18.11.15

Apelo ao degelo


É o gelar que me incomoda! Cresce em mim a vontade de sair a correr pelo mundo fora e soltar o grito ensurdecedor de um qualquer Deus poderoso o suficiente para todos o temerem. Pode ser de um Zeus e do seu trovejar, pode ser de um Noto e das suas tempestades de vento, pode até ser de uma Ganesha com toda a sua sapiência. No entanto é a gelar que me sinto, incapaz de reagir, entorpecido pelas gotas de gelo que prendem os movimentos, os pensamentos, os sentimentos... Não é o frio que me gela, é o medo, o receio de estar vivo, o desespero de acordar para viver o mesmo dia outra e outra vez. Falta-me o saber, o poder e por vezes o querer confesso. Ainda acredito na possibilidade de retroceder, continuo a esforçar-me para me ir movimentando, mas começo a ficar cansado, o ar rarefeito nada ajuda, os pingos minúsculos de água entram-me pelo nariz e alojam-se no cérebro, estão a gelar-me por dentro. Aos poucos sinto o coração a desacelerar, e a vontade de o contrariar a diminuir, estou a deixar-me ir, estou a gelar! Ajudem-me se me virem por aí gelado…

9.9.15

Bandeira negra


Desisto! Rendo-me à imbecilidade generalizada por desgraçados desprovidos de neurónios ou sinapses suficientes que os liguem de forma a funcionar devidamente. Chateia-me a desinformação e incomoda-me a carneirada guiada pelo encaracolado pelo dos seus semelhantes. Gostava que parassem todos para pensar, mas não estão cá para me agradar, não o façam forçadamente. Eu desisto. Desisto de vos tentar compreender, desisto de tentar encontrar lógica nas razões que me tentam mostrar, desisto de tentar perceber toda a desinformação que me rodeia. Ergo assim uma bandeira negra, não negra como o futuro que preveem, mas negra como a vossa alma, o vosso interior e a vossa vontade. Ergo uma bandeira negra de rendição como sinal do luto, de desistência e de incomodo pelo caralho da desinformação generalizada…

28.6.15

Inércia


É a inércia que culpo. É a característica que todos os calhaus têm, sou mais um inerte. Não tenho vontade, não tenho energia, não tenho capacidade, não tenho apetite. Perdi tudo isto num bolso roto das calças de usar à semana, perdi porque tive preguiça de o coser, tive preguiça de pedir que mo cosessem. E a quem culpo? Culpo a inércia por se ter apoderado de mim. Bebi-lhe a essência, mordi-lhe o saber e absorveu-a o organismo espalhando-a por todo o corpo. Tenho-a toda em mim, tenho uma dor que me aperta e tenho medo, medo do amanhã, medo do agora, medo do que sou e do que já não fui, medo do que poderei ser amanhã, medo do que de mim farão amanhã, medo da inércia… vai-te embora inércia, vai-te embora inércia… vai-te embora e deixa-me ao menos escrever!


Imagem daqui

7.3.15

Sou o Noto hoje, e isso...


Sou o Noto hoje, e isso causa o nevoeiro temido, intransponível, gélido, opaco e gritante. O sopro travado antes vai agora quebrar um entrave tornado invisível. Vai entrar sem soçobrar e sem indicar de onde vem. Entrará rápido devastando a demência entranhada, banhando-te essa ideia já antiga sem temer encontrar mais entraves. Rodopiando, o mundo inteiro navega atrás de um sonho, de um sopro, de um vento… É o Noto que vos baralha e vos distorce a verdade. É o Noto… E eu, sou o Noto hoje, e isso…

23.2.15

Não sei o que é



Vejo-a crescer e ainda mal acredito. Ainda não caiu a ficha. Não me sinto ansioso, vejo apenas as mudanças que à minha volta vão acontecendo. Uma chupeta, um babygro, uma babete… Será tudo isto real? Palpável é. São muito ténues as mudanças que mais noto, porém algo me cresce no peito, não consigo identificar o que é. Assemelho a um fogo, um ardor, é forte mas não dói. Está a preencher um espaço que sempre esteve vazio. Olho-me ao espelho, brilham os olhos no reflexo, talvez a barba cerrada ajude, mas é um brilho diferente, como quem se sente orgulhoso mesmo sem se aperceber. Não me controlo, não controlo as emoções e o que sinto, não mando em mim, cresce cá dentro novamente uma réstia de inspiração para dedilhar o teclado num emaranhado de letras. O que está a acontecer comigo? De onde vem tudo isto? Há uma nova força, uma nova energia, um novo querer! É-me tudo tão estranho… Vou ser pai, e apesar de tudo isto não acredito! Não acredito! Sim, tudo isto foi escrito com um sorriso e não, não sei de onde ele vem… Vou mesmo ser pai…

