Vejo-a
crescer e ainda mal acredito. Ainda não caiu a ficha. Não me sinto ansioso,
vejo apenas as mudanças que à minha volta vão acontecendo. Uma chupeta, um babygro,
uma babete… Será tudo isto real? Palpável é. São muito ténues as mudanças que
mais noto, porém algo me cresce no peito, não consigo identificar o que é.
Assemelho a um fogo, um ardor, é forte mas não dói. Está a preencher um espaço
que sempre esteve vazio. Olho-me ao espelho, brilham os olhos no reflexo,
talvez a barba cerrada ajude, mas é um brilho diferente, como quem se sente
orgulhoso mesmo sem se aperceber. Não me controlo, não controlo as emoções e o
que sinto, não mando em mim, cresce cá dentro novamente uma réstia de
inspiração para dedilhar o teclado num emaranhado de letras. O que está a
acontecer comigo? De onde vem tudo isto? Há uma nova força, uma nova energia,
um novo querer! É-me tudo tão estranho… Vou ser pai, e apesar de tudo isto não
acredito! Não acredito! Sim, tudo isto foi escrito com um sorriso e não, não
sei de onde ele vem… Vou mesmo ser pai…
23.2.15
21.10.14
Distúrbio de letras
Saudade
do sossego, de ouvir o silêncio e de o perceber a cada pausa. Saudade da paz
interior que antes me explodia pelo poros, saudade da calma, saudade de sentir
o bater do coração e saudade de ter tempo para o escutar simplesmente a bater
sem que nada nem ninguém lhe peça para tal. Saudade de reparar em nada, saudade
de deixar fugir o que tudo parecia sem que isso ganhe mais importância que a
que realmente tem… nenhuma. Saudade de não pensar no amanhã, no logo, no daqui
a pouco. Saudade de sentir o frio roer-me os ossos, de sentir o vento gelar-me
a cara. Saudade dos gritos mudos que apenas os surdos compreendem, ninguém
melhor que eles para lerem os olhos. Esses não mentem, brilham… Brilham.
Saudades do brilho, do sorriso e da felicidade ligeira. Saudade da despreocupação
e da falta de objetivos. Saudade de navegar à deriva ao invés de à bolina. Saudade
de escrever e não ter tema, saudade de desencaixar o subconsciente e de sair de
dentro de mim. Saudade de não saber quem sou, saudade de não ter futuro,
saudade de não ser, saudade de não viver… Saudade de não sentir saudade.
27.8.14
Seu parvo!

Existirá
uma meta? Será que corremos numa maratona sem fim? Valerá a pena o esforço, o
suor, as lágrimas, as dores? Apetece-me parar, sentar-me, cruzar as pernas e
calmamente ver os outros passar, dar-lhes força para que continuem sempre na
procura do que eu deixei de crer que exista, o cruzar da meta, o momento de
glória dos que finalizam não interessa o lugar, a felicidade de lá chegar, o
sentimento de realização que tão bem nos faz ao ego. “Que parvos!” – exclamaria
eu. “Isto é apenas um círculo! Corram seus parvos, corram cada vez mais!” e
ficaria só, seria motivo de chacota, seria o parvo que nada busca, o que
deambula, o que não sai da cepa torta. Mas não será isso que eu sou? Porque
corro afinal se nada muda? “Isto é um circulo seu parvo! Mas corre, corre que
um dia… vais voltar aqui outra vez. Seu parvo!”
17.5.14
Medo
Medo.
Medo do que aí vem, medo do que tenho e medo do que me possa faltar. Tenho medo…
medo do som do gatilho e do esticar da corda. Medo do presente e do
desconhecido futuro. Receio perder as forças, o crer e a vontade de ser e de
existir. Conseguirei aguentar tumultos, tempestades e eventuais atrocidades? Em mim existe hoje,
além do medo, a dor… A dor de quem mente enquanto sorri, a dor do aperto no
peito pela falta de autoconfiança, a desconfortável dor que me tolhe o
pensamento, que me mói a alma e mata aos poucos. Fui atropelado pelos
pensamentos que se amontoam, não os consigo tirar cá de dentro, não os consigo
abrandar, não consigo viver!
