23.11.12

Diario da India III - Dia 20


O sol quando nasce é para todos, hoje é dia de voltar ao sol que na verdade já sabe a inverno. Não ao nosso inverno, o inverno português, por aqui o sol queima menos, mas continua a fazer suar, nasce muito cedo e esconde-se por volta das 18 horas, reduz-me o tempo útil de trabalho, pois assim que ele se deita a luz artificial deixa de ser suficiente para iluminar o trabalho e a “mosquitagem”, que tem vindo a diminuir, invade-me o campo de visão. Faço apenas mais um esforço para pensar que hoje será um dia novo, uma nova realidade, um novo começo, cheio de força e de vontade, rumo à saída do túnel onde me esperam os braços mais aconchegadores do Mundo. A realidade em Chunar parece-me bem diferente, e apesar do pequeno-almoço em tudo igual aos outros, sinto-me mais aconchegado e sinto um tratamento mais simples apesar da grande dificuldade em se expressarem em inglês por aqui. À saída pedem-me para fazer um registo por ocupar o quarto. O empregado tenta dizer o meu nome e a verdade é que não fica muito longe da pronúncia, apenas a parte do Xavier soa estranha, mas mais à frente conto o porquê. Aqui não temos motorista, por isso, o caminho entre a casa onde dormimos e o escritório é feita a pé, na verdade são só 500 metros, não custa nada. A manhã parece arrastar-se, não há cá ninguém que trabalhe e volto a sentir aquela dor junto ao estômago e aquela revolta por não poder fazer o quero e o quero é mesmo começar a trabalhar para acabar o mais rápido possível. As horas passam, os minutos arrastam-se a espera termina algumas após o inicio, pouco tempo sobra até ao almoço, faz-se o que se pode. Volta-se a caminhar para o almoço, desta vez comida sem picantes, e ainda um fantástico pedaço de pão imaginem só. Um pão muito parecido com a configuração de um molete de São José, com a mesma capa e mesma textura, mas sem o sabor adocicado, sabia apenas a pão, nada mais, que bem me soube. Ao entrar no quarto reparo no porquê da estranha pronuncia, tenho o meu nome escrito na porta e é algo parecido com “Rvi Xravier” e quem o pronuncia em vez de ler “xis” no início de Xavier lê “Exz”. A tarde rendeu mais, as pessoas aqui parecem mais empenhadas, mais capazes, mais trabalhadoras. A falta de motorista levou-me a experimentar algo que se revelou uma boa injecção de adrenalina. Apanhei boleia de uma mota! Não andava de mota à cerca de 10 anos, e andar de mota a fintar camiões, carros, bicicletas e pessoas é uma experiência fenomenal, sobretudo se for feita na India e a 30 km/h. Hoje começo a reparar bem no meu quarto. Em vez de uma cama gigante reparo que afinal tenho duas pequenas camas juntas, não me importo porque só utilizo uma delas, tenho ainda uns chinelos que não são meus, uma dúzia de capas de arquivo num armário, umas botas numa gaveta e uma mala de viagem por cima do guarda-fatos, conclusão, este quarto pertence a alguém, espero que não volte enquanto cá estiver eu.

