12.2.13

Carta aberta à Direção do Sporting Clube de Braga


 
Desde miúdo trago o Sporting Clube de Braga no coração. O meu pai ensinou-me o que era ser adepto do clube da nossa cidade, ensinou-me a defender o que é nosso, a sorrir com as vitórias e os triunfos e a erguermo-nos com as derrotas ainda mais fortes.

 Tinha talvez 4 anos quando entrei num estádio pela primeira vez. É obvio que não tenho grandes recordações desse dia, daí que sinta que vou ao estádio ver o Sporting Clube de Braga desde “sempre”. Neste desde “sempre” estão incluídas grandes vitórias, enorme conquistas, um crescimento tremendo. Mas também estão derrotas pesadas, noites de sofrimento, desilusões, manutenções no final do campeonato, muitos nervos… Um sem fim de emoções. Curiosamente não encontrei, nestes cerca de 22 anos de adepto do Sporting Clube de Braga, o sentimento de humilhação, de vergonha.

Com o crescimento e o passar dos anos, o meu pai, decidiu por sua livre vontade, que seria altura de o começar a acompanhar nos jogos fora da cidade de Braga. Sentia ele como pai, que era seguro para mim acompanhá-lo. Gabo-me de sempre ostentar as cores do Sporting Clube de Braga em tais deslocações. Percorri os mais diversos estádios de norte a sul do país em jogos com equipas como o Leça, o Boavista, o Aves, a Naval, o Leiria, o Setúbal, o Varzim… A saudável harmonia que existia entre os adeptos dos mais distintos clubes levou-me a fazer uma coleção de cachecóis. Ia trocando com os adeptos locais, à medida que ia passando por esses estádios fora. Porém, com o crescimento do nosso clube, comecei a sentir alguma hostilidade em certas zonas do país, ainda assim, essa hostilidade não era exteriorizada se existisse respeito.

Acreditava eu que todos os adeptos do Sporting Clube de Braga eram pacíficos como eu. Por vezes uns mais exaltados, outros mais calmos, algumas provocações e picardias durante os jogos, que acaba por fazer parte do espetáculo se prevalecer o bom senso, até porque a rivalidade é boa quando é vivida, desde que não se transforme a rivalidade em violência física.

Voltando aos sentimentos, dizia eu que nunca tinha sentido qualquer tipo de humilhação ou vergonha. Há quem diga que há uma primeira vez para tudo. Esta época senti-me por mais que uma vez humilhado e envergonhado. Senti-me humilhado e envergonhado pelos atos praticados por certos indivíduos que têm recorrido à violência por mais que uma vez, como se quisessem impor alguma coisa. Sinto-me triste e revoltado ao ler as noticias em jornais nacionais que um grupo de adeptos esperou pelos jogadores da nossa equipa no fim de uma derrota para se travarem de razões, que um grupo de adeptos se envolveu em violência física com adeptos do Belenenses antes de um jogo da Segunda Liga, que um grupo de adeptos percorreu uma bancada provocando uma cena de pancadaria com os adeptos do Paços de Ferreira. Senti-me envergonhado e humilhado por um grupo de pessoas que se dizem adeptas e defensoras do meu clube e que agem sem perceber o mal que lhe estão a fazer, senti-me de rastos ao perceber que a notícia rapidamente correu o país e por esses estádios fora seremos de agora em diante apelidados de perigosos, violentos e arruaceiros… Tudo por um grupo de adeptos… Senti a maior frustração e raiva da minha vida enquanto adepto do Sporting Clube de Braga ao ver um miúdo de 5 ou 6 anos fugir para trás de uma baliza e a puxar pela mão do pai numa aflição tremenda, num ato de pânico e de terror. Dói-me a alma quando penso nisto, e pergunto-me se será possível aquele miúdo e outros tantos que lá estavam voltar a ver um jogo fora do estádio dele, será possível aquele miúdo continuar a gostar de futebol e será possível aquele miúdo perdoar os adeptos do Sporting Clube de Braga que nenhuma culpa tiveram?