4.11.13
Cedendo
É difícil
erguer a cabeça se ma empurram para baixo. É difícil respirar no limite da
água, que ora me deixa respirar por meio segundo num socalco, ora me sufoca
entrando-me pelo nariz com sofreguidão. É difícil viver de mãos atadas, de
peito apertado e com medo. Medo de tudo, medo de todos. Medo de ti, medo dele,
medo dos outros, medo que me tirem o que me resta, medo que nada mais reste
quando pouco me tirarem, medo de viver, medo de (ainda) cá andar, medo de
sorrir sem me arrepender. Este não sou eu, busquem por mim num outro sítio,
mais florido, mais luzidio, menos problemático, menos apático. Este não sou eu,
tirem-me de mim, levem-me o que me mata… ou então deixem o que me mata, e
levem-me só a mim daqui. Já não consigo ir pelo meu próprio pé…
22.10.13
Luto
Quero vencer o luto.
Devo para isso ser astuto,
Mas falta-me vontade e talvez estatuto.
Luto por um olhar enxuto.
De luto, escrevo num minuto
A dor que no peito refuto.
Morreu-me a alma, pôs-me de luto.
Foi-se-me a força na gargalhada de um puto.
Estou de luto porque afinal já nem sequer luto.
Devo para isso ser astuto,
Mas falta-me vontade e talvez estatuto.
Luto por um olhar enxuto.
De luto, escrevo num minuto
A dor que no peito refuto.
Morreu-me a alma, pôs-me de luto.
Foi-se-me a força na gargalhada de um puto.
Estou de luto porque afinal já nem sequer luto.
16.9.13
Não me lixem!
Não me lixem! Aos que me falam sempre que o
SC Braga perde, porque falhou este, falhou aquele, falhou o outro, não me
lixem! Aos que dizem que não jogamos nada, não somos o Barcelona, não somos o
Real Madrid, não somos o Arsenal de Londres, por isso, não me lixem! Aos descrentes
e aos sem fé, digo-vos, não me lixem! Aos críticos e aos treinadores de bancada
que só nos espezinham, não me lixem e não me lixem os que hão de vir festejar
quando ganharmos e que não estiveram cá quando perdemos. Não me lixem os que
desistem e os fracos, não me lixem os que só assobiam e não apoiam. Não me
lixem os que não me entendem e os que não sentem como eu. Temos uma equipa em
construção, com jogadores (ainda) em formação. Para muitos é um sonho jogar
pelo SC Braga, e estou certo que todos dão o melhor que podem e sabem dentro de
campo, não acredito que nenhum falhe porque quer, por isso, não me lixem! Ontem
demos a volta ao resultado com um jogador a menos, e contra um adversário que
tem bom toque de bola, não me lixem! Mostrámos raça, mostrámos querer,
mostrámos força, mostrámos que os adeptos estão com eles dentro de campo,
mostrámos quem somos e nunca devemos esquecer isso. A luta é contra os outros e
não contra nós mesmos, por isso não me fodam que já estou farto de dizer não
lixem!
15.7.13
Negro como a noite, só como a lua
Refutado por mais um dia
Sento-me ao luar com o negro como fundo.Afaga-me a brisa que nem me perguntou se queria
Que me fizesse companhia por um segundo.
Deixo que o piano me sirva de coração
Imagino as teclas velhas, poeirentas,
Angustiadas, cinzentas,
A transbordar de alma, de paixão,
De solidão, de dor, a isso se resume.
Um mundo descolorido por onde me passeio
Sem rumo, sem eira nem beira,
Aos caídos que já não me seguro no meio,
Desalinhado dos sonhos sonhados por brincadeira.
Sonhados pelos olhos de um menino
Afogados na água salgada
Pela força de um mundo tão pequenino
Que deseja sair desta madrugada…
12.2.13
Carta aberta à Direção do Sporting Clube de Braga
Desde miúdo trago o
Sporting Clube de Braga no coração. O meu pai ensinou-me o que era ser adepto
do clube da nossa cidade, ensinou-me a defender o que é nosso, a sorrir com as
vitórias e os triunfos e a erguermo-nos com as derrotas ainda mais fortes.
Tinha talvez 4 anos quando entrei num estádio
pela primeira vez. É obvio que não tenho grandes recordações desse dia, daí que
sinta que vou ao estádio ver o Sporting Clube de Braga desde “sempre”. Neste desde
“sempre” estão incluídas grandes vitórias, enorme conquistas, um crescimento
tremendo. Mas também estão derrotas pesadas, noites de sofrimento, desilusões,
manutenções no final do campeonato, muitos nervos… Um sem fim de emoções.
Curiosamente não encontrei, nestes cerca de 22 anos de adepto do Sporting Clube
de Braga, o sentimento de humilhação, de vergonha.
