1.12.12

Diario da India III - Dia 28


Mais um dia que tudo para ser igual a outro dia qualquer. É feriado em Portugal, a última vez que goza o dia 1 de Dezembro como um feriado nacional, eu não o farei, deste lado não há feriado. Olho-me ao espelho ao acordar, o espelho que ocupa toda a parede devolve-me um reflexo preenchido de desalento, a água não o afasta e a barba que me arranha já nem me incomoda. Penso em cortá-la, mas não passa disso, um simples pensamento, não me apetece cortar a barba. A indefinição sobre a data do regresso, está a levar-me à loucura comprovada pela decisão de não cortar até à manhã do dia em que abandonarei a India. Com o grosso do trabalho praticamente finalizado e o com o sistema pronto para arrancar ou dar os primeiros passos experimentais, coordenam-se esforços na tentativa de o realizar. Cai a noite, e a alegria pelo primeiro teste é parada com uma bofetada pelo erro logo no primeiro passo… Falhou, há solução, mas ainda não foi encontrada. Horas depois continuamos no mesmo pé, decido ir jantar, pois aqui não faço nada, em pé, ao frio e à mercê dos mosquitos. Regresso do jantar em que a comida de sempre parece entalada algures acima do peito. Não contava que com esta falha. Levo no bolso meia dúzia de bolachas com fruta que viajaram comigo desde Portugal, pois adivinha-se uma noite longa, demasiado longa. Voltei apenas pela ajuda psicológica, nada mais posso fazer, mato por isso o tempo a ouvir musica no mp3, a ouvir indianos com perguntas que não me apetece responder e a tentar fazer um barco em papel. Tento, tento e tento, não sai nenhum barco, apenas um avião que não pode levar daqui. Apaziguo a dor no estômago, que não descortino se será fome ou cansaço, com umas dentadas nas bolachas. Distribuo pelos indianos que me olham como se eu possuísse algo de outro mundo. Provam, adoram e pedem mais. Lamento mas não tenho mais, acabaram por hoje. Pedem-me que altere a mensagem do sistema e substitua “Apresente cartão” por “Apresente Bolacha”. “Cookie decau” dizem eles. Fizeram-me sorrir, ajudaram-me a passar o tempo. Regresso sozinho a meio da noite para descansar, não foi encontrada solução ainda, começo a ficar preocupado, mas continuo confiante, bastante confiante…

30.11.12

Diario da India III - Dia 27


Acaba-se hoje o Novembro. Por cá sentem-se as noites cada vez mais frias apesar de o édredon, única peça que “veste a cama”, ser bastante quente. Ainda assim falta-me aquele aconchego que me habituei a ter pouco antes de embarcar rumo à terra das especiarias. Quanto aos dias continuam quentes. Continuo com a desesperante tarefa de esperar que terminem o que têm para fazer para depois concluir eu o meu serviço, enquanto isso não acontece recorro ao leitor de mp3 acabado de carregar com mais músicas, as músicas de sempre, o mais variadas possível para se adequarem a todos os estados de espírito. Vale de tudo para matar o tempo, tira-se algumas fotos, mesmo que sem motivo aparente, percorre-se os pontos de instalação para verificar mais uma vez o lento avançar da instalação. Chega o desespero, por já nada servir para matar o tempo, já nada me entretém e sinto-me cansado, de rastos, mesmo sem fazer nada. Sinto os gémeos ameaçarem que quebram e não percebo a razão, sinto-me mentalmente fatigado e um fúria enraivecida a nascer-me no interior por não ver o tempo passar. Recebi hoje a confirmação de que não será este fim-de-semana que regresso ao meu cantinho. Não será tão cedo como desejaria o meu reencontro com quem mais amo, não será tão cedo que vou acabar com esta saudade que me queima por dentro. Quero tanto que isto termine, quero tanto voltar, quero nunca mais regressar…

