Há
dias que parece não terem saído do início. Era suposto, e estava tudo combinado
para tal, hoje partirmos rumo a Chunar, a segunda parte da minha vinda cá.
Contudo as reuniões que deveriam ter ficado pelas primeiras horas da manhã
vão-se arrastando e arrastando. Não vesti roupa de trabalho, não calcei as
sapatilhas carregadas de cimento em pó, não me preparei para inalar pó todo o
dia e não contava com este nervoso miudinho que se alastrou durante todo o dia,
e que cada vez deixou mais de ser miudinho. Ora porque não nos querem deixar
ir, porque nos querem cá, porque fazemos falta cá, porque precisamos de mais
uma reunião mais logo, porque essa reunião tem de ser adiada e porque no final
é tarde demais para se viajar 5 horas por estradas sem condições, cheias de
buracos, cheias de curvas apertadas, cheias de perigos. Fica-se então cá mais
um dia na promessa de sairmos amanhã bem cedo, na tentativa de chegar a Chunar
pela hora de almoço. Tenho o estômago com um nó bem grande, muita pressão,
muito nervosismo, muita contrariedade, e uma cabeça que já nem pensar consegue.
Aliado a isto a pressão de que temos de abandonar os quartos onde estamos.
Acredito portanto que este será o meu último dia em Rewa. Amanhã é dia de
viagem. Alegra-me saber que falta menos um dia para voltar para casa!
21.11.12
20.11.12
Diário da India III - Dia 17
Tenho
finalmente a certeza que está por um fio a minha estada em Rewa. É apenas uma
ponta de cabelo e uma viagem de meio dia que me separa de Chunar, o que na
minha perspetiva me parece um oásis. Com este desejo em mente, enfrento mais um
dia poeirento com novo ânimo e nova vontade de vencer. Vou buscar forças onde
julgava que elas estivessem a faltar e consigo, contra algumas previsões
colocar uma linha a funcionar, a grosso modo, sem afinações, mas a olho nu
parece-me que vai resultar, parece-me que afinal isto vai mesmo contar sacos de
cimento. A este sentimento de triunfo junta-se a notícia de que amanhã durante
a manhã partimos para Chunar. Mal posso esperar, é hora de fazer as malas.
Chega entretanto a nostalgia e o desejo de estar a fazer as malas para
regressar a Portugal. Limpa-se a lágrima marota, não se pensa no futuro e
vive-se apenas o presente, e o presente é dormir, é descansar.
19.11.12
Diario da India III - Dia 16
Parece
cada vez mais real a possibilidade de ir para Chunar mais cedo. Em segredo
sinto-a como uma lufada de ar fresco. Ir para outro sítio, começar tudo de
novo, esquecer o que fica para trás, tudo isto me faz desejar realmente a
partida. Arrasto-me cada vez mais por estas bandas. Não vejo as coisas seguirem
em frente, não me vejo livre das algemas nem do ar sisudo com que vivo por aqui
todos os dias. Estou farto de gritar surdamente, e farto de ter os nervos à
flor da pele. Quero ir embora daqui, mesmo que seja para umas escassas centenas
de quilómetros daqui, mas quero ir, e quero que seja já amanhã. Aqui já nada
tem piada, já nada se mostra bonito e surpreendente. Aqui já não há nada para
mim. Deixem-me ir…
18.11.12
Diario da India III - Dia 15
As
condições meteorológicas conseguem, por vezes, moldar-nos o estado de espirito
e as vontades. Associámos facilmente a chuva à tristeza, ao desleixo, à falta
de vontade e o sol à alegria, à energia, à vitalidade. Este sol a mim não me
molda. É um sol estranho, um sol que não é meu, um sol que daqui parece
demasiado amarelo, um sol encoberto por uma poeira que não é nevoeiro, é
demasiado sujo para ser nevoeiro. É sol que não me queima mas faz-me suar, não
me torna moreno mas incomoda-me, não me transmite energia mas arde-me e
arranha-me como o cimento que se esfrega na pele. Por aqui não chove, a
temperatura é sempre igual, mas faz-me falta a chuva, faz-me falta um passeio
com a água a regar-me todo o corpo e a encharcar-me a alma. Faz-me falta a água
que brota dos olhos do céu para que parem de brotar lágrimas os meus…
17.11.12
Diario da India III - Dia 14
As
diferenças na língua criam-nos barreiras muito difíceis de transpor. Não há uma
palavra ou um som em português ou inglês que se consiga assemelhar ao Hindi.
