Hoje
pensei em escrever sobre coisa nenhuma, nada aconteceu durante o dia que fosse
digno de um relato mais ou menos detalhado capaz de entreter alguém que o
lesse, ora pela minha falta de criatividade, ora pela falta de algo diferente,
único ou simbólico. Nem mesmo ter acabado hoje a leitura de “O Evangelho
segundo Jesus Cristo” (marco histórico para mim uma vez que só à terceira
tentativa consegui ler a última página, a última frase, a última palavra) seria
algo capaz de manter qualquer leitor atento. O jantar parecia mostrar-se na
solidão. Numa mesa com doze cadeiras, apenas eu figurava num canto como quem
tem vergonha de ser visto. A refeição é a mesma de sempre aos jantares e
almoços, massa esparguete com pimentos e falta de alguém para conversar durante
o jantar tornava a comida ainda mais desenxabida. A lata de bacalhau que trouxe
de casa, desta vez continha dentro, além do bacalhau, do sal e do azeite, dois
dedos de treta bem longos. Desengane-se quem pensa que falei com um bacalhau,
ou com um pedaço de posta neste caso. Estive o jantar todo a falar com os
serventes. Três nepaleses e um indiano. Tudo começou no momento em que abri a
lata. Uma conversa num inglês muito mal explicado em que a linguagem gestual
tentava fazer-se ouvir, simples palavras, simples gestos, pequenos desenhos,
largos sorrisos… Perguntaram-me se o que comia era cobra, sabendo depois que
era peixe perguntaram se era do mar, se eu era chinês, quanto era o meu
ordenado, de onde vinha, onde ficava Portugal, como me chamava, qual a minha
idade, se era casado, quando ia embora, mas tudo com muito respeito e sempre
pedido licença para falar e perguntado se me estavam a incomodar e perturbar o
meu jantar. Respondi que não, estava-me a fazer bem a conversa, estava a
apreciar o quanto eles estavam interessados em falar com um estranho que come
peixe do mar. Perguntei-lhes os nomes, que não decorei, perguntei as idades e
disse-lhes que fazia anos na próxima quinta-feira. Só hoje me lembrei que fazia
anos quinta-feira por causa de uma mensagem. De pronto me perguntaram se queria
uma festa ou queria frango, disse-lhes que o frango aceitava mas a festa não
porque não tinha cá os amigos, respondeu-me um num inglês meio aos soluços, na
India tens quatro amigos, três do Nepal e um da India, nós somos os teus amigos.
Palavras que me fizeram suspirar, no final fiz questão de os cumprimentar,
mostraram-me toda a sua humildade. Não merecem o desprezo e o desrespeito com
que são tratados diariamente, gostava de lhes mostrar um mundo diferente, fora
da Asia, que lhes pudesse dar um novo futuro, mais decente, como eles merecem.
Vou levá-los comigo, no coração!
