É
bem cedo que se toma hoje o pequeno-almoço. Dizem-nos que temos 5 horas de
viagem pela frente, e se queremos chegar ao destino pela hora de almoço,
devemos então partir bem cedo. Estamos prontos e falta apenas o motorista e o
carro. Aguardámos. Aí vem um carro… não, não é este. Aguardamos mais um pouco,
sento-me na mala com todos os meus pertences e pouso a mochila que me pesa nas
costas. Sinto o nervoso miudinho querer aproximar-se, as perguntas sem
respostas que sempre me martelam a cabeça vão e voltam. Que terá acontecido?
Terão voltado atrás na intenção de nos deixar ir? Ficaremos cá mais tempo? Não
me consigo distrair, mas eis que entretanto chega o motorista de sempre e o
Jipe de sempre para nos levar a Chunar. No pouco inglês que se consegue perceber,
explica-nos que só hoje de manhã lhe disseram que teria de ir a Chunar, mas ao
que consigo constatar, e que mais tarde confirmei, ele sente-se feliz por fazer
esta viagem e faz questão de dizer isso mesmo a toda a gente que encontra. Lá
partimos, apesar de atrasados temos de regressar ao escritório 5 min depois da
saída. Ao telemóvel dizem-nos que nos faltam uns papéis. Mas que papéis! La
vamos buscar os ditos papéis e retomámos o caminho para casa de um indiano hipocondríaco
que nos acompanhará na viagem. Com toda a sua calma e todo o tempo do mundo
convida-nos a entrar em sua casa. Uma casa, para mim, como tantas outras, com
entrada direta para a sala de jantar, ao fundo uma porta para a minúscula
cozinha, à esquerda uma porta para um quarto, o dos miúdos, e à direita o
quarto do casal. De salientar que todas as divisões são separadas por uma
simples cortina. O chão é em cimento, coberto a espaços por carpetes, no teto
uma lâmpada ilumina toda a sala, as paredes são onduladas e amareladas, e o
exterior é quase todo ele em tijolo, daquele tijolo que só se encontra por cá.
Na rua estão as vacas que por aqui se passeiam e fazem da rua como sendo sua,
um vizinho traz comida para esta pequena cinzenta que aparenta ser mãe daquela
que come de outro prato mais lá à frente. Do outro lado da estrada fica uma
escola, e cá de fora consigo ouvir o coro de vozes das crianças, não as consigo
ver e ainda bem, pois o rego de esgoto e lixo a céu aberto que fica entre a
estrada e a parede da escola ia-me fazer sentir ainda pena daqueles pobres
inocentes. Assim consigo imaginá-los imunes e protegidos destes mosquitos que
transportam todo o tipo de doenças que caibam dentro deles. Partimos então por
uma estrada que nunca vi, é a estrada em sentido oposto ao aeroporto de Kajuraho.
Tentei de inicio captar tudo o que visualizava para poder reproduzir por
palavras, mas a verdade é que ao fim de poucos quilómetros me consegui
aperceber que seria tudo igual. As vacas presas nas árvores, os discos de uma
espécie de lama e palha que secam ao sol e que não me atrevo a perguntar o que
são, a miséria, as caras de fome, a pobreza, as lojas ambulantes, a fruta à
venda sem condições nenhumas, os garagens de reparação de bicicletas, as
buzinadelas de quem passa, o mesmo cheiro, o mesmo pó e os mesmos camiões.
