15.12.10

Recado


Pudesse eu não te sentir doer
Sem significar que não existisses,
Pudesse eu a tua dor sofrer
Para que bem tu te sentisses.
Não seria mais pobre do que sou
Nem ficaria a minha alma mais ferida
Por não sair do sitio onde estou
Mesmo que no chão esteja escrito partida.
Não tenho vontade de voltar a correr
Nas veias da vida que me sustém,
De sangue já me fartei ser
Por não ser derramado por ninguém.
Só te peço que pares de me bombear
E me deixes ficar aqui, quieto,
As minhas mágoas a soluçar
Sem ter de sentir qualquer afecto.
Deixa-me ficar com o que te mói,
Deixa-me sofrer por ti,
Para poderes dizer que já não dói,
A lágrima que cair não vi.
Reduz-me à insignificância que tenho
Desdenha-me até te sentires leve,
Culpa-me pela falta de empenho
Do recado que esta mão escreve…

17.11.10

Não sei voar

Não dançarei a valsa que me tocas
Por não ter asas que ma deixem voar,
Tornaram-me a alma e a mente ocas,
Sem sentimentos… abafo, sem ar.
Cortara-me me as asas e já não te acompanho,
Não tiro, assim, ao teu esvoaçar beleza
Por entre jardins e prados floridos
Restando em mim apenas a fraqueza
De rastejar por mundos descoloridos
Monocromáticos, tristes e sem vida.
Apenas a dor de uma trovoada imensa
E da penosa chuva agora aparecida
Fica só o amolecer da caminhada extensa
Em busca da felicidade que não me apetece
Apaziguando a dor que me endurece
Me torna menos sentimental
Já que eu nem sequer sei voar afinal…

16.11.10

Ergue-me

Custa voltar a erguer a espada
Que antes caiu por falta de força.
Antes que o meu pescoço torça
E a minha alma seja iluminada
Deixa-me só soltar um grito,
Juro que não te peço mais nada,
Apenas que não me deixes aflito
E deixes sair estas palavras quentes
Presa nas cordas da garganta
E ameaçadas de morte pelos dentes
Que este vociferar espanta.
Só queria apagar esta dor
E voltar a ter o mesmo fulgor
De tempos que já mal me lembro.
Talvez tenha sido outro Novembro
Mais frio, menos chuvoso
Por entre o cheiro do gelar gostoso.
Não sei, já não sei nada…
Sei que me caiu a espada
E não a estou a conseguir erguer
Resta-me apenas a vontade…
Já não sei do querer…
Não me mintas, diz-me a verdade!

31.10.10

(Já) não sou poeta

Não sei de onde apareceu
Tamanho saber para pôr em escrita
O que escondo por baixo do véu
Que cobre esta mente aflita
E me faz mostrar uma paz interior,
Um sorriso na cara que nem sempre apetece,
Mas que me faz pensar ser superior
A este inverno que me arrefece.
As mãos geladas são o prenuncio
De que algo está em mudança em mim,
Um golpe infligido sem anuncio
Parece a este dom ter mostrado o fim.
Acabou-se a facilidade de versejar,
Os poemas já não fazem sentido
Não sou mais capaz de rimar
Um verso com um sentimento escondido.
Perdi a minha veia poética,
Algures na cama onde me deito,
E não quero o excerto de uma sintética
Que me fará rimar o que não sente o peito.
Há-de ela, voltar um dia
Para este corpo que me carrega alma
Que por agora não conhece alegria
Por lhe faltar o dom que a acalma.
Lá se foi o meu alento
Arrefecido pelo frio, diluído pela chuva,
Levado para longe por este vento
Que me devolve a visão turva
De uma vida que nem sempre é boa,
De um sorriso que por vezes é triste,
De um amor que também magoa
E de uma saudade que afinal existe.
Por agora não lhe encontro o jeito
De os sonhos voltar a rimar
Mas não dou valor à dor no peito,
Sei que um dia ela há-de voltar…

24.10.10

Quem és?

Voltei para um mundo
Que afinal já não é meu.
Deixei de lhe conhecer o fundo,
Conheço-lhe agora apenas o céu.
O mesmo céu que me trouxe de volta
Para junto dos velhos conhecidos
E me atirou para uma roda solta
Cheia de estranhos apetecidos.
Confundem-me as investidas
De quem antes me ignorava
Por tornar em tão repetidas
As visitas onde antes estava
Apenas eu, e o meu mundo.
Aquele que eu idolatrava
E onde nunca sequer por um segundo
Tanto desconhecido nele entrava.
Não sei que raio se passou
Se terá sido pela pequena ausência
Mas alguém aqui esteve e mudou
O mundo que era meu e a sua aparência.
De entre todos há quem me vicie,
Por ser diferente nas suas conversas
Faz com que goste e aprecie
O que me diz, e não tenha pressas
De sair para outro lugar
Onde não a consiga ter,
Pois apesar de não lhe chegar
Algo me nasce dentro do ser
Que me faz ficar colado
A quem afinal mal conheço,
Mas depois de cá ter entrado
Estranho a hora em que me despeço.

18.10.10

Diário da Índia - Dia 25

É hora de deixar a Índia para trás e partir rumo à Europa. Após a longa espera, lá se abrem as portas do que neste momento apelido de céu, e apesar de um pequeno entrave no passaporte que quase não me deixava embarcar, lá atravesso a porta rumo ao sonho e entro no boeing 747 que me vai levar até Frankfurt onde espero chegar ao amanhecer. A ânsia de voltar a ver e de abraçar os amigos que lá deixei, a família e todos os que comigo se preocuparam nestas últimas semanas faz-me sentir que esta viagem vai ser longa em todos os aspectos. Vai-me valendo o cansaço que me faz adormecer e acordar já quase a meio da viagem quando o sol começa a nascer. Entretenho-me com um filme e deixo que o resto da viagem se vá fazendo por entre as nuvens. Aterro finalmente em solo germânico e à saída do avião sinto arrepio na espinha provocado pelo 3ºC que aqui se fazem sentir. Após 3 revistas à minha pessoa e aos meus pertences lá entrei no terminal que me vai levar até casa, mas onde tenho de ficar ainda cerca de 5 horas a penar… O dia que antes estava cinzento, esta agora mais brilhante e quente e entro no ultimo avião que me leva de regresso a casa. Ainda mal consigo acreditar que vou voltar ao meu sossego, que vou voltar para junto de quem mais gosto, que vou finalmente receber aquele abraço apertado, aquele carinho que tanto desespero, aquelas palavras de conforto… Mal posso esperar… Foi talvez a viagem mais curta e a que mais tempo durou na minha cabeça, mas assim que as rodas do avião tocaram o chão apeteceu-me cerrar os punhos e gritar bem alto, não importa o quê! À chegada a casa travo uma lágrima que quer sair, abraço quem me espera e respiro de alivio. Finalmente cheguei, finalmente estou em casa… Acabou a aventura!