Tais atos são para mim indesculpáveis. Comportamento gera comportamento, e eu que este ano acompanhei diversas vezes o Sporting Clube de Braga fora de casa começo a temer pela minha segurança. Não me sinto mais seguro por esses estádios fora, tenho medo de ser confundido e tomado por quem não sou na verdade. Ontem disse a quente que ao fim de mais de 20 anos a correr estádios tinha chegado o dia em que não voltaria “à estrada” contudo pensando que hoje pensando com mais calma a opinião mudaria. Puro engano, continuo igual. Continuo com medo, continuo a pensar que para mim acabaram as deslocações, pelo menos enquanto não me sentir seguro de novo.

Quanto aos atos de ontem, só peço que seja feita justiça, só peço que se identifiquem os autores dos desacatos e que se castigue quem de direito. Não sou dono da razão e tenho os meus defeitos como toda gente. O Braguismo não se mede, sente-se, ser sócio há cerca de 20 anos, percorrer os estádios nacionais durante épocas a fio, estar em Sevilha, em Udine e em Dublin não faz de mim mais Braguista que ninguém, mas também não faz de ninguém mais Braguista do que eu, e se há quem tenha regalias por se deslocar sempre para apoiar (e bem, porque felizmente não somos todos iguais) o nosso clube, eu também mereço tais regalias, pois estive lá com o nosso Clube sempre que o tempo e o dinheiro me permitiram.

Ajudem a acabar com a violência no desporto!
                Com os mais cordeais cumprimentos,

Rui Xavier
                                                         (sócio nº3992)

7.12.12

Diario da India III - Dia 34


Após algum descanso nos desconfortáveis bancos do aeroporto, está aberto o chek-in e deslocamo-nos para lá, somo os primeiros a fazer chek-in, ou pelo menos a tentar. Na entrada da fila estão dois senhores que nos pedem os passaportes e os bilhetes, formalismos pensei eu. Na verdade não, os tais senhores tinham uma lista do voo onde chegamos e nessa lista não constava nenhuma mala das nossas. Estranharam portanto como não tínhamos nós nenhuma mala no outro voo e agora temos 4, uma cada um. Explicamos que deve haver algum engano, chamam um responsável da segurança e entretanto estranham o bilhete do voo ter data de compra de ontem, acham impossível! Bolas em que Mundo vivem vocês? Em Delhi há internet! Após a chegada do responsável pela segurança, que por sinal não era Indiano, tudo ficou resolvido e lá podemos fazer o chek-in. Não sem antes nos terem tirado os passaportes para colocar uma etiqueta muito importante na parte de trás do passaporte… Que companhia aérea tão estranha esta… Desta vez não houve qualquer problema na fronteira, o friozinho na barriga passou bastante rápido. Sinto-me bem, relaxado, feliz por voltar e até consigo adormecer por breves instantes num dos cadeirões do aeroporto. Nem a senhora que teimosamente pede para não nos esquecermos das malas me conseguiu  acordar. Lá começamos a embarcar e percebo