Finalmente
parece que a máquina que antes estava encravada começa a querer movimentar-se.
Vejo o meu regresso aproximar-se apesar de ainda estar longe. Prefiro nem
pensar que ainda tenho outra fábrica para visitar antes de ir embora. Sinto-me
mais calmo se viver dia-a-dia e for traçando objetivos curtos com o único
propósito de os ver realizados e ganhar ânimo para continuar. Hoje é como se me
tivessem dado uma injeção de força, talvez tenha sido a raiva, certo é que vi
as coisas mexer, andar para frente. Fiquei satisfeito e até já tive mais
paciência para falar e ouvir os outros. Mais um dia que passou, menos um dia
para voltar a casa, 13º dia por estas paragens esquecidas, um dia de sorte, ou
a sorte de um dia ter corrido melhor.
16.11.12
15.11.12
Diario da India III - Dia 12
Acordei
com o corpo menos dorido que os últimos dias, mas a mente, essa continua a
penar e a pedir alívio. Não lhe encontro salvação e o trabalho é a única coisa
que me distrai. Ainda assim não é uma distração que me sossegue. Irrito-me cada
vez com maior facilidade, sinto os nervos à flor da pele, apetece-me explodir a
torto e a direito mas ao mesmo tempo controlo-me e deixo que os nervos apenas
me corroam o estômago cada vez mais fraco. Há dias em que parece que por muito
esforço que faça nada é reconhecido e nada vale realmente a pena. Continuo a
socorrer-me da máscara para disfarçar expressões, para abafar gritos que já nem
sei se são de terror ou de frustração pois desta vez aconteceu algo que não
previa, algo que não me achava capaz, um ponto de saturação que julgava
infinito. Perdi por momentos o controlo de tudo o que me pertence, senti-me
derrotado, senti-me despojado de forças, dobrei os joelhos e deixei que o corpo
pendesse para trás até me sentar. Dobrei a cabeça para baixo, pousei o capacete
na minha frente, tapei a cara com as mão sujas do cimento e chorei… Chorei
porque queria desistir, porque não me sentia capaz, chorei porque nada mais
conseguia fazer, chorei porque precisei de o fazer. Chorei porque não encontrei
maneira de voltar para a minha terra, para a minha casa, para a minha família.
Não resolvi nada com isto, mas soube-me bem. Não, ainda não cortei a barba, não
estou com disposição.
14.11.12
Diario da India III - Dia 11
Sinto
falta das notícias em Portugal, por estes dias tem sido lá um sem fim de
manifestações contra a austeridade, passeou-se por lá a chanceler alemã, Angela
Merkle, e joga hoje a selecção portuguesa de futebol contra o Gabão, sem o
carismático Cristiano Ronaldo, mas com 7 jogadores do meu Sporting de Braga
convocados! Que orgulho, e que pena não os poder ver em acção. É também hoje
dia de greve geral. Por cá não fiz greve, mas foi parecido, hoje é o feriado do
Diwali, ninguém trabalha, a fábrica está deserta, as máquinas que não podem ser
paradas soam a silêncio e às 7 horas da manhã ainda está tudo a dormir. Reina a
paz, a calma e o sossego. Despachei o que era possível pela manhã, pequenas
coisas agarradas ao dia anterior, e tirei a tarde para descansar e recuperar
energias na esperança de voltar com mais vontade e determinação ainda em acabar
de vez com todas as tarefas. A ideia parecia excelente, mas revelou-se entediante,
e fiz uma serie de coisas inúteis, entre elas dormir e organizar as fotos e
músicas do telemóvel e do disco externo. A meio da tarde senti a mesma
dificuldade que há dois anos num quarto na outra ponta deste corredor, não
consegui ter água fria na torneira. Os dias aqui continuam quentes e estando eu
a precisar de passar água fresca pela cara fui até ao lavatório mas a torneira
mesmo virada para o lado azul vertia água quente demais para ser considerada só
morna. O eterno problema das canalizações por fora das paredes, o sol aquece os
tubos e por sua vez a água. Caiu a noite e os foguetes diminuíram em relação ao
dia anterior, prevê-se por isso uma noite bem mais calma, a contrastar com dia
previsto para amanhã. Olho-me uma última vez ao espelho, sinto que estou a
ficar mais escuro, nem tenho apanhado muito sol, talvez sejam só côdeas. Passo
a mão na barba que já nem arranha, está grande demais, amanhã corto, hoje é
hora de ir dormir.