17.10.10

Diário da Índia - Dia 24

Hoje não deixei o despertador tocar, despertei eu primeiro que ele, a ânsia de voltar é tanta que acordei antes do tempo e levantei-me logo. Acordei o meu vizinho de quarto e apressei-me a ir tomar o pequeno-almoço. Sem saber ao certo se realmente ia-mos partir ou não, enfiei as malas no carro e fomos esperar pela resolução da reunião que iria decidir a nossa partida, ou o retardamento da mesma. É inacreditável como tão perto do fim ainda não sei se será mesmo o fim, ou apenas uma pedra no sapato dos dias que se avizinham… Temos como limite para a partida as 9h da manhã, a reunião começou às 8h30 e o meu estômago esta prestes a explodir de nervos, já não consigo controlar o abanar das pernas constante nem os suores que me percorrem o corpo… São 9h03m, acaba a reunião e a decisão é favorável à nossa partida, despedimo-nos rapidamente e metemos pés ao caminho que em 300Km nos separa do aeroporto, aquele que tem ar de uma central de camionagem. Por entre vacas, cascatas, calafrios, ultrapassagens arriscadas, carros e motas enviados à valeta, buzinadelas aqui, ali e acolá, lá chegamos ao aeroporto, agora já me consigo rir, finalmente vou embora da Índia, finalmente vou para Portugal, mas tenho ainda um longo caminho a percorrer. Ao fim de 3 horas de ter levantado voo de Kajuraho, aterramos em Delhi, e uma vez dentro do aeroporto, limitamo-nos a esperar 10 horas pelo voo atrasado uma hora que nos levaria de volta a Frankfurt durante a noite, numa jornada de cerca de 8 horas. Sem nada para fazer, tentou-se matar o tempo com algo que tapasse o buraco no estômago e principalmente a dormir, ou pelo menos a tentar…

16.10.10

Diário da Índia - Dia 23

Hoje será o último dia completo que passo cá. Por entre o registo fotográfico do trabalho cá deixado e a visita aos novos equipamentos por parte de quem mais ordena por aqui lá se foi passando a manhã. De tarde fez-se a reunião e deu-se por concluída esta fase de instalação de equipamentos. Depois de uma nova visita a Rewa para nos despedir-mos da cidade que não deixa grande saudade, foi hora de encontrar alguém que nos ofereceu uma imagem de um Deus para trazer de recordação, e à chegada à casa de hóspedes um balde de gelo se abateu sobre nós. Era já noite quando decidimos ligar a agradecer a hospitalidade num acto de cortesia. Do outro lado do telefone informam-nos que temos uma reunião marcada para amanhã às 8h30 da manhã e nem as nossas tentativas de recusa devido à forte possibilidade de perder o avião serviram para recuarem na decisão. O desalento estampou-se na minha cara e foi sem vontade que acabei de fazer a mala, o jantar ficou a meio, e não conseguia encontrar solução para contornar o problema. Liguei para casa mas não disse que afinal podia não ser feito amanhã o meu regresso. Resta-me dormir, secar as lágrimas, e esperar que amanhã as coisas se resolvam rapidamente, temos apenas 30 minutos de folga para concluir a reunião… Eu preciso ir embora!

15.10.10

Diário da Índia - Dia 22

Com o fim cada vez mais perto, os dias começam a ser menos pesados. Pesado fica apenas o tempo que teima em não passar. Olho para trás e começo a ver o que deixei feito, as aventuras que passei, as lágrimas que deixei escorrer, os choques de culturas constantes, todas as marcas que ficarão para sempre gravadas nesta vida que faço por ser minha. Falta ainda um dia de trabalho, que apesar de aqui ser feriado, eu não o vou gozar por completo. Nesta espécie de vila fechada do mundo exterior, a minha história está prestes a encontrar o fim de um capítulo, comigo vou levar as novas amizades, o carinho com que fui tratado, e as lições de vida dadas por quem pouco mais pode dar, mas que o pouco que tem, dá com todo o gosto, levo os sorrisos sinceros das crianças que me acham piada por ser diferente, por não usar bigode, por vestir de maneira diferente, por eu não os entender e eles não me entenderem a mim, por acharem que saí da televisão que eles têm em casa, mas que ainda assim não têm medo de mim, e sorriem porque são felizes com o pouco que têm. Amanhã é dia de acabar de preparar a mala e dar meia volta ao mundo em 2 dias, para ver o que de mais precioso deixei em Portugal… Até já!

14.10.10

Diário da Índia - Dia 21

Esperava um dia mais leve, mas as poucas horas dormidas fizeram-me sentir o dia a arrastar-se por entre o pó dos camiões, os pneus que rebentam levantando uma poeira comparada a uma granada e uma dor de cabeça que me deixou louco! Começa a chegara hora da despedida desta terra que tem agora a minha marca. Gostava de ajudar algumas pessoas que cá ficam, porque sinto que me deram muito apesar do nada que têm. Por vezes era o sorriso deles ou as palavras que eu não entendia e que eles a custo me quiseram ensinar que me faziam encarar o dia com outro sorriso, com outra vontade, com outro gosto. Gostava de os poder ajudar, de lhes poder agradecer, de lhes poder dar uma vida melhor, porque sem dúvida que merecem, e de certeza que não tiveram outra escolha. Amanhã será possivelmente o último dia de trabalho, talvez já mais calmo com pequenos retoques e afinações, e com o registo fotográfico para catalogar todo o trabalho aqui dispendido. A ver vamos como corre, ou se na verdade vai ser mais um que se arrasta…

13.10.10

Diário da Índia - Dia 20

E ao vigésimo dia nada mudou. Continuo cada vez mais cansado, sedento de carne, com vontade de ir para o meu país e deixar este continente que piso pela primeira vez. Cada vez me custa mais trabalhar, sinto o corpo dorido e a pedir descanso, adormeço em qualquer canto e esquina sempre que paro de trabalhar, começo agora a perceber a falta de rapidez dos indianos. Eles são assim porque não podem ser de outra maneira, quem trabalha 6 dias e meio numa semana de 7 dias tem de se poupar para aguentar. Apesar de tentar distrair o pensamento entre piadas e atitudes que me fazem tentar alterar o humor e o estado de espírito, não consigo esconder o desligar cerebral que me transporta a mente até Portugal, aos braços de quem me quer bem. Como se já não chegassem as saudades das pessoas e da comida, hoje veio ainda uma vontade imensa de conduzir… que virá amanhã? Para consolo valeu fazer os testes finais e verificar que já está tudo a funcionar, passaporte carimbado para regressar à base, está quase!

12.10.10

Diário da Índia - Dia 19

Continuo sem me habituar ao sol e ao calor. Acordo com o termómetro a marcar 32ºC e consegue rondar durante o dia os 40ºC. Eu passo o dia ao sol, e consigo até sentir a camisola a queimar-me a pele. Aqui tudo queima, as portas dos carros, as ferramentas esquecidas ao sol, os equipamentos que ando a montar, tudo o que recebe a luz do sol. A água é bebida quase sempre morna ou natural porque por muito que se tente encontrar uma sombra para a esconder ela acaba por aquecer. O meu corpo não se habitua e de cada vez que saio lá fora é como se levasse uma chapada que me tolhe o corpo e me tira toda a força, custa respirar com o calor mas custa ainda mais quando o pó do cimento faz parecer que está um dia com nevoeiro intenso. É um país diferente, uma cultura estranha para mim, onde se oferecem doces nos templos, onde andar com uma marca no centro da testa é normal e ninguém faz caso disso, onde os camiões não terem portas ou vidros é normal, onde comer com uma faca é ser estranho, onde jogar futebol e saber as regras é algo de fenomenal, é a Índia, um país que se orgulha de afirmar que na Índia tudo é possível, até mesmo um português cá vir, fazer amigos, e aprender um monte de coisas a nível de sentimentos e de valores morais. Já levei a minha bofetada de cultura, agora preciso voltar ao ponto de partida, que será a minha chegada, preciso voltar à minha normalidade, e lembrar para sempre estas diferenças que começam a ser cada vez mais iguais!

11.10.10

Diário da Índia - Dia 18

Começou a contagem decrescente num dia que nada tem de diferente dos últimos, o mesmo cansaço, a mesma falta de ânimo, o mesmo desgaste que me carrega nos ombros e que só vai sendo acalentado pelas palavras recebidas por telemóvel. Deixei o dia ir passando enquanto me tentava distrair com o trabalho, mas o pensamento cravou-se numa espécie de retrospectiva de todo o trabalho que por aqui já fiz e não me deu vontade de continuar, senti-me fraco demais para poder erguer a mão lutar contra todas estas forças. Não me sinto capaz de me animar, e continuo a mentir, mas pior do que tudo é que comecei a tentar enganar-me a mim próprio, comecei a tentar negar a falta que me faz acabar com esta ausência insistente, comecei a tentar negar a necessidade de desabafar, comecei a tentar mentalizar-me que chorar não ajuda. Preciso de um novo fôlego, estou exausto, tolhido, perdido. Preciso de um abraço, de uma carinho que me diga que tudo vai correr bem, de uma palavra que me faça ganhar força e lutar contra tudo e todos. Já não há aventura na Índia, apenas o passar dos dias que penam, já nada é novo, nada me entusiasma a ver o dia nascer, os insectos já são menos, ou já me habituei de tal forma que nem os noto… Seja como for continuo aqui, e é com isso que tenho de contar!