agora que a etiqueta no passaporte que era tão importante pode ser colocada à entrada para o avião… De Delhi a Bruxelas foi um bom sono, talvez pelo cansaço mas não tenho recordação quase nenhuma, apenas do pão de leite e do iogurte ao pequeno-almoço. Aterramos em Bruxelas e pela janela parece ser neve, sim é mesmo neve, quem diria que há umas horas esta eu de manga curta e a suar. Aproximamo-nos de um ecrã com as partidas dos voos e verifico que todos foram cancelados durante a noite devido à neve. Não nos conseguem dar a certeza, ainda, de que teremos voo hoje para casa, há fortes possibilidade de ser cancelado tal como todos os outros. Resta-me esperar por bons ventos e melhores temperaturas. Enquanto isso distraio-me com uma loja, ou melhor, com a entrada de uma loja. Na entrada está um pinheiro, enfeitado com bolas, fitas e luzes intermitentes… É Natal, tinha-me esquecido que estamos tão próximos do Natal. Sinto um conforto enorme e de repente uma esperança enorme que vou viajar hoje para Portugal. Os limpa neves tentam a todo o custo eliminar a neve e o gelo que se apoderou da pista. Conseguem libertar a pista, mas os voos estão atrasados em toda a Europa. O meu também ficou atrasado, resta-me esperar. No meio da espera, uma voz portuguesa com origem angolana junta-se a nós, é bom poder ouvir falar português alguém que não esteve connosco nas últimas semanas. Várias horas depois há luz verde para entrar o avião rumo a Lisboa, o único problema poderá ser não chegar a tempo de apanhar a ligação ao Porto, uma vez que teremos de levantar as malas e voltar a fazer o chek-in. Mas pelo menos já estaremos em Portugal, e aí, por água terra ou mar eu hei de chegar a casa. Chegados a Lisboa à hora de partir para o Porto parece estar tudo mal humorado. Somos informados que o nosso voo afinal ainda não partiu pois o avião ainda nem sequer chegou. Temos de fazer o chek-in das malas no piso inferior e seguir para a porta de embarque. No chek-in, alguém mal disposto diz-me que não pode embarcar as malas porque já fechou o avião e é impossível, abria a exceção para uma mala, mas para 4 é impossível. Como fechou o avião se ele ainda não chegou? Lá fez a chamada devida e afinal pode despachar as 4 malas e quantas mais houvesse, mas no fim de fazer o serviço que lhe compete proferiu “Mas foi por favor!”, olhei-o com reprovação e formulei na garganta uma pergunta “Quer uma gorjeta ou um par de estalos?”. Felizmente não disse nada, virei costas e corri porque tenho um avião para apanhar… a espera foi maior que a viagem até ao Porto. A viagem em si é como subir e descer um monte, nem cheguei a passar pelas brasas. Talvez a excitação de estar a regressar a casa também não deixasse. Sou o último a ser deixado pelo táxi, corro para casa, não consigo esconder o sorriso de satisfação, abraço a minha Joaninha com força, e solto uma lágrima que deixo para quem acaba de ler a definição do que será…