22.11.12

Diario da India III - Dia 19


É bem cedo que se toma hoje o pequeno-almoço. Dizem-nos que temos 5 horas de viagem pela frente, e se queremos chegar ao destino pela hora de almoço, devemos então partir bem cedo. Estamos prontos e falta apenas o motorista e o carro. Aguardámos. Aí vem um carro… não, não é este. Aguardamos mais um pouco, sento-me na mala com todos os meus pertences e pouso a mochila que me pesa nas costas. Sinto o nervoso miudinho querer aproximar-se, as perguntas sem respostas que sempre me martelam a cabeça vão e voltam. Que terá acontecido? Terão voltado atrás na intenção de nos deixar ir? Ficaremos cá mais tempo? Não me consigo distrair, mas eis que entretanto chega o motorista de sempre e o Jipe de sempre para nos levar a Chunar. No pouco inglês que se consegue perceber, explica-nos que só hoje de manhã lhe disseram que teria de ir a Chunar, mas ao que consigo constatar, e que mais tarde confirmei, ele sente-se feliz por fazer esta viagem e faz questão de dizer isso mesmo a toda a gente que encontra. Lá partimos, apesar de atrasados temos de regressar ao escritório 5 min depois da saída. Ao telemóvel dizem-nos que nos faltam uns papéis. Mas que papéis! La vamos buscar os ditos papéis e retomámos o caminho para casa de um indiano hipocondríaco que nos acompanhará na viagem. Com toda a sua calma e todo o tempo do mundo convida-nos a entrar em sua casa. Uma casa, para mim, como tantas outras, com entrada direta para a sala de jantar, ao fundo uma porta para a minúscula cozinha, à esquerda uma porta para um quarto, o dos miúdos, e à direita o quarto do casal. De salientar que todas as divisões são separadas por uma simples cortina. O chão é em cimento, coberto a espaços por carpetes, no teto uma lâmpada ilumina toda a sala, as paredes são onduladas e amareladas, e o exterior é quase todo ele em tijolo, daquele tijolo que só se encontra por cá. Na rua estão as vacas que por aqui se passeiam e fazem da rua como sendo sua, um vizinho traz comida para esta pequena cinzenta que aparenta ser mãe daquela que come de outro prato mais lá à frente. Do outro lado da estrada fica uma escola, e cá de fora consigo ouvir o coro de vozes das crianças, não as consigo ver e ainda bem, pois o rego de esgoto e lixo a céu aberto que fica entre a estrada e a parede da escola ia-me fazer sentir ainda pena daqueles pobres inocentes. Assim consigo imaginá-los imunes e protegidos destes mosquitos que transportam todo o tipo de doenças que caibam dentro deles. Partimos então por uma estrada que nunca vi, é a estrada em sentido oposto ao aeroporto de Kajuraho. Tentei de inicio captar tudo o que visualizava para poder reproduzir por palavras, mas a verdade é que ao fim de poucos quilómetros me consegui aperceber que seria tudo igual. As vacas presas nas árvores, os discos de uma espécie de lama e palha que secam ao sol e que não me atrevo a perguntar o que são, a miséria, as caras de fome, a pobreza, as lojas ambulantes, a fruta à venda sem condições nenhumas, os garagens de reparação de bicicletas, as buzinadelas de quem passa, o mesmo cheiro, o mesmo pó e os mesmos camiões. Faz-me confusão como são os indianos capazes de caberem em espaços tão minúsculos e ao mesmo tempo terem a força e a destreza de algo que parece impossível. Dentro de um carro, em tudo semelhante àqueles de caixa aberta que não necessitam de carta e que levam normalmente o condutor e um passageiro, cabem aqui 7 pessoas, que eu conseguisse contar. Mais à frente um sujeito de bicicleta, montado na bicicleta, transporta 6 botijas de gás. Uma em cada punho do guiador, mais duas de cada lado na parte de trás junto ao selim. Acredito que as botijas estivessem vazias, mas mesmo assim é, para mim, um feito que merece referência. Acabo por cair no sono. Não um sono muito pesado porque o indiano hipocondríaco tem uma voz muito aguda e que me provoca uma espécie de ruído nos ouvidos, e porque os buracos e lombas da estrada (que me fizeram por mais que uma vez bater com a cabeça no tejadilho do jipe) também não me deixam sossegado. Após a pausa para esticar as pernas, numa berma da estrada onde se cozinha ao ar livre e onde existem umas camas de vime ou arame para quem se quiser deitar, voltámos à estrada. Desta feita vou no banco da frente, o indiano foi lá para trás contar a história cronológica dos Deuses Hindus. Confesso que sentar-me no banco da frente esquerdo do jipe, sem pedais e sem volante me faz confusão, mas continuemos. O motorista avisa que esta estrada é a boa, a próxima será pior ainda, pergunto-me como mas rapidamente percebo que é por isso uma boa altura para dormir. Mais buraco, menos lomba, lá fui fechando os olhos a espaços e de uma das vezes que os abri encontrei-me no meio da selva. Sinto-me no cimo de uma montanha. Vejo à