10.10.10

Diário da Índia - Dia 17

Hoje é Domingo, e para mim é o terceiro em que não descanso, porque alguém assim o quer, e porque não tenho eu direito a opção. É o dia do arranque, um dia importante para todos, o dia da inauguração, e a tradição nas inaugurações aqui é bem diferente do nosso tradicional abrir de champanhe. Por cá fazem-se oferendas aos Deuses para afastar os males, e para isso oferece-se ao servidor, aos computadores e aos sistemas montados, bananas, cocos e doces… Num ritual estranho partem-se os cocos e derrama-se por cima do que se quer proteger. Lá se fez a inauguração, e lá se passou a parte da manhã. À tarde, que voltou a não ser de descanso. Tive uma enorme surpresa que me ajudou a alegrar. Um miúdo de 16 anos veio ter comigo e tentou falar comigo em inglês. Era muito educado e estava sempre muito atento ao que eu lhe ia dizendo, na conversa confessou-me que era a primeira vez que estava a ter oportunidade de falar inglês com alguém, e que eu era o primeiro estrangeiro que ele via e com quem falava, até então só os tinha visto na televisão. Expliquei-lhe que eu não era nada mais do que ele, que era uma pessoa normal que apenas vinha de um pais que ele desconhecia, mas ele fez questão de se mostrar encantado por estar a falar inglês e por alguém o conseguir entender numa língua que não é a dele, ele fez-me lembrar que às vezes damos demasiada importância a coisas que não deveriam ter importância nenhuma, e que deveríamos valorizar outras às quais não passamos cartão. Fez-me bem aquele tempo que passei com o miúdo, e o telemóvel que hoje me deixa comunicar bastante bem com Portugal trouxe-me um novo alento para encarar a última semana.

9.10.10

Diário da Índia - Dia 16

Acordei com a esperança de tornar este dia num ponto de viragem, mas fracassei 20 minutos depois de despertar. Voltei a tomar o pequeno-almoço sozinho, voltei a lembrar-me da falta que me fazem as pessoas que mais gosto e voltei a cair no erro de me deixar acinzentar, de me deixar ficar mal-humorado e já nem a musica me anima. O trabalho, esse voltou a ser feito aos soluços, sem grande rendimento e sem poder “entreter” o cérebro para esquecer tudo o resto. Há atitudes que me deixam com vontade de largar tudo e gritar bem alto “para mim já chega”, dá-me vontade de virar as costas a tudo e não me importar com as consequências. Fartei-me, e já não consigo disfarçar mais, consigo apenas mentir, mas minto mal, ninguém acredita em mim. Continuo exausto, cansado do trabalho e já mal suporto o calor e o sol. Nunca imaginei que pudesse ser tão difícil querer explicar algo a alguém e não ser capaz por falar uma língua diferente, o que me leva por vezes a desejar não entender a minha própria língua. Hoje há horas extras a fazer, amanhã é o dia do arranque do sistema que ainda não está completo, ainda há muito a fazer e eu não aguento muito mais… Sinto-me a morrer por dentro…

8.10.10

Diário da Índia - Dia 15

Mais um dia em que tentei apenas ir arranjando que fazer, obedecendo a ordens que nem sempre concordo, calando as ideias que guardo em mente e me fazem torcer o bico, me fazem mostrar uma cara de desagrado mesmo não querendo mostrar. Odeio ter de arranjar que fazer quando na verdade não tenho, ou se tenho não o posso fazer, ou porque não me deixam, ou porque não me dão liberdade de escolher. Arrastou-se o dia e arrastei-me eu por onde passava. O corpo estava cá, a cabeça na lua, e o coração perdido tentando encontrar o caminho de regresso para onde nunca deveria ter saído. Ainda não me consegui mentalizar que vou cá estar mais de uma semana, continuo a sentir-me isolado do mundo ao qual pertenço e duas semanas depois ainda não me consegui adaptar a esta nova cultura. A minha cara mudou, está mais rude, mais seca, e eu estou perdido, mantenho a calma por fora mas por dentro o reboliço deixa-me doido, fervo os nervos que me tiram do sério, e desejo regressar a casa, ontem de preferência!

7.10.10

Diário da Índia - Dia 14

Acordei cinzento como o dia, não que aparente chuva, mas o sol anda meio escondido. A temperatura baixou, mas não o suficiente, e a indefinição de como vai ser o dia deixa-me com estômago às voltas. Por falar em estômago, sinto cada vez mais a falta de carne e de peixe na ementa diária. Deixei que o dia se arrastasse entre pequenas arestas que faltam limar, e entre arestas que alguns decidem criar. Foi precisamente uma dessas arestas que me fez perder a calma, pôs-me o sangue em reboliço e não aguentei mais, fartei-me de engolir sapos e abanar a cabeça, não insultei ninguém mas dei a entender que não estava virado para ser saco de boxe. Estou farto de uma terra que não é minha e que não me diz nada, estou farto de tostar ao sol todo o dia em pé, estou farto de me sentir fraco, cansado, totalmente esgotado ao fim 14 dias de trabalho ininterrupto, preciso de descansar, preciso de pôr as ideias em ordem, preciso de ir embora daqui. Chegou o dia que eu mais temia, o dia em que a aventura ia deixar de ter ilusão, ia deixar de ser novidade e se ia tornar numa monotonia que não me agrada. Custa olhar em frente e ver o que ainda falta, custa encarar cada dia como sendo apenas mais um, custa lidar com as saudades e sentir-me distante de tudo o que mais quero. Custa não ter ninguém para falar e custa cada vez mais mentir que está tudo bem quando na verdade estou a segurar as lágrimas para não caírem enquanto me mentalizo que tenho de ser mais forte ainda e quando me apetece largar tudo e correr em direcção a um pouco de carinho. Sinto-me encarcerado, rotinado e estou farto, estou cansado, quero ir embora, já…

6.10.10

Diário da Índia - Dia 13

Hoje foi o primeiro dia da segunda parte da aventura, metade da duração da estadia já passou, agora falta a outra metade! E para começar a segunda parte da melhor maneira, nada melhor que acabar com o trabalho mais duro e mais sujo, ou pelo menos assim acho eu! Desta vez sem o meu ajudante e intérprete habitual, lá tive de me desenrascar sozinho a tentar falar com o motorista numa língua que nem eu sei bem o que era! Mas lá fez o obséquio de me entender e ajudar. Ao fim de cerca 3 horas e de 4kg de pó de cimento misturado com carvão em cima, lá acabei de montar a última báscula! Da parte da tarde foram feitas as configurações da praxe e ficam agora a faltar só pequenos ajustes e acabamentos. Houve ainda tempo para eu conseguir dar uma espreitadela na minha atulhada caixa de e-mail, e descansar alguns, dando finalmente notícias através do facebook, não sei é se lá vou conseguir voltar tão cedo! O final do dia terminou em amena cavaqueira, um pouco também para esquecer a distância que nos separa de Portugal.