27.11.12
26.11.12
Diario da India III - Dia 23
Várias
vezes brinquei com a situação de dormir acompanhado na India, por insetos que
me assaltavam a cama durante a noite principalmente a primeira viagem que fiz
para cá, mas hoje, ao pequeno-almoço, foi proposto pelo gerente da casa que
partilhasse o quarto, porque estava para chegar uma importante visita e não
tinha onde ficar. Ora entre partilhar o quarto, que até tem dois colchões mas
um só édredon, e mudar para uma casa com condições bem piores, lá acedi a
passar duas noites “acompanhado”. Mais tarde deixou de ser necessário, e afinal
até vou passar a noite sozinho. Entre o pequeno-almoço e o jantar nada mais
fora da rotina habitual aconteceu que mereça destaque. Começo a ter dificuldade
em encontrar algo para contar, algo marcante, que faça a diferença, que mostre
o choque de culturas. Se calhar começo é a habituar-me eu a tudo o que por aqui
acontece e tudo me parece banal, normal e nada me surpreende. Nem mesmo os
tijolos feitos de uma matéria estranha que parecem ter o peso do mesmo volume
em esferovite, e a verdade é que se desfazem como esferovite apesar de
aparentarem ser tijolo-burro, daqueles que se fazem os fornos e as lareiras. Já
tudo me parece normal, o sol que se esconde o dia todo entre a poeira, os
portões e portões e portões que atravesso diariamente e que parecem apenas servir
para dar emprego ao sem fim de seguranças que por cá se passeiam, as bicicletas
com travões na roda traseira com chave (funcionam como um cadeado, neste caso
fica a roda da bicicleta travada com chave), as lombas e as más suspensões dos
TATA e dos Mahindra, tudo é banal e normal nesta terra, menos eu, eu sou o
estranho, eu sou o português, eu sou o que vem de um país que a maioria nunca
ouviu falar, eu sou o que tem ferramentas estranhamente funcionais e novas, eu sou
o único a querer ir embora daqui, eu sou o único que não os entendo e sou o
único que não me faço entender. Ao menos enumerei algumas coisas em que sou
único!
25.11.12
Diario da India III - Dia 22
Nunca
estive tanto tempo na em terras asiáticas, talvez por isso hoje tenha sido
atropelado pelo cansaço. Não aguentei, senti a fraqueza e a falta de força nos
membros, por muito que a mente ordenasse o corpo já mal obedecia e respondia em
tempo útil. Tirei a tarde para um descanso, afinal de contas hoje é domingo e
já não descanso há bastante tempo. Deixei as horas passar sem pensar em nada,
fui lendo “O Evangelho segundo Jesus Cristo” de Saramago para entreter a mente,
e ouvi música do mais variado possível para me abstrair do mundo onde estou. Já
que falo no mundo onde estou, este tem sido um monte de cheiros muitos
estranhos. Se à noite, junto ao escritório existem umas plantas que libertam
toda a sua essência refrescante e acolhedora ao mesmo tempo, durante o dia por
dentro do escritório inala-se o cheiro a criolina com que se limpa o chão, o
mesmo cheiro da entrada de casa que se mistura no quarto com o cheiro a torrado
do aquecedor, porque há por cá um nepalês que me acha com frio e teima em
ligar-me o aquecedor do quarto. Cheiro mais estranho ainda tem um indiano que
me vai auxiliando. O rapaz, sim rapaz porque é mais novo que eu e eu também sou
um rapaz, tem um abundante, estranho e perturbador odor a fraldas ou a
toalhetes. Não consigo explicar, mas um segundo depois de se sentir o cheiro
começa a ser demasiado para ser suportável. Antes o cheiro dos quilos de
incenso que por aqui se queimam por dia. Enquanto escrevia isto procurei
insistentemente um cheiro que me tivesse marcado, mas só encontrei um, está em
Portugal, a milhares de quilómetros de distância, mas sempre que fecho os olhos
sinto o cheiro da minha flor… sabe tão bem!
24.11.12
Diario da India III - Dia 21
Dia
21, três semanas depois de ter aterrado no continente asiático. Nunca estive cá
muito mais tempo que isto, mas desta vez quer o destino que fique cá por mais
uns dias, talvez por ser a vez que me custou mais vir, a vez que me custou mais
deixar alguém para trás, a vez que as coisas pior correm e mais me fazem querer
sair daqui o mais rápido possível. Descobri hoje que na casa onde estou existem
gansos, e descobri porque me acordaram perto das 5 horas da manhã com os
primeiros raios de sol. Quando os olhos cerram já é só por cansaço, sinto-o no
corpo todo, a cada movimento, ainda assim vou-me apercebendo das coisas
engraçadas que a India tem. Há vários dias que uma música que parece saída de
uma daquelas caixinhas chinesas me atazana a vida. Ouvi-a em três sítios
distintos e separados, não conseguia perceber de onde vinha mas o certo é que
me irritava. Ouvi-a em casa, no escritório e no armazém, raio de barulho de
onde virá? Hoje consegui perguntar que barulho era aquele e explicaram-me que o
barulho indica que a filtragem da água está em funcionamento. Qual o propósito?