29.11.12

Diario da India III - Dia 26


Ficou então guardada para hoje a explicação de porque seria este um dia comprido. Ao contrário da primeira imagem que possa ter passado, não se trata de um dia custoso ou penoso. Há precisamente um ano, estava eu em Baga (India) quando uma dúvida me saltou à mente. Passo a explicar, eu estou com uma diferença horária de mais 5 horas e 30 minutos em relação a Portugal, posto isto, devo-me reger segundo que horário quando trato de questões que nada têm relacionadas com o país dos Himalaias? É desde 1986 o dia 29 de Novembro é o dia em que comemoro o meu nascimento, e em que os amigos e a família me desejam um feliz aniversário. Toda a gente define como comemoração de aniversário as 24 horas que compõem o dia, já eu me encontro num caso bicudo, pois para festejar o aniversário pela hora portuguesa, vou passar 5 horas e meia de comemoração para o dia 30, e para festejar pela hora indiana, festejo 5 horas e 30 minutos do dia 28. Ora gostando eu de festejar o meu aniversário e como sou eu que mando nele, decidi, com força de Lei, que o meu aniversário será considerado, este ano, entre as 0 horas de Chunar (India) e as 24 horas de Braga (Portugal), o que me dá a possibilidade de festejar durante 29 horas e 30 minutos. Festejar como quem diz, dentro dos possíveis receber mensagens de Portugal e alguns cumprimentos aqui dos Indianos. Todos os aniversários têm também uma surpresa, pode ser um presente ou outra coisa qualquer, como a surpresa de quem se olha ao espelho e exclama “Estou a ficar velho!” Eu também tive hoje uma surpresa. Por brincadeira o cozinheiro ficou de preparar ao jantar frango cozido, uma iguaria para quem come massa com pimentos há tanto tempo. Mas antes do jantar, chegou aos ouvidos do chefe do escritório que eu fazia anos hoje, cumprimentou-me, abraçou-me, sacou da carteira, pegou numa nota amarela de 100 Rupias (não chega a 1,50 €) e pediu que se fossem comprar chocolates, batatas fritas e bebidas para se festejar o meu aniversário. Tudo isto em Hindi e claro está, não percebi patavina. Já no escritório vejo entrar pela porta alguém com umas sacas cheias de chocolates, garrafas de “Thumbs up” (uma espécie de Coca-Cola mas que sabe a café gasificado) e uma espécie de batatas fritas picantes que pouco consegui provar. Chamou-se o resto do pessoal e pela primeira vez cantaram-me os parabéns em inglês, num inglês mal pronunciado, mas num inglês com alma, senti-o a cada abraço no final. Ficou registado o meu sorriso sincero de alegria e agradecimento pelo gesto amável de quem pouco pode oferecer, mas que oferece o que de melhor consegue e pode, porque nisso os Indianos são bons, dão o que têm, e quem dá o que tem a mais não é obrigado.

28.11.12

Diario da India III - Dia 25


Não se pense que a minha viagem a terras poeirentas, com estradas cheias de buracos, onde se conduz por onde der mais jeito e se passeiam vacas sem rumo, onde esvoaçam pássaros de cores que saltam à vista, serve apenas para ensinar algo a quem por aqui vive. Serve muitas das vezes para aprender. Aprender a dar valor a coisas singulares e simples do nosso dia-a-dia. Não falo de valores como o amor, a saudade, a família, os amigos… Falo de coisas bem mais simples. Hoje ensinaram-me que não devo brincar com os instrumentos de trabalho, não por poder danificá-los, mas porque aqui, e passo a citar, “não é permitido”. Ora andando eu com falta de coisas com que me distrair, e com uma fome imensa de ver o Braga jogar e de eu próprio dar uns chutos numa bola, vou dando uns toques com umas pedritas que me saem ao caminho. Hoje quando caiu um rolo de fita isoladora a um eletricista, resolvi não vergar a molinha para o apanhar, por me caiu mesmo aos pés, resolvi num jeito de quem se está a armar e tem a mania que é engraçado fazer um movimento brusco ascendente com o pé, o que levou a fita até á minha mão, e quando pensei que tinha feito uma grande coisa explicara-me que não era permitido brincar com instrumentos de trabalho. “Os instrumentos de trabalho são o que nos permite trabalhar, e ganhar dinheiro para comprar comida, logo os instrumentos de trabalho são a nossa comida, devemos respeitá-los”, foi mais ou menos assim que me explicaram, e foi assim que percebi porque como sempre massa com pimentos ao almoço e ao jantar… é que a minha ferramenta é sempre a mesma desde que cheguei! Já nem um chuto num rolo de fita posso dar. Amanhã avizinha-se um dia muito comprido, a explicação vem já a seguir.