5.10.10

Diário da Índia - Dia 12

Hoje é feriado, não para mim como é óbvio, mas para alguns que habitam a uns milhares de quilómetros da Índia. Assim sendo, lá volto eu à minha rotina de acordar cedo e verificar que o sol lá fora já brilha, o que significa que tenho água morna na torneira marcada a azul, e água a ferver na torneira marcada a vermelho. Descubro que tenho mais uma mordidela de mosquito numa perna e lá vou eu para o trabalho cheio de vontade de acabar com isto, e da parte da manhã foram talvez as horas que melhor me correram, nem dei pelo tempo passar e o trabalho era como se voasse das minhas mãos. Voltei a casa para o almoço e tive a felicidade de comer um prato bem português, comi feijoada! Juntei um pouco de arroz sem sal, e consegui um sabor quase português. Ainda assim sinto falta de coisas tão básicas e simples que não passa pela cabeça de ninguém. Um dia destes acordei com vontade de comer um bife, com batatas fritas e um ovo estrelado, isto de ser vegetariano à força não é nada fácil, até do pão sinto falta, ou de um iogurte, coisas que quando estou por Portugal são banais. Deixo-me passar pelas brasas no fim de almoço com paladar português e ao despertar consegui, imaginem só, escaldar uma mão ao abrir a torneira… da água fria! Na Índia é tudo possível… Talvez por me ter escaldado a tarde já se arrastou mais um pouco e ao cair da noite fiquei um pouco mais nostálgico, e deixei as saudades baterem à porta, foi-me valendo que hoje o telemóvel deixa-me receber mensagens e fui falando com os amigos para tentar apaziguar a saudade. Contudo não me posso queixar de falta de companhia, hoje tenho especialmente o quarto cheio de insectos! Não sei o que se passa, talvez um dos residentes do meu quarto faça anos e tenha decidido dar cá uma festa, tive de fazer um esforço para não pisar nenhum no caminho até à cama. Já lhes pedi para fazerem pouco barulho que quero dormir e para se deixarem ficar pelo chão, nada de me vir fazer companhia durante a noite para a cama, espero que obedeçam senão acabam-se as festarolas à semana aqui no quarto, ficam desde já avisados!

4.10.10

Diário da Índia - Dia 11

Inicio de mais uma semana, por Portugal há quem não trabalhe pois aproveitou para prolongar o fim-de-semana, mas por cá eu trabalho, e o dia foi de calor intenso. Consegui voltar à minha forma normal depois de ter aproveitado bem para descansar no tempo que tive livre, e deixei que o suor me escorresse como se necessitasse de secar por dentro, deixei o sangue ferver e encarei o trabalho como um objectivo que não podia falhar, e não falhei, apesar disso não me correu lá muito bem o dia, tive sempre entre 4 a 5 pessoas coladas a mim (e quando digo coladas é a uma distância em que consigo sentir-lhes o bafo a caril) a ver o que eu estava a fazer e a falar e Hindi entre si, e tive um indiano que de tanto me querer ajudar só me estorvava, mas lá consegui dar conta do recado. Acho que me começo a acostumar a esta terra onde se arrota à mesa com toda a vontade e não se pede licença nem desculpa, onde se tem respeito e pena de tudo quanto é ser vivo que se mexa por isso nada de matar os mosquitos que me ferram o corpo todo, onde não ser vegetariano é estranho e é ser diferente e onde dizer que venho de Portugal é como dizer que sou marciano, acho que já me habituei aos bichitos no meu quarto, já nem lhes passo cartão e desvio-me deles para não os pisar e não ser etiquetado de assassino de seres indefesos. Da próxima vez tenho de me lembrar de trazer Fenistil. Num dia que acabou de forma nostálgica, senti uma vontade enorme de correr para uns braços que estão tão longe, e sentir aquele aconchego que senti na partida, deixei escorrer uma lágrima para me lembrar que tenho de suportar isto, e que em breve lá estarei eu a receber esse mesmo abraço mais forte e multiplicado um sem fim de vezes!

3.10.10

Diário da Índia - Dia 10

Domingo, dia de folga, não para toda a gente. Eu trabalho, só de manhã e num ritmo mais baixo que já começa o cansaço a ser muito é certo, mas trabalho. No fundo sinto-me a trabalhar sempre que não estou a dormir, porque os temas de conversa acabam sempre por acabar no trabalho. Preciso de descanso, preciso de algo que me alivie este stress constante, estas pressões pequenas que todas juntam se tornam numa grande. A conversa com amigos era o ideal, mas sem Internet e com um acesso limitado ao telefone não se torna fácil comunicar com os que me são chegados e estão agora tão longe. Vou por isso tentando fazer amigos por aqui, pelo menos para durarem no tempo em que cá estou, sei que nunca mais os vou ver no dia em que partir, mas por estes dias é a eles que me lamento, e com eles que me animo, é com eles que alivio, apesar da língua ser uma entrave há sempre uma maneira de nos exprimir-mos. Escrever já não chega para aliviar as saudades, os telefonemas sabem a pouco, e eu sinto falta de coisas tão básicas que as diferenças de cultura não me dão, mas cá me vou aguentando. Numa tentativa de me distrair e esquecer todo este enorme reboliço de sentimentos, tive neste fim de tarde um jogo de futebol, ou pelo menos algo parecido com isso, um jogo divido por nacionalidades, de um lado 3 portugueses, do outro 4 indianos, o resultado nada importa, até porque na Índia o futebol não é um desporto comum, e eles nem a as regras sabiam, um deles foi a primeira vez que jogou futebol e sentiu-se extremamente feliz por ter marcado um golo! Valeu a pena este tempo passado a dar umas boas corridas e uns valentes chutos na bola, deu para aliviar. Talvez fosse esta a parte mais interessante deste fim de tarde, não fosse o que se passou a seguir extremamente insólito. Fui convidado para ir até à cidade, e lá fui eu, porque oportunidades de sair aqui da fábrica não são muitas. Na volta, o condutor do carro conseguiu infringir a lei mais vezes que uma ambulância do INEM em marcha de urgência, conseguiu andar em contra mão de máximos sempre ligados mesmo quando vinha alguém de frente, sem cinto (coisa que por aqui ninguém usa), a falar ao telemóvel enquanto segurava uma garrafa de cerveja de 1,5l na outra mão! E andam os polícias em Portugal a passar multas de estacionamento nos carros que excederam o tempo do parquímetro…

2.10.10

Diário da Índia - Dia 9

Dia 2 de Outubro é o aniversário de Gandhi, por isso é feriado nacional, mas não é para toda a gente, para mim por exemplo foi dia de trabalho na parte da manhã, e na parte da tarde fui visitar o centro da cidade de Rewa, no fim de uma sesta para recuperar energias, que bem preciso. O caminho de cerca de 11Km até Rewa não é muito fácil de ser feito, ora pela sinuosa estrada, ora pelo trânsito desordenado, ora pelas vacas no meio do caminho, é sempre uma viagem emocionante. Na verdade a cidade não tem muita coisa para ver, tem um museu com animais embalsamados, como tigres, tigres brancos, e outros de pequeno porte, valiosas peças em prata pertencentes à realeza, e a particularidade de apenas se poder visitar o museu descalço. No centro da cidade a azafama é imensa, e atravessar a estrada é uma tarefa árdua com sucessivos avanços e recuos. Existe o chamado mercado, que não passa de uma avenida ladeada de lojas onde se vende sobretudo ouro e roupa, e onde cada loja com porta tem uma pessoa cujo único serviço é abrir e fechar a porta, quando alguém tenciona passar. Escurece e torna-se muito difícil circular por aqui, porque devido à quantidade de luz aqui existente, a quantidade de insectos é muito maior, ao ponto de ser impossível pousar um pé sem esmagar uns quantos bichos, na verdade andamos literalmente em cima dos bichos. É por isso hora de retornar a casa, jantar e voltar a descansar…