6.12.12

Diario da India III - Dia 33



Hoje é dia de partir. A mala cheia de roupa suja está feita e eu acordo mais cedo que o normal. Vou cortar a barba. Tarefa difícil visto que já tive o cabelo bem mais pequeno do que tenho agora a barba. Longos minutos depois lá consigo acabar a tarefa, nem pareço o mesmo, não sei se pela falta da barba se pelo sorriso estampado na cara. O clima por estes lados não está o melhor. E não falo do clima ambiental, falo das relações entre as pessoas. Notei nos últimos dias uma agressividade não natural e não normal nos indianos. Estão contra a nossa ida e têm feito tudo para que ela não se realize. Não temos ainda um carro que nos leve ao aeroporto, e os indianos passam a manhã toda a inventar pieguices do tamanho da minha barba hoje para nos atrasarem ao ponto de não conseguirmos viajar. Um deles, inocentemente, diz-me que ficaria feliz se eu perdesse o avião. Por momentos ganhei-lhe uma raiva enorme, mas preferi pensar que a barreira linguística o impedia de me dizer que gostou foi do tempo que por ca passei e o que lhe ensinei e que ria mais tempo… De entre as pieguices, obrigaram-me, de roupa limpa e preparado para ir para o aeroporto a entrar no recinto da fábrica e subir a um escadote manco para fechar um porta de um armário com um LCD dentro. Insistiam que não a sabiam fechar, mas pelo amor de todos os Deuses que eles têm, não sabiam rodar a porcaria de uma chaves? Arranjem outra coisa por favor… Já com carro preparado para viajar para o aeroporto e malas amontoadas entre a bagageira e o banco traseiro, entramos pela última vez na casa de hóspedes para um último chá e para a despedida. Os ânimos parecem mais calmos, mais sorrisos e mais descontração, talvez tenha sido o chá… Nós só queremos vir embora, dizem-nos para não termos pressa, que daqui ao aeroporto de Varanasi são só 30 minutos. Ainda assim decidimos partir às 11h30, não queremos arriscar. Pegamos nas sandes de queijo e nas maças gentilmente preparadas pelo cozinheiro e partimos rumo a casa. A cada portão verde e pesado que passo sinto-me mais perto de casa e mais perto de ti. O caminho até Varanasi é tortuoso, muitas populações, muito trânsito, muitas pessoas, muitas vacas, alguns comboios com cerca de 50 composições, vê-se de tudo por aqui. Um ligeiro despiste onde não estivemos envolvidos e que o motorista acha piada, mas eu não tenho vontade nenhuma de me rir. Temos de atravessar toda a cidade de Varanasi que é banha pelo Rio Ganges, o mítico rio Indiano. Por momentos sinto-me realizado por poder ver o Rio Ganges, mas ao ver a ponte que o atravessa, perco esse sentimento e sinto agora medo. Atravessámos a ponte sem grandes percalços e chegamos a Varanasi, reparo que a meia hora que nos falaram era errada, estamos ainda longe do aeroporto e já passa do meio dia. Raio do indiano careca de voz estranha… Depois de ultrapassada toda a cidade de Varanasi, depois de todo o seu trânsito caótico, das ultrapassagens apertadas, das travagens bruscas das vistas sujas e degradadas, da pobreza extrema e do que mais feio se pode ver no ser humano, lá chegamos ao aeroporto. Depois do controlo feito pelo exército à entrada do aeroporto, as malas de porão têm de passar pelo Raio X, e vá-se lá saber porquê, um funcionário do aeroporto coloca-nos à frente de uma fila com cerca de 20 pessoas. Não percebi, juro que não percebi… Chek-In feito, sandes de queijo no bucho, sorriso nos lábios estamos prontos para embarcar! Após alguma espera chegou a nossa vez de embarcar no avião “táxi” que vem de Kajuraho e tem como destino Delhi. Não escondo a satisfação ao perceber que estou a levantar voo, parto em busca do outro lado do Mundo, mas continuo demasiado longe, ainda assim sinto-me muito feliz e parece que já nem sinto cansaço nenhum. Chegados a Delhi o tempo de espera é enorme conseguimos um táxi para conhecer um pouco mais da cidade e da cultura. O motorista decide então levar-nos a uma loja de artigos tipicamente indianos, desde saris a elefantes de tamanho reduzido, dentes de marfim completos e tudo mais que se possa imaginar por estas terras. É tudo muito bonito mas o problema é que não podemos ver os artigos, pois temos um indiano que nos persegue por toda a loja a perguntar o que queremos que ele pode mostrar-nos e chega a dizer-nos que não nos podemos passear pela loja, temos de comprar, as coisas na loja não estão em exposição, são para comprar e não para ver. Ora se a minha vontade de comprar alguma coisa era pouca, esfumou-se completamente nesse momento, e viemos embora. Pedimos para ir ao maior centro comercial de Delhi. A viagem ainda é demorada e consigo por breves instantes apreciar o que realmente é a India conhecida pelo ocidente. Toda esta azafama, esta confusão e esta poluição. Um choque cultural enorme. Adorava poder captar cada fragmento para levar comigo e poder mostrar, é-me impossível, apenas o posso descrever com palavras. Chegamos então ao centro comercial onde tudo está na mesma, e como tal, voltamos à mesma Pizza Hut, fomos atendidos pelo mesmo empregado e sentamo-nos na mesma mesa. Só o pedido é que diferiu. Que saudades de uma pizza assim! Venha outra e mais sobremesa. Que saudade de comer algo doce, algo tão doce e tão enorme. Como era fácil de perceber, comeram mais os olhos que a barriga, mas soube-me tão bem… Ora de voltar ao aeroporto para apanhar o avião de regresso à Europa, de regresso à minha Europa…

