde a policia não me queria deixar ir, por estar equipado à Braga e
poder haver problemas mas após alguma insistência lá cedeu. Volto da loja e
percebo que a história do autocarro é afinal uma ilusão. Ficar aqui a penar
entre um estádio fechado, um parque de estacionamento vazio e a sombra de um
muro do quartel do exército não é solução, portanto, venha de lá um táxi que
nos leve até ao centro de Udine! Por entre fotos, esplanadas, praças, policias
em cada esquina e adeptos que gritam o nome da cidade ou do clube local, lá se
mata o tempo, hora de voltar para perto da estação, sempre debaixo de uma
escolta (ainda que bem disfarçada) por parte da policia. Por aqui se janta e se
enche um autocarro de gente vestida de vermelho e branco em direção ao estádio.
No meio de tantos cânticos nem dei pela viagem. Chegados ao parque de
estacionamento, já bem mais composto, cresce em mim a incerteza de aguentar
todo este ânimo e boa disposição. Fará sentido sair daqui derrotado? Poderão as
coisas correr verdadeiramente mal? Perguntas a mais para uma cabeça que dói, um
coração que se aperta e uma calma que não se encontra… Sou dos primeiros a
entrar no estádio, contemplo a imensidão de cada bancada, por enquanto deserta,
mas que aos poucos se vai enchendo. Percebo que somos uma insignificância nesta
imensidão às listas pretas e brancas, mas o olho atento do Beto que ao acenar
no aquecimento mostrou que nos viu e com certeza sentiu, fez-me pensar que só
tinha era de gritar e apoiar como um desalmado, e assim fiz, vêm as equipas
para o aquecimento e mostrámos que temos vozes para aguentar com tudo e todos,
não somos 100, mas temos o poder na voz de cada Braguista que não viajou. Do
jogo pouco há para falar. Destaco apenas a vontade com que todos cantámos, com
que todos apoiámos, e com que todos sofremos. E quando digo todos é mesmo
todos… Arrepiaram-se os corpos ao som do hino, verteram-se lágrimas no golo sofrido,
gritou-se com desespero a cada bola que não entrou, suspirou-se de alivio a
cada corte da nossa defesa, festejou-se como um golo a cada defesa do Beto,
explodimos com o golo do Rúben, e impacientemente desesperamos pelos penaltis.
Sei que é muito fácil falar agora, mas a verdade, é que quando o árbitro
terminou o prolongamento, algo dentro de mim me dizia para confiar no
guarda-redes. Esse sentimento foi aumentando a cada lado que ele adivinhava e
que aos meus olhos pareciam uma quase defesa. E ela surgiu, e eu de mãos bem
abertas bati nas costas das cadeiras em frente, e gritei, não faço ideia do que
gritei, estava fora de mim, estava louco… No último penalti, aos meus olhos, o
guarda-redes da Udinese duplicou o tamanho e a baliza encolheu para um terço,
mas assim que vi o guarda-redes cair, percebi que o Rúben tinha encontrado o
buraco da agulha, corri como um louco para os braços de quem estava mais perto,
cerrei os punhos até me doer, gritei até não ter mais forças, senti as pancadas
nas costas de umas mãos cheias de felicidade, vi lágrimas de alegria escorrerem
dos meus irmãos de viagem, vi tudo e não consigo descrever nada… A maior
palavra será sempre pequena demais para que nela caiba cada sorriso, cada
abraço, cada lágrima, cada sentimento… Estamos na Champions, estamos todos lá e
desejei nesse exato momento, quando tinha os jogadores à minha frente agarrados
à rede do fosso que nos separava, poder ter ali o meu pai, a minha namorada e o
parceiro de todas as viagens para que comigo festejassem, mas não tinha, e a
lágrima que pelo meio da barba enorme se perdeu talvez se devesse a isso, à
falta do abraço que ninguém poderia substituir. Recolheu a equipa ao balneário
com mais de metade o Stadio Friuli a aplaudir em pé estes enorme Gverreiros.