27.11.12

Diario da India III - Dia 24


Hoje pensei em escrever sobre coisa nenhuma, nada aconteceu durante o dia que fosse digno de um relato mais ou menos detalhado capaz de entreter alguém que o lesse, ora pela minha falta de criatividade, ora pela falta de algo diferente, único ou simbólico. Nem mesmo ter acabado hoje a leitura de “O Evangelho segundo Jesus Cristo” (marco histórico para mim uma vez que só à terceira tentativa consegui ler a última página, a última frase, a última palavra) seria algo capaz de manter qualquer leitor atento. O jantar parecia mostrar-se na solidão. Numa mesa com doze cadeiras, apenas eu figurava num canto como quem tem vergonha de ser visto. A refeição é a mesma de sempre aos jantares e almoços, massa esparguete com pimentos e falta de alguém para conversar durante o jantar tornava a comida ainda mais desenxabida. A lata de bacalhau que trouxe de casa, desta vez continha dentro, além do bacalhau, do sal e do azeite, dois dedos de treta bem longos. Desengane-se quem pensa que falei com um bacalhau, ou com um pedaço de posta neste caso. Estive o jantar todo a falar com os serventes. Três nepaleses e um indiano. Tudo começou no momento em que abri a lata. Uma conversa num inglês muito mal explicado em que a linguagem gestual tentava fazer-se ouvir, simples palavras, simples gestos, pequenos desenhos, largos sorrisos… Perguntaram-me se o que comia era cobra, sabendo depois que era peixe perguntaram se era do mar, se eu era chinês, quanto era o meu ordenado, de onde vinha, onde ficava Portugal, como me chamava, qual a minha idade, se era casado, quando ia embora, mas tudo com muito respeito e sempre pedido licença para falar e perguntado se me estavam a incomodar e perturbar o meu jantar. Respondi que não, estava-me a fazer bem a conversa, estava a apreciar o quanto eles estavam interessados em falar com um estranho que come peixe do mar. Perguntei-lhes os nomes, que não decorei, perguntei as idades e disse-lhes que fazia anos na próxima quinta-feira. Só hoje me lembrei que fazia anos quinta-feira por causa de uma mensagem. De pronto me perguntaram se queria uma festa ou queria frango, disse-lhes que o frango aceitava mas a festa não porque não tinha cá os amigos, respondeu-me um num inglês meio aos soluços, na India tens quatro amigos, três do Nepal e um da India, nós somos os teus amigos. Palavras que me fizeram suspirar, no final fiz questão de os cumprimentar, mostraram-me toda a sua humildade. Não merecem o desprezo e o desrespeito com que são tratados diariamente, gostava de lhes mostrar um mundo diferente, fora da Asia, que lhes pudesse dar um novo futuro, mais decente, como eles merecem. Vou levá-los comigo, no coração!