Com o crescimento e
o passar dos anos, o meu pai, decidiu por sua livre vontade, que seria altura
de o começar a acompanhar nos jogos fora da cidade de Braga. Sentia ele como
pai, que era seguro para mim acompanhá-lo. Gabo-me de sempre ostentar as cores
do Sporting Clube de Braga em tais deslocações. Percorri os mais diversos
estádios de norte a sul do país em jogos com equipas como o Leça, o Boavista, o
Aves, a Naval, o Leiria, o Setúbal, o Varzim… A saudável harmonia que existia
entre os adeptos dos mais distintos clubes levou-me a fazer uma coleção de
cachecóis. Ia trocando com os adeptos locais, à medida que ia passando por
esses estádios fora. Porém, com o crescimento do nosso clube, comecei a sentir
alguma hostilidade em certas zonas do país, ainda assim, essa hostilidade não
era exteriorizada se existisse respeito.
Acreditava eu que
todos os adeptos do Sporting Clube de Braga eram pacíficos como eu. Por vezes
uns mais exaltados, outros mais calmos, algumas provocações e picardias durante
os jogos, que acaba por fazer parte do espetáculo se prevalecer o bom senso,
até porque a rivalidade é boa quando é vivida, desde que não se transforme a
rivalidade em violência física.
Voltando aos
sentimentos, dizia eu que nunca tinha sentido qualquer tipo de humilhação ou
vergonha. Há quem diga que há uma primeira vez para tudo. Esta época senti-me
por mais que uma vez humilhado e envergonhado. Senti-me humilhado e
envergonhado pelos atos praticados por certos indivíduos que têm recorrido à
violência por mais que uma vez, como se quisessem impor alguma coisa. Sinto-me
triste e revoltado ao ler as noticias em jornais nacionais que um grupo de
adeptos esperou pelos jogadores da nossa equipa no fim de uma derrota para se
travarem de razões, que um grupo de adeptos se envolveu em violência física com
adeptos do Belenenses antes de um jogo da Segunda Liga, que um grupo de adeptos
percorreu uma bancada provocando uma cena de pancadaria com os adeptos do Paços
de Ferreira. Senti-me envergonhado e humilhado por um grupo de pessoas que se
dizem adeptas e defensoras do meu clube e que agem sem perceber o mal que lhe
estão a fazer, senti-me de rastos ao perceber que a notícia rapidamente correu
o país e por esses estádios fora seremos de agora em diante apelidados de
perigosos, violentos e arruaceiros… Tudo por um grupo de adeptos… Senti a maior
frustração e raiva da minha vida enquanto adepto do Sporting Clube de Braga ao
ver um miúdo de 5 ou 6 anos fugir para trás de uma baliza e a puxar pela mão do
pai numa aflição tremenda, num ato de pânico e de terror. Dói-me a alma quando
penso nisto, e pergunto-me se será possível aquele miúdo e outros tantos que lá
estavam voltar a ver um jogo fora do estádio dele, será possível aquele miúdo
continuar a gostar de futebol e será possível aquele miúdo perdoar os adeptos
do Sporting Clube de Braga que nenhuma culpa tiveram?
Tais atos são para
mim indesculpáveis. Comportamento gera comportamento, e eu que este ano
acompanhei diversas vezes o Sporting Clube de Braga fora de casa começo a temer
pela minha segurança. Não me sinto mais seguro por esses estádios fora, tenho
medo de ser confundido e tomado por quem não sou na verdade. Ontem disse a
quente que ao fim de mais de 20 anos a correr estádios tinha chegado o dia em
que não voltaria “à estrada” contudo pensando que hoje pensando com mais calma
a opinião mudaria. Puro engano, continuo igual. Continuo com medo, continuo a
pensar que para mim acabaram as deslocações, pelo menos enquanto não me sentir
seguro de novo.
Quanto aos atos de
ontem, só peço que seja feita justiça, só peço que se identifiquem os autores
dos desacatos e que se castigue quem de direito. Não sou dono da razão e tenho
os meus defeitos como toda gente. O Braguismo não se mede, sente-se, ser sócio
há cerca de 20 anos, percorrer os estádios nacionais durante épocas a fio,
estar em Sevilha, em Udine e em Dublin não faz de mim mais Braguista que
ninguém, mas também não faz de ninguém mais Braguista do que eu, e se há quem
tenha regalias por se deslocar sempre para apoiar (e bem, porque felizmente não
somos todos iguais) o nosso clube, eu também mereço tais regalias, pois estive
lá com o nosso Clube sempre que o tempo e o dinheiro me permitiram.
Ajudem a acabar com
a violência no desporto!