13.11.12
Diario da India III - Dia 10
Véspera
do festival das luzes, para mim um dia normal, para a maioria dos indianos um
dia especial, só trabalham meio-dia, a partir das 13 horas ninguém trabalha por
cá, quanto a mim, sou o branco cá do sítio, trabalho até às 18h30 e já saio
mais cedo. A fábrica ficou deserta de pessoas e povoada de luzes e velas por
todo o lado. Não há pó de cimento, não há camiões que buzinam e se desfazem a
cada lomba, não há camionistas a cuspirem tabaco mascado. Existe apenas paz e
sossego. Cai a noite e a “guest house Ajit Bhawan” onde pernoito, almoço e
janto, transforma o seu hall, escadaria e entrada num autêntico caminho de
velas, onde apenas o cheiro se torna demasiado. Faz-me sentir calmo, começo a
gostar do Diwali. A única parte que retirava a esta festa é o liberalismo em
relação à pirotecnia, nesta noite toda a gente lança foguetes sem rei nem
roque, para onde estão virados, não se importando com os outros nem se
importando com eles próprios. Das duas uma, ou nestes dias há montes de feridos
e com gravidade, ou são todos inocentes, porque a sorte protege os inocentes.
Tive medo, tive muito medo… regressei por isso a casa, amanhã para eles é
feriado, mas para mim não, eu estou de volta à luta! Feliz Diwali a todos!
12.11.12
Diario da India III - Dia 9
A
palavra trânsito faz sempre muito sentido aqui na India. O trânsito por estas
bandas é algo de impossível, tem poucas regras, muitos conhecem-nas, mas todos
as ignoram. E no que trata a engarrafamentos é algo único. Nos últimos dias
tenho sentido a mesma sensação de quando estamos presos no trânsito e vamos a
caminho da estação de comboio. Aqueles nervos, aquela raiva, aquela vontade de
ter asas, os suores, os murmúrios… Mas finalmente hoje foi o dia em que esse
trânsito começou a fluir melhor, aproximamo-nos alguns passos mais da estação,
mas continuamos longe e receio não chegar a tempo de entrar no comboio. Cai-me
no estômago como uma bola, difícil de digerir como o cimento. Uma leve brisa de
calma soprou e deixou-me apreciar as luzes do Diwali. Luzes iguais às de Natal,
mas não havendo aqui Natal, há Diwali (ou festival das luzes) alguns foguetes e
muita ansiedade para que chegue o dia de amanhã entre os locais, a véspera do
Diwali, já eu só anseio o amanhã por saber que falta menos um dia para te
abraçar e te mimar.
11.11.12
Diario da India III - Dia 8
Há
dias que têm tudo para dar certo quando nascem, o pior é que, por vezes, ainda
são alimentados a leite e já se tornaram no maior pesadelo. Um acidente com
causas misteriosas atrasou ainda mais a conclusão dos objectivos que me
trouxeram cá. Isto e algum esperto me ter cortado os cabos de rede durante a
noite e ter levado cerca de 5 metros de fio! Não se consegue confiar em
ninguém… Conseguir até se consegue, mas são poucos. Os camionistas é impossível
confiar neles, sisudos e cinzentos como o cimento que carregam, estranhos como
o tabaco que cospem depois de mascado. Estou farto de aqui estar. Preciso ir
para casa, preciso de uma lufada de ar fresco que me anime e me dê ânimo para
encarar o que falta, e ao que se sugere, pode ser mais do que esperava. Não
quero isto, não quero mais cá voltar. Demasiada pressão psicológica leva-me a
perder a calma por breves momentos. Sinto-me tenso, a tremer, a morder o lábio,
não consigo focar a visão decentemente e solto um berro tapado pela máscara e
ensurdecido pelo cimento. Volto a acalmar e a deixar de pensar, volto para o
meio de quem não confio, inalo o pó que pelo ar se passeia e odeio-o tanto ou
mais do que ter de estar tão longe de casa, tão longe do mimo, tão longe de ti…
10.11.12
Diario da India III - Dia 7
Encontrei
uma distracção que me faz olhar para o cimento e vê-lo com alguma cor, apazigua
a dor interior, leva-me o pensamento pela mão e faz-me esquecer a dor física do
cansaço, do desespero e da desmotivação. Não se chama droga, chama-se música!