26.11.12

Diario da India III - Dia 23


Várias vezes brinquei com a situação de dormir acompanhado na India, por insetos que me assaltavam a cama durante a noite principalmente a primeira viagem que fiz para cá, mas hoje, ao pequeno-almoço, foi proposto pelo gerente da casa que partilhasse o quarto, porque estava para chegar uma importante visita e não tinha onde ficar. Ora entre partilhar o quarto, que até tem dois colchões mas um só édredon, e mudar para uma casa com condições bem piores, lá acedi a passar duas noites “acompanhado”. Mais tarde deixou de ser necessário, e afinal até vou passar a noite sozinho. Entre o pequeno-almoço e o jantar nada mais fora da rotina habitual aconteceu que mereça destaque. Começo a ter dificuldade em encontrar algo para contar, algo marcante, que faça a diferença, que mostre o choque de culturas. Se calhar começo é a habituar-me eu a tudo o que por aqui acontece e tudo me parece banal, normal e nada me surpreende. Nem mesmo os tijolos feitos de uma matéria estranha que parecem ter o peso do mesmo volume em esferovite, e a verdade é que se desfazem como esferovite apesar de aparentarem ser tijolo-burro, daqueles que se fazem os fornos e as lareiras. Já tudo me parece normal, o sol que se esconde o dia todo entre a poeira, os portões e portões e portões que atravesso diariamente e que parecem apenas servir para dar emprego ao sem fim de seguranças que por cá se passeiam, as bicicletas com travões na roda traseira com chave (funcionam como um cadeado, neste caso fica a roda da bicicleta travada com chave), as lombas e as más suspensões dos TATA e dos Mahindra, tudo é banal e normal nesta terra, menos eu, eu sou o estranho, eu sou o português, eu sou o que vem de um país que a maioria nunca ouviu falar, eu sou o que tem ferramentas estranhamente funcionais e novas, eu sou o único a querer ir embora daqui, eu sou o único que não os entendo e sou o único que não me faço entender. Ao menos enumerei algumas coisas em que sou único!

25.11.12

Diario da India III - Dia 22


Nunca estive tanto tempo na em terras asiáticas, talvez por isso hoje tenha sido atropelado pelo cansaço. Não aguentei, senti a fraqueza e a falta de força nos membros, por muito que a mente ordenasse o corpo já mal obedecia e respondia em tempo útil. Tirei a tarde para um descanso, afinal de contas hoje é domingo e já não descanso há bastante tempo. Deixei as horas passar sem pensar em nada, fui lendo “O Evangelho segundo Jesus Cristo” de Saramago para entreter a mente, e ouvi música do mais variado possível para me abstrair do mundo onde estou. Já que falo no mundo onde estou, este tem sido um monte de cheiros muitos estranhos. Se à noite, junto ao escritório existem umas plantas que libertam toda a sua essência refrescante e acolhedora ao mesmo tempo, durante o dia por dentro do escritório inala-se o cheiro a criolina com que se limpa o chão, o mesmo cheiro da entrada de casa que se mistura no quarto com o cheiro a torrado do aquecedor, porque há por cá um nepalês que me acha com frio e teima em ligar-me o aquecedor do quarto. Cheiro mais estranho ainda tem um indiano que me vai auxiliando. O rapaz, sim rapaz porque é mais novo que eu e eu também sou um rapaz, tem um abundante, estranho e perturbador odor a fraldas ou a toalhetes. Não consigo explicar, mas um segundo depois de se sentir o cheiro começa a ser demasiado para ser suportável. Antes o cheiro dos quilos de incenso que por aqui se queimam por dia. Enquanto escrevia isto procurei insistentemente um cheiro que me tivesse marcado, mas só encontrei um, está em Portugal, a milhares de quilómetros de distância, mas sempre que fecho os olhos sinto o cheiro da minha flor… sabe tão bem!

