Parece
cada vez mais real a possibilidade de ir para Chunar mais cedo. Em segredo
sinto-a como uma lufada de ar fresco. Ir para outro sítio, começar tudo de
novo, esquecer o que fica para trás, tudo isto me faz desejar realmente a
partida. Arrasto-me cada vez mais por estas bandas. Não vejo as coisas seguirem
em frente, não me vejo livre das algemas nem do ar sisudo com que vivo por aqui
todos os dias. Estou farto de gritar surdamente, e farto de ter os nervos à
flor da pele. Quero ir embora daqui, mesmo que seja para umas escassas centenas
de quilómetros daqui, mas quero ir, e quero que seja já amanhã. Aqui já nada
tem piada, já nada se mostra bonito e surpreendente. Aqui já não há nada para
mim. Deixem-me ir…
19.11.12
18.11.12
Diario da India III - Dia 15
As
condições meteorológicas conseguem, por vezes, moldar-nos o estado de espirito
e as vontades. Associámos facilmente a chuva à tristeza, ao desleixo, à falta
de vontade e o sol à alegria, à energia, à vitalidade. Este sol a mim não me
molda. É um sol estranho, um sol que não é meu, um sol que daqui parece
demasiado amarelo, um sol encoberto por uma poeira que não é nevoeiro, é
demasiado sujo para ser nevoeiro. É sol que não me queima mas faz-me suar, não
me torna moreno mas incomoda-me, não me transmite energia mas arde-me e
arranha-me como o cimento que se esfrega na pele. Por aqui não chove, a
temperatura é sempre igual, mas faz-me falta a chuva, faz-me falta um passeio
com a água a regar-me todo o corpo e a encharcar-me a alma. Faz-me falta a água
que brota dos olhos do céu para que parem de brotar lágrimas os meus…
17.11.12
Diario da India III - Dia 14
As
diferenças na língua criam-nos barreiras muito difíceis de transpor. Não há uma
palavra ou um som em português ou inglês que se consiga assemelhar ao Hindi.
Até mesmo os gestos que no nosso quotidiano são banais e fazemos
instintivamente, para um indiano são autênticos quebra-cabeças. O mesmo digo eu
quando eles acenam a cabeça sem que eu perceba se dizem sim ou se dizem não. É
frustrante querer pedir algo, fazer uma pergunta, e não obter nada do outro
lado, nem conseguir mostrar outra forma para que o entendam. Existem no entanto
indianos que por terem acesso a outros meios, como televisão e internet, estão
mais familiarizados com os gestos ocidentais, porém, todos esses entendem e se
expressam minimamente em inglês, o problema maior é que não é com esses que eu
lido diariamente, eu lido com os indianos que nunca foram à escola, que não
sabem ler, não sabem escrever e que no fundo até são simpáticos e prestáveis,
querendo sempre ajudar. Esta grande barreira que impede a comunicação criou-me
hoje um grande problema. Precisava pedir um cartão de forma circular aos
camionistas a fim de testar o sistema, porém não tinha tradutor comigo, e o
único que me disse que falava inglês, não percebia o que dizia (não se que
inglês falava ele!). Restava-me por gestos tentar fazer-me entender. Como é
fácil de imaginar não me saí muito bem. Qual é o gesto mais simples para
indicar um objeto redondo em forma de disco? Unir as pontas dos dedos indicador
e polegar tentando criar um círculo. Para meu espanto o primeiro camionista até
fez um ar de quem percebeu, senti-me feliz… por meio segundo, pois o que ele
tirou do tablier foi uma chave de fenda… Bolas! Tentei pedir novamente mas fui
ignorado, e como o homem já se estava a sentir pressionado decidi tentar outro
motorista. Voltei a fazer o mesmo sinal, uma, duas, três vezes e nada. Ele
dizia-me algo que eu nem fazia ideia do que era, mas mostrava-se atento e
desejoso de me ajudar. Continuei a insistir mudando o gesto, agora tentei criar
um círculo com os dois dedos indicadores e os dois polegares. Ele fez uma cara
de esclarecido e fez-me também um gesto. Uniu os dedos polegares e indicadores
de uma mão e introduziu o dedo indicador da outra mão no círculo. Não, não era
sexo que eu queria caramba. Soltei uma gargalhada, pedi-lhe que saísse do
camião e lembrei-me que nos posto que montei tinha um símbolo do que eu
precisava, ele amavelmente foi ao bolso e acertou no objeto que eu procurava.
Estava difícil…
16.11.12
Diario da India III - Dia 13
Finalmente
parece que a máquina que antes estava encravada começa a querer movimentar-se.