Faz-me confusão como são os indianos capazes de caberem em espaços tão
minúsculos e ao mesmo tempo terem a força e a destreza de algo que parece
impossível. Dentro de um carro, em tudo semelhante àqueles de caixa aberta que
não necessitam de carta e que levam normalmente o condutor e um passageiro,
cabem aqui 7 pessoas, que eu conseguisse contar. Mais à frente um sujeito de
bicicleta, montado na bicicleta, transporta 6 botijas de gás. Uma em cada punho
do guiador, mais duas de cada lado na parte de trás junto ao selim. Acredito
que as botijas estivessem vazias, mas mesmo assim é, para mim, um feito que
merece referência. Acabo por cair no sono. Não um sono muito pesado porque o
indiano hipocondríaco tem uma voz muito aguda e que me provoca uma espécie de
ruído nos ouvidos, e porque os buracos e lombas da estrada (que me fizeram por
mais que uma vez bater com a cabeça no tejadilho do jipe) também não me deixam
sossegado. Após a pausa para esticar as pernas, numa berma da estrada onde se
cozinha ao ar livre e onde existem umas camas de vime ou arame para quem se
quiser deitar, voltámos à estrada. Desta feita vou no banco da frente, o
indiano foi lá para trás contar a história cronológica dos Deuses Hindus.
Confesso que sentar-me no banco da frente esquerdo do jipe, sem pedais e sem
volante me faz confusão, mas continuemos. O motorista avisa que esta estrada é
a boa, a próxima será pior ainda, pergunto-me como mas rapidamente percebo que
é por isso uma boa altura para dormir. Mais buraco, menos lomba, lá fui
fechando os olhos a espaços e de uma das vezes que os abri encontrei-me no meio
da selva. Sinto-me no cimo de uma montanha. Vejo à frente um enorme vale, onde
fica então Chunar. Descemos uma estrada que se serpenteia formando “esses”
quase impossíveis de atravessar por certos camiões, a verdade é eles
atravessam, não têm outra estrada, mas também é verdade que avariam. Não é um
bom sítio para avariarem os camiões ou haver um acidente, se é que há bons
sítios para isso. Aqui, onde não há rede de telemóvel, onde se veem marcas de
derrocadas não muito antigas, é talvez o pior sítio para se ficar parado. Isto
para não falar nos assaltos e nos ataques feitos durante a noite por quem mora
aqui misturado com os macacos. Realmente esta estrada é pior que a última. Mais
uns solavancos, mais umas curvas e mais uns buracos, lá acabamos de descer a
montanha e chegámos, hora e meia depois, à fábrica de Chunar. Nada de diferente
de Rewa ou de Baga à primeira vista. Os mesmos uniformes, os mesmos portões, as
mesmas lombas, a mesma sinalização e os mesmo nomes. Chegados à Guest House,
somos recebidos com um carinho a que já não estava habituado, confesso. Sinto
que existe aqui um ambiente mais calmo, descontraído, um maior sossego, coisa
que já não sentia há vários dias. São cerca das 14 horas, já passa um pouco da
hora de almoço e a fome é tanta. Um tenente coronel reformado, recebe-nos à
porta e senta-se para almoçar connosco à mesa. O bigode farfalhudo branco e
curvado para cima nas pontas, os óculos redondos e o cabelo grande fazem dele
uma pessoa que transmite boa disposição. Apesar da fome apertar, ninguém avisou
o cozinheiro que nós não comíamos nada picante. Temos de comer à força toda
comida indiana. Eu fiquei-me pelo arroz branco, cozido e sem sal, sem sabor
nenhum, o famoso “roti” também chamado de “chapati” e uns feijões extremamente
picantes que só comi porque tinha mesmo muita fome. Pedimos que para o jantar
nos preparassem massa, sem qualquer tipo de picantes. O senhor do bigode
explicou isso ao empregado em hindi. Comemos a sobremesa em seguida, pela
primeira vez na India saboreio uma laranja, que saudades eu tinha de uma
laranja, tomamos café e assim que pedimos licença para nos levantarmos da mesa