24.11.12

Diario da India III - Dia 21


Dia 21, três semanas depois de ter aterrado no continente asiático. Nunca estive cá muito mais tempo que isto, mas desta vez quer o destino que fique cá por mais uns dias, talvez por ser a vez que me custou mais vir, a vez que me custou mais deixar alguém para trás, a vez que as coisas pior correm e mais me fazem querer sair daqui o mais rápido possível. Descobri hoje que na casa onde estou existem gansos, e descobri porque me acordaram perto das 5 horas da manhã com os primeiros raios de sol. Quando os olhos cerram já é só por cansaço, sinto-o no corpo todo, a cada movimento, ainda assim vou-me apercebendo das coisas engraçadas que a India tem. Há vários dias que uma música que parece saída de uma daquelas caixinhas chinesas me atazana a vida. Ouvi-a em três sítios distintos e separados, não conseguia perceber de onde vinha mas o certo é que me irritava. Ouvi-a em casa, no escritório e no armazém, raio de barulho de onde virá? Hoje consegui perguntar que barulho era aquele e explicaram-me que o barulho indica que a filtragem da água está em funcionamento. Qual o propósito? Não faço a mais pequena ideia. Por aqui já tinha notado também como mudam facilmente as expressões faciais das pessoas. Sempre que um superior está por perto, nota-se o medo e notam-se todas as palavras bem medidas e bem pensadas, porque aqui, quem manda pode. Para confirmar isso conto uma pequena história que tem o seu quê de cómico. Estava eu junto a dois Indianos que me ajudavam nas tarefas e um usava um capacete amarelo e o outro um capacete branco. Não sei porque que carga de água, o do ajudante do capacete amarelo decidiu tentar trocar com o capacete branco, tirou o seu capacete, tirou o outro mas nem chegou a fazer a troca, chegou o chefe cá do sitio perto de nós, acompanhado do chefe dos meus dois ajudantes e de mais meia-dúzia de pessoas e a primeira coisa que faz assim que chega perto nós é dizer bem alto “Estes dois estavam sem capacete. Vi este a tentar trocar o capacete com o daquele, e não adianta mentir. Por isso, 100 rupias de multa para este e 200 rupias de multa para aquele, com efeito a partir de agora.” Posto isto, foi embora à sua vida. Convém dizer que uma multa é pouco superior a 1 euro e a outra pouco superior a 2 euros, podia ser muito para outros trabalhadores, mas para estes até nem é. Curiosidades da India… Qual será a de amanhã?

23.11.12

Diario da India III - Dia 20


O sol quando nasce é para todos, hoje é dia de voltar ao sol que na verdade já sabe a inverno. Não ao nosso inverno, o inverno português, por aqui o sol queima menos, mas continua a fazer suar, nasce muito cedo e esconde-se por volta das 18 horas, reduz-me o tempo útil de trabalho, pois assim que ele se deita a luz artificial deixa de ser suficiente para iluminar o trabalho e a “mosquitagem”, que tem vindo a diminuir, invade-me o campo de visão. Faço apenas mais um esforço para pensar que hoje será um dia novo, uma nova realidade, um novo começo, cheio de força e de vontade, rumo à saída do túnel onde me esperam os braços mais aconchegadores do Mundo. A realidade em Chunar parece-me bem diferente, e apesar do pequeno-almoço em tudo igual aos outros, sinto-me mais aconchegado e sinto um tratamento mais simples apesar da grande dificuldade em se expressarem em inglês por aqui. À saída pedem-me para fazer um registo por ocupar o quarto. O empregado tenta dizer o meu nome e a verdade é que não fica muito longe da pronúncia, apenas a parte do Xavier soa estranha, mas mais à frente conto o porquê. Aqui não temos motorista, por isso, o caminho entre a casa onde dormimos e o escritório é feita a pé, na verdade são só 500 metros, não custa nada. A manhã parece arrastar-se, não há cá ninguém que trabalhe e volto a sentir aquela dor junto ao estômago e aquela revolta por não poder fazer o quero e o quero é mesmo começar a trabalhar para acabar o mais rápido possível. As horas passam, os minutos arrastam-se a espera termina algumas após o inicio, pouco tempo sobra até ao almoço, faz-se o que se pode. Volta-se a caminhar para o almoço, desta vez comida sem picantes, e ainda um fantástico pedaço de pão imaginem só. Um pão muito parecido com a configuração de um molete de São José, com a mesma capa e mesma textura, mas sem o sabor adocicado, sabia apenas a pão, nada mais, que bem me soube. Ao entrar no quarto reparo no porquê da estranha pronuncia, tenho o meu nome escrito na porta e é algo parecido com “Rvi Xravier” e quem o pronuncia em vez de ler “xis” no início de Xavier lê “Exz”. A tarde rendeu mais, as pessoas aqui parecem mais empenhadas, mais capazes, mais trabalhadoras. A falta de motorista levou-me a experimentar algo que se revelou uma boa injecção de adrenalina. Apanhei boleia de uma mota! Não andava de mota à cerca de 10 anos, e andar de mota a fintar camiões, carros, bicicletas e pessoas é uma experiência fenomenal, sobretudo se for feita na India e a 30 km/h. Hoje começo a reparar bem no meu quarto. Em vez de uma cama gigante reparo que afinal tenho duas pequenas camas juntas, não me importo porque só utilizo uma delas, tenho ainda uns chinelos que não são meus, uma dúzia de capas de arquivo num armário, umas botas numa gaveta e uma mala de viagem por cima do guarda-fatos, conclusão, este quarto pertence a alguém, espero que não volte enquanto cá estiver eu.