Vejo o meu regresso aproximar-se apesar de ainda estar longe. Prefiro nem
pensar que ainda tenho outra fábrica para visitar antes de ir embora. Sinto-me
mais calmo se viver dia-a-dia e for traçando objetivos curtos com o único
propósito de os ver realizados e ganhar ânimo para continuar. Hoje é como se me
tivessem dado uma injeção de força, talvez tenha sido a raiva, certo é que vi
as coisas mexer, andar para frente. Fiquei satisfeito e até já tive mais
paciência para falar e ouvir os outros. Mais um dia que passou, menos um dia
para voltar a casa, 13º dia por estas paragens esquecidas, um dia de sorte, ou
a sorte de um dia ter corrido melhor.
15.11.12
Diario da India III - Dia 12
Acordei
com o corpo menos dorido que os últimos dias, mas a mente, essa continua a
penar e a pedir alívio. Não lhe encontro salvação e o trabalho é a única coisa
que me distrai. Ainda assim não é uma distração que me sossegue. Irrito-me cada
vez com maior facilidade, sinto os nervos à flor da pele, apetece-me explodir a
torto e a direito mas ao mesmo tempo controlo-me e deixo que os nervos apenas
me corroam o estômago cada vez mais fraco. Há dias em que parece que por muito
esforço que faça nada é reconhecido e nada vale realmente a pena. Continuo a
socorrer-me da máscara para disfarçar expressões, para abafar gritos que já nem
sei se são de terror ou de frustração pois desta vez aconteceu algo que não
previa, algo que não me achava capaz, um ponto de saturação que julgava
infinito. Perdi por momentos o controlo de tudo o que me pertence, senti-me
derrotado, senti-me despojado de forças, dobrei os joelhos e deixei que o corpo
pendesse para trás até me sentar. Dobrei a cabeça para baixo, pousei o capacete
na minha frente, tapei a cara com as mão sujas do cimento e chorei… Chorei
porque queria desistir, porque não me sentia capaz, chorei porque nada mais
conseguia fazer, chorei porque precisei de o fazer. Chorei porque não encontrei
maneira de voltar para a minha terra, para a minha casa, para a minha família.
Não resolvi nada com isto, mas soube-me bem. Não, ainda não cortei a barba, não
estou com disposição.
14.11.12
Diario da India III - Dia 11
Sinto
falta das notícias em Portugal, por estes dias tem sido lá um sem fim de
manifestações contra a austeridade, passeou-se por lá a chanceler alemã, Angela
Merkle, e joga hoje a selecção portuguesa de futebol contra o Gabão, sem o
carismático Cristiano Ronaldo, mas com 7 jogadores do meu Sporting de Braga
convocados! Que orgulho, e que pena não os poder ver em acção. É também hoje
dia de greve geral. Por cá não fiz greve, mas foi parecido, hoje é o feriado do
Diwali, ninguém trabalha, a fábrica está deserta, as máquinas que não podem ser
paradas soam a silêncio e às 7 horas da manhã ainda está tudo a dormir. Reina a
paz, a calma e o sossego. Despachei o que era possível pela manhã, pequenas
coisas agarradas ao dia anterior, e tirei a tarde para descansar e recuperar
energias na esperança de voltar com mais vontade e determinação ainda em acabar
de vez com todas as tarefas. A ideia parecia excelente, mas revelou-se entediante,
e fiz uma serie de coisas inúteis, entre elas dormir e organizar as fotos e
músicas do telemóvel e do disco externo. A meio da tarde senti a mesma
dificuldade que há dois anos num quarto na outra ponta deste corredor, não
consegui ter água fria na torneira. Os dias aqui continuam quentes e estando eu
a precisar de passar água fresca pela cara fui até ao lavatório mas a torneira
mesmo virada para o lado azul vertia água quente demais para ser considerada só
morna. O eterno problema das canalizações por fora das paredes, o sol aquece os
tubos e por sua vez a água. Caiu a noite e os foguetes diminuíram em relação ao
dia anterior, prevê-se por isso uma noite bem mais calma, a contrastar com dia
previsto para amanhã. Olho-me uma última vez ao espelho, sinto que estou a
ficar mais escuro, nem tenho apanhado muito sol, talvez sejam só côdeas. Passo
a mão na barba que já nem arranha, está grande demais, amanhã corto, hoje é
hora de ir dormir.
13.11.12
Diario da India III - Dia 10
Véspera
do festival das luzes, para mim um dia normal, para a maioria dos indianos um
dia especial, só trabalham meio-dia, a partir das 13 horas ninguém trabalha por
cá, quanto a mim, sou o branco cá do sítio, trabalho até às 18h30 e já saio
mais cedo. A fábrica ficou deserta de pessoas e povoada de luzes e velas por
todo o lado. Não há pó de cimento, não há camiões que buzinam e se desfazem a
cada lomba, não há camionistas a cuspirem tabaco mascado. Existe apenas paz e
sossego. Cai a noite e a “guest house Ajit Bhawan” onde pernoito, almoço e
janto, transforma o seu hall, escadaria e entrada num autêntico caminho de
velas, onde apenas o cheiro se torna demasiado. Faz-me sentir calmo, começo a
gostar do Diwali. A única parte que retirava a esta festa é o liberalismo em
relação à pirotecnia, nesta noite toda a gente lança foguetes sem rei nem
roque, para onde estão virados, não se importando com os outros nem se
importando com eles próprios. Das duas uma, ou nestes dias há montes de feridos
e com gravidade, ou são todos inocentes, porque a sorte protege os inocentes.