Não faço a mais pequena ideia. Por aqui já tinha notado também como mudam
facilmente as expressões faciais das pessoas. Sempre que um superior está por
perto, nota-se o medo e notam-se todas as palavras bem medidas e bem pensadas,
porque aqui, quem manda pode. Para confirmar isso conto uma pequena história
que tem o seu quê de cómico. Estava eu junto a dois Indianos que me ajudavam
nas tarefas e um usava um capacete amarelo e o outro um capacete branco. Não
sei porque que carga de água, o do ajudante do capacete amarelo decidiu tentar
trocar com o capacete branco, tirou o seu capacete, tirou o outro mas nem
chegou a fazer a troca, chegou o chefe cá do sitio perto de nós, acompanhado do
chefe dos meus dois ajudantes e de mais meia-dúzia de pessoas e a primeira
coisa que faz assim que chega perto nós é dizer bem alto “Estes dois estavam
sem capacete. Vi este a tentar trocar o capacete com o daquele, e não adianta
mentir. Por isso, 100 rupias de multa para este e 200 rupias de multa para
aquele, com efeito a partir de agora.” Posto isto, foi embora à sua vida.
Convém dizer que uma multa é pouco superior a 1 euro e a outra pouco superior a
2 euros, podia ser muito para outros trabalhadores, mas para estes até nem é. Curiosidades
da India… Qual será a de amanhã?
23.11.12
Diario da India III - Dia 20
O
sol quando nasce é para todos, hoje é dia de voltar ao sol que na verdade já
sabe a inverno. Não ao nosso inverno, o inverno português, por aqui o sol
queima menos, mas continua a fazer suar, nasce muito cedo e esconde-se por
volta das 18 horas, reduz-me o tempo útil de trabalho, pois assim que ele se
deita a luz artificial deixa de ser suficiente para iluminar o trabalho e a
“mosquitagem”, que tem vindo a diminuir, invade-me o campo de visão. Faço
apenas mais um esforço para pensar que hoje será um dia novo, uma nova
realidade, um novo começo, cheio de força e de vontade, rumo à saída do túnel
onde me esperam os braços mais aconchegadores do Mundo. A realidade em Chunar
parece-me bem diferente, e apesar do pequeno-almoço em tudo igual aos outros,
sinto-me mais aconchegado e sinto um tratamento mais simples apesar da grande
dificuldade em se expressarem em inglês por aqui. À saída pedem-me para fazer
um registo por ocupar o quarto. O empregado tenta dizer o meu nome e a verdade
é que não fica muito longe da pronúncia, apenas a parte do Xavier soa estranha,
mas mais à frente conto o porquê. Aqui não temos motorista, por isso, o caminho
entre a casa onde dormimos e o escritório é feita a pé, na verdade são só 500
metros, não custa nada. A manhã parece arrastar-se, não há cá ninguém que
trabalhe e volto a sentir aquela dor junto ao estômago e aquela revolta por não
poder fazer o quero e o quero é mesmo começar a trabalhar para acabar o mais
rápido possível. As horas passam, os minutos arrastam-se a espera termina
algumas após o inicio, pouco tempo sobra até ao almoço, faz-se o que se pode.