22.11.12

Diario da India III - Dia 19


É bem cedo que se toma hoje o pequeno-almoço. Dizem-nos que temos 5 horas de viagem pela frente, e se queremos chegar ao destino pela hora de almoço, devemos então partir bem cedo. Estamos prontos e falta apenas o motorista e o carro. Aguardámos. Aí vem um carro… não, não é este. Aguardamos mais um pouco, sento-me na mala com todos os meus pertences e pouso a mochila que me pesa nas costas. Sinto o nervoso miudinho querer aproximar-se, as perguntas sem respostas que sempre me martelam a cabeça vão e voltam. Que terá acontecido? Terão voltado atrás na intenção de nos deixar ir? Ficaremos cá mais tempo? Não me consigo distrair, mas eis que entretanto chega o motorista de sempre e o Jipe de sempre para nos levar a Chunar. No pouco inglês que se consegue perceber, explica-nos que só hoje de manhã lhe disseram que teria de ir a Chunar, mas ao que consigo constatar, e que mais tarde confirmei, ele sente-se feliz por fazer esta viagem e faz questão de dizer isso mesmo a toda a gente que encontra. Lá partimos, apesar de atrasados temos de regressar ao escritório 5 min depois da saída. Ao telemóvel dizem-nos que nos faltam uns papéis. Mas que papéis! La vamos buscar os ditos papéis e retomámos o caminho para casa de um indiano hipocondríaco que nos acompanhará na viagem. Com toda a sua calma e todo o tempo do mundo convida-nos a entrar em sua casa. Uma casa, para mim, como tantas outras, com entrada direta para a sala de jantar, ao fundo uma porta para a minúscula cozinha, à esquerda uma porta para um quarto, o dos miúdos, e à direita o quarto do casal. De salientar que todas as divisões são separadas por uma simples cortina. O chão é em cimento, coberto a espaços por carpetes, no teto uma lâmpada ilumina toda a sala, as paredes são onduladas e amareladas, e o exterior é quase todo ele em tijolo, daquele tijolo que só se encontra por cá. Na rua estão as vacas que por aqui se passeiam e fazem da rua como sendo sua, um vizinho traz comida para esta pequena cinzenta que aparenta ser mãe daquela que come de outro prato mais lá à frente. Do outro lado da estrada fica uma escola, e cá de fora consigo ouvir o coro de vozes das crianças, não as consigo ver e ainda bem, pois o rego de esgoto e lixo a céu aberto que fica entre a estrada e a parede da escola ia-me fazer sentir ainda pena daqueles pobres inocentes. Assim consigo imaginá-los imunes e protegidos destes mosquitos que transportam todo o tipo de doenças que caibam dentro deles. Partimos então por uma estrada que nunca vi, é a estrada em sentido oposto ao aeroporto de Kajuraho. Tentei de inicio captar tudo o que visualizava para poder reproduzir por palavras, mas a verdade é que ao fim de poucos quilómetros me consegui aperceber que seria tudo igual. As vacas presas nas árvores, os discos de uma espécie de lama e palha que secam ao sol e que não me atrevo a perguntar o que são, a miséria, as caras de fome, a pobreza, as lojas ambulantes, a fruta à venda sem condições nenhumas, os garagens de reparação de bicicletas, as buzinadelas de quem passa, o mesmo cheiro, o mesmo pó e os mesmos camiões. Faz-me confusão como são os indianos capazes de caberem em espaços