5.12.12

Diario da India III - Dia 32


Olho-me ao espelho ao acordar. Quase não acredito no reflexo. O ar desleixado que transpareço compara-se ao de um vagabundo. Na verdade é um pouco assim que me sinto, poia a única vontade que tenho é a de ir embora, e o mais rapidamente possível. Depois de ter adormecido com a dúvida sobre a partida para casa bem presente, tento ao pequeno-almoço obter a confirmação. Sinto uma explosão de alegria quando me garantem que amanhã entrarei num avião de volta para casa, para minha casa, ai que saudades… O sol parece brilhar hoje com mais alegria, ou talvez seja apenas eu e aluz que me invade no interior. Luz essa que me irá permitir dar a certeza de quando regresso quando ligar para casa. Porém, esta felicidade extrema tinha de ser interrompida. “Não vamos embora amanhã, nem penses, conta com mais uma semanita”. Preferia ter sido atropelado por um TATA passar o dia a carregar sacos de cimento, pelo menos não me doía tanto o peito. Que se passa por estes lado que parece que remamos cada um para um sitio diferente e descoordenadamente? Apetecia-me bater tudo para tentar libertar a raiva, apetecia-me desaparecer… Não quis acreditar e procurei confirmar a informação novamente. Respondem-me que aconteça o que acontecer eu amanhã parto para Portugal, e o que esforço era para que todos o conseguíssemos fazer. Devolve-me um sorriso ainda que bastante leve à cara esta informação. Começo-me a aperceber da falta de vontade de trabalhar dos Indianos e da falta de iniciativa, dizem-me que se sentem cansados, até os entendo em parte, pois eu também estou de rastos e muitos deles estão longe das famílias tal como eu, a única diferença é que eles estão no país que os viu nascer, eu estou do outro lado do mundo, sem comida decente e com os enlatados a acabar. Sento-me ao fim da tarde enquanto vejo o pôr do sol nos montes lá no alto, é a única coisa que me faz sentir em casa… É interrompido o momento com um telefonema em resposta à mensagem de ontem. Amanhã vou mesmo embora! A lágrima essa é de felicidade…

4.12.12

Diario da India III - Dia 31


Há dois dias que tenho uma marca na farta cabeleira. Com um cabelo enorme e com o capacete enfiado na cabeça durante horas a fio, tenho uma espécie de depressão junto à moleirinha, a barba também está cada vez maior. Que mau aspeto eu tenho… Talvez a noite mal passada tenha ajudado! Apesar disso nem tudo são más noticias. Hoje confirmaram-me finalmente que a partida está bem perto, dentro de dois dias parto em direção à minha cidade. Sinto de repente uma vontade de correr e uma energia que já não sentia há muito tempo. Ainda assim tento obter uma certeza sobre a partida ainda maior para tentar impulsionar esta alegria a níveis não atingidos nos últimos tempos, envio uma mensagem a pedir a confirmação. Aguardo a resposta, aguardo e aguardo… não chega, e percebo que não vai chegar, fico novamente com dúvidas e tento esquecê-las enquanto adormeço…

3.12.12

Diario da India III - Dia 30


Do lado de cá do mundo é mais difícil controlar o futuro. Sem calma, sem cabeça fria, sem tempo e sem capacidade para que as ideias possam vir ao de cima torna-se quase impossível tomar qualquer coisa por certo e concreto. O que agora é verdade, não tarda a que possa tornar-se mentira. Com o tempo a escapar-me como se o guardasse num bolso furado, querem fazer-me acreditar que a data de partida pode ser novamente alterada… nem quero acreditar no inicio. E nem acredito mesmo após a fase de negação. O desespero e um enorme aperto no peito apoderam-se de mim, tremem-me as mão, mordo os lábios e as dores no estômago não são fome de certeza. O pôr do sol não me acalma, o frio não desperta e só penso em ti aí ao longe… para onde caminha o sol, e eu aqui, de onde o sol já me fugiu e nem um beijo lhe mandei para te entregar. Que raiva, que pesadelo!