Volta-se a caminhar para o almoço, desta vez comida sem picantes, e ainda um
fantástico pedaço de pão imaginem só. Um pão muito parecido com a configuração
de um molete de São José, com a mesma capa e mesma textura, mas sem o sabor
adocicado, sabia apenas a pão, nada mais, que bem me soube. Ao entrar no quarto
reparo no porquê da estranha pronuncia, tenho o meu nome escrito na porta e é
algo parecido com “Rvi Xravier” e quem o pronuncia em vez de ler “xis” no
início de Xavier lê “Exz”. A tarde rendeu mais, as pessoas aqui parecem mais
empenhadas, mais capazes, mais trabalhadoras. A falta de motorista levou-me a
experimentar algo que se revelou uma boa injecção de adrenalina. Apanhei boleia
de uma mota! Não andava de mota à cerca de 10 anos, e andar de mota a fintar
camiões, carros, bicicletas e pessoas é uma experiência fenomenal, sobretudo se
for feita na India e a 30 km/h. Hoje começo a reparar bem no meu quarto. Em vez
de uma cama gigante reparo que afinal tenho duas pequenas camas juntas, não me
importo porque só utilizo uma delas, tenho ainda uns chinelos que não são meus,
uma dúzia de capas de arquivo num armário, umas botas numa gaveta e uma mala de
viagem por cima do guarda-fatos, conclusão, este quarto pertence a alguém,
espero que não volte enquanto cá estiver eu.
22.11.12
Diario da India III - Dia 19
É
bem cedo que se toma hoje o pequeno-almoço. Dizem-nos que temos 5 horas de
viagem pela frente, e se queremos chegar ao destino pela hora de almoço,
devemos então partir bem cedo. Estamos prontos e falta apenas o motorista e o
carro. Aguardámos. Aí vem um carro… não, não é este. Aguardamos mais um pouco,
sento-me na mala com todos os meus pertences e pouso a mochila que me pesa nas
costas. Sinto o nervoso miudinho querer aproximar-se, as perguntas sem
respostas que sempre me martelam a cabeça vão e voltam. Que terá acontecido?
Terão voltado atrás na intenção de nos deixar ir? Ficaremos cá mais tempo? Não
me consigo distrair, mas eis que entretanto chega o motorista de sempre e o
Jipe de sempre para nos levar a Chunar. No pouco inglês que se consegue perceber,
explica-nos que só hoje de manhã lhe disseram que teria de ir a Chunar, mas ao
que consigo constatar, e que mais tarde confirmei, ele sente-se feliz por fazer
esta viagem e faz questão de dizer isso mesmo a toda a gente que encontra. Lá
partimos, apesar de atrasados temos de regressar ao escritório 5 min depois da
saída. Ao telemóvel dizem-nos que nos faltam uns papéis. Mas que papéis! La
vamos buscar os ditos papéis e retomámos o caminho para casa de um indiano hipocondríaco
que nos acompanhará na viagem. Com toda a sua calma e todo o tempo do mundo
convida-nos a entrar em sua casa. Uma casa, para mim, como tantas outras, com
entrada direta para a sala de jantar, ao fundo uma porta para a minúscula
cozinha, à esquerda uma porta para um quarto, o dos miúdos, e à direita o
quarto do casal. De salientar que todas as divisões são separadas por uma
simples cortina. O chão é em cimento, coberto a espaços por carpetes, no teto
uma lâmpada ilumina toda a sala, as paredes são onduladas e amareladas, e o
exterior é quase todo ele em tijolo, daquele tijolo que só se encontra por cá.
Na rua estão as vacas que por aqui se passeiam e fazem da rua como sendo sua,
um vizinho traz comida para esta pequena cinzenta que aparenta ser mãe daquela
que come de outro prato mais lá à frente. Do outro lado da estrada fica uma
escola, e cá de fora consigo ouvir o coro de vozes das crianças, não as consigo
ver e ainda bem, pois o rego de esgoto e lixo a céu aberto que fica entre a
estrada e a parede da escola ia-me fazer sentir ainda pena daqueles pobres
inocentes. Assim consigo imaginá-los imunes e protegidos destes mosquitos que
transportam todo o tipo de doenças que caibam dentro deles. Partimos então por
uma estrada que nunca vi, é a estrada em sentido oposto ao aeroporto de Kajuraho.