tão minúsculos e ao mesmo tempo terem a força e a destreza de algo que parece impossível. Dentro de um carro, em tudo semelhante àqueles de caixa aberta que não necessitam de carta e que levam normalmente o condutor e um passageiro, cabem aqui 7 pessoas, que eu conseguisse contar. Mais à frente um sujeito de bicicleta, montado na bicicleta, transporta 6 botijas de gás. Uma em cada punho do guiador, mais duas de cada lado na parte de trás junto ao selim. Acredito que as botijas estivessem vazias, mas mesmo assim é, para mim, um feito que merece referência. Acabo por cair no sono. Não um sono muito pesado porque o indiano hipocondríaco tem uma voz muito aguda e que me provoca uma espécie de ruído nos ouvidos, e porque os buracos e lombas da estrada (que me fizeram por mais que uma vez bater com a cabeça no tejadilho do jipe) também não me deixam sossegado. Após a pausa para esticar as pernas, numa berma da estrada onde se cozinha ao ar livre e onde existem umas camas de vime ou arame para quem se quiser deitar, voltámos à estrada. Desta feita vou no banco da frente, o indiano foi lá para trás contar a história cronológica dos Deuses Hindus. Confesso que sentar-me no banco da frente esquerdo do jipe, sem pedais e sem volante me faz confusão, mas continuemos. O motorista avisa que esta estrada é a boa, a próxima será pior ainda, pergunto-me como mas rapidamente percebo que é por isso uma boa altura para dormir. Mais buraco, menos lomba, lá fui fechando os olhos a espaços e de uma das vezes que os abri encontrei-me no meio da selva. Sinto-me no cimo de uma montanha. Vejo à frente um enorme vale, onde fica então Chunar. Descemos uma estrada que se serpenteia formando “esses” quase impossíveis de atravessar por certos camiões, a verdade é eles atravessam, não têm outra estrada, mas também é verdade que avariam. Não é um bom sítio para avariarem os camiões ou haver um acidente, se é que há bons sítios para isso. Aqui, onde não há rede de telemóvel, onde se veem marcas de derrocadas não muito antigas, é talvez o pior sítio para se ficar parado. Isto para não falar nos assaltos e nos ataques feitos durante a noite por quem mora aqui misturado com os macacos. Realmente esta estrada é pior que a última. Mais uns solavancos, mais umas curvas e mais uns buracos, lá acabamos de descer a montanha e chegámos, hora e meia depois, à fábrica de Chunar. Nada de diferente de Rewa ou de Baga à primeira vista. Os mesmos uniformes, os mesmos portões, as mesmas lombas, a mesma sinalização e os mesmo nomes. Chegados à Guest House, somos recebidos com um carinho a que já não estava habituado, confesso. Sinto que existe aqui um ambiente mais calmo, descontraído, um maior sossego, coisa que já não sentia há vários dias. São cerca das 14 horas, já passa um pouco da hora de almoço e a fome é tanta. Um tenente coronel reformado, recebe-nos à porta e senta-se para almoçar connosco à mesa. O bigode farfalhudo branco e curvado para cima nas pontas, os óculos redondos e o cabelo grande fazem dele uma pessoa que transmite boa disposição. Apesar da fome apertar, ninguém avisou o cozinheiro que nós não comíamos nada picante. Temos de comer à força toda comida indiana. Eu