2.12.12

Diario da India III - Dia 29


A manhã começa como acabou o dia de ontem, na busca da solução para o problema, quanto a mim, limito-me a guardar nos bolsos as poucas bolachas que ainda me restam, para que os indianos não as comam por mim. O mp3 lembrou-se de ficar contra mim, não o consigo por a jorrar som pelos phones. Há falta de internet, procuro no disco externo algo para me entreter e alegrar. Sinto falta do futebol, revejo um jogo antigo que me trouxe uma das maiores alegrias. Revejo a meia-final da Liga Europa entre o SC Braga e o SL Benfica. Senti vontade gritar golo de novo com o golo do Custódio, senti vontade de saltar de alegria com o apito final. Senti vontade de me voltar a sentir alegre… Senti vontade de regressar… Por falar em regressar, regressa hoje a companhia dos que ficaram em Rewa. Resolve-se finalmente o problema, o sistema está pronto para os testes de arranque e eu estou pronto para almoçar. Chegam os outros dois membros da equipa. A tensão faz-se sentir desde início, a alteração de vozes, as frases imperativas, os ânimos exaltados… Parece ter recuado o tempo em alguns dias, as mesmas sensações, as mesmas dores nervosas. Apetece-me desistir, sinto raiva suficiente para gritar a plenos pulmões que quero ir embora. Acabou o sossego… acabou!

1.12.12

Diario da India III - Dia 28


Mais um dia que tudo para ser igual a outro dia qualquer. É feriado em Portugal, a última vez que goza o dia 1 de Dezembro como um feriado nacional, eu não o farei, deste lado não há feriado. Olho-me ao espelho ao acordar, o espelho que ocupa toda a parede devolve-me um reflexo preenchido de desalento, a água não o afasta e a barba que me arranha já nem me incomoda. Penso em cortá-la, mas não passa disso, um simples pensamento, não me apetece cortar a barba. A indefinição sobre a data do regresso, está a levar-me à loucura comprovada pela decisão de não cortar até à manhã do dia em que abandonarei a India. Com o grosso do trabalho praticamente finalizado e o com o sistema pronto para arrancar ou dar os primeiros passos experimentais, coordenam-se esforços na tentativa de o realizar. Cai a noite, e a alegria pelo primeiro teste é parada com uma bofetada pelo erro logo no primeiro passo… Falhou, há solução, mas ainda não foi encontrada. Horas depois continuamos no mesmo pé, decido ir jantar, pois aqui não faço nada, em pé, ao frio e à mercê dos mosquitos. Regresso do jantar em que a comida de sempre parece entalada algures acima do peito. Não contava que com esta falha. Levo no bolso meia dúzia de bolachas com fruta que viajaram comigo desde Portugal, pois adivinha-se uma noite longa, demasiado longa. Voltei apenas pela ajuda psicológica, nada mais posso fazer, mato por isso o tempo a ouvir musica no mp3, a ouvir indianos com perguntas que não me apetece responder e a tentar fazer um barco em papel. Tento, tento e tento, não sai nenhum barco, apenas um avião que não pode levar daqui. Apaziguo a dor no estômago, que não descortino se será fome ou cansaço, com umas dentadas nas bolachas. Distribuo pelos indianos que me olham como se eu possuísse algo de outro mundo. Provam, adoram e pedem mais. Lamento mas não tenho mais, acabaram por hoje. Pedem-me que altere a mensagem do sistema e substitua “Apresente cartão” por “Apresente Bolacha”. “Cookie decau” dizem eles. Fizeram-me sorrir, ajudaram-me a passar o tempo. Regresso sozinho a meio da noite para descansar, não foi encontrada solução ainda, começo a ficar preocupado, mas continuo confiante, bastante confiante…