frente um enorme vale, onde fica então Chunar. Descemos uma estrada que se serpenteia formando “esses” quase impossíveis de atravessar por certos camiões, a verdade é eles atravessam, não têm outra estrada, mas também é verdade que avariam. Não é um bom sítio para avariarem os camiões ou haver um acidente, se é que há bons sítios para isso. Aqui, onde não há rede de telemóvel, onde se veem marcas de derrocadas não muito antigas, é talvez o pior sítio para se ficar parado. Isto para não falar nos assaltos e nos ataques feitos durante a noite por quem mora aqui misturado com os macacos. Realmente esta estrada é pior que a última. Mais uns solavancos, mais umas curvas e mais uns buracos, lá acabamos de descer a montanha e chegámos, hora e meia depois, à fábrica de Chunar. Nada de diferente de Rewa ou de Baga à primeira vista. Os mesmos uniformes, os mesmos portões, as mesmas lombas, a mesma sinalização e os mesmo nomes. Chegados à Guest House, somos recebidos com um carinho a que já não estava habituado, confesso. Sinto que existe aqui um ambiente mais calmo, descontraído, um maior sossego, coisa que já não sentia há vários dias. São cerca das 14 horas, já passa um pouco da hora de almoço e a fome é tanta. Um tenente coronel reformado, recebe-nos à porta e senta-se para almoçar connosco à mesa. O bigode farfalhudo branco e curvado para cima nas pontas, os óculos redondos e o cabelo grande fazem dele uma pessoa que transmite boa disposição. Apesar da fome apertar, ninguém avisou o cozinheiro que nós não comíamos nada picante. Temos de comer à força toda comida indiana. Eu fiquei-me pelo arroz branco, cozido e sem sal, sem sabor nenhum, o famoso “roti” também chamado de “chapati” e uns feijões extremamente picantes que só comi porque tinha mesmo muita fome. Pedimos que para o jantar nos preparassem massa, sem qualquer tipo de picantes. O senhor do bigode explicou isso ao empregado em hindi. Comemos a sobremesa em seguida, pela primeira vez na India saboreio uma laranja, que saudades eu tinha de uma laranja, tomamos café e assim que pedimos licença para nos levantarmos da mesa informam-nos que a massa demora apenas 1 minuto a ser servida… quem é que não percebeu que era só para o jantar? Não consigo comer massa. Desculpem, mas não consigo mesmo… Meia hora de descanso para nos restabelecermos da viagem atribulada e é tempo de conhecer a nova fábrica, as novas gentes, o novo mundo, o novo projeto. Apresentado a um Indiano com uma cicatriz enorme na parte de trás do crânio que se prolonga até ao inicio da espinha dorsal, espero pelo jipe que me levará até ao escritório que servirá de quartel. Percebo que a distância nem é assim tanta, cerca de 500 metros, em terreno plano e a direito que se podem muito bem fazer a pé. Mais um indiano, outro e outro e mais um ainda. Gente muito nova com nomes muito diferentes dos que eu utilizo normalmente e que me dificultam a sua memorização. Na verdade é impossível decorar os nomes deles sem que estejam associados a alguma mnemónica. Após os cumprimentos da praxe, lá voltamos ao terreno. Percebo que a organização aqui é bem maior, mais exigente e mais apertada. Percebo também que o trabalho deles está extremamente atrasado, queixam-se eles da falta de conhecimento das tarefas que deviam executar e queixo-me eu da minha falta de sorte. Ainda assim transmitem-me alguma confiança, uma confiança que nos últimos tempos eu não conseguia encontrar, uma vontade de triunfar, de conseguir acabar. Sinto uma lufada de ar fresco, ganho ânimo e sinto-me capaz de coordenar os trabalhos em parte não desiludindo quem confiou em mim. Levo essa confiança para a mesa do jantar onde a comida já não é picante mas a água também não é engarrafada, onde me sinto tratado com uma ponta de carinho e onde provo uma espécie de pão como o que como em casa. Regresso ao quarto, onde não tenho internet, e apercebo-me que no meio destas aventuras todas os meus telemóveis estão sem rede. Estou incontactável. De cada vez que perco o sinal de rede nos telemóveis, tenho de selecionar a nova rede manualmente, não o fiz depois de descer o monte onde não existia rede, percebo que nenhuma das mensagens que enviei para casa a dizer que tinha chegado bem ao destino foi entregue. Entro em pânico e apresso-me a resolver o problema. Toca o telemóvel finalmente e sinto um aperto enorme no peito. Do outro lado soluçava-me uma voz que temeu que tivesse corrido alguma coisa mal. Enchem-se os olhos de lágrimas, aperta-se o peito, doí a alma e desejo vir embora a todo o custo novamente. Perdi momentaneamente a boa disposição que tinha ganho. Apetece-me desistir e “teletransportar-me” para os braços quentes e aconchegadores da dona da voz. Não o consigo fazer, vou dormir com o remorso, com a dor e com a frustração. Dói porque te amo.