Encontrei hoje na mochila o mp3, fez-me bem ouvir os sons conhecidos, reviver
momentos, cantar ao som da música, vibrar com elas e sorrir um pouco,
descontraí, e fez-me extremamente bem. Hoje mudo-me da planta de Bela para
Rewa, tenho um quarto mais pequeno mas mais cómodo, com lençóis lavados, melhor
comida, melhor atendimento e com grilos! Tenho grilos no jardim em frente ao
quarto que vão cantar toda a noite e tenho um grilo dentro do meu quarto que me
fugiu para debaixo de um armário e que não consigo apanhar. Faz hoje uma semana
que entrei no aeroporto de Delhi, e apesar de não fazer uma semana que estou a
trabalhar sinto-me de rastos. Encontrei uma balança e o peso era de menos 1,5
quilos que o normal. Talvez a balança não esteja correcta, ou a aceleração da gravidade
tenha feito das suas. Um quilo e meio numa semana é muita coisa, e eu tenho-me
alimentado bem, pelo menos não tenho sentido fome. Mas tenho alguns desejos,
por causa da conversa de ontem, hoje apetecia-me umas castanhinhas assadas e
agora á noite deu-me um desejo enorme de broa de milho… Também tenho saudades
tuas, não o digo todos os dias porque me tento enganar a mim próprio, mas tenho
saudades, muitas mesmo… bolas…
9.11.12
Diario da India III - Dia 6
Descobri
duas coisas que todos os indianos têm, além de muitas outras bem estranhas,
fiquemos só por estas duas. Ter um lenço “da mão” também conhecido por lenço de
pano sempre à mão e conseguir beber uma garrafa de água de uma só vez sem tocar
no gargalo da dita e sem fechar a boca, tentem esta proeza. Esta perícia acaba
por ser fácil de perceber porque atinge toda a gente, com a falta de limpeza e
higiene que por aqui cresce mais que cogumelos na floresta e não sendo ético
(mesmo na India) negar água a ninguém, toda a gente bebe de todo o lado, com a
devida autorização desde que não enfie lá os beiços. Confesso que tentei e como
é evidente molhei-me todo, só consigo encher a boca, fechá-la e engolir a
aguinha, sempre engarrafada e lacrada, a saber ao cloro. Quanto ao lenço da mão
é essencial e serve para tudo, desde máscara de partículas a engraxador de
sapatos (a quem os tem), serve ainda para limpar o nariz e o suor que escorre
pela cara ou as mãos no fim de as lavar, um multiusos portanto. Tenho passado
nos últimos dias por imensos animais que andam à solta, não têm dono, mas que
convivem no meio das pessoas como se sempre aqui estivessem. Entre eles,
corvos, javalis e imagine-se raposas. Faz-me uma certa confusão como estes
animais se passeiam pelo meio de pessoas, bicicletas, motas carros e camiões.
Raio de país estranho. Tirando todas estas curiosidades continuo a ingerir
quilos de cimento diariamente e creio estar a ficar com os neurónios muito
perto do “Tilt”, talvez seja cimento a mais.
8.11.12
Diario da India III - Dia 5
Levantei-me
com um peso nos ombros como se carregasse toda a India. Começou a bater-me o
cansaço, sinto-me aqui preso há um mês e nem há uma semana cheguei. Arrasto os
pés tal e qual um dos sujeitos a quem tentei ingloriamente explicar onde ficava
Portugal. É enorme a dificuldade com a língua, nem mesmo a língua gestual se
consegue aplicar como se pensa, exemplo disso é a grande maioria dos que me
rodeiam não compreender o sentido de um polegar erguido e o resto da mão
fechada. É a língua que nos define e é ela que esconde muitos problemas, como a
afta que me afecta e que só no final do dia consegui descobrir, a falta de
espelhos tem destas coisas, não vemos em nós o que facilmente vemos nos outros.