Com
os mais cordeais cumprimentos,
Rui
Xavier
(sócio
nº3992)7.12.12
Diario da India III - Dia 34
Após
algum descanso nos desconfortáveis bancos do aeroporto, está aberto o chek-in e
deslocamo-nos para lá, somo os primeiros a fazer chek-in, ou pelo menos a
tentar. Na entrada da fila estão dois senhores que nos pedem os passaportes e
os bilhetes, formalismos pensei eu. Na verdade não, os tais senhores tinham uma
lista do voo onde chegamos e nessa lista não constava nenhuma mala das nossas.
Estranharam portanto como não tínhamos nós nenhuma mala no outro voo e agora
temos 4, uma cada um. Explicamos que deve haver algum engano, chamam um
responsável da segurança e entretanto estranham o bilhete do voo ter data de
compra de ontem, acham impossível! Bolas em que Mundo vivem vocês? Em Delhi há
internet! Após a chegada do responsável pela segurança, que por sinal não era
Indiano, tudo ficou resolvido e lá podemos fazer o chek-in. Não sem antes nos
terem tirado os passaportes para colocar uma etiqueta muito importante na parte
de trás do passaporte… Que companhia aérea tão estranha esta… Desta vez não
houve qualquer problema na fronteira, o friozinho na barriga passou bastante
rápido. Sinto-me bem, relaxado, feliz por voltar e até consigo adormecer por
breves instantes num dos cadeirões do aeroporto. Nem a senhora que teimosamente
pede para não nos esquecermos das malas me conseguiu acordar. Lá começamos a embarcar e percebo
agora que a etiqueta no passaporte que era tão importante pode ser colocada à
entrada para o avião… De Delhi a Bruxelas foi um bom sono, talvez pelo cansaço
mas não tenho recordação quase nenhuma, apenas do pão de leite e do iogurte ao
pequeno-almoço. Aterramos em Bruxelas e pela janela parece ser neve, sim é
mesmo neve, quem diria que há umas horas esta eu de manga curta e a suar.
Aproximamo-nos de um ecrã com as partidas dos voos e verifico que todos foram
cancelados durante a noite devido à neve. Não nos conseguem dar a certeza,
ainda, de que teremos voo hoje para casa, há fortes possibilidade de ser
cancelado tal como todos os outros. Resta-me esperar por bons ventos e melhores
temperaturas. Enquanto isso distraio-me com uma loja, ou melhor, com a entrada
de uma loja. Na entrada está um pinheiro, enfeitado com bolas, fitas e luzes
intermitentes… É Natal, tinha-me esquecido que estamos tão próximos do Natal.
Sinto um conforto enorme e de repente uma esperança enorme que vou viajar hoje
para Portugal. Os limpa neves tentam a todo o custo eliminar a neve e o gelo
que se apoderou da pista. Conseguem libertar a pista, mas os voos estão
atrasados em toda a Europa. O meu também ficou atrasado, resta-me esperar. No
meio da espera, uma voz portuguesa com origem angolana junta-se a nós, é bom
poder ouvir falar português alguém que não esteve connosco nas últimas semanas.
Várias horas depois há luz verde para entrar o avião rumo a Lisboa, o único
problema poderá ser não chegar a tempo de apanhar a ligação ao Porto, uma vez
que teremos de levantar as malas e voltar a fazer o chek-in. Mas pelo menos já
estaremos em Portugal, e aí, por água terra ou mar eu hei de chegar a casa.
Chegados a Lisboa à hora de partir para o Porto parece estar tudo mal humorado.
Somos informados que o nosso voo afinal ainda não partiu pois o avião ainda nem
sequer chegou. Temos de fazer o chek-in das malas no piso inferior e seguir
para a porta de embarque. No chek-in, alguém mal disposto diz-me que não pode
embarcar as malas porque já fechou o avião e é impossível, abria a exceção para
uma mala, mas para 4 é impossível. Como fechou o avião se ele ainda não chegou?
Lá fez a chamada devida e afinal pode despachar as 4 malas e quantas mais
houvesse, mas no fim de fazer o serviço que lhe compete proferiu “Mas foi por
favor!”, olhei-o com reprovação e formulei na garganta uma pergunta “Quer uma
gorjeta ou um par de estalos?”. Felizmente não disse nada, virei costas e corri
porque tenho um avião para apanhar… a espera foi maior que a viagem até ao
Porto. A viagem em si é como subir e descer um monte, nem cheguei a passar pelas
brasas. Talvez a excitação de estar a regressar a casa também não deixasse. Sou
o último a ser deixado pelo táxi, corro para casa, não consigo esconder o
sorriso de satisfação, abraço a minha Joaninha com força, e solto uma lágrima
que deixo para quem acaba de ler a definição do que será…
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