fiquei-me pelo arroz branco, cozido e sem sal, sem sabor nenhum, o famoso “roti” também chamado de “chapati” e uns feijões extremamente picantes que só comi porque tinha mesmo muita fome. Pedimos que para o jantar nos preparassem massa, sem qualquer tipo de picantes. O senhor do bigode explicou isso ao empregado em hindi. Comemos a sobremesa em seguida, pela primeira vez na India saboreio uma laranja, que saudades eu tinha de uma laranja, tomamos café e assim que pedimos licença para nos levantarmos da mesa informam-nos que a massa demora apenas 1 minuto a ser servida… quem é que não percebeu que era só para o jantar? Não consigo comer massa. Desculpem, mas não consigo mesmo… Meia hora de descanso para nos restabelecermos da viagem atribulada e é tempo de conhecer a nova fábrica, as novas gentes, o novo mundo, o novo projeto. Apresentado a um Indiano com uma cicatriz enorme na parte de trás do crânio que se prolonga até ao inicio da espinha dorsal, espero pelo jipe que me levará até ao escritório que servirá de quartel. Percebo que a distância nem é assim tanta, cerca de 500 metros, em terreno plano e a direito que se podem muito bem fazer a pé. Mais um indiano, outro e outro e mais um ainda. Gente muito nova com nomes muito diferentes dos que eu utilizo normalmente e que me dificultam a sua memorização. Na verdade é impossível decorar os nomes deles sem que estejam associados a alguma mnemónica. Após os cumprimentos da praxe, lá voltamos ao terreno. Percebo que a organização aqui é bem maior, mais exigente e mais apertada. Percebo também que o trabalho deles está extremamente atrasado, queixam-se eles da falta de conhecimento das tarefas que deviam executar e queixo-me eu da minha falta de sorte. Ainda assim transmitem-me alguma confiança, uma confiança que nos últimos tempos eu não conseguia encontrar, uma vontade de triunfar, de conseguir acabar. Sinto uma lufada de ar fresco, ganho ânimo e sinto-me capaz de coordenar os trabalhos em parte não desiludindo quem confiou em mim. Levo essa confiança para a mesa do jantar onde a comida já não é picante mas a água também não é engarrafada, onde me sinto tratado com uma ponta de carinho e onde provo uma espécie de pão como o que como em casa. Regresso ao quarto, onde não tenho internet, e apercebo-me que no meio destas aventuras todas os meus telemóveis estão sem rede. Estou incontactável. De cada vez que perco o sinal de rede nos telemóveis, tenho de selecionar a nova rede manualmente, não o fiz depois de descer o monte onde não existia rede, percebo que nenhuma das mensagens que enviei para casa a dizer que tinha chegado bem ao destino foi entregue. Entro em pânico e apresso-me a resolver o problema. Toca o telemóvel finalmente e sinto um aperto enorme no peito. Do outro lado soluçava-me uma voz que temeu que tivesse corrido alguma coisa mal. Enchem-se os olhos de lágrimas, aperta-se o peito, doí a alma e desejo vir embora a todo o custo novamente. Perdi momentaneamente a boa disposição que tinha ganho. Apetece-me desistir e “teletransportar-me” para os braços quentes e aconchegadores da dona da voz. Não o consigo fazer, vou dormir com o remorso, com a dor e com a frustração. Dói porque te amo.