1.10.10

Diário da Índia - Dia 8

Mais um escaldante dia de trabalho, mais umas valentes suadelas, mais uns milhentos mosquitos afugentados da minha cara e mais duas básculas prontas num dia que eu pensava que ia acabar cedo! Durante o dia os camionistas que vão ficando surpreendidos com as mudanças, iam-me questionando sobre a finalidade dos dispositivos que estou a montar, em indiano é claro, e eu farto de ouvir falar uma língua que não entendo e farto de tentar falar em inglês para eles e dizer que não percebo o que me dizem decidi falar-lhes em português, respondendo que o que eles vêm vai no futuro servir para tirar gelados e mais tarde café, coisa que por aqui eles acham que é cevada. E lá me fui entretendo assim pelo resto do dia. Consegui até ser atropelado por um insecto de grande porte que me pôs alguns segundos à procura do norte tal foi a pancada no olho esquerdo! E quando pensava que tinha terminado o trabalho por hoje eis que alguém se lembra de fazer testes e configurações, coisa que durou até às nove e meia, e foi preciso apertar para irmos embora caso contrário íamos ficar sem jantar… As refeições são sem dúvida o que mais me custa a passar. O pequeno-almoço é divinal, bem ocidental, com leite, cereais, torradas, fruta, sumo, já as outras refeições são vegetarianas e o esforço deles para fazerem comida ocidental é enorme, mas falta-lhes aquele paladar português, serve simplesmente para tapar o buraco. Amanhã é dia de aniversário, mas não meu…

30.9.10

Diário da Índia - Dia 7

O sol e o calor começam a ficar insuportáveis, e a cor da minha pele está a aproximar-se cada vez mais da cor da pele dos indianos. O cansaço já se faz sentir bastante, o arrastar das minhas pernas é cada vez mais pesado, e a alimentação não ajuda muito, das poucas coisas tragáveis ao paladar português, apenas consigo variar entre arroz seco com bocaditos de cogumelos e pimentos e massa esparguete seca simples, contudo não me sinto a perder peso, sinto-me apenas com menos força, e a falta de folgas tem ajudado a isso. No pouco tempo livre que tenho e em que tento socializar um pouco, só me falam de trabalho, se esta etapa já está pronta, se é possível acabar aquela amanhã, se temos tempo ainda de começar a outra e eu sinto-me cada vez com menos força, e a arrastar-me pelos dias… Vai-me valendo as estranhas coisas que por aqui acontecem para me entreterem o cérebro, hoje descobri que o motorista do meu jipe toma drogas, não das pesadas, mas das outras, ainda perguntei que outras mas fiquei a perceber o mesmo, e não, não são medicamentos, mas ao que percebi é algo que ele precisa mesmo, é sempre positivo ter um motorista que se droga, assim ando sempre de jipe com uma moca! Outra coisa engraçada que descobri é no serviço de lavandaria aqui da residência, eles lavam por fora e sujam por dentro, é que cada peça de roupa que mando para lavar traz o numero três escrito pelo lado de dentro, que é o número do meu quarto. Começo a achar que estou dentro de uma espécie de “Iniciativa Dharma” da série “Lost”, todos vestem os mesmos uniformes cinzentos, são muito simpáticos connosco, estamos rodeados de uma cerca para onde não podemos passar, e lá fora está o mundo com o qual (quase) não temos contacto, os “Outros”. Por falar em contacto começa a ser cada vez mais difícil e complicado falar com as pessoas em Portugal. Via telefone não é fácil perceber os verdadeiros sentimentos que têm, gostava de os ver, saber como realmente estão, abraçá-los. Ligo porque me sinto só, porque preciso esquecer que estou longe, mas não há conversa, as coisas não flúem, não há nada para dizer, apenas perguntar se está tudo bem todos os dias já não chega, preciso de ir para casa, levem-me, tirem-me daqui… Sinto-me perdido, porque me habituei (habituas-te) mal…

«Se não te tivesse conhecido, não tinha gostado de ti. Se não tivesse gostado de ti, não te amava. Se não te amasse, não sentia saudades tuas. Mas conheci, amo e sinto muitas saudades!»


29.9.10

Diário da Índia - Dia 6

A cada dia que passa aprendo algo novo, todos devemos ter a noção que podemos aprender com o mais ignorante dos seres, e não devemos julgar as pessoas pelo aspecto. Depois de ter tostado ontem no sol tórrido que por aqui se faz sentir, hoje nas primeiras horas de trabalho durante a manhã um indiano, veio ter comigo e disse-me que tinha algo para mim, ele comprou um protector solar para mim e eu fiquei sem saber o que lhe oferecer ou dizer para agradecer, porque aqui não tenho nada para retribuir, ele disse que não é necessário qualquer tipo de retribuição, que foi com amabilidade que fez este gesto. No escritório costumam dizer que ele tem um ar ocidental por se vestir de maneira diferente e por ter uma visão fora do normal para os “limites” indianos. É sem qualquer tipo de dúvida o indiano com quem me tenho dado melhor nos últimos dias, passa o dia junto de mim a aprender o que eu faço, e vai-me falando da cultura indiana. Mostrou-me que é normal na índia dois homens casados e com filhos se passearem na rua de mão dada, sem qualquer tipo de problema e sem isso os diminuir na sua masculinidade ou sem o perigo de serem conotados como sendo homossexuais. Num local onde existe tanta pobreza, esta é das poucas maneiras que eles têm de mostrar a sua amizade e mostrarem como querem bem aos outros. É de admirar também como dois dos indianos que me têm ajudado e que não falam inglês, tentam comunicar comigo, por gestos, por símbolos, por palavras que tentam dizer em inglês porque perguntaram a outro que consegue falar, querem sentir-se próximos, querem fazer-me sentir bem num país que não é meu. Perguntam-me pela família, pela namorada, pelos amigos, se estão todos bem, se tenho saudades, se quero voltar, e notam que os meus olhos vidram e a minha voz embarga enquanto tento dizer que sim… Tentam de imediato animar-me, e é com a força deles que me vou aguentando por aqui, numa terra diferente da minha em tudo. Se por um lado estes que nada têm me querem oferecer o mundo, ou pelo menos os sentimentos bons deste mundo, e tanto me têm ensinado, por outro aqueles que tudo têm ensinaram-me que aqui, ser engenheiro e não ser, não é a mesma coisa, ser casado e não ser, não é a mesma coisa, é-se menos, muito menos. Estou misturado no meio do povo, no meio da miséria, mas tenho aprendido muito com eles, posso não conseguir falar com eles, posso não entender o que me dizem, mas sinto o que os olhos deles me mostram, e se as palavras e os sorrisos mentem, os olhos não o conseguem fazer! Já só faltam 6 básculas…

28.9.10

Diário da Índia - Dia 5

Com uma noite bem melhor dormida que a anterior, acordo para mais um dia de trabalho. Toda a gente que encontro me pergunta se me sinto melhor, e no fim do pequeno-almoço, dirijo-me até ao escritório onde tudo quanto era indiano capaz de falar inglês me perguntava se me sentia melhor. É de certa forma estranho o carinho com que me recebem aqui. Começo a comparar a Índia a Portugal, onde toda a gente se preocupa com os que vê na rua. Os indianos são todos muito afáveis, divertidos e simpáticos, gostam é pouco de dar ao cabedal! Durante a manhã dividida entre o armazém e a báscula 7, e a tarde exclusivamente tirada para a báscula 7. Apesar de ter trabalhado o dia todo sobre um sol que atingiu os 37ºC e rodeado de poeira de carvão, o dia rendeu bastante, e além disso fartei-me de dizer e ouvir piadas de um indiano com sentido de humor, que me ensinou que os indianos dão mais valor ao sentimento que às relações, daí eles adorarem andar aos abraços e darem-se bem uns com os outros, ensinou-me ainda que os indianos não fazem ideia do que significa o polegar levantado, daí me olharem com uma cara estranha sempre que o faço, a mesma cara estranha que eu os olho sempre que eles tentam falar para mim em hindi! Já o sol se tinha posto e já os mosquitos não me deixavam trabalhar quando arrumei as ferramentas e percebi que tinha os braços um pouco vermelhos, mas só depois de tomar banho percebi que não era sujidade mas sim os braços e o cachaço a começarem a ficar morenos, morenos demais diria eu! No fim de jantar aproveitei para saber como andava Portugal, o meu Braga joga hoje para a Liga dos Campeões em casa e eu nem oportunidade vou ter de saber que tal está a correr. Apesar disso correu bem a conversa com o sítio onde me sinto melhor, e depois de um passeio pelo parque onde a espaços se consegue vislumbrar um pouco de relva no meio de tantos insectos, resta-me dormir, que tenho mais um dia de trabalho pela frente.

