21.11.12

Diario da India III - Dia 18


Há dias que parece não terem saído do início. Era suposto, e estava tudo combinado para tal, hoje partirmos rumo a Chunar, a segunda parte da minha vinda cá. Contudo as reuniões que deveriam ter ficado pelas primeiras horas da manhã vão-se arrastando e arrastando. Não vesti roupa de trabalho, não calcei as sapatilhas carregadas de cimento em pó, não me preparei para inalar pó todo o dia e não contava com este nervoso miudinho que se alastrou durante todo o dia, e que cada vez deixou mais de ser miudinho. Ora porque não nos querem deixar ir, porque nos querem cá, porque fazemos falta cá, porque precisamos de mais uma reunião mais logo, porque essa reunião tem de ser adiada e porque no final é tarde demais para se viajar 5 horas por estradas sem condições, cheias de buracos, cheias de curvas apertadas, cheias de perigos. Fica-se então cá mais um dia na promessa de sairmos amanhã bem cedo, na tentativa de chegar a Chunar pela hora de almoço. Tenho o estômago com um nó bem grande, muita pressão, muito nervosismo, muita contrariedade, e uma cabeça que já nem pensar consegue. Aliado a isto a pressão de que temos de abandonar os quartos onde estamos. Acredito portanto que este será o meu último dia em Rewa. Amanhã é dia de viagem. Alegra-me saber que falta menos um dia para voltar para casa!

20.11.12

Diário da India III - Dia 17


Tenho finalmente a certeza que está por um fio a minha estada em Rewa. É apenas uma ponta de cabelo e uma viagem de meio dia que me separa de Chunar, o que na minha perspetiva me parece um oásis. Com este desejo em mente, enfrento mais um dia poeirento com novo ânimo e nova vontade de vencer. Vou buscar forças onde julgava que elas estivessem a faltar e consigo, contra algumas previsões colocar uma linha a funcionar, a grosso modo, sem afinações, mas a olho nu parece-me que vai resultar, parece-me que afinal isto vai mesmo contar sacos de cimento. A este sentimento de triunfo junta-se a notícia de que amanhã durante a manhã partimos para Chunar. Mal posso esperar, é hora de fazer as malas. Chega entretanto a nostalgia e o desejo de estar a fazer as malas para regressar a Portugal. Limpa-se a lágrima marota, não se pensa no futuro e vive-se apenas o presente, e o presente é dormir, é descansar.

19.11.12

Diario da India III - Dia 16


Parece cada vez mais real a possibilidade de ir para Chunar mais cedo. Em segredo sinto-a como uma lufada de ar fresco. Ir para outro sítio, começar tudo de novo, esquecer o que fica para trás, tudo isto me faz desejar realmente a partida. Arrasto-me cada vez mais por estas bandas. Não vejo as coisas seguirem em frente, não me vejo livre das algemas nem do ar sisudo com que vivo por aqui todos os dias. Estou farto de gritar surdamente, e farto de ter os nervos à flor da pele. Quero ir embora daqui, mesmo que seja para umas escassas centenas de quilómetros daqui, mas quero ir, e quero que seja já amanhã. Aqui já nada tem piada, já nada se mostra bonito e surpreendente. Aqui já não há nada para mim. Deixem-me ir…

18.11.12

Diario da India III - Dia 15


As condições meteorológicas conseguem, por vezes, moldar-nos o estado de espirito e as vontades. Associámos facilmente a chuva à tristeza, ao desleixo, à falta de vontade e o sol à alegria, à energia, à vitalidade. Este sol a mim não me molda. É um sol estranho, um sol que não é meu, um sol que daqui parece demasiado amarelo, um sol encoberto por uma poeira que não é nevoeiro, é demasiado sujo para ser nevoeiro. É sol que não me queima mas faz-me suar, não me torna moreno mas incomoda-me, não me transmite energia mas arde-me e arranha-me como o cimento que se esfrega na pele. Por aqui não chove, a temperatura é sempre igual, mas faz-me falta a chuva, faz-me falta um passeio com a água a regar-me todo o corpo e a encharcar-me a alma. Faz-me falta a água que brota dos olhos do céu para que parem de brotar lágrimas os meus…