informam-nos que a massa demora apenas 1 minuto a ser servida… quem é que não
percebeu que era só para o jantar? Não consigo comer massa. Desculpem, mas não
consigo mesmo… Meia hora de descanso para nos restabelecermos da viagem
atribulada e é tempo de conhecer a nova fábrica, as novas gentes, o novo mundo,
o novo projeto. Apresentado a um Indiano com uma cicatriz enorme na parte de
trás do crânio que se prolonga até ao inicio da espinha dorsal, espero pelo
jipe que me levará até ao escritório que servirá de quartel. Percebo que a
distância nem é assim tanta, cerca de 500 metros, em terreno plano e a direito
que se podem muito bem fazer a pé. Mais um indiano, outro e outro e mais um
ainda. Gente muito nova com nomes muito diferentes dos que eu utilizo
normalmente e que me dificultam a sua memorização. Na verdade é impossível
decorar os nomes deles sem que estejam associados a alguma mnemónica. Após os
cumprimentos da praxe, lá voltamos ao terreno. Percebo que a organização aqui é
bem maior, mais exigente e mais apertada. Percebo também que o trabalho deles
está extremamente atrasado, queixam-se eles da falta de conhecimento das
tarefas que deviam executar e queixo-me eu da minha falta de sorte. Ainda assim
transmitem-me alguma confiança, uma confiança que nos últimos tempos eu não
conseguia encontrar, uma vontade de triunfar, de conseguir acabar. Sinto uma
lufada de ar fresco, ganho ânimo e sinto-me capaz de coordenar os trabalhos em
parte não desiludindo quem confiou em mim. Levo essa confiança para a mesa do
jantar onde a comida já não é picante mas a água também não é engarrafada, onde
me sinto tratado com uma ponta de carinho e onde provo uma espécie de pão como
o que como em casa. Regresso ao quarto, onde não tenho internet, e apercebo-me
que no meio destas aventuras todas os meus telemóveis estão sem rede. Estou
incontactável. De cada vez que perco o sinal de rede nos telemóveis, tenho de
selecionar a nova rede manualmente, não o fiz depois de descer o monte onde não
existia rede, percebo que nenhuma das mensagens que enviei para casa a dizer
que tinha chegado bem ao destino foi entregue. Entro em pânico e apresso-me a
resolver o problema. Toca o telemóvel finalmente e sinto um aperto enorme no
peito. Do outro lado soluçava-me uma voz que temeu que tivesse corrido alguma
coisa mal. Enchem-se os olhos de lágrimas, aperta-se o peito, doí a alma e
desejo vir embora a todo o custo novamente. Perdi momentaneamente a boa
disposição que tinha ganho. Apetece-me desistir e “teletransportar-me” para os
braços quentes e aconchegadores da dona da voz. Não o consigo fazer, vou dormir
com o remorso, com a dor e com a frustração. Dói porque te amo.
22.11.12
21.11.12
Diario da India III - Dia 18
Há
dias que parece não terem saído do início. Era suposto, e estava tudo combinado
para tal, hoje partirmos rumo a Chunar, a segunda parte da minha vinda cá.
Contudo as reuniões que deveriam ter ficado pelas primeiras horas da manhã
vão-se arrastando e arrastando. Não vesti roupa de trabalho, não calcei as
sapatilhas carregadas de cimento em pó, não me preparei para inalar pó todo o
dia e não contava com este nervoso miudinho que se alastrou durante todo o dia,
e que cada vez deixou mais de ser miudinho. Ora porque não nos querem deixar
ir, porque nos querem cá, porque fazemos falta cá, porque precisamos de mais
uma reunião mais logo, porque essa reunião tem de ser adiada e porque no final
é tarde demais para se viajar 5 horas por estradas sem condições, cheias de
buracos, cheias de curvas apertadas, cheias de perigos. Fica-se então cá mais
um dia na promessa de sairmos amanhã bem cedo, na tentativa de chegar a Chunar
pela hora de almoço. Tenho o estômago com um nó bem grande, muita pressão,
muito nervosismo, muita contrariedade, e uma cabeça que já nem pensar consegue.