27.9.10

Diário da Índia - Dia 4

A primeira segunda-feira de trabalho não começa da melhor maneira, começa cedo demais, são 3h da manhã e eu acordo gelado e com o estômago a doer. Parou-me a digestão, tento vomitar para melhorar mas não sou capaz, não sai nada, apenas saliva, e a dor não me deixa dormir. Uma hora depois socorro-me do meu vizinho de quarto com alguns medicamentos para males do estômago, tomo-os e volto-me a deitar, volto a sentir as pernas geladas, e o estômago virado do avesso, volto a adormecer já passava das 5h. De manhã acordo já bem melhor e vou até ao refeitório tomar o pequeno-almoço, mas pelo caminho ainda sinto o sabor a pimento que me vem do estômago. Tomo o pequeno-almoço como normalmente tenho feito e vou trabalhar. Já no armazém e enquanto abro alguns caixotes sinto que algo não está bem comigo, as pernas começam a fraquejar, o suor já é demasiado para o calor a esta hora e a visão começa a ficar distorcida. E de uma das vezes que estou sentado sobre os calcanhares alguém repara e me chama o motorista para me levar de volta à residência. Tomo um chá e volto-me a deitar na cama o resto do dia, só saio de lá para jantar às 20h30. Comi pouco, porque ainda sinto algum reboliço no estômago, voltei para a cama, falei ao telemóvel com quem sinto mais saudades e fiquei melhor, espero agora passar bem a noite, e espero amanhã voltar a 100% ao trabalho… Quero ir para casa, rápido…

26.9.10

Diário da Índia - Dia 3

O primeiro dia no terreno foi o terceiro na Ásia, acordo de manhã e vejo que já não existem insectos no chão do quarto, preparo-me então para o pequeno almoço e ao descer as escadas em direcção ao refeitório reparo no trabalho de um dos empregados, andar a varrer os insectos que cá ficaram dentro do chão. No fim do pequeno-almoço dirigimo-nos para o armazém a fim de começar a separar os materiais. Para isso temos a ajuda de cerca de 15 indianos. 15 que não conseguem fazer o serviço de 2. Muito pacatos, sem força, sem vontade de trabalhar e sem iniciativa de qualquer tipo, excesso de homens e falta de força, estorvam-se uns aos outros e não ajudam lá muito, é o que há e é com o que posso contar, percebo então que vou ter de suar muito e desgastar-me bem nos próximos tempos. Apesar de me verem normalmente a falar português ou inglês, eles insistem em falar comigo num dialecto que eu não entendo uma única palavra, bem entendo uma, “tica” significa ok, gostava muito de lhes poder responder mas não consigo já que nem pedir-lhes desculpa por não os entender consigo, e também eles me tratam com grande respeito, juntando as mão no peito e curvando-se sempre que me vêem… Depois lutar contra a curiosidade de cerca de 100 indianos sobre o que seriam aqueles postos que eu ando a montar lá consegui por um posto pronto, o chamado posto de parque. Fora desta barraca onde me encontro, estão a montar o painel informativo em cima de um andaime e subo então até lá cima. Fica mesmo no meio do parque, e depois de suar as estopinhas lá conseguimos colocar o painel fixo nas vigas, debaixo de um calor de cerca de 40ºC, ergo-me vejo o pôr do sol por trás das montanhas e sinto saudades de casa, da família, daquele beijo, daquele abraço… Antes de jantar vamos conhecer outra fábrica que fica aqui bem perto. Existe lá também um templo maior que o daqui, e voltam-me a colocar uma pinta na cabeça desta vez é uma espécie de creme da cor da minha pele e por isso não se nota muito. Em casa do chefe, cujo nome não consigo pronunciar, por isso não sou capaz de o escrever, como uns doces tradicionais indianos um pouco a custo, e aprendo que quando se cumprimentam pessoas muito mais velhas e lhes queremos mostrar respeito devemos curvar-nos e tocar-lhe nos pés, tocando depois no peito. Volto para a residência para jantar, e colocam-me ao lado uma tigela de sopa espanhola, com um aspecto delicioso e um sabor intragável. Ao fim de 3 colheres ponho-a de parte que já não consigo comer mais. Volto no fim para o quarto, para os insectos, para a humidade, ligo a quem mais gosto e deito-me a dormir que amanhã é outro dia, é segunda-feira!

25.9.10

Diário da Índia - Dia 2

O dia 2 é o dia que nos vai levar ao local onde vamos ficar nos próximos tempos instalados, por isso metemos cedo os pés ao caminho porque a viagem de 330km demora cerca de 3 horas. Tive por volta das 8h da manhã o último tratamento de rei por parte do pessoal do hotel e lá nos metemos na selva. Um autentico safari pelas montanhas, com estradas nem sempre pavimentadas, camiões parados em cima de curvas sem qualquer tipo de visibilidade nem sinalização. Por falar em sinalização, os camiões aqui são todos da mesma marca, a nacional Tata. Para os distinguirem os camionistas utilizam o chamado no ocidente de Tunning, sendo que por vezes chego a duvidar se certos apetrechos são mesmo assim ou se estarão partidos, quanto ao triangulo de sinalização é usado somente para enfeitar a frente do camião, e na traseira todos têm pintado “please horn”, coisa que eles se recusam a fazer… se estiverem doentes é claro. Por entre uma mina de diamantes e uma reserva de tigres chamada “Pana”, encontrei a miséria. Gente a viver sem qualquer tipo de condições, sem água potável, sem luz, sem higiene… e comecei a ficar assustado, pois quanto mais me aproximava do local onde vou ficar a trabalhar mais gente via nas mesmas condições. Foi talvez essa a razão de eu ter adormecido uma boa parte da viagem, e quando acordei estava já num cruzamento com um Buda no meio. Era o início do parque de estacionamento de camiões da fábrica, julguei estar próximo, puro engano, estou ainda a cerca de 4 km da fábrica e já está tudo entupido de camiões por aqui. São cerca de 800 os que esperam pela sua vez de entrar na fábrica, e chegam a esperar aqui no parque cerca de 2 a 3 dias. Passado o parque cheio de buzinadelas, travagens bruscas e buracos na estrada eis que chegámos às imediações da fábrica onde vivem numa autêntica miséria os que se tentam safar à custa da fábrica, vivendo do lado de fora dos muros da fábrica, vendem de tudo e mais alguma coisa que possa servir aos camionistas e não só. À entrada dos portões da fábrica tenho um segurança que me faz continência e me deixa sem reacção. Sou levado por entre mais 4 portões e outros tantos seguranças até à residência de hóspedes como eles aqui lhe chamam. Fico a saber que o meu quarto será o número 3. Tenho novamente quem me leve a bagagem até ao quarto e quando abro a porta percebo que isto não se vai comparar em nada com os as últimas duas estadias. A cama com um duro colchão, a cobertura que não passa de um simples edredão, a humidade no tecto, a casa de banho com um chuveiro que se limita a despejar água para o chão, as paredes sarapintadas do bolor e o cheiro a mofo, fazem-me ter a certeza que as próximas semanas serão uma grande aventura. Enquanto espero pelas reuniões para conhecer os próximos parceiros de trabalho tento-me conectar à Internet e descubro que não tenho nem uma ficha de rede, nem tão pouco wireless, deixa-me triste, e faz-me lembrar que vai custar ainda mais suportar as saudades e a ausência de notícias… Depois das reuniões da praxe, faço uma visita guiada pela fábrica e pelos locais onde vou ter de intervir e percebo então no mundo onde me tinha metido. A fábrica tem talvez o tamanho da cidade de Braga e à volta só conseguimos ver poeira, sujidade, e falta de condições de trabalho. Vem depois a visita à povoação que fica dentro da fábrica e onde mora a maioria dos trabalhadores. No centro existe um local de oração. Deixo as sapatilhas entregues a um milhar de insectos e subo descalço as escadas até ao templo. Lá dentro esta a pessoa que zela pelo espaço, que me pede para me ajoelhar, deita-me uma espécie de água nas mãos e me diz para passar pela cabeça, pede-me depois que puxe o meu cabelo junto à testa para trás e crava-me uma pinta vermelha entre as duas sobrancelhas, no fim dá-me “docinhos” para comer. Regresso então à residência para jantar, e percebo que se preocuparam em fazer-me comida bem ao estilo ocidental, tirando a parte em que toda a comida tem levar pimento. Começo a ficar com algum receio da residência. Os trabalhadores aqui parecem escravos, andam todos vestidos de igual, com umas largas calças cinzentas e com uma camisola de manga comprida também ela muito larga, e tratam-me como seu eu fosse uma espécie de rei, com muita cerimonia e juntado as mão no peito fazem-me uma vénia, sinto-me estranho e perdido neste mundo… Regresso então ao meu quarto, parecido com uma cela, e vou tomar um banho que bem estava a precisar, mas percebo que não importa para que lado vire o manipulo, a água tem sempre a mesma temperatura, nem quente, nem fria, morna! Mais tarde explicaram-me que aqui não se utilizam esquentadores mas sim “arrefecedores” de água. No fim de tomar o meu banho morno, e enquanto me limpava, vejo no chão um insecto parecido com uma pulga mas que não ferra nem salta e decido enviá-lo pelo ralo abaixo, mas percebo então que ele não está só, e existem cerca de 10 outros iguais a ele, desisti de os tentar retirar do meu quarto e fui dormir na esperança de estar a dormir sozinho nesta cama, esperando que os insectos se passeiem apenas pelo chão!