Tive medo, tive muito medo… regressei por isso a casa, amanhã para eles é
feriado, mas para mim não, eu estou de volta à luta! Feliz Diwali a todos!
12.11.12
Diario da India III - Dia 9
A
palavra trânsito faz sempre muito sentido aqui na India. O trânsito por estas
bandas é algo de impossível, tem poucas regras, muitos conhecem-nas, mas todos
as ignoram. E no que trata a engarrafamentos é algo único. Nos últimos dias
tenho sentido a mesma sensação de quando estamos presos no trânsito e vamos a
caminho da estação de comboio. Aqueles nervos, aquela raiva, aquela vontade de
ter asas, os suores, os murmúrios… Mas finalmente hoje foi o dia em que esse
trânsito começou a fluir melhor, aproximamo-nos alguns passos mais da estação,
mas continuamos longe e receio não chegar a tempo de entrar no comboio. Cai-me
no estômago como uma bola, difícil de digerir como o cimento. Uma leve brisa de
calma soprou e deixou-me apreciar as luzes do Diwali. Luzes iguais às de Natal,
mas não havendo aqui Natal, há Diwali (ou festival das luzes) alguns foguetes e
muita ansiedade para que chegue o dia de amanhã entre os locais, a véspera do
Diwali, já eu só anseio o amanhã por saber que falta menos um dia para te
abraçar e te mimar.
11.11.12
Diario da India III - Dia 8
Há
dias que têm tudo para dar certo quando nascem, o pior é que, por vezes, ainda
são alimentados a leite e já se tornaram no maior pesadelo. Um acidente com
causas misteriosas atrasou ainda mais a conclusão dos objectivos que me
trouxeram cá. Isto e algum esperto me ter cortado os cabos de rede durante a
noite e ter levado cerca de 5 metros de fio! Não se consegue confiar em
ninguém… Conseguir até se consegue, mas são poucos. Os camionistas é impossível
confiar neles, sisudos e cinzentos como o cimento que carregam, estranhos como
o tabaco que cospem depois de mascado. Estou farto de aqui estar. Preciso ir
para casa, preciso de uma lufada de ar fresco que me anime e me dê ânimo para
encarar o que falta, e ao que se sugere, pode ser mais do que esperava. Não
quero isto, não quero mais cá voltar. Demasiada pressão psicológica leva-me a
perder a calma por breves momentos. Sinto-me tenso, a tremer, a morder o lábio,
não consigo focar a visão decentemente e solto um berro tapado pela máscara e
ensurdecido pelo cimento. Volto a acalmar e a deixar de pensar, volto para o
meio de quem não confio, inalo o pó que pelo ar se passeia e odeio-o tanto ou
mais do que ter de estar tão longe de casa, tão longe do mimo, tão longe de ti…
10.11.12
Diario da India III - Dia 7
Encontrei
uma distracção que me faz olhar para o cimento e vê-lo com alguma cor, apazigua
a dor interior, leva-me o pensamento pela mão e faz-me esquecer a dor física do
cansaço, do desespero e da desmotivação. Não se chama droga, chama-se música!
Encontrei hoje na mochila o mp3, fez-me bem ouvir os sons conhecidos, reviver
momentos, cantar ao som da música, vibrar com elas e sorrir um pouco,
descontraí, e fez-me extremamente bem. Hoje mudo-me da planta de Bela para
Rewa, tenho um quarto mais pequeno mas mais cómodo, com lençóis lavados, melhor
comida, melhor atendimento e com grilos! Tenho grilos no jardim em frente ao
quarto que vão cantar toda a noite e tenho um grilo dentro do meu quarto que me
fugiu para debaixo de um armário e que não consigo apanhar. Faz hoje uma semana
que entrei no aeroporto de Delhi, e apesar de não fazer uma semana que estou a
trabalhar sinto-me de rastos. Encontrei uma balança e o peso era de menos 1,5
quilos que o normal. Talvez a balança não esteja correcta, ou a aceleração da gravidade
tenha feito das suas. Um quilo e meio numa semana é muita coisa, e eu tenho-me
alimentado bem, pelo menos não tenho sentido fome. Mas tenho alguns desejos,
por causa da conversa de ontem, hoje apetecia-me umas castanhinhas assadas e
agora á noite deu-me um desejo enorme de broa de milho… Também tenho saudades
tuas, não o digo todos os dias porque me tento enganar a mim próprio, mas tenho
saudades, muitas mesmo… bolas…
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