Até mesmo os gestos que no nosso quotidiano são banais e fazemos
instintivamente, para um indiano são autênticos quebra-cabeças. O mesmo digo eu
quando eles acenam a cabeça sem que eu perceba se dizem sim ou se dizem não. É
frustrante querer pedir algo, fazer uma pergunta, e não obter nada do outro
lado, nem conseguir mostrar outra forma para que o entendam. Existem no entanto
indianos que por terem acesso a outros meios, como televisão e internet, estão
mais familiarizados com os gestos ocidentais, porém, todos esses entendem e se
expressam minimamente em inglês, o problema maior é que não é com esses que eu
lido diariamente, eu lido com os indianos que nunca foram à escola, que não
sabem ler, não sabem escrever e que no fundo até são simpáticos e prestáveis,
querendo sempre ajudar. Esta grande barreira que impede a comunicação criou-me
hoje um grande problema. Precisava pedir um cartão de forma circular aos
camionistas a fim de testar o sistema, porém não tinha tradutor comigo, e o
único que me disse que falava inglês, não percebia o que dizia (não se que
inglês falava ele!). Restava-me por gestos tentar fazer-me entender. Como é
fácil de imaginar não me saí muito bem. Qual é o gesto mais simples para
indicar um objeto redondo em forma de disco? Unir as pontas dos dedos indicador
e polegar tentando criar um círculo. Para meu espanto o primeiro camionista até
fez um ar de quem percebeu, senti-me feliz… por meio segundo, pois o que ele
tirou do tablier foi uma chave de fenda… Bolas! Tentei pedir novamente mas fui
ignorado, e como o homem já se estava a sentir pressionado decidi tentar outro
motorista. Voltei a fazer o mesmo sinal, uma, duas, três vezes e nada. Ele
dizia-me algo que eu nem fazia ideia do que era, mas mostrava-se atento e
desejoso de me ajudar. Continuei a insistir mudando o gesto, agora tentei criar
um círculo com os dois dedos indicadores e os dois polegares. Ele fez uma cara
de esclarecido e fez-me também um gesto. Uniu os dedos polegares e indicadores
de uma mão e introduziu o dedo indicador da outra mão no círculo. Não, não era
sexo que eu queria caramba. Soltei uma gargalhada, pedi-lhe que saísse do
camião e lembrei-me que nos posto que montei tinha um símbolo do que eu
precisava, ele amavelmente foi ao bolso e acertou no objeto que eu procurava.
Estava difícil…
16.11.12
Diario da India III - Dia 13
Finalmente
parece que a máquina que antes estava encravada começa a querer movimentar-se.
Vejo o meu regresso aproximar-se apesar de ainda estar longe. Prefiro nem
pensar que ainda tenho outra fábrica para visitar antes de ir embora. Sinto-me
mais calmo se viver dia-a-dia e for traçando objetivos curtos com o único
propósito de os ver realizados e ganhar ânimo para continuar. Hoje é como se me
tivessem dado uma injeção de força, talvez tenha sido a raiva, certo é que vi
as coisas mexer, andar para frente. Fiquei satisfeito e até já tive mais
paciência para falar e ouvir os outros. Mais um dia que passou, menos um dia
para voltar a casa, 13º dia por estas paragens esquecidas, um dia de sorte, ou
a sorte de um dia ter corrido melhor.
15.11.12
Diario da India III - Dia 12
Acordei
com o corpo menos dorido que os últimos dias, mas a mente, essa continua a
penar e a pedir alívio. Não lhe encontro salvação e o trabalho é a única coisa
que me distrai. Ainda assim não é uma distração que me sossegue. Irrito-me cada
vez com maior facilidade, sinto os nervos à flor da pele, apetece-me explodir a
torto e a direito mas ao mesmo tempo controlo-me e deixo que os nervos apenas
me corroam o estômago cada vez mais fraco. Há dias em que parece que por muito
esforço que faça nada é reconhecido e nada vale realmente a pena. Continuo a
socorrer-me da máscara para disfarçar expressões, para abafar gritos que já nem
sei se são de terror ou de frustração pois desta vez aconteceu algo que não
previa, algo que não me achava capaz, um ponto de saturação que julgava
infinito. Perdi por momentos o controlo de tudo o que me pertence, senti-me
derrotado, senti-me despojado de forças, dobrei os joelhos e deixei que o corpo
pendesse para trás até me sentar. Dobrei a cabeça para baixo, pousei o capacete
na minha frente, tapei a cara com as mão sujas do cimento e chorei… Chorei
porque queria desistir, porque não me sentia capaz, chorei porque nada mais
conseguia fazer, chorei porque precisei de o fazer. Chorei porque não encontrei
maneira de voltar para a minha terra, para a minha casa, para a minha família.
Não resolvi nada com isto, mas soube-me bem. Não, ainda não cortei a barba, não
estou com disposição.