Diário da Índia - Dia 1

Este sim deveria ter sido o meu primeiro dia de trabalho. Digo deveria porque na verdade não foi. Depois de 3 horas mal dormidas no quarto de hotel estava na hora de me preparar para fazer um novo voo, desta vez com destino a Khajuraho, onde nos esperava quem nos levará até Rewa e até à fábrica de cimentos. Depois de 3 horas de voo com uma paragem pelo meio onde não é necessário abandonar o avião, eis que chegamos a Khajuraho, um aeroporto parecido com uma central de camionagem com cerca de 40 anos. Cá fora estava, sem ramo de flores, o responsável do projecto e mais dois motoristas que gentilmente me tiraram as bagagens da mão e as transportaram por mim até ao carro. Ao contrário do esperado não fomos para Rewa, estamos na verdade a um pouco mais de 300km de Rewa, e ficaremos aqui instalados num hotel até amanhã de manhã, de onde partiremos então para Rewa. À chegada ao hotel voltei a sentir-me um rei, com alguém que me abrisse a porta para sair do carro, encontrei as portas abertas por um segurança que fez continência quando entrei, e veio em minha direcção um empregado do bar trazer sumo natural e bem refrescante. O hotel é simplesmente algo de genial, no chão consigo ver o meu reflexo, e os funcionários espalham bondade e simpatia por todo o lado. Sinto um exagero ser tratado com tanta fineza, mas eles insistem que tem de ser assim. A contrastar com esta enorme bondade está o facto de a Internet via wireless ser taxada. Ora não se vai à Net, queima-se tempo na piscina, água aquecida naturalmente através do sol quente que se faz sentir, e que bem que lá dentro se está, no fim de tantas horas de viagem nada melhor que um banhinho na piscina para relaxar. É a meio de uma dúzia de braçadas na piscina que me lembro que eu não vim cá para tirar férias e que os próximos dias vão ser bem duros, mas deixa-me aproveitar o momento que não terei outro igual tão cedo. Depois do banho de água e de sol, fui fazer uma visita aos monumentos de Khajuraho. Monumentos dedicados a Deuses Hindus e que na parte exterior são decorados com figuras do Kamasutra. É bom recordar que a franquia neste parque é 25 vezes superior para estrangeiros, os Indianos pagam 10 Rupias e os estrangeiros pagam 250 Rupias, e se levarem uma máquina fotográfica ainda têm de pagar mais 250 Rupias. Isto dá cerca de 0,17€ para um Indiano, e 4,17€ para um estrangeiro e o dobro no caso de ele levar uma máquina fotográfica. Depois disto tivemos a nossa primeira experiência de comida Indiana e digamos que foi algo… picante… não, bastante picante… Hora de dormir que amanhã temos Rewa como destino.

24.9.10

Diário da Índia - Dia 0

O dia 0. Chamemos-lhe assim por ter sido o dia da partida para a aventura, em busca do desconhecido, numa longa viagem até terras por mim nunca viajadas. Faltavam ainda algumas horas para nascer o sol e já eu me deslocava em direcção ao aeroporto Sá Carneiro, a fim de levantar voo com direcção a Frankfurt onde iria fazer escala, antes da chegada ao meu destino final. Uma viagem rápida com pouco mais de 2 horas que serviu acima de tudo para enfrentar o “touro” e pegar nele pelos cornos, assim que as rodas do avião recolheram ultrapassei o ponto sem retorno, enchi-me de coragem e lá fui vencendo aos poucos aquele medo inicial e o receio do que iria encontrar na Ásia. Chegado à Alemanha, deparei-me com o povo frio, nada hospitaleiro e que acha que todos devem nascer ensinados. Mas não foi grande a espera e um par de horas depois estava a entrar na porta 44 em direcção ao voo Lh760 com o destino de Delhi, e se 7h20 dentro de um avião é dose, fazê-las ao lado de um Indiano que não tomava banho à 3 dias e pior um bocadinho. Após o desgaste físico e mental de uma viagem tão grande, eis que as rodas tocam o chão. Era o primeiro impacto com um mundo novo, um novo país, uma nova cultura, a minha primeira vez na Ásia! As diferenças são enormes e notórias poucos segundo depois de deixar o avião para trás. A pele morena, os polícias armados com metralhadoras e todos com uma cadeira para se sentarem, o chão alcatifado e a má disposição de quem é acordado às 2h30 da manhã para pôr carimbos em passaportes foi o que encontrei no início. Apesar de tudo este era um espaço isolado do exterior. Sendo um local de chegada e partida de estrangeiros, a cultura e os usos e costumes são um pouco atenuados. Depois de ser recebido com a oferta de um ramo de flores por um gigante de turbante na cabeça, chega a hora de sair para o mundo real. Confesso que me assustei, levei uma chapada de ar quente e húmido como nunca tinha levado, 34ºC às 3h da manhã é obra, a sensação de estar a abafar ao ar livre, o ar que me entrava nas narinas parecia não ser suficiente para alimentar todo o meu corpo e o suor parecia orvalho que nascia na minha pele, tudo isto me fez ignorar por completo o que me rodeava, as diferentes vestimentas, o olhar de desconfiado para quem é diferente de uns que contrastava com o tratamento de reis dado pelos outros. Vi os carros que até então existiam para mim apenas em filmes, as amolgadelas que aqui são normais, a falta de leis trânsito, os semáforos que servem afinal para enfeitar as estradas, a condução acompanhada de buzinadelas a torto e a direito, só porque sim, ou às vezes “porque não?” e lá vai mais uma buzinadela. A saída do aeroporto é feita através de uma espécie de fronteira controlada pelo exército, onde o carro é revistado de cima a baixo e onde se procuram por bombas instaladas no carro! A viagem feita até ao hotel é bem ao estilo da condução indiana numa cidade onde nem todos são capazes de conduzir. As ultrapassagens, as buzinadelas, as travagens bruscas, tudo faz parte do dia-a-dia deles, até mesmo a buzinadela ao segurança do hotel para acordar do seu sono laboral e abrir o portão da entrada que na verdade ficava numa estrada que indicava em bom inglês “out”. Chegado ao hotel, onde me voltei a sentir um rei, fui recebido com um sumo delicioso, e depois de cerca de uma hora de conversa onde pusemos alguns pontos nos seus devidos sítios com o senhor do turbante, retornamos ao quarto onde tive oportunidade de me conectar à Internet pela primeira vez e dizer a algumas pessoas que cheguei inteiro. No fim era hora de dormir, porque já só faltavam 3 horas para me levantar novamente.