Aliado a isto a pressão de que temos de abandonar os quartos onde estamos.
Acredito portanto que este será o meu último dia em Rewa. Amanhã é dia de
viagem. Alegra-me saber que falta menos um dia para voltar para casa!
20.11.12
Diário da India III - Dia 17
Tenho
finalmente a certeza que está por um fio a minha estada em Rewa. É apenas uma
ponta de cabelo e uma viagem de meio dia que me separa de Chunar, o que na
minha perspetiva me parece um oásis. Com este desejo em mente, enfrento mais um
dia poeirento com novo ânimo e nova vontade de vencer. Vou buscar forças onde
julgava que elas estivessem a faltar e consigo, contra algumas previsões
colocar uma linha a funcionar, a grosso modo, sem afinações, mas a olho nu
parece-me que vai resultar, parece-me que afinal isto vai mesmo contar sacos de
cimento. A este sentimento de triunfo junta-se a notícia de que amanhã durante
a manhã partimos para Chunar. Mal posso esperar, é hora de fazer as malas.
Chega entretanto a nostalgia e o desejo de estar a fazer as malas para
regressar a Portugal. Limpa-se a lágrima marota, não se pensa no futuro e
vive-se apenas o presente, e o presente é dormir, é descansar.
19.11.12
Diario da India III - Dia 16
Parece
cada vez mais real a possibilidade de ir para Chunar mais cedo. Em segredo
sinto-a como uma lufada de ar fresco. Ir para outro sítio, começar tudo de
novo, esquecer o que fica para trás, tudo isto me faz desejar realmente a
partida. Arrasto-me cada vez mais por estas bandas. Não vejo as coisas seguirem
em frente, não me vejo livre das algemas nem do ar sisudo com que vivo por aqui
todos os dias. Estou farto de gritar surdamente, e farto de ter os nervos à
flor da pele. Quero ir embora daqui, mesmo que seja para umas escassas centenas
de quilómetros daqui, mas quero ir, e quero que seja já amanhã. Aqui já nada
tem piada, já nada se mostra bonito e surpreendente. Aqui já não há nada para
mim. Deixem-me ir…
18.11.12
Diario da India III - Dia 15
As
condições meteorológicas conseguem, por vezes, moldar-nos o estado de espirito
e as vontades. Associámos facilmente a chuva à tristeza, ao desleixo, à falta
de vontade e o sol à alegria, à energia, à vitalidade. Este sol a mim não me
molda. É um sol estranho, um sol que não é meu, um sol que daqui parece
demasiado amarelo, um sol encoberto por uma poeira que não é nevoeiro, é
demasiado sujo para ser nevoeiro. É sol que não me queima mas faz-me suar, não
me torna moreno mas incomoda-me, não me transmite energia mas arde-me e
arranha-me como o cimento que se esfrega na pele. Por aqui não chove, a
temperatura é sempre igual, mas faz-me falta a chuva, faz-me falta um passeio
com a água a regar-me todo o corpo e a encharcar-me a alma. Faz-me falta a água
que brota dos olhos do céu para que parem de brotar lágrimas os meus…
17.11.12
Diario da India III - Dia 14
As
diferenças na língua criam-nos barreiras muito difíceis de transpor. Não há uma
palavra ou um som em português ou inglês que se consiga assemelhar ao Hindi.