17.11.12

Diario da India III - Dia 14


As diferenças na língua criam-nos barreiras muito difíceis de transpor. Não há uma palavra ou um som em português ou inglês que se consiga assemelhar ao Hindi. Até mesmo os gestos que no nosso quotidiano são banais e fazemos instintivamente, para um indiano são autênticos quebra-cabeças. O mesmo digo eu quando eles acenam a cabeça sem que eu perceba se dizem sim ou se dizem não. É frustrante querer pedir algo, fazer uma pergunta, e não obter nada do outro lado, nem conseguir mostrar outra forma para que o entendam. Existem no entanto indianos que por terem acesso a outros meios, como televisão e internet, estão mais familiarizados com os gestos ocidentais, porém, todos esses entendem e se expressam minimamente em inglês, o problema maior é que não é com esses que eu lido diariamente, eu lido com os indianos que nunca foram à escola, que não sabem ler, não sabem escrever e que no fundo até são simpáticos e prestáveis, querendo sempre ajudar. Esta grande barreira que impede a comunicação criou-me hoje um grande problema. Precisava pedir um cartão de forma circular aos camionistas a fim de testar o sistema, porém não tinha tradutor comigo, e o único que me disse que falava inglês, não percebia o que dizia (não se que inglês falava ele!). Restava-me por gestos tentar fazer-me entender. Como é fácil de imaginar não me saí muito bem. Qual é o gesto mais simples para indicar um objeto redondo em forma de disco? Unir as pontas dos dedos indicador e polegar tentando criar um círculo. Para meu espanto o primeiro camionista até fez um ar de quem percebeu, senti-me feliz… por meio segundo, pois o que ele tirou do tablier foi uma chave de fenda… Bolas! Tentei pedir novamente mas fui ignorado, e como o homem já se estava a sentir pressionado decidi tentar outro motorista. Voltei a fazer o mesmo sinal, uma, duas, três vezes e nada. Ele dizia-me algo que eu nem fazia ideia do que era, mas mostrava-se atento e desejoso de me ajudar. Continuei a insistir mudando o gesto, agora tentei criar um círculo com os dois dedos indicadores e os dois polegares. Ele fez uma cara de esclarecido e fez-me também um gesto. Uniu os dedos polegares e indicadores de uma mão e introduziu o dedo indicador da outra mão no círculo. Não, não era sexo que eu queria caramba. Soltei uma gargalhada, pedi-lhe que saísse do camião e lembrei-me que nos posto que montei tinha um símbolo do que eu precisava, ele amavelmente foi ao bolso e acertou no objeto que eu procurava. Estava difícil…

16.11.12

Diario da India III - Dia 13


Finalmente parece que a máquina que antes estava encravada começa a querer movimentar-se. Vejo o meu regresso aproximar-se apesar de ainda estar longe. Prefiro nem pensar que ainda tenho outra fábrica para visitar antes de ir embora. Sinto-me mais calmo se viver dia-a-dia e for traçando objetivos curtos com o único propósito de os ver realizados e ganhar ânimo para continuar. Hoje é como se me tivessem dado uma injeção de força, talvez tenha sido a raiva, certo é que vi as coisas mexer, andar para frente. Fiquei satisfeito e até já tive mais paciência para falar e ouvir os outros. Mais um dia que passou, menos um dia para voltar a casa, 13º dia por estas paragens esquecidas, um dia de sorte, ou a sorte de um dia ter corrido melhor.

15.11.12

Diario da India III - Dia 12


Acordei com o corpo menos dorido que os últimos dias, mas a mente, essa continua a penar e a pedir alívio. Não lhe encontro salvação e o trabalho é a única coisa que me distrai. Ainda assim não é uma distração que me sossegue. Irrito-me cada vez com maior facilidade, sinto os nervos à flor da pele, apetece-me explodir a torto e a direito mas ao mesmo tempo controlo-me e deixo que os nervos apenas me corroam o estômago cada vez mais fraco. Há dias em que parece que por muito esforço que faça nada é reconhecido e nada vale realmente a pena. Continuo a socorrer-me da máscara para disfarçar expressões, para abafar gritos que já nem sei se são de terror ou de frustração pois desta vez aconteceu algo que não previa, algo que não me achava capaz, um ponto de saturação que julgava infinito. Perdi por momentos o controlo de tudo o que me pertence, senti-me derrotado, senti-me despojado de forças, dobrei os joelhos e deixei que o corpo pendesse para trás até me sentar. Dobrei a cabeça para baixo, pousei o capacete na minha frente, tapei a cara com as mão sujas do cimento e chorei… Chorei porque queria desistir, porque não me sentia capaz, chorei porque nada mais conseguia fazer, chorei porque precisei de o fazer. Chorei porque não encontrei maneira de voltar para a minha terra, para a minha casa, para a minha família. Não resolvi nada com isto, mas soube-me bem. Não, ainda não cortei a barba, não estou com disposição.