21.11.12

Diario da India III - Dia 18


Há dias que parece não terem saído do início. Era suposto, e estava tudo combinado para tal, hoje partirmos rumo a Chunar, a segunda parte da minha vinda cá. Contudo as reuniões que deveriam ter ficado pelas primeiras horas da manhã vão-se arrastando e arrastando. Não vesti roupa de trabalho, não calcei as sapatilhas carregadas de cimento em pó, não me preparei para inalar pó todo o dia e não contava com este nervoso miudinho que se alastrou durante todo o dia, e que cada vez deixou mais de ser miudinho. Ora porque não nos querem deixar ir, porque nos querem cá, porque fazemos falta cá, porque precisamos de mais uma reunião mais logo, porque essa reunião tem de ser adiada e porque no final é tarde demais para se viajar 5 horas por estradas sem condições, cheias de buracos, cheias de curvas apertadas, cheias de perigos. Fica-se então cá mais um dia na promessa de sairmos amanhã bem cedo, na tentativa de chegar a Chunar pela hora de almoço. Tenho o estômago com um nó bem grande, muita pressão, muito nervosismo, muita contrariedade, e uma cabeça que já nem pensar consegue. Aliado a isto a pressão de que temos de abandonar os quartos onde estamos. Acredito portanto que este será o meu último dia em Rewa. Amanhã é dia de viagem. Alegra-me saber que falta menos um dia para voltar para casa!

20.11.12

Diário da India III - Dia 17


Tenho finalmente a certeza que está por um fio a minha estada em Rewa. É apenas uma ponta de cabelo e uma viagem de meio dia que me separa de Chunar, o que na minha perspetiva me parece um oásis. Com este desejo em mente, enfrento mais um dia poeirento com novo ânimo e nova vontade de vencer. Vou buscar forças onde julgava que elas estivessem a faltar e consigo, contra algumas previsões colocar uma linha a funcionar, a grosso modo, sem afinações, mas a olho nu parece-me que vai resultar, parece-me que afinal isto vai mesmo contar sacos de cimento. A este sentimento de triunfo junta-se a notícia de que amanhã durante a manhã partimos para Chunar. Mal posso esperar, é hora de fazer as malas. Chega entretanto a nostalgia e o desejo de estar a fazer as malas para regressar a Portugal. Limpa-se a lágrima marota, não se pensa no futuro e vive-se apenas o presente, e o presente é dormir, é descansar.