21.10.14

Distúrbio de letras



Saudade do sossego, de ouvir o silêncio e de o perceber a cada pausa. Saudade da paz interior que antes me explodia pelo poros, saudade da calma, saudade de sentir o bater do coração e saudade de ter tempo para o escutar simplesmente a bater sem que nada nem ninguém lhe peça para tal. Saudade de reparar em nada, saudade de deixar fugir o que tudo parecia sem que isso ganhe mais importância que a que realmente tem… nenhuma. Saudade de não pensar no amanhã, no logo, no daqui a pouco. Saudade de sentir o frio roer-me os ossos, de sentir o vento gelar-me a cara. Saudade dos gritos mudos que apenas os surdos compreendem, ninguém melhor que eles para lerem os olhos. Esses não mentem, brilham… Brilham. Saudades do brilho, do sorriso e da felicidade ligeira. Saudade da despreocupação e da falta de objetivos. Saudade de navegar à deriva ao invés de à bolina. Saudade de escrever e não ter tema, saudade de desencaixar o subconsciente e de sair de dentro de mim. Saudade de não saber quem sou, saudade de não ter futuro, saudade de não ser, saudade de não viver… Saudade de não sentir saudade.

27.8.14

Seu parvo!


Existirá uma meta? Será que corremos numa maratona sem fim? Valerá a pena o esforço, o suor, as lágrimas, as dores? Apetece-me parar, sentar-me, cruzar as pernas e calmamente ver os outros passar, dar-lhes força para que continuem sempre na procura do que eu deixei de crer que exista, o cruzar da meta, o momento de glória dos que finalizam não interessa o lugar, a felicidade de lá chegar, o sentimento de realização que tão bem nos faz ao ego. “Que parvos!” – exclamaria eu. “Isto é apenas um círculo! Corram seus parvos, corram cada vez mais!” e ficaria só, seria motivo de chacota, seria o parvo que nada busca, o que deambula, o que não sai da cepa torta. Mas não será isso que eu sou? Porque corro afinal se nada muda? “Isto é um circulo seu parvo! Mas corre, corre que um dia… vais voltar aqui outra vez. Seu parvo!”

17.5.14

Medo



Medo. Medo do que aí vem, medo do que tenho e medo do que me possa faltar. Tenho medo… medo do som do gatilho e do esticar da corda. Medo do presente e do desconhecido futuro. Receio perder as forças, o crer e a vontade de ser e de existir. Conseguirei aguentar tumultos, tempestades  e eventuais atrocidades? Em mim existe hoje, além do medo, a dor… A dor de quem mente enquanto sorri, a dor do aperto no peito pela falta de autoconfiança, a desconfortável dor que me tolhe o pensamento, que me mói a alma e mata aos poucos. Fui atropelado pelos pensamentos que se amontoam, não os consigo tirar cá de dentro, não os consigo abrandar, não consigo viver!

4.11.13

Cedendo



É difícil erguer a cabeça se ma empurram para baixo. É difícil respirar no limite da água, que ora me deixa respirar por meio segundo num socalco, ora me sufoca entrando-me pelo nariz com sofreguidão. É difícil viver de mãos atadas, de peito apertado e com medo. Medo de tudo, medo de todos. Medo de ti, medo dele, medo dos outros, medo que me tirem o que me resta, medo que nada mais reste quando pouco me tirarem, medo de viver, medo de (ainda) cá andar, medo de sorrir sem me arrepender. Este não sou eu, busquem por mim num outro sítio, mais florido, mais luzidio, menos problemático, menos apático. Este não sou eu, tirem-me de mim, levem-me o que me mata… ou então deixem o que me mata, e levem-me só a mim daqui. Já não consigo ir pelo meu próprio pé…


22.10.13

Luto


 
 
De luto, luto para não ficar de luto.
Luto para derrotar o luto,
Quero vencer o luto.
Devo para isso ser astuto,
Mas falta-me vontade e talvez estatuto.
Luto por um olhar enxuto.
De luto, escrevo num minuto
A dor que no peito refuto.
Morreu-me a alma, pôs-me de luto.
Foi-se-me a força na gargalhada de um puto.
Estou de luto porque afinal já nem sequer luto.