Até mesmo os gestos que no nosso quotidiano são banais e fazemos
instintivamente, para um indiano são autênticos quebra-cabeças. O mesmo digo eu
quando eles acenam a cabeça sem que eu perceba se dizem sim ou se dizem não. É
frustrante querer pedir algo, fazer uma pergunta, e não obter nada do outro
lado, nem conseguir mostrar outra forma para que o entendam. Existem no entanto
indianos que por terem acesso a outros meios, como televisão e internet, estão
mais familiarizados com os gestos ocidentais, porém, todos esses entendem e se
expressam minimamente em inglês, o problema maior é que não é com esses que eu
lido diariamente, eu lido com os indianos que nunca foram à escola, que não
sabem ler, não sabem escrever e que no fundo até são simpáticos e prestáveis,
querendo sempre ajudar. Esta grande barreira que impede a comunicação criou-me
hoje um grande problema. Precisava pedir um cartão de forma circular aos
camionistas a fim de testar o sistema, porém não tinha tradutor comigo, e o
único que me disse que falava inglês, não percebia o que dizia (não se que
inglês falava ele!). Restava-me por gestos tentar fazer-me entender. Como é
fácil de imaginar não me saí muito bem. Qual é o gesto mais simples para
indicar um objeto redondo em forma de disco? Unir as pontas dos dedos indicador
e polegar tentando criar um círculo. Para meu espanto o primeiro camionista até
fez um ar de quem percebeu, senti-me feliz… por meio segundo, pois o que ele
tirou do tablier foi uma chave de fenda… Bolas! Tentei pedir novamente mas fui
ignorado, e como o homem já se estava a sentir pressionado decidi tentar outro
motorista. Voltei a fazer o mesmo sinal, uma, duas, três vezes e nada. Ele
dizia-me algo que eu nem fazia ideia do que era, mas mostrava-se atento e
desejoso de me ajudar. Continuei a insistir mudando o gesto, agora tentei criar
um círculo com os dois dedos indicadores e os dois polegares. Ele fez uma cara
de esclarecido e fez-me também um gesto. Uniu os dedos polegares e indicadores
de uma mão e introduziu o dedo indicador da outra mão no círculo. Não, não era
sexo que eu queria caramba. Soltei uma gargalhada, pedi-lhe que saísse do
camião e lembrei-me que nos posto que montei tinha um símbolo do que eu
precisava, ele amavelmente foi ao bolso e acertou no objeto que eu procurava.
Estava difícil…
16.11.12
Diario da India III - Dia 13
Finalmente
parece que a máquina que antes estava encravada começa a querer movimentar-se.
Vejo o meu regresso aproximar-se apesar de ainda estar longe. Prefiro nem
pensar que ainda tenho outra fábrica para visitar antes de ir embora. Sinto-me
mais calmo se viver dia-a-dia e for traçando objetivos curtos com o único
propósito de os ver realizados e ganhar ânimo para continuar. Hoje é como se me
tivessem dado uma injeção de força, talvez tenha sido a raiva, certo é que vi
as coisas mexer, andar para frente. Fiquei satisfeito e até já tive mais
paciência para falar e ouvir os outros. Mais um dia que passou, menos um dia
para voltar a casa, 13º dia por estas paragens esquecidas, um dia de sorte, ou
a sorte de um dia ter corrido melhor.
15.11.12
Diario da India III - Dia 12
Acordei
com o corpo menos dorido que os últimos dias, mas a mente, essa continua a
penar e a pedir alívio. Não lhe encontro salvação e o trabalho é a única coisa
que me distrai. Ainda assim não é uma distração que me sossegue. Irrito-me cada
vez com maior facilidade, sinto os nervos à flor da pele, apetece-me explodir a
torto e a direito mas ao mesmo tempo controlo-me e deixo que os nervos apenas
me corroam o estômago cada vez mais fraco. Há dias em que parece que por muito
esforço que faça nada é reconhecido e nada vale realmente a pena. Continuo a
socorrer-me da máscara para disfarçar expressões, para abafar gritos que já nem
sei se são de terror ou de frustração pois desta vez aconteceu algo que não
previa, algo que não me achava capaz, um ponto de saturação que julgava
infinito. Perdi por momentos o controlo de tudo o que me pertence, senti-me
derrotado, senti-me despojado de forças, dobrei os joelhos e deixei que o corpo
pendesse para trás até me sentar. Dobrei a cabeça para baixo, pousei o capacete
na minha frente, tapei a cara com as mão sujas do cimento e chorei… Chorei
porque queria desistir, porque não me sentia capaz, chorei porque nada mais
conseguia fazer, chorei porque precisei de o fazer. Chorei porque não encontrei
maneira de voltar para a minha terra, para a minha casa, para a minha família.