19.11.12

Diario da India III - Dia 16


Parece cada vez mais real a possibilidade de ir para Chunar mais cedo. Em segredo sinto-a como uma lufada de ar fresco. Ir para outro sítio, começar tudo de novo, esquecer o que fica para trás, tudo isto me faz desejar realmente a partida. Arrasto-me cada vez mais por estas bandas. Não vejo as coisas seguirem em frente, não me vejo livre das algemas nem do ar sisudo com que vivo por aqui todos os dias. Estou farto de gritar surdamente, e farto de ter os nervos à flor da pele. Quero ir embora daqui, mesmo que seja para umas escassas centenas de quilómetros daqui, mas quero ir, e quero que seja já amanhã. Aqui já nada tem piada, já nada se mostra bonito e surpreendente. Aqui já não há nada para mim. Deixem-me ir…

18.11.12

Diario da India III - Dia 15


As condições meteorológicas conseguem, por vezes, moldar-nos o estado de espirito e as vontades. Associámos facilmente a chuva à tristeza, ao desleixo, à falta de vontade e o sol à alegria, à energia, à vitalidade. Este sol a mim não me molda. É um sol estranho, um sol que não é meu, um sol que daqui parece demasiado amarelo, um sol encoberto por uma poeira que não é nevoeiro, é demasiado sujo para ser nevoeiro. É sol que não me queima mas faz-me suar, não me torna moreno mas incomoda-me, não me transmite energia mas arde-me e arranha-me como o cimento que se esfrega na pele. Por aqui não chove, a temperatura é sempre igual, mas faz-me falta a chuva, faz-me falta um passeio com a água a regar-me todo o corpo e a encharcar-me a alma. Faz-me falta a água que brota dos olhos do céu para que parem de brotar lágrimas os meus…

17.11.12

Diario da India III - Dia 14


As diferenças na língua criam-nos barreiras muito difíceis de transpor. Não há uma palavra ou um som em português ou inglês que se consiga assemelhar ao Hindi. Até mesmo os gestos que no nosso quotidiano são banais e fazemos instintivamente, para um indiano são autênticos quebra-cabeças. O mesmo digo eu quando eles acenam a cabeça sem que eu perceba se dizem sim ou se dizem não. É frustrante querer pedir algo, fazer uma pergunta, e não obter nada do outro lado, nem conseguir mostrar outra forma para que o entendam. Existem no entanto indianos que por terem acesso a outros meios, como televisão e internet, estão mais familiarizados com os gestos ocidentais, porém, todos esses entendem e se expressam minimamente em inglês, o problema maior é que não é com esses que eu lido diariamente, eu lido com os indianos que nunca foram à escola, que não sabem ler, não sabem escrever e que no fundo até são simpáticos e prestáveis, querendo sempre ajudar. Esta grande barreira que impede a comunicação criou-me hoje um grande problema. Precisava pedir um cartão de forma circular aos camionistas a fim de testar o sistema, porém não tinha tradutor comigo, e o único que me disse que falava inglês, não percebia o que dizia (não se que inglês falava ele!). Restava-me por gestos tentar fazer-me entender. Como é fácil de imaginar não me saí muito bem. Qual é o gesto mais simples para indicar um objeto redondo em forma de disco? Unir as pontas dos dedos indicador e polegar tentando criar um círculo. Para meu espanto o primeiro camionista até fez um ar de quem percebeu, senti-me feliz… por meio segundo, pois o que ele tirou do tablier foi uma chave de fenda… Bolas! Tentei pedir novamente mas fui ignorado, e como o homem já se estava a sentir pressionado decidi tentar outro motorista. Voltei a fazer o mesmo sinal, uma, duas, três vezes e nada. Ele dizia-me algo que eu nem fazia ideia do que era, mas mostrava-se atento e desejoso de me ajudar. Continuei a insistir mudando o gesto, agora tentei criar um círculo com os dois dedos indicadores e os dois polegares. Ele fez uma cara de esclarecido e fez-me também um gesto. Uniu os dedos polegares e indicadores de uma mão e introduziu o dedo indicador da outra mão no círculo. Não, não era sexo que eu queria caramba. Soltei uma gargalhada, pedi-lhe que saísse do camião e lembrei-me que nos posto que montei tinha um símbolo do que eu precisava, ele amavelmente foi ao bolso e acertou no objeto que eu procurava. Estava difícil…

16.11.12

Diario da India III - Dia 13


Finalmente parece que a máquina que antes estava encravada começa a querer movimentar-se. Vejo o meu regresso aproximar-se apesar de ainda estar longe. Prefiro nem pensar que ainda tenho outra fábrica para visitar antes de ir embora. Sinto-me mais calmo se viver dia-a-dia e for traçando objetivos curtos com o único propósito de os ver realizados e ganhar ânimo para continuar. Hoje é como se me tivessem dado uma injeção de força, talvez tenha sido a raiva, certo é que vi as coisas mexer, andar para frente. Fiquei satisfeito e até já tive mais paciência para falar e ouvir os outros. Mais um dia que passou, menos um dia para voltar a casa, 13º dia por estas paragens esquecidas, um dia de sorte, ou a sorte de um dia ter corrido melhor.