Vamos lá contar a história do livro em Itália e deixar as brincadeiras parvas
com a tentativa de aguçar a curiosidade pelo dia seguinte deste diário. Após a
aterragem do avião em tamanho reduzido da Portugália, no aeroporto de Milão, os
passageiros, como normal, arrumam os seus pertences e saem ordeiramente do avião.
Se a saída não se efectuar directamente para o interior do aeroporto, por norma
existe um autocarro para fazer o transporte, ora foi exactamente o que
aconteceu, toda a gente entrou no autocarro com a excepção de um passageiro que
continuava dentro da aeronave à procura de um livro, e tendo a certeza que o
fazia transportar consigo e que não poderia ter saído pelo próprio pé do avião,
avisou a tripulação que não estava a conseguir encontrar o seu livro. Dirige-se
então um membro da tripulação do avião à porta traseira do autocarro e grita
alto e bom som “Alguém por engano ou distracção trouxe consigo um livro que não
lhe pertencia?” Os passageiros olham uns para os outros, uns na tentativa de
identificar um movimento suspeito outros a perguntarem-se com os olhos que
pergunta estranha era aquela, outros a perguntar o que disse o homem porque não
falam português, e para esses, o senhor repetiu exactamente o mesmo mas agora
em inglês cerca de 10 segundos depois. Volta a aguardar mais 10 segundos e à
falta de reposta pergunta novamente, ninguém responde e ele fica-se apenas pelo
“Não?” A pontos de voltar costas por ver a sua esperança desvanecida,
levanta-se um sujeito com o cabelo todo branco a aparentar os seus 60 anos e
que estava a meio metro do tripulante do avião, chega-se perto dele, coloca a
mala de mão no chão enquanto a abre e diz “Sou eu que tenho, mas peguei nele só
porque não estava lá ninguém e o livro estava sozinho, foi para não o deixar
lá, pensei que alguém se tinha esquecido dele!” 3 conselhos para quando
viajarem de avião, nunca percam de vista os vossos pertences, se encontrarem
algo que parece estar perdido entreguem à tripulação e no caso de não
entregarem respondam que são vocês que têm o objecto perdido à primeira vez que
perguntarem, fica bem, e não passam por ladrões.
7.11.12
Diario da India III - Dia 4
Há
livros vazios de conteúdo, livros vazios de palavras, livros por escrever e
livros que não o deviam ser. Contudo, existem bons livros, livros que nos
apaixonam com a sua história e nos fazem sonhar, livros que nos oferece a nossa
paixão, livros que são o nosso sonho, livros que nos tocam, que nos marcam nem
que seja pela dedicatória escrita num virar de página. Todos são livros que
demoram uma eternidade a escrever, tudo é revisto ao pormenor para não falhar
nada, para sair na perfeição, para agradar, para vender. Por aqui nota-se a
falta de livros, sejam eles quais forem, bons ou maus não interessa, mas não
existem, não se encontram. Acredito que cada pessoa que comigo se cruza na rua
tinha histórias que dariam um bom livro, mas falta-lhes o tempo e a mim também.
Cheguei ao fim do dia de rastos, inalei quilos de cimento, tenho o sabor do pó
a roer-me os dentes e sinto-me como se tivesse acabado de escrever uma
enciclopédia de uma assentada só. Mas não o fiz, porque falta-me o tempo,
começo a senti-lo escorregar-me entre os dedos como o cimento que rapidamente
se acumula em tudo o que está parado. Aflige-me este sentimento, assusta-me
olhar para o futuro, e por isso continuo a querer olhar só para hoje,
aproveitar a coisa que melhor me sabe em terras indianas, um bom banho quente
para limpar toda a porcaria que carrego, e deixar-me arrastar até à cama no fim
de um jantar com uma comida intragável e adormecer sem dar por isso. Hoje há
futebol em Braga, um dos melhores e mais apetecíveis jogos na minha cidade natal.
O meu Braga defronta o poderoso Manchester United e eu estou do outro lado do
mundo a tentar despertar à 1h30 da manhã para me agarrar à TV e ver o meu clube
através da Tem Sports. Sinto a cabeça a explodir, preciso relaxar, preciso
desligar o cérebro.
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