Recolhemos nós ao parque de estacionamento onde entre felicitações, aplausos, e
trocas de cachecóis se passou algum tempo em que ainda mal acreditávamos que
estávamos na Champions League. Do regresso a Braga nada tenho para contar,
apenas que imaginei a festa que iria pelas ruas da minha bela cidade e no
aeroporto onde chegou esta fantástica equipa. A mim resta-me sonhar, ainda
falta muito caminho pela frente, ninguém me irá receber como herói, e não
havendo uma foto de grupo que esteja completa, guardarei para mim a imagem de
cada parceiro de viagem, pois cada um deles lutou como eu, uma luta desigual de
apoio incondicional ao nosso clube, sem baixar os braços, sem deixar de
acreditar… Um dia depois pergunto-me se faz sentido percorrer milhares de
quilómetros, durante aproximadamente 50 horas num autocarro, para ver 2 horas
de futebol. A resposta é sim, claro que vale a pena, pelo Braga vale sempre
tudo a pena. Sim sou louco, mas eu gosto…
10.8.12
Chegou o dia
Falta
pouco, falta mesmo muito pouco. O dia por mim mais aguardado dos últimos meses
chegou. Chamem-me egoísta, chamem-me doido, não me importo, esperei pelo
dia de hoje com a mesma impaciência que um menino para abrir os presentes de
Natal. Tal como eu sei que a muitos mais lhes vai custar a passar a noite.
Chamam-lhes os Gverreiros. Os sonhos, os cheiros, as sensações, as lembranças,
os arrepios… ai os arrepios. Tudo começa aqui. Relembro os tempos vividos entre
estádios, cânticos, golos, bolas na trave, nervos à flor da pele, gritos de
paixão, juras de amor, promessas para uma vida, promessas a que não quero
faltar. Quero dizer “eu estive lá, eu vivi, eu vibrei e eu chorei!” Tudo começa
aqui, tudo começa hoje, vou cerrar os punhos com os meus irmãos de armas e
gritar Braga, somos Gverreiros, não só de nome. Somos Gverreiros de corpo e
alma, lutámos, caímos e renascemos cada vez mais fortes… Nós somos o Braga! Não
são as bolas que beijam suavemente a rede, como quem acaricia uma flor, que nos
levam ao estádio. É toda a ambição, toda a crença e toda a vontade que
partilhámos desde a bancada com quem está dentro do campo. O Braga somos nós os
adeptos, e o futebol é nosso, ninguém jamais o comprará, porque sentimentos não
se compram. Ninguém me poderá tirar o frio na barriga antes de cada jogo, a dor
de estômago até ao apito inicial, o cerrar dos punhos, o morder dos lábios, os
gritos mudos, os “AAAAAAHHHHHH” e a explosão de alegria a cada golo, o sorriso
rasgado a cada vitória e a lágrima marota a cada conquista. Ninguém me vai
tirar o prazer de fazer quilómetros pelo meu Braga, ninguém me vai roubar o que
guardo cá dentro, nem mesmo que a lágrima seja de dor, porque o desconforto que
ela provoca será afagado e partilhado pelo parceiro do lado, tornando-nos ainda
mais fortes. Deveria estar a dormir, talvez esteja a divagar demais, mas a
verdade é que não me apetece, não consigo controlar esta ansiedade, apetecia-me
mesmo era acampar junto a uma das portas cinzentas que me levarão ao céu, ao
meu céu, onde eu me sinto melhor e onde eu me sinto cada vez mais vivo…
Chegou o dia, o dia em que mais uma vez prometo nunca te deixar sozinho…
Chegou o dia, o dia em que mais uma vez prometo nunca te deixar sozinho…
16.7.12
Quatro traços
Queria nunca
ter crescido, ser para sempre criança.
Um eterno
menino sem consciência.
Enlouquecido,
em estado de total demência
Recusava
apaixonar-me sem pagar fiança.
Onde vivia
esse querer, porém,
Cresceu algo
em mim que devo a alguém.
Amor eterno,
chamam-lhe assim.