15.11.12

Diario da India III - Dia 12


Acordei com o corpo menos dorido que os últimos dias, mas a mente, essa continua a penar e a pedir alívio. Não lhe encontro salvação e o trabalho é a única coisa que me distrai. Ainda assim não é uma distração que me sossegue. Irrito-me cada vez com maior facilidade, sinto os nervos à flor da pele, apetece-me explodir a torto e a direito mas ao mesmo tempo controlo-me e deixo que os nervos apenas me corroam o estômago cada vez mais fraco. Há dias em que parece que por muito esforço que faça nada é reconhecido e nada vale realmente a pena. Continuo a socorrer-me da máscara para disfarçar expressões, para abafar gritos que já nem sei se são de terror ou de frustração pois desta vez aconteceu algo que não previa, algo que não me achava capaz, um ponto de saturação que julgava infinito. Perdi por momentos o controlo de tudo o que me pertence, senti-me derrotado, senti-me despojado de forças, dobrei os joelhos e deixei que o corpo pendesse para trás até me sentar. Dobrei a cabeça para baixo, pousei o capacete na minha frente, tapei a cara com as mão sujas do cimento e chorei… Chorei porque queria desistir, porque não me sentia capaz, chorei porque nada mais conseguia fazer, chorei porque precisei de o fazer. Chorei porque não encontrei maneira de voltar para a minha terra, para a minha casa, para a minha família. Não resolvi nada com isto, mas soube-me bem. Não, ainda não cortei a barba, não estou com disposição.

14.11.12

Diario da India III - Dia 11



Sinto falta das notícias em Portugal, por estes dias tem sido lá um sem fim de manifestações contra a austeridade, passeou-se por lá a chanceler alemã, Angela Merkle, e joga hoje a selecção portuguesa de futebol contra o Gabão, sem o carismático Cristiano Ronaldo, mas com 7 jogadores do meu Sporting de Braga convocados! Que orgulho, e que pena não os poder ver em acção. É também hoje dia de greve geral. Por cá não fiz greve, mas foi parecido, hoje é o feriado do Diwali, ninguém trabalha, a fábrica está deserta, as máquinas que não podem ser paradas soam a silêncio e às 7 horas da manhã ainda está tudo a dormir. Reina a paz, a calma e o sossego. Despachei o que era possível pela manhã, pequenas coisas agarradas ao dia anterior, e tirei a tarde para descansar e recuperar energias na esperança de voltar com mais vontade e determinação ainda em acabar de vez com todas as tarefas. A ideia parecia excelente, mas revelou-se entediante, e fiz uma serie de coisas inúteis, entre elas dormir e organizar as fotos e músicas do telemóvel e do disco externo. A meio da tarde senti a mesma dificuldade que há dois anos num quarto na outra ponta deste corredor, não consegui ter água fria na torneira. Os dias aqui continuam quentes e estando eu a precisar de passar água fresca pela cara fui até ao lavatório mas a torneira mesmo virada para o lado azul vertia água quente demais para ser considerada só morna. O eterno problema das canalizações por fora das paredes, o sol aquece os tubos e por sua vez a água. Caiu a noite e os foguetes diminuíram em relação ao dia anterior, prevê-se por isso uma noite bem mais calma, a contrastar com dia previsto para amanhã. Olho-me uma última vez ao espelho, sinto que estou a ficar mais escuro, nem tenho apanhado muito sol, talvez sejam só côdeas. Passo a mão na barba que já nem arranha, está grande demais, amanhã corto, hoje é hora de ir dormir.