Não resolvi nada com isto, mas soube-me bem. Não, ainda não cortei a barba, não
estou com disposição.
14.11.12
Diario da India III - Dia 11
Sinto
falta das notícias em Portugal, por estes dias tem sido lá um sem fim de
manifestações contra a austeridade, passeou-se por lá a chanceler alemã, Angela
Merkle, e joga hoje a selecção portuguesa de futebol contra o Gabão, sem o
carismático Cristiano Ronaldo, mas com 7 jogadores do meu Sporting de Braga
convocados! Que orgulho, e que pena não os poder ver em acção. É também hoje
dia de greve geral. Por cá não fiz greve, mas foi parecido, hoje é o feriado do
Diwali, ninguém trabalha, a fábrica está deserta, as máquinas que não podem ser
paradas soam a silêncio e às 7 horas da manhã ainda está tudo a dormir. Reina a
paz, a calma e o sossego. Despachei o que era possível pela manhã, pequenas
coisas agarradas ao dia anterior, e tirei a tarde para descansar e recuperar
energias na esperança de voltar com mais vontade e determinação ainda em acabar
de vez com todas as tarefas. A ideia parecia excelente, mas revelou-se entediante,
e fiz uma serie de coisas inúteis, entre elas dormir e organizar as fotos e
músicas do telemóvel e do disco externo. A meio da tarde senti a mesma
dificuldade que há dois anos num quarto na outra ponta deste corredor, não
consegui ter água fria na torneira. Os dias aqui continuam quentes e estando eu
a precisar de passar água fresca pela cara fui até ao lavatório mas a torneira
mesmo virada para o lado azul vertia água quente demais para ser considerada só
morna. O eterno problema das canalizações por fora das paredes, o sol aquece os
tubos e por sua vez a água. Caiu a noite e os foguetes diminuíram em relação ao
dia anterior, prevê-se por isso uma noite bem mais calma, a contrastar com dia
previsto para amanhã. Olho-me uma última vez ao espelho, sinto que estou a
ficar mais escuro, nem tenho apanhado muito sol, talvez sejam só côdeas. Passo
a mão na barba que já nem arranha, está grande demais, amanhã corto, hoje é
hora de ir dormir.
13.11.12
Diario da India III - Dia 10
Véspera
do festival das luzes, para mim um dia normal, para a maioria dos indianos um
dia especial, só trabalham meio-dia, a partir das 13 horas ninguém trabalha por
cá, quanto a mim, sou o branco cá do sítio, trabalho até às 18h30 e já saio
mais cedo. A fábrica ficou deserta de pessoas e povoada de luzes e velas por
todo o lado. Não há pó de cimento, não há camiões que buzinam e se desfazem a
cada lomba, não há camionistas a cuspirem tabaco mascado. Existe apenas paz e
sossego. Cai a noite e a “guest house Ajit Bhawan” onde pernoito, almoço e
janto, transforma o seu hall, escadaria e entrada num autêntico caminho de
velas, onde apenas o cheiro se torna demasiado. Faz-me sentir calmo, começo a
gostar do Diwali. A única parte que retirava a esta festa é o liberalismo em
relação à pirotecnia, nesta noite toda a gente lança foguetes sem rei nem
roque, para onde estão virados, não se importando com os outros nem se
importando com eles próprios. Das duas uma, ou nestes dias há montes de feridos
e com gravidade, ou são todos inocentes, porque a sorte protege os inocentes.
Tive medo, tive muito medo… regressei por isso a casa, amanhã para eles é
feriado, mas para mim não, eu estou de volta à luta! Feliz Diwali a todos!
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