Tentei de inicio captar tudo o que visualizava para poder reproduzir por
palavras, mas a verdade é que ao fim de poucos quilómetros me consegui
aperceber que seria tudo igual. As vacas presas nas árvores, os discos de uma
espécie de lama e palha que secam ao sol e que não me atrevo a perguntar o que
são, a miséria, as caras de fome, a pobreza, as lojas ambulantes, a fruta à
venda sem condições nenhumas, os garagens de reparação de bicicletas, as
buzinadelas de quem passa, o mesmo cheiro, o mesmo pó e os mesmos camiões.
Faz-me confusão como são os indianos capazes de caberem em espaços tão
minúsculos e ao mesmo tempo terem a força e a destreza de algo que parece
impossível. Dentro de um carro, em tudo semelhante àqueles de caixa aberta que
não necessitam de carta e que levam normalmente o condutor e um passageiro,
cabem aqui 7 pessoas, que eu conseguisse contar. Mais à frente um sujeito de
bicicleta, montado na bicicleta, transporta 6 botijas de gás. Uma em cada punho
do guiador, mais duas de cada lado na parte de trás junto ao selim. Acredito
que as botijas estivessem vazias, mas mesmo assim é, para mim, um feito que
merece referência. Acabo por cair no sono. Não um sono muito pesado porque o
indiano hipocondríaco tem uma voz muito aguda e que me provoca uma espécie de
ruído nos ouvidos, e porque os buracos e lombas da estrada (que me fizeram por
mais que uma vez bater com a cabeça no tejadilho do jipe) também não me deixam
sossegado. Após a pausa para esticar as pernas, numa berma da estrada onde se
cozinha ao ar livre e onde existem umas camas de vime ou arame para quem se
quiser deitar, voltámos à estrada. Desta feita vou no banco da frente, o
indiano foi lá para trás contar a história cronológica dos Deuses Hindus.
Confesso que sentar-me no banco da frente esquerdo do jipe, sem pedais e sem
volante me faz confusão, mas continuemos. O motorista avisa que esta estrada é
a boa, a próxima será pior ainda, pergunto-me como mas rapidamente percebo que
é por isso uma boa altura para dormir. Mais buraco, menos lomba, lá fui
fechando os olhos a espaços e de uma das vezes que os abri encontrei-me no meio
da selva. Sinto-me no cimo de uma montanha. Vejo à frente um enorme vale, onde
fica então Chunar. Descemos uma estrada que se serpenteia formando “esses”
quase impossíveis de atravessar por certos camiões, a verdade é eles
atravessam, não têm outra estrada, mas também é verdade que avariam. Não é um
bom sítio para avariarem os camiões ou haver um acidente, se é que há bons
sítios para isso. Aqui, onde não há rede de telemóvel, onde se veem marcas de
derrocadas não muito antigas, é talvez o pior sítio para se ficar parado. Isto
para não falar nos assaltos e nos ataques feitos durante a noite por quem mora
aqui misturado com os macacos. Realmente esta estrada é pior que a última. Mais
uns solavancos, mais umas curvas e mais uns buracos, lá acabamos de descer a
montanha e chegámos, hora e meia depois, à fábrica de Chunar. Nada de diferente
de Rewa ou de Baga à primeira vista. Os mesmos uniformes, os mesmos portões, as
mesmas lombas, a mesma sinalização e os mesmo nomes. Chegados à Guest House,
somos recebidos com um carinho a que já não estava habituado, confesso. Sinto
que existe aqui um ambiente mais calmo, descontraído, um maior sossego, coisa
que já não sentia há vários dias. São cerca das 14 horas, já passa um pouco da
hora de almoço e a fome é tanta. Um tenente coronel reformado, recebe-nos à
porta e senta-se para almoçar connosco à mesa. O bigode farfalhudo branco e
curvado para cima nas pontas, os óculos redondos e o cabelo grande fazem dele