30.11.12

Diario da India III - Dia 27


Acaba-se hoje o Novembro. Por cá sentem-se as noites cada vez mais frias apesar de o édredon, única peça que “veste a cama”, ser bastante quente. Ainda assim falta-me aquele aconchego que me habituei a ter pouco antes de embarcar rumo à terra das especiarias. Quanto aos dias continuam quentes. Continuo com a desesperante tarefa de esperar que terminem o que têm para fazer para depois concluir eu o meu serviço, enquanto isso não acontece recorro ao leitor de mp3 acabado de carregar com mais músicas, as músicas de sempre, o mais variadas possível para se adequarem a todos os estados de espírito. Vale de tudo para matar o tempo, tira-se algumas fotos, mesmo que sem motivo aparente, percorre-se os pontos de instalação para verificar mais uma vez o lento avançar da instalação. Chega o desespero, por já nada servir para matar o tempo, já nada me entretém e sinto-me cansado, de rastos, mesmo sem fazer nada. Sinto os gémeos ameaçarem que quebram e não percebo a razão, sinto-me mentalmente fatigado e um fúria enraivecida a nascer-me no interior por não ver o tempo passar. Recebi hoje a confirmação de que não será este fim-de-semana que regresso ao meu cantinho. Não será tão cedo como desejaria o meu reencontro com quem mais amo, não será tão cedo que vou acabar com esta saudade que me queima por dentro. Quero tanto que isto termine, quero tanto voltar, quero nunca mais regressar…

29.11.12

Diario da India III - Dia 26


Ficou então guardada para hoje a explicação de porque seria este um dia comprido. Ao contrário da primeira imagem que possa ter passado, não se trata de um dia custoso ou penoso. Há precisamente um ano, estava eu em Baga (India) quando uma dúvida me saltou à mente. Passo a explicar, eu estou com uma diferença horária de mais 5 horas e 30 minutos em relação a Portugal, posto isto, devo-me reger segundo que horário quando trato de questões que nada têm relacionadas com o país dos Himalaias? É desde 1986 o dia 29 de Novembro é o dia em que comemoro o meu nascimento, e em que os amigos e a família me desejam um feliz aniversário. Toda a gente define como comemoração de aniversário as 24 horas que compõem o dia, já eu me encontro num caso bicudo, pois para festejar o aniversário pela hora portuguesa, vou passar 5 horas e meia de comemoração para o dia 30, e para festejar pela hora indiana, festejo 5 horas e 30 minutos do dia 28. Ora gostando eu de festejar o meu aniversário e como sou eu que mando nele, decidi, com força de Lei, que o meu aniversário será considerado, este ano, entre as 0 horas de Chunar (India) e as 24 horas de Braga (Portugal), o que me dá a possibilidade de festejar durante 29 horas e 30 minutos. Festejar como quem diz, dentro dos possíveis receber mensagens de Portugal e alguns cumprimentos aqui dos Indianos. Todos os aniversários têm também uma surpresa, pode ser um presente ou outra coisa qualquer, como a surpresa de quem se olha ao espelho e exclama “Estou a ficar velho!” Eu também tive hoje uma surpresa. Por brincadeira o cozinheiro ficou de preparar ao jantar frango cozido, uma iguaria para quem come massa com pimentos há tanto tempo. Mas antes do jantar, chegou aos ouvidos do chefe do escritório que eu fazia anos hoje, cumprimentou-me, abraçou-me, sacou da carteira, pegou numa nota amarela de 100 Rupias (não chega a 1,50 €) e pediu que se fossem comprar chocolates, batatas fritas e bebidas para se festejar o meu aniversário. Tudo isto em Hindi e claro está, não percebi patavina. Já no escritório vejo entrar pela porta alguém com umas sacas cheias de chocolates, garrafas de “Thumbs up” (uma espécie de Coca-Cola mas que sabe a café gasificado) e uma espécie de batatas fritas picantes que pouco consegui provar. Chamou-se o resto do pessoal e pela primeira vez cantaram-me os parabéns em inglês, num inglês mal pronunciado, mas num inglês com alma, senti-o a cada abraço no final. Ficou registado o meu sorriso sincero de alegria e agradecimento pelo gesto amável de quem pouco pode oferecer, mas que oferece o que de melhor consegue e pode, porque nisso os Indianos são bons, dão o que têm, e quem dá o que tem a mais não é obrigado.