Sei que
gosto, sei que não te fim.
A ti garanto
que é para toda a vida
Recuso
perder-te ou deixar-te ferida
Consigo
imaginar a teu lado um amanha diferente,
O que ontem
parecia tão distante
Nada agora
dentro do meu sangue quente
Trata-se de
um querer fervilhante
Iluminado
pelo brilho do teu leve olhar,
Guiado por
um gesto de conforto
Ostentado
pelo teu meigo dedilhar.
Jamais quero
encontrar outro porto,
Outro abrigo,
outros braços…
Antes que me
tirem esta vida mundana
Nunca te
esqueças destes 4 traços:
“Amo-te para
sempre Joana”
3.7.12
Aos enfermeiros
Todos
já fomos pequenos e todos nos lembramos de o ser, mas nenhum de nós se lembra
de nascer. Como tal, é impossível saber quem nos viu nascer, quem estava por
perto, quem foram as primeiras pessoas a quem o nosso choro fez vibrar os
tímpanos. Tirando alguns casos, talvez cada vez menos frequentes, todos
nascemos num hospital ou noutro espaço equivalente. Dentro da sala onde
berramos pela primeira vez estava alguém cuja profissão é considerada uma arte,
além de uma ciência, que se desenvolveu a partir do longínquo séc. XIX. Como
pioneira teve Florence Nightingale, enfermeira de guerra, britânica que cuidou
dos soldados do seu país na Guerra da Criméia. Mulher de armas, dirão alguns.
Pouco me importa, não estou cá para falar dela. Estou cá para falar dos
enfermeiros dos dias de hoje, dos enfermeiros do meu país! Ao longo da vida,
além de sermos acompanhados por médicos, somos acompanhados por enfermeiros, e
pouco ou nenhum valor lhes damos. Em verdade vos digo, por muito valor que lhes
dêmos, nunca será o suficiente. Socialmente mal tratados com conotações pouco
abonatórias da dignidade de uma pessoa e imagens criadas que em nada
correspondem à verdade (no que ao sexo feminino diz respeito principalmente),
os enfermeiros têm ainda a má fama de serem severos, mal dispostos, carniceiros
e por aí adiante. Não acham que chega de maltratar quem luta por nós sem se importar
com o “nada” que lhes damos em troca? Chega de menosprezar quem nunca vira a
cara à luta, quem sofre por dentro, quem se esforça nas horas de maior aflição,
quem sente que falha e o quão injusta é a vida quando parte alguém que apenas
conhece de um internamento, e que mesmo
sem nada saber dele, lutou até ao fim por ele e com ele! Chega de espezinhar
quem quer trabalhar no país que necessita de enfermeiros para libertar a carga
laboral dos que estão empregados e se vê forçado a abandonar a nação e procurar
novos rumos! Chega! Está mais do que na hora de olhar para os enfermeiros como
heróis que lutam diariamente em batalhas desiguais pela simples paixão de
desempenharem com afinco, profissionalismo e orgulho a sua profissão, está mais
do que na hora de deixar a mesquinhez de lado e de ver em cada enfermeiro um
amigo, que estará pronto para nos ajudar, para nos salvar, para cuidar de nós.
Não sou enfermeiro, mas nos últimos tempos tenho convivido com alguns, e das
conversas de cafés, onde por vezes pareço aluado, apenas penso na injustiça por
que todos eles passam, apenas penso nas dificuldades que eles sentem e mesmo
assim mostram uma força de vontade que engole o mundo de uma vez só. Coloquei
os enfermeiros num pedestal, não os enfermeiros que conheço, mas todos os
enfermeiros em geral. Coloquei-os lá no alto porque hoje me perguntei a mim
mesmo a quem era eu capaz de prestar uma homenagem sentida. Coloquei-os num
pedestal, agora façam-me um favor e não os atirem abaixo, tratem-nos com
carinho, que é com carinho que eles cuidam de todos nós. Florence Nightingale foi enfermeira numa
guerra, mas hoje, os enfermeiros, travam diariamente a sua própria guerra…
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