20.9.10

Até já

Deste aperto no peito que me doí
Não quero que uma lágrima nasça,
Desse suspiro profundo que te mói
Não quero que a tristeza te cresça.
Se o adeus é o que mais custa na partida
Despeço-me de ti com um até já,
E não te mostrarei a minha saída
Porque na verdade estarei sempre lá.
Lá, onde tu me queres ter
Lá, onde me possas ver
Onde possas sentir que nem saí de cá.
Na verdade, não vou sair desse cantinho
Que sei que existe dentro do peito
Onde me guardas com grande carinho
E me aconchegas com esse teu jeito
De quem protege do vento uma pena
Com medo que este para longe a leve
Da vida pacata, tranquila e serena,
Que ela outra vida nunca teve.
Aconteça o que acontecer 
Vou estar sempre aqui,
Dê por onde der
Ter-me-às cá para ti...

15.9.10

Saudades de(la)

Bate-me o coração de forma diferente,
Arritmado, mas sem dor,
Reconfortante e suavemente ardente.
Bastou o ultimo olhar para lhe dar cor.
A cada passo por esta estranha cidade
Relembro um momento do teu olho reluzente,
Atada a este vem sempre a saudade.
Realidade que me enfraquece, me faz carente.
Atira-me ao pensamento o teu sorriso,
Fazendo-me lembrar o quanto dele preciso
Antes de ser invadido por este sentimento
Estranho como o conforto deste aposento.
Limpo então a lágrima que escorre
Ansiando pela hora que a minha saudade morre...

2.9.10

Costumes

Costumava escrever sentimentos
Onde marcava o meu cunho.
Quentes, de amor sedentos,
Como flores numa tarde de Junho.
Transpirava aquela ausência
Que me desidratava a alma.
Um rosto sem aparência,
Uma mão sem palma.
Não via a cara para onde olhava
Apenas uns olhos desconhecidos,
Não existia a mão que segurava
Naqueles sonhos erguidos.
Costumava dormir à noite
E sonhar poemas que escrevia,
Acordados à lei do açoite
Pelo barulho que se ouvia.
Bandos de palavras soltas ao vento
Que afugentaram borboletas
E tornaram-me o mundo mais cinzento,
Descoloriram as imagens agora incompletas.
Costumava lamentar-me de tudo
O que de azar me cabia sorte.
Mas calei o grito, tornei-o mudo,
O espasmo vocal que pedia morte
Deste simples eu que apenas exprime
Em palavras nem sempre certas
O que o medo não mais reprime,
Tenho agora portas abertas
A uma nova maneira de ser,
Em vez de sonhar, apenas durmo,
E se perguntam que costumo fazer?
Respondo que agora, já não costumo.

31.8.10

Será que devo?

A meia dúzia de passos
De embarcar numa aventura
Que ainda desconheço os traços
E que será, porventura,
A mais longa distância
Que terei dos teus braços,
E vivo entretanto, nesta ânsia
De serem de regresso estes passos.
Mas ainda não o são
E eu ainda não parti
Mas dentro do coração
Só guardo a saudade de ti.
A vontade só tenho de voltar
Para de onde não quero sair
Por não me apetecer limpar
As lágrimas que ando a carpir
Ainda que inocentemente
Por em mim se ter criado um receio
Que me apoquenta ultimamente
E me traça esta vontade a meio
De querer dar meia volta ao mundo
Conhecer o que do outro lado se faz
Sem nunca cair ao fundo
Do poço onde por agora jaz
O medo do fracasso
E o medo do obscuro.
O tempo é tão escasso
Para me poder sentir seguro...

19.8.10

Estarei vivo?

“Desde pequeno vou à bola,
Largo tudo pra te ver,
Só quero que sues a camisola,
Sou do Braga até morrer...”

Esta é talvez das letras que mais sentido faz para mim nos cânticos da massa adepta do Braga. São 3h30 da manhã e ainda não consegui pregar olho nem despir a camisola do Braga. Da cabeça não me sai toda aquela decoração azul estrelada do AXA, aquela bola gigante agitada no centro do terreno, aquele hino, aquele arrepio, aquela lágrima que teimosamente quer fugir, aquele golo, aquele explodir de alegria, uma abraço aqui, um aperto de mão ali, um grito vindo do estômago com toda a força, um perder de noção de espaço e tempo... numa palavra: loucura!
Pode este resultado ser escasso, pode não ser suficiente na 2ª mão o golo com direito a chupeta, nada disso me importa, porque neste momento sinto-me só dono e senhor do mundo. Um mundo de fantasia, de sonho. Um mundo que quando ia à bola em pequeno estava reservado aos outros, sempre aos outros, e agora eu pude vibrar com as mesmas sensações no meu estádio, na minha cidade, a apoiar o meu clube... Uma parte da cidade não teve noção da grandeza do que se passou naquele cantinho a que apelidamos carinhosamente de “Pedreira”, mas os que lá estiveram, tão cedo não se vão esquecer do que sentiram. Depois de alguns calafrios, um cruzamento teleguiado para a cabeça de Paulo César, proporciona grande defesa a Palop, Matheus encosta a cabeça na “estrelada” e a bola beija suavemente as redes da baliza... Cerram-se os punho, contraem-se os músculos e da garganta sai o mais belo grito no mundo do futebol, é golo, é do Braga, na Champions... Arrepia, dá vontade de sentir um abraço, dá vontade de deixar escorrer uma lágrima? Também a mim! Há quem lhe chame de tudo, eu chamo-lhe amor verdadeiro, paixão descomunal! Para quem como eu sentiu o arrepio ao ler o texto, sabe bem do que estou a falar. São 4h da manhã, e caso se perguntem porque demorei tanto a escrever um texto pequeno, foi porque escrevi cada coisa que mentalmente consigo visualizar e voltar a sentir cada emoção, cada arrepio... Trinta minutos depois, e um sem fim de arrepios no corpo, só vos consigo dizer:

“Durante o ano eu te acompanho,
De norte a sul só pra te ver
Seja em Braga ou noutro estádio
Porque eu sem ti não sei viver...”

18.8.10

Atiro-me ao rio

Parado no tempo,
Sem me mover no espaço,
Fixo o olhar no firmamento
E abro ao máximo cada braço.
Uma leve brisa beija-me o rosto
Num gesto terno de despedida
E eu tento fingir que não gosto
De me despedir desta vida.
Sem balanço ganho apenas coragem
De sem dobrar o joelhos, me inclinar
E esperar não atingir a margem
Deste rio onde me vou afogar.
A leve brisa passa rajada forte,
O equilíbrio a abandono
Será esta a queda para a morte
Atingido o ponto sem retorno.
Não espero que venham atrás de mim
E me sigam cruéis pisadas
Não sou modelo, não sou assim,
Sinto-me apenas de mãos atadas.
Se o rio quiser hei-de vir à tona
E hei-de encalhar na mesma pedra
Que se tornará senhora e dona
Da reles vida que me deserda!