uma pessoa que transmite boa disposição. Apesar da fome apertar, ninguém avisou
o cozinheiro que nós não comíamos nada picante. Temos de comer à força toda
comida indiana. Eu fiquei-me pelo arroz branco, cozido e sem sal, sem sabor
nenhum, o famoso “roti” também chamado de “chapati” e uns feijões extremamente
picantes que só comi porque tinha mesmo muita fome. Pedimos que para o jantar
nos preparassem massa, sem qualquer tipo de picantes. O senhor do bigode
explicou isso ao empregado em hindi. Comemos a sobremesa em seguida, pela
primeira vez na India saboreio uma laranja, que saudades eu tinha de uma
laranja, tomamos café e assim que pedimos licença para nos levantarmos da mesa
informam-nos que a massa demora apenas 1 minuto a ser servida… quem é que não
percebeu que era só para o jantar? Não consigo comer massa. Desculpem, mas não
consigo mesmo… Meia hora de descanso para nos restabelecermos da viagem
atribulada e é tempo de conhecer a nova fábrica, as novas gentes, o novo mundo,
o novo projeto. Apresentado a um Indiano com uma cicatriz enorme na parte de
trás do crânio que se prolonga até ao inicio da espinha dorsal, espero pelo
jipe que me levará até ao escritório que servirá de quartel. Percebo que a
distância nem é assim tanta, cerca de 500 metros, em terreno plano e a direito
que se podem muito bem fazer a pé. Mais um indiano, outro e outro e mais um
ainda. Gente muito nova com nomes muito diferentes dos que eu utilizo
normalmente e que me dificultam a sua memorização. Na verdade é impossível
decorar os nomes deles sem que estejam associados a alguma mnemónica. Após os
cumprimentos da praxe, lá voltamos ao terreno. Percebo que a organização aqui é
bem maior, mais exigente e mais apertada. Percebo também que o trabalho deles
está extremamente atrasado, queixam-se eles da falta de conhecimento das
tarefas que deviam executar e queixo-me eu da minha falta de sorte. Ainda assim
transmitem-me alguma confiança, uma confiança que nos últimos tempos eu não
conseguia encontrar, uma vontade de triunfar, de conseguir acabar. Sinto uma
lufada de ar fresco, ganho ânimo e sinto-me capaz de coordenar os trabalhos em
parte não desiludindo quem confiou em mim. Levo essa confiança para a mesa do
jantar onde a comida já não é picante mas a água também não é engarrafada, onde
me sinto tratado com uma ponta de carinho e onde provo uma espécie de pão como
o que como em casa. Regresso ao quarto, onde não tenho internet, e apercebo-me
que no meio destas aventuras todas os meus telemóveis estão sem rede. Estou
incontactável. De cada vez que perco o sinal de rede nos telemóveis, tenho de
selecionar a nova rede manualmente, não o fiz depois de descer o monte onde não
existia rede, percebo que nenhuma das mensagens que enviei para casa a dizer
que tinha chegado bem ao destino foi entregue. Entro em pânico e apresso-me a
resolver o problema. Toca o telemóvel finalmente e sinto um aperto enorme no
peito. Do outro lado soluçava-me uma voz que temeu que tivesse corrido alguma
coisa mal. Enchem-se os olhos de lágrimas, aperta-se o peito, doí a alma e
desejo vir embora a todo o custo novamente. Perdi momentaneamente a boa
disposição que tinha ganho. Apetece-me desistir e “teletransportar-me” para os
braços quentes e aconchegadores da dona da voz. Não o consigo fazer, vou dormir
com o remorso, com a dor e com a frustração. Dói porque te amo.
21.11.12
Diario da India III - Dia 18
Há
dias que parece não terem saído do início. Era suposto, e estava tudo combinado
para tal, hoje partirmos rumo a Chunar, a segunda parte da minha vinda cá.