14.11.12
Diario da India III - Dia 11
Sinto
falta das notícias em Portugal, por estes dias tem sido lá um sem fim de
manifestações contra a austeridade, passeou-se por lá a chanceler alemã, Angela
Merkle, e joga hoje a selecção portuguesa de futebol contra o Gabão, sem o
carismático Cristiano Ronaldo, mas com 7 jogadores do meu Sporting de Braga
convocados! Que orgulho, e que pena não os poder ver em acção. É também hoje
dia de greve geral. Por cá não fiz greve, mas foi parecido, hoje é o feriado do
Diwali, ninguém trabalha, a fábrica está deserta, as máquinas que não podem ser
paradas soam a silêncio e às 7 horas da manhã ainda está tudo a dormir. Reina a
paz, a calma e o sossego. Despachei o que era possível pela manhã, pequenas
coisas agarradas ao dia anterior, e tirei a tarde para descansar e recuperar
energias na esperança de voltar com mais vontade e determinação ainda em acabar
de vez com todas as tarefas. A ideia parecia excelente, mas revelou-se entediante,
e fiz uma serie de coisas inúteis, entre elas dormir e organizar as fotos e
músicas do telemóvel e do disco externo. A meio da tarde senti a mesma
dificuldade que há dois anos num quarto na outra ponta deste corredor, não
consegui ter água fria na torneira. Os dias aqui continuam quentes e estando eu
a precisar de passar água fresca pela cara fui até ao lavatório mas a torneira
mesmo virada para o lado azul vertia água quente demais para ser considerada só
morna. O eterno problema das canalizações por fora das paredes, o sol aquece os
tubos e por sua vez a água. Caiu a noite e os foguetes diminuíram em relação ao
dia anterior, prevê-se por isso uma noite bem mais calma, a contrastar com dia
previsto para amanhã. Olho-me uma última vez ao espelho, sinto que estou a
ficar mais escuro, nem tenho apanhado muito sol, talvez sejam só côdeas. Passo
a mão na barba que já nem arranha, está grande demais, amanhã corto, hoje é
hora de ir dormir.
13.11.12
Diario da India III - Dia 10
Véspera
do festival das luzes, para mim um dia normal, para a maioria dos indianos um
dia especial, só trabalham meio-dia, a partir das 13 horas ninguém trabalha por
cá, quanto a mim, sou o branco cá do sítio, trabalho até às 18h30 e já saio
mais cedo. A fábrica ficou deserta de pessoas e povoada de luzes e velas por
todo o lado. Não há pó de cimento, não há camiões que buzinam e se desfazem a
cada lomba, não há camionistas a cuspirem tabaco mascado. Existe apenas paz e
sossego. Cai a noite e a “guest house Ajit Bhawan” onde pernoito, almoço e
janto, transforma o seu hall, escadaria e entrada num autêntico caminho de
velas, onde apenas o cheiro se torna demasiado. Faz-me sentir calmo, começo a
gostar do Diwali. A única parte que retirava a esta festa é o liberalismo em
relação à pirotecnia, nesta noite toda a gente lança foguetes sem rei nem
roque, para onde estão virados, não se importando com os outros nem se
importando com eles próprios. Das duas uma, ou nestes dias há montes de feridos
e com gravidade, ou são todos inocentes, porque a sorte protege os inocentes.
Tive medo, tive muito medo… regressei por isso a casa, amanhã para eles é
feriado, mas para mim não, eu estou de volta à luta! Feliz Diwali a todos!
12.11.12
Diario da India III - Dia 9
A
palavra trânsito faz sempre muito sentido aqui na India. O trânsito por estas
bandas é algo de impossível, tem poucas regras, muitos conhecem-nas, mas todos
as ignoram. E no que trata a engarrafamentos é algo único. Nos últimos dias
tenho sentido a mesma sensação de quando estamos presos no trânsito e vamos a
caminho da estação de comboio. Aqueles nervos, aquela raiva, aquela vontade de
ter asas, os suores, os murmúrios… Mas finalmente hoje foi o dia em que esse
trânsito começou a fluir melhor, aproximamo-nos alguns passos mais da estação,
mas continuamos longe e receio não chegar a tempo de entrar no comboio. Cai-me
no estômago como uma bola, difícil de digerir como o cimento. Uma leve brisa de
calma soprou e deixou-me apreciar as luzes do Diwali. Luzes iguais às de Natal,
mas não havendo aqui Natal, há Diwali (ou festival das luzes) alguns foguetes e
muita ansiedade para que chegue o dia de amanhã entre os locais, a véspera do
Diwali, já eu só anseio o amanhã por saber que falta menos um dia para te
abraçar e te mimar.
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