14.11.12

Diario da India III - Dia 11



Sinto falta das notícias em Portugal, por estes dias tem sido lá um sem fim de manifestações contra a austeridade, passeou-se por lá a chanceler alemã, Angela Merkle, e joga hoje a selecção portuguesa de futebol contra o Gabão, sem o carismático Cristiano Ronaldo, mas com 7 jogadores do meu Sporting de Braga convocados! Que orgulho, e que pena não os poder ver em acção. É também hoje dia de greve geral. Por cá não fiz greve, mas foi parecido, hoje é o feriado do Diwali, ninguém trabalha, a fábrica está deserta, as máquinas que não podem ser paradas soam a silêncio e às 7 horas da manhã ainda está tudo a dormir. Reina a paz, a calma e o sossego. Despachei o que era possível pela manhã, pequenas coisas agarradas ao dia anterior, e tirei a tarde para descansar e recuperar energias na esperança de voltar com mais vontade e determinação ainda em acabar de vez com todas as tarefas. A ideia parecia excelente, mas revelou-se entediante, e fiz uma serie de coisas inúteis, entre elas dormir e organizar as fotos e músicas do telemóvel e do disco externo. A meio da tarde senti a mesma dificuldade que há dois anos num quarto na outra ponta deste corredor, não consegui ter água fria na torneira. Os dias aqui continuam quentes e estando eu a precisar de passar água fresca pela cara fui até ao lavatório mas a torneira mesmo virada para o lado azul vertia água quente demais para ser considerada só morna. O eterno problema das canalizações por fora das paredes, o sol aquece os tubos e por sua vez a água. Caiu a noite e os foguetes diminuíram em relação ao dia anterior, prevê-se por isso uma noite bem mais calma, a contrastar com dia previsto para amanhã. Olho-me uma última vez ao espelho, sinto que estou a ficar mais escuro, nem tenho apanhado muito sol, talvez sejam só côdeas. Passo a mão na barba que já nem arranha, está grande demais, amanhã corto, hoje é hora de ir dormir.


13.11.12

Diario da India III - Dia 10

 
Véspera do festival das luzes, para mim um dia normal, para a maioria dos indianos um dia especial, só trabalham meio-dia, a partir das 13 horas ninguém trabalha por cá, quanto a mim, sou o branco cá do sítio, trabalho até às 18h30 e já saio mais cedo. A fábrica ficou deserta de pessoas e povoada de luzes e velas por todo o lado. Não há pó de cimento, não há camiões que buzinam e se desfazem a cada lomba, não há camionistas a cuspirem tabaco mascado. Existe apenas paz e sossego. Cai a noite e a “guest house Ajit Bhawan” onde pernoito, almoço e janto, transforma o seu hall, escadaria e entrada num autêntico caminho de velas, onde apenas o cheiro se torna demasiado. Faz-me sentir calmo, começo a gostar do Diwali. A única parte que retirava a esta festa é o liberalismo em relação à pirotecnia, nesta noite toda a gente lança foguetes sem rei nem roque, para onde estão virados, não se importando com os outros nem se importando com eles próprios. Das duas uma, ou nestes dias há montes de feridos e com gravidade, ou são todos inocentes, porque a sorte protege os inocentes. Tive medo, tive muito medo… regressei por isso a casa, amanhã para eles é feriado, mas para mim não, eu estou de volta à luta! Feliz Diwali a todos!

12.11.12

Diario da India III - Dia 9



A palavra trânsito faz sempre muito sentido aqui na India. O trânsito por estas bandas é algo de impossível, tem poucas regras, muitos conhecem-nas, mas todos as ignoram. E no que trata a engarrafamentos é algo único. Nos últimos dias tenho sentido a mesma sensação de quando estamos presos no trânsito e vamos a caminho da estação de comboio. Aqueles nervos, aquela raiva, aquela vontade de ter asas, os suores, os murmúrios… Mas finalmente hoje foi o dia em que esse trânsito começou a fluir melhor, aproximamo-nos alguns passos mais da estação, mas continuamos longe e receio não chegar a tempo de entrar no comboio. Cai-me no estômago como uma bola, difícil de digerir como o cimento. Uma leve brisa de calma soprou e deixou-me apreciar as luzes do Diwali. Luzes iguais às de Natal, mas não havendo aqui Natal, há Diwali (ou festival das luzes) alguns foguetes e muita ansiedade para que chegue o dia de amanhã entre os locais, a véspera do Diwali, já eu só anseio o amanhã por saber que falta menos um dia para te abraçar e te mimar.