Contudo as reuniões que deveriam ter ficado pelas primeiras horas da manhã
vão-se arrastando e arrastando. Não vesti roupa de trabalho, não calcei as
sapatilhas carregadas de cimento em pó, não me preparei para inalar pó todo o
dia e não contava com este nervoso miudinho que se alastrou durante todo o dia,
e que cada vez deixou mais de ser miudinho. Ora porque não nos querem deixar
ir, porque nos querem cá, porque fazemos falta cá, porque precisamos de mais
uma reunião mais logo, porque essa reunião tem de ser adiada e porque no final
é tarde demais para se viajar 5 horas por estradas sem condições, cheias de
buracos, cheias de curvas apertadas, cheias de perigos. Fica-se então cá mais
um dia na promessa de sairmos amanhã bem cedo, na tentativa de chegar a Chunar
pela hora de almoço. Tenho o estômago com um nó bem grande, muita pressão,
muito nervosismo, muita contrariedade, e uma cabeça que já nem pensar consegue.
Aliado a isto a pressão de que temos de abandonar os quartos onde estamos.
Acredito portanto que este será o meu último dia em Rewa. Amanhã é dia de
viagem. Alegra-me saber que falta menos um dia para voltar para casa!
20.11.12
Diário da India III - Dia 17
Tenho
finalmente a certeza que está por um fio a minha estada em Rewa. É apenas uma
ponta de cabelo e uma viagem de meio dia que me separa de Chunar, o que na
minha perspetiva me parece um oásis. Com este desejo em mente, enfrento mais um
dia poeirento com novo ânimo e nova vontade de vencer. Vou buscar forças onde
julgava que elas estivessem a faltar e consigo, contra algumas previsões
colocar uma linha a funcionar, a grosso modo, sem afinações, mas a olho nu
parece-me que vai resultar, parece-me que afinal isto vai mesmo contar sacos de
cimento. A este sentimento de triunfo junta-se a notícia de que amanhã durante
a manhã partimos para Chunar. Mal posso esperar, é hora de fazer as malas.
Chega entretanto a nostalgia e o desejo de estar a fazer as malas para
regressar a Portugal. Limpa-se a lágrima marota, não se pensa no futuro e
vive-se apenas o presente, e o presente é dormir, é descansar.
19.11.12
Diario da India III - Dia 16
Parece
cada vez mais real a possibilidade de ir para Chunar mais cedo. Em segredo
sinto-a como uma lufada de ar fresco. Ir para outro sítio, começar tudo de
novo, esquecer o que fica para trás, tudo isto me faz desejar realmente a
partida. Arrasto-me cada vez mais por estas bandas. Não vejo as coisas seguirem
em frente, não me vejo livre das algemas nem do ar sisudo com que vivo por aqui
todos os dias. Estou farto de gritar surdamente, e farto de ter os nervos à
flor da pele. Quero ir embora daqui, mesmo que seja para umas escassas centenas
de quilómetros daqui, mas quero ir, e quero que seja já amanhã. Aqui já nada
tem piada, já nada se mostra bonito e surpreendente. Aqui já não há nada para
mim. Deixem-me ir…
18.11.12
Diario da India III - Dia 15
As
condições meteorológicas conseguem, por vezes, moldar-nos o estado de espirito
e as vontades. Associámos facilmente a chuva à tristeza, ao desleixo, à falta
de vontade e o sol à alegria, à energia, à vitalidade. Este sol a mim não me
molda. É um sol estranho, um sol que não é meu, um sol que daqui parece
demasiado amarelo, um sol encoberto por uma poeira que não é nevoeiro, é
demasiado sujo para ser nevoeiro. É sol que não me queima mas faz-me suar, não
me torna moreno mas incomoda-me, não me transmite energia mas arde-me e
arranha-me como o cimento que se esfrega na pele. Por aqui não chove, a
temperatura é sempre igual, mas faz-me falta a chuva, faz-me falta um passeio
com a água a regar-me todo o corpo e a encharcar-me a alma. Faz-me falta a água
que brota dos olhos do céu para que parem